Notas iniciais
Agora vamos agitar isso aqui, né? Um resquício de emoção no coração seco do Tyler? Será? Espero que sim

Sinto-me tão estranho, tão perdido, tão... fodido. O que eu e Lily fizemos foi... nem tenho palavras para o que fizemos na noite passada. Perdemos o controle. E não foi só eu ou só ela, fomos nós dois. Não sei quantas horas passaram, mas ainda estou jogado no sofá. E agora esse gordo desse meu labrador está aqui ao meu lado, com sua coleira de passeio na boca. Não tenho o mínimo de disposição para levá-lo para passear.

Eu simplesmente não consigo acreditar que transei com a minha melhor amiga! Isso só pode ser um sinal do apocalipse! Será que vou para o inferno por incesto? Será que nós dois vamos? Será que vai rolar um repeteco quando estivermos lá?

Mas que porra...?

Estico meu braço até alcançar a mesinha de centro onde vejo o telefone sem fio jogado sobre ela. Ligo para Brian, o cara que pode ser considerado um grande amigo, mas que não chega a ser o melhor, porque nessa categoria quem manda é Lily. E na categoria “melhor orgasmo” também é ela.

Mas que droga eu estou pensando?!

Concentro-me apenas no “tu tu tu” do telefone chamando em vez de lembrar dos olhos azuis revirando-se de prazer até que, finalmente, ele atende.

— Fala, garanhão.

Meu estômago revira-se ao ouvi-lo me chamar assim. Foi por eu ser assim que tudo aconteceu.

— Brian, aconteceu uma tragédia.

— Nossa, o que houve? É algo de família? Doença? Você está bem, cara?

Brian sempre prestativo.

— Eu fiz a pior besteira da minha vida. — Estou deitado no sofá, com uma das mãos sobre a testa.

Minha cabeça dói.

— Então ninguém morreu e a empresa não faliu?

— Não.

— Cara, que merda você fez então? Dormiu com uma mulher casada e o marido é um mafioso que quer te matar? — Ele ri na outra linha.

— Seria fácil se fosse isso. — Suspiro.

— Caramba. Meu estoque de palpites acabou, diz logo o que houve.

Fecho os olhos antes de falar de uma vez:

— Dormi com a única mulher que eu não podia jamais dormir: Lily.

Um silêncio estabelece-se entre nós. Merda.

— Brian?

— Caralho, Tyler! Você fez o quê?! — Sua voz de dublador de vilões infantis só faz tudo ficar ainda pior.

— Bebemos muito ontem à noite no Jack's, aqui na frente do meu prédio, e depois viemos para o meu apartamento e... cara, estou me sentido muito mal.

— Você dormiu com a sua melhor amiga. Você sempre disse que a viu como irmã, seu doente.

Há um certo deboche em sua voz. Brian desgraçado.

— E eu vi, mas, cara... Não consigo entender, só consigo me lembrar de que tudo foi incrível. Mas daí acordamos juntos e surtamos ao mesmo tempo. Cara, o que eu faço da minha vida?

— Bom, o que você deve ou não fazer... infelizmente não posso te ajudar nisso. Mas, de uma coisa tenho quase certeza: Ou a amizade de vocês dois nunca mais será a mesma porque tudo foi destruído por culpa da luxúria de um milionário chamado Tyler Carter, ou, vocês ainda serão amigos, mas com tudo muito esquisito entre vocês. Ou seja, a amizade de vocês já era, cara.

— Você é um filho da mãe, Brian! Ligo pra conversar com você na boa e é isso que me diz? Porra, cara.

Eu preciso de ajuda.

— Sinto muito, mas quando eu e minha melhor amiga fizemos sexo, depois de alguns anos, acabamos ficando noivos. — Ele começa a rir descontroladamente. Adora jogar na minha cara que está noivo de sua melhor amiga.

Que vontade de vomitar.

— Olha, vou desligar porque não dá pra confiar em você mesmo. Não sei porque ainda tento.

— Porque eu tenho um pouco de razão e você sabe! — Ainda escuto sua risada escandalosa quando desligo sem me despedir.

Não dá para conversar sério sobre o que aconteceu com ninguém, porque a pessoa com quem converso sobre tudo é a pessoa com que não posso falar agora por motivos de: transei com ela.

Que merda.

......

É segunda-feira, tudo precisa voltar ao normal. Mesmo não estando. Acordo cedo e levo tempo demais me arrumando, parece até um milagre eu acordar realmente cedo e estar pronto na hora certa. Não quero admitir, mas isso tudo é só porque sei que ela estará lá e quero parecer... bem? Será que quero que ela pense que não dou a mínima para o que aconteceu entre nós? Será que isso faz algum sentido?

Tanto faz.

Pego minha bolsa masculina — bolsa masculina, porra! Preciso carregar minhas fórmulas em algum lugar além do meu cérebro, porque se acontecer alguma coisa com a minha cabeça... ferra o negócio todo. E novamente: tanto faz—. Desço de elevador sem dar a mínima para o Dimitri e seus comentários ácidos sobre meus problemas de moral.

— Eu vi a senhorita Carter sair fugida daqui ontem pela manhã. O que o senhor fez com ela? É uma moça agradável demais para ser sua amiga, não?

Não estou disposto a dar corda a esse estúpido, mas não consigo ficar calado quando ele diz isso.

— Dimitri, meta-se com a sua vida se não quiser que eu faça uma reclamação digna de te fazer ser despedido. — Olho para ele antes de sair do elevador e ele me olha espantado. — Passar bem.

Saio bufando e com vontade de chutar tudo que vejo pela frente, ou seja, o chão. Chamo um táxi e em quinze minutos chego à empresa, o que me deixa assustado, considerando o trânsito de sempre em NY. Falo bom dia para qualquer um que fale comigo antes e entro no elevador de cabeça baixa, distraído.

É um saco admitir, mas estou pensando em Lily.

Nos cabelos escuros dela.

Nas unhas curtas.

Nas costas nuas.

Nos beijos dela...

Me sacudo internamente e fecho os olhos para tentar me concentrar em algo que não seja Lilian. De repente tenho aquela sensação, aquele insight, o calafrio bem-vindo de quando tenho uma boa ideia para uma criação. E são nos componentes químicos que estou pensando quando o elevador se abre e dou de cara com Lucy sentada em sua mesa, digitando furiosamente no notebook.

— Bom dia, Lucy.

— Bom dia, senhor Reed. – Ela me olha sorrindo e então volta a digitar como se a vida de alguém estivesse em suas mãos e ela estivesse tentando apagá-la. Nem me dou ao trabalho de pedir a ela que não me chame dessa maneira tão formal, me faz sentir um velho.

— Lily já chegou? — Lucy para de mover os dedinhos e ergue a cabeça lentamente para me olhar. — O que foi? Parece até que alguém morreu.

— Não está sabendo?

— Sabendo de quê, Lucy? — O calafrio de inspiração é substituído por pequenos espasmos de horror. — Aconteceu algo com os meus pais? Com os Carters? — Engulo em seco antes de perguntar: — Aconteceu algo com a Lily?

— Senhor Reed... — Apoio-me na mesa de Lucy e abaixo a cabeça até que meus olhos fiquem na mesma altura que os dela. — Achei que ela tivesse te avisado.

— Me avisado sobre o quê Lucy? — Começo a gritar, impaciente, mas vou abaixando a voz gradativamente. — Desculpe-me... O que eu não estou sabendo?

— A senhorita Carter viajou para a Europa. Londres, na verdade.

Imagino a cena de fora: Eu apoiado com as duas mãos na mesa dela, encarando-a sem piscar e ela encolhida, assustada com meu surto — como se já não tivesse visto coisa pior — e então minha ficha caindo.

— O quê?

Ou quase.

— Vocês tinham uma reunião com os europeus há alguns dias, mas o senhor... O senhor perdeu a reunião, senhor Reed. — Endireito-me e seco as mãos no jeans. — Ela tentou consertar as coisas, mas os investidores ficaram tão irritados... Então a senhorita Lily resolveu viajar para encontrá-los.

— Quando ela decidiu isso, Lucy?

— Hum... bem, dois dias atrás.

Agora tudo faz sentido: o motivo de Lily ter me desculpado tão facilmente não era só porque ela sentia minha falta, mas também porque não queria viajar brigada comigo. Ela tem essas ideias loucas de que, se viajar brigado com alguém, coisas ruins acontecerão.

Pois tenho uma filosofia nova para ela: Se transar com seu melhor amigo e viajar no dia seguinte, isso desequilibrará a balança e para consertar... O quê? Vai ter que transar comigo de novo? Fácil, fácil....

Mas que porra! Por que ela fez isso? Por que não me contou?

Começo a ficar desesperado, mas não sei o motivo. Cogito a ideia de viajar atrás dela.

— Quando saiu o voo?

Lucy olha o notebook e digita algo rapidamente.

— Na verdade, não saiu ainda.

— O quê? — Sou tomado pela necessidade de gritar “táxi, para o aeroporto! Te pago o triplo se chegar lá em um minuto” — Quando sai então? Para qual aeroporto ela foi?

— Hum... — Ela me olha e parece quase pesarosa em responder. — Em pouco menos de uma hora, algo em torno de quarenta minutos, eu acho. Ela foi para o JFK.

Nem espero Lucy terminar de falar, apenas grito para que mande as informações por mensagem e entro no elevador. Chego ao saguão e dessa vez nem olho para os lados quando as pessoas falam comigo. Corro para a rua e roubo o táxi de uma senhora que me xinga em outra língua.

— Para o JFK, rápido! Te pago o triplo se chegarmos lá a tempo.

— Juro que vou tentar, sabe como é essa cidade.

O carro arranca e em instantes estamos a toda velocidade pelas ruas da cidade. Vou olhando o relógio, desesperado, não sei bem porque, mas preciso vê-la. Não consigo entender por que fez isso comigo. Por que diabos ela vai viajar assim do nada para Londres sem me dizer nada?

O tempo não passa tão rápido, mas o carro voa pelo asfalto e trinta minutos depois estamos parando em frente ao aeroporto.

— Aqui. — Entrego o dinheiro para o taxista. — Pode ficar com o troco.

— Mas aqui tem trezentos dólares!

— Finja que a corrida custou cem.

Saio apressado do carro e entro correndo no aeroporto e, caralho, tem tanta gente aqui! Famílias inteiras com as roupas combinando, excursões e até um grupo de escoteiros. Vou até a seção de vendas de passagens e pergunto para uma das vendedoras se posso entrar para encontrar uma passageira.

— Sinto muito, mas só entra com passagem.

— Então me dê uma!

Pago com a milhagem do meu cartão. Volto a correr e tento passar pelo detector de metais, mas sou barrado e um segurança com o dobro do meu tamanho me manda tirar os sapatos e minha mochilinha. Pô, é uma bolsa masculina!

— Cara, eu preciso passar!

— Terroristas também precisam passar.

A menção da palavra terrorista faz as pessoas ao redor me olharem de um jeito estranho, então apenas tiro os sapatos e a bolsa, passo pelo detector e, obrigada universo, ele não apita. Nem calço os sapatos, apenas seguro do jeito que dá e saio correndo para o setor de embarque da Lily.

“Senhores passageiros, favor dirigirem-se ao portão quatro para embarque do voo 1749 com destino a Londres.”

Todos se levantam e isso me desespera profundamente porque Lily é baixa e parece que algum time de basquete está embarcando também. Minha única saída é chamar por ela.

— Lily! — Calço um sapato e olho por cima de vários ombros – Lily, cadê você?

Me sinto o Salsicha chamando o Scooby-Doo. Brincávamos disso quando éramos crianças.

Calço o outro sapato e tropeço na mala de uma garotinha que começa a chorar. Me abaixo para juntar seus brinquedos.

— Pronto, pronto! Não foi nada, tome aqui a sua barbie. Desculpe tropeçar em você. – Afago seu cabelo e ela sorri.

Me levanto e ela me vê no mesmo momento em que eu a vejo. Lily arregala os olhos e só para terminar de foder com a minha cabeça, continua seu caminho para a fila de embarque.

— Lily! Lily, pare!

Ela puxa sua mala de rodinhas e tenta andar mais rápido agora, sem chamar atenção, mas consigo alcançá-la rapidamente.

— Lily! – Seguro seu braço e ela nem pisca quando se solta de mim. — Onde está indo?

— Estou indo consertar suas burradas, Tyler. — Ela demora um pouco até me olhar de volta.

E quando finalmente me encara, seu olhar é, no mínimo, congelante.

— Você está fugindo. Por quê? — Tento controlar minha respiração ofegante.

— Não estou fugindo. Por que eu faria isso? — Lily ergue a sobrancelha e franze o cenho. — Nada aconteceu para me fazer fugir.

— Como assim não aconteceu nada? — Seguro-a pelos ombros e encaro-a de perto, quase perdendo o controle. — Lily, por acaso está louca? Não se lembra que nós...

— Nós o que, Tyler? — Sacode os ombros, tentando se soltar, mas só aperto mais, com medo de que ela fuja. — Só me lembro de beber todas e desmaiar na sua casa.

— Não é possível...

— Nada aconteceu, Tyler. Nada jamais aconteceu.

Ela não precisa pedir que eu a solte, parece que levei um choque. Meu corpo todo se tenciona e olho estático para ela. Como assim? Não imaginei aquilo, não fiz nada sozinho! E se nada tivesse acontecido, por que ela fugiria de mim? Mas será mesmo que estava fugindo de mim?

— Lily?

“Última chamada para o embarque do voo 1749, Londres. Todos os passageiros, favor dirigirem-se ao portão de embarque”

— Preciso ir, Tyler.

— Lily, por favor. — Agora eu só quero que ela fique. — Não faça isso, não me deixe aqui sozinho. Você não me falou nada sobre essa viagem, eu nem sei de nada!

— Sinto muito por isso. Mas vai passar rápido. — Ela assume sua pose e tom de executiva.

— Rápido como? — Pergunto tentando me conformar de que ela vai e volta em poucos dias.

— São só alguns meses.

Porra.

— Meses?!

— Eu juro que vai passar rápido. E vai ser bom pra você, aposto que vai amadurecer e cuidar direitinho de tudo enquanto eu estiver fora. Lembre-se que somos melhores amigos e a nossa amizade é a melhor coisa que nos aconteceu. E a empresa se sustenta nisso, na nossa amizade.

Não consigo fazer nada enquanto ela entrega a passagem e passa pelo portão de embarque.

Minha voz some, mas consigo ouvi-la dizer enquanto acena um tchau:

— Vai dar tudo certo.

Não consigo me mover quando ela some da minha vista, nem quando começam as chamadas para o meu próprio voo — que, estranhamente, está indo para o Brasil. Só saio dali quando um funcionário pergunta se estou bem.

— Bem?

— É senhor, está se sentindo bem? Quer que eu chame alguém?

Olho para o senhor parado à minha frente, me olhando preocupado. Não, não estou bem, mas um médico não pode me ajudar. Agradeço ao homem e deixo o aeroporto com a sensação de que tem um elástico preso em mim, com a outra ponta presa a Lily.

E quando esse elástico estourar, não sei se poderei ter de volta o que deixei ir embora hoje.

Notas finais
Aviso importante: obrigada pelo comentários. Fim do aviso importante. Comentem gente, por favorzinho... Não fazem ideia de como a Blue e eu ficamos felizes (eu, pelo menos, surto total com os comentários hahaha)