Friendzone
16 Sonhando acordado
Eu mal podia esperar pelo dia que Lily e eu iríamos ao Brooklyn até meu restaurante preferido — depois do restaurante da minha mãe, é claro — e então eu a convenceria a passar o resto da tarde comigo pelo bairro e teríamos uma grande e divertida noite, que terminaria com um beijo apaixonado.
É, a parte do beijo apaixonado aconteceria no universo paralelo onde, provavelmente, nós dois éramos um casal. Mas, ainda assim, eu estava ansioso por esse dia. Mas enquanto ele não chegava, eu tinha que viver minha vida normalmente, trabalhando como sempre.
Ser da parte criativa e co-fundador da empresa era ótimo e me dava uma liberdade que sempre sonhei em ter. Quando adolescente, meu maior medo era trabalhar numa empresa convencional, em frente um computador, oito horas por dia, ansiando pelo final de semana e depois me martirizando por não ter conseguido fazer nada e já ser segunda-feira na manhã seguinte. Eu não tinha essa rotina e, na verdade, podia fazer o que quisesse.
Porém, talvez mal acostumado com tudo, minha rotina estava começando a me cansar. Algo na fórmula de sair de casa para trabalhar e enfrentar trânsito e pessoas começava a me incomodar. Eu ainda não sabia bem como nomear tudo isso, mas crescia em mim como uma pequena angústia no meio do peito.
Eu havia passado o final de semana inteiro pensando em Lily. E isso não era mais novidade e nem exagero, foi o sábado e domingo inteiro pensando em como fiquei preocupado quando vi que ela havia caído no chão durante nossa corrida de patins e skate. Minha vontade era ligar para ela só para perguntar se estava melhor e passar uma hora conversando sobre bobagens.
E pela primeira vez meu desejo virou realidade. Meu celular tocou e o nome dela brilhou na tela junto de uma foto sua com um boné de NY.
— Fala, B1! — eu já estava rindo quando atendi e lembrei de como minha mãe nos chamava de B1 e B2, os populares Bananas de Pijamas.
— Ah, meu Deus, Tyler, há quantos anos não escuto isso! — e ela começou a gargalhar do outro lado. Eu amava aquela risada, me sentia o mais importante do mundo só por conseguir fazê-la rir.
— Pois é, acho que passamos dessa fase há algum tempo. Como você está? Melhorou do joelho?
— Ah, sim, melhorei. Ainda arde um pouco, mas estarei no prédio amanhã. Há muito trabalho a ser feito e… um casamento a planejar.
Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. E o som de um pedacinho do que restava do meu coração quebrando.
— Vai planejar tudo sozinha, não é? Você não tem jeito.
— É um evento muito pessoal, não quero terceirizar isso.
— Sou o único que sabe seus gostos, Lily. Devia deixar isso comigo.
Falei brincando, mas seu silêncio me assustou. E se ela realmente pensasse que eu poderia planejar seu casamento? Ah, merda!
— Prefiro que seja meu braço direito em tudo.
Ué, mas e o noivo?
— Henry é muito ocupado, e trabalhar daqui tem sido um pouco difícil para ele.
Ah, droga, eu pensei em voz alta. Pelo menos não falei nada demais.
E se ele estava ocupado demais, isso queria dizer que eu poderia cuidar de tudo só com ela! Esse almofadinha estava facilitando as coisas para mim ou era só impressão?
— Te ajudarei até a escolher flores, se quiser. — ela riu quando falei. — Preciso mesmo de uma distração.
— O que foi?
Eu não queria entrar nesse assunto, mas já havia começado sem nem perceber. Contei à Lily que minha rotina de trabalho havia começado a perder a graça, e por mais que eu ainda amasse trabalhar com química e a produção de perfumes, algo estava faltando e algo estava em excesso.
Quando parei de falar, Lily ficou calada por tanto tempo que pensei que tivesse desligado na minha cara.
— Lil?
— Estou aqui. É só que… não sei, esse é um daqueles momentos que a gente quer saber o que dizer, mas não sabe.
— Está tudo bem, não precisa se preocupar.
Era como se eu pudesse ver seus olhos perdidos enquanto pensava na melhor combinação de palavras para me fazer sentir melhor. Por que ela tinha de ser tão incrível?
— Preciso te mostrar umas novas ideias que tive nas últimas semanas. É para um produto de terceira linha, nada muito caro, mas tem sido divertido trabalhar nele.
Toquei em seu assunto preferido: trabalho. Eu estivera trabalhando numa mistura de flores com frutas cítricas e isso parecia a coisa mais bizarra de se trabalhar, mas surpreendentemente, estava dando certo. Contudo, caso eu encontrasse a fragrância ideal, esse seria um perfume de terceira linha.
Os produtos eram classificados em três linhas. A primeira concentrava os produtos mais importantes e de maior investimento em marketing, comerciais etc. Já os de segunda linha tinham uma divulgação menor, porém quando a venda acabava surpreendendo esse produto podia ser classificado como de primeira. E os de terceira linha eram produzidos em menor escala e classificados como teste, já que havia uma divulgação interna muito mais forte do que externa. Esses produtos geralmente tinham uma matéria primeira mais escassa do que os de primeira, o que dificultava uma possível produção em maior escala.
— Senti saudades disso. — havia tristeza em sua voz e aquilo me apertou o coração.
Que tipo de pessoa eu havia me tornado?
— Do quê?
— De você todo empolgado com uma ideia entrando na minha sala e me arrastando pro seu laboratório, ansioso pra me mostrar o próximo sucesso. Queria estar por perto quando você fez o Lily.
Ah, droga. Esse era só o perfume mais vendido dos últimos dois meses entre os produtos de primeira linha.
E só o perfume com o qual a homenageei.
— Eu também queria que estivesse. — me joguei no sofá, afundando entre as almofadas e logo Slash veio pulando sobre mim, me cheirando. — Pelo menos está aqui agora, e pode ver de perto a produção desse que ainda não dei um nome.
Ficamos no telefone por quase quarenta minutos e eu me sentia como o Tyler de quinze anos de idade, que ficava sentado no telhado conversando com ela, imaginando como seriam nossas vidas. Dois adolescentes populares no colégio e completamente perdidos quando se tratava do futuro. Lembrar disso era se dar conta de como tudo passou estupidamente rápido e de como eu tinha ainda menos certeza do que queria da minha vida.
Eu era um homem adulto e bem sucedido, agora relativamente feliz com meu trabalho, tinha um imóvel próprio na cidade, uma casa na praia e uma em outro país. Minha saúde era boa, minhas finanças sempre muito bem controladas, e minha vida amorosa… espera, que vida amorosa?
Notei que ainda segurava o celular desligado e agora o tinha encostado no peito, como quem segura o objeto com a esperança de que o mesmo toque e que seja a pessoa amada quem liga. A verdade era que minha vida amorosa era um fracasso, pois ela dependia da reciprocidade da minha melhor amiga.
Melhor amiga essa que estava noiva de um britânico e que se casaria dali a três meses. E eu era o melhor amigo que ajudaria a planejar o casamento e ainda levaria a noiva até o altar e desistiria de lutar por ela oficialmente. E claro, assinaria o atestado de óbito do meu coração e da minha vida amoroso ao deixá-la ir.
De repente um monte de coisas terríveis começaram a passar pela minha cabeça. Coisa como a minha realidade depois do casamento dela. Eu ficaria ridículo, provavelmente recluso e um careta, ou seria ainda pior que “Tyler, o solteiro mais cobiçado da cidade” como ouvi algumas vezes. Ganhei essa fama quando comecei a sair em blogs e revistas e era apontado como novo namorado de algumas sub-celebridades.
Mas então visitei o pior cenário de todos que, por tudo que é mais sagrado no universo, não poderia se tornar real ou teria uma síncope: Lily partiria para Londres novamente e agora para sempre.
Eu queria acordar daquele pesadelo, mas então me lembrei que já estava acordado.
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