Está frio. Penso raspando uma mão na outra, ainda sentada perante a escrivaninha de meu quarto azulado. Que horas são? Olho repetidas vezes à tela do celular, sem conseguir focar na hora. Passaram-se dois minutos desde a última vez que olhei, dezoito horas e quarenta e dois minutos. Está na hora da janta. Levanto-me entediadamente e caminho até a cozinha, com as paredes coloradas também de um tom fresco, desta vez amarelo, está frio.

Ligo o forno e coloco em uma panela macarrão e água.

─ Vai aquecer logo. ─ Digo às paredes , voltando a caminhar pela casa, esperando a água ferver.

Chego à sala e me deparo com a poltrona vinho que há muito fora de meu pai. Sento-me nela e olho para o vazio, a parede, desta vez, branca. Por que tão frio?

Naquele dia também estava frio, mas não era nada claro. Pelo contrário, estavam todos de preto, muitos choravam, mas de que importava? Todos vamos morrer. Toquei o caixão de pinho do mesmo tom de sua poltrona, e ali eu fiquei, sem entender nada.

Meu pai, já em seus noventa e muitos anos, era a quarta vez que fora internado. Engraçado como a vida brinca com nossos sentimentos e fragilidades: sabe-se que um dia tudo construído acaba, mas não espera-se que os pilares principais de toda fundação viriam a falhar e cair. Por que então é tão difícil aguentarmos uma perda?

Para quem vai é fácil, vai sorrindo, mas quem fica, guarda. Guarda alegrias, que naquele momento parecem pequenas e deixam a tristeza aparecer. Entre essas constatações um resquício de sua saudade brotou em minha mente:

''Eu estarei com você para sempre.''

Essa é a parte mais triste, pois ele realmente estaria, e eu nunca me vi o perder. Ele mentiu.

As lágrimas, que há tanto eu segurava, finalmente desataram a cair.

─ Mentiroso! ─ Gritei contra o caixão.

Eu estava errada, mas isso, eu só saberia depois, e esse depois, é agora.

Tateio a poltrona, ainda sentada nela, seco a umidade de meu rosto e me coloco de pé.

─ Desculpe, ─ Digo à cadeira. ─ você está comigo, sempre, e é isso que faz doer tanto.

Sorrio para o nada, o vazio branco, ando até a cozinha, pego a panela quente, coloco o macarrão em uma cumbuca e sento-me sozinha à mesa. Recuso-me a comer.

─ Está frio. ─ Digo uma última vez na presença do prato.