Notas iniciais
Agora começa de verdade Friendzone. Ficamos bem empolgadas com os comentários e aceitação da história, continuem assim, ok?

Seis meses atrás...

Enquanto corro pelo quarto tentando me arrumar para ir trabalhar, Lily está sentada na sala, com o notebook no colo digitando violentamente como se estivesse com raiva da máquina. Paro a meio caminho do banheiro e a encaro.

—Dois minutos, Tyler.

—Quem está contando?

—O cronômetro do meu relógio. Um minuto e trinta, e diminuindo. É melhor se apressar.

Suspiro exasperado, mas em vez de voltar a me arrumar, me encosto no batente da porta e cruzo os braços. Ela continua digitando como se não houvesse amanhã e penso que se sorrisse mais, talvez arranjasse um namorado.

—Você deveria trabalhar menos, Lily.

—E você deveria se preocupar com o seu trabalho. —Lily nem ao menos ergue os olhos da tela para me insultar.

—Eu já me preocupo! Faço os perfumes, esqueceu? —Descruzo os braços e ando até ela, paro em sua frente e a encaro de cima. —Eu sou o sucesso. É o meu nome que está gravado nos vidros dourados e caros.

—Ah, que por acaso não seria grande coisa sem mim. —Ela ergue os olhos do computador e me encara ameaçadoramente por cima da armação dos óculos. —Ou você esqueceu que sou eu que cuido das finanças, fecho os contratos e promovo os seus perfumes?

Droga! Porque é sempre ela quem vence as discussões? Cruzo os braços e travo o maxilar. Garota metida à mandona. Sempre foi assim, desde quando éramos crianças era a Lily quem mandava em tudo e em todos. E o pior é que ela é boa nisso. Se ela dissesse que naquele dia íamos brincar no escorregador, era lá que passávamos a tarde toda. E mesmo depois que crescemos isso não mudou, já que ela vivia me matando de vergonha no fundamental, porque era mais alta do que eu e conseguia me estapear na cabeça, mandando em mim na frente de todos. E até mesmo no ensino médio, quando eu finalmente fiquei mais alto, ela continuava me estapeando sem problemas. Talvez seja por isso que sempre fomos populares: não fingíamos em nada, nossa amizade era forte o suficiente para suportar os tapas dela.

—Acho que você precisa relaxar. —Me jogo no sofá ao seu lado e ela acompanha meus movimentos com um olhar assassino – Encontrar um hobby, talvez praticar ioga.

—Eu relaxo bastante. —Sua postura é perfeita, reta e com os ombros alinhados, quase como um soldado, só que mais disciplinada. Lily é um general. E eu sou um mero recruta.

—Ah é? Quando por exemplo? —Fecho seu notebook e o retiro de seu colo. Ela parece nem notar já que está ocupada me insultando. Como sempre.

—Hum, deixei-me pensar.... —Ela batuca as unhas no queixo, como se tivesse que se esforçar muito para lembrar. Mas eu sei que ela tem algo na ponta da língua. —Quando você se tranca no laboratório e eu consigo trabalhar em paz. É realmente relaxante não ter que te ouvir reclamando de cinco em cinco minutos.

Encosto a cabeça no sofá e coloco as pernas em seu colo, me espreguiço esticando bem os braços. Lily nem pisca ao beliscar minha barriga e empurrar minhas pernas para o chão. Ela se levanta e arruma o vestido florido... O que me lembra que ainda estou de calça de moletom e sem camiseta. Que preguiça do caralho!

—Ei Lily, me deixa ficar em casa hoje! Por favor? —Faço bico esperando que isso a faça se compadecer por mim, mas ela apenas suspira e me olha cansada. —Tá legal, vou me arrumar. —Relaxo os ombros e acabo acatando a ordem da general.

Coloco um jeans escuro qualquer e uma camisa azul, penso em ir trabalhar de chinelos, mas acho que já é informal demais para o gosto da General Lily. Penteio o cabelo e uso um pouco do meu perfume exclusivo. E quando digo exclusivo, quero dizer que mais ninguém no mundo vai ter o mesmo cheirinho que eu. A mulherada adora.

Saio do quarto cinco minutos depois, e descemos até a garagem. A única coisa na qual a Lily não se sai bem, é dirigindo. E não é nenhum papo machista do tipo que “mulher no volante, perigo constante”, é simplesmente porque Lily nasceu para que dirigissem para ela enquanto trata de negócios mais importantes ao telefone. E eu sou o chofer dessa folgada.

—Entra logo no carro Lilian, não tenho o dia todo! —Ela atira uma caneta em mim, mas me abaixo antes que me acerte no olho. —Sua doida! Podia ter me deixado cego!

— Não me chama de Lilian. E teria sido bom se acertasse, quem sabe assim um olfato apurado melhorasse seus perfumes.

—Eu já tenho um olfato apurado, Lily.

—Uhum. -Ela finge que concorda comigo.

Apenas balanço a cabeça e entro no carro. Lily se senta ao meu lado e já começa a digitar no celular. Odeio quando ela fica falando e falando no telefone e não me dá atenção, então ligo o rádio e aumento o volume. Dou a partida e brigamos o caminho inteiro até a empresa.

—Você é um idiota e irresponsável, Tyler! Eu precisava fazer essa ligação!

—Faça agora, Lily. —Sorrio para ela e jogo a chave para cima e a pego no ar —Você tem o dia todo.

—Eu tenho outras coisas para fazer.

– Ah, é? Tipo o quê?

Ela começa a citar a lista imensa de afazeres e me desligo totalmente. Entramos no elevador e Victória está lá dentro, com aquelas pernas incríveis de fora. Fico em pé entre ela e Lily, que agora está falando algo sobre fornecedores indianos e uma reunião com ingleses, mas não dou a mínima, porque estou ocupado demais fazendo contato visual com a delicia de pernas longas.

—Então, Ty, o que vai fazer no feriado? —Victória se aproxima sugestivamente de mim e quase esfrega seus peitos no meu ombro.

—Bom dia, Victória. —Lily a encara de um jeito quase... Animalesco. Ela a odeia, mas admite que Victória é ótima no que faz. E eu sei de umas outras coisas que ela faz muito bem também...

—Nós dois vamos para a casa dos nossos pais, não é Tyler? Sabe como a sua mãe adora quando vamos visitá-los.

Não deixo que minha queda pelas pernas da ruiva ao meu lado esquerdo me impeçam de rir. Lily sabe acabar com a graça de qualquer um, de verdade. A porta do elevador se abre e Victória sai rebolando, e quase não consigo desviar os olhos. Lily bufa ao meu lado, e por um segundo penso que é por causa do que acabou de acontecer, mas quando me viro para olhá-la, ela está lendo e-mails em seu celular.

—O que foi? —Não quero exatamente saber o assunto, só o porquê dela estar chateada. —O que aconteceu?

—Não, não é nada… Só o mesmo de sempre. —Ela me olha como que esperando que eu pergunte, mas então a porta se abre de novo e damos de cara com nossa secretária – Ah, bom dia, Lucy. O que temos para hoje?

Saio do elevador, beijo Lucy na bochecha e fico feliz ao ver que ela fica vermelha. Ah, como sou encantador... Vou andando para minha sala sem me importar com o que ela diz para Lily e fecho a porta antes mesmo que ela perceba que saí de perto. Me sento na minha poltrona e giro para olhar pela janela: posso ver Nova York toda daqui e isso faz com que me sinta invencível. E um pouco invisível. Volto-me para minha mesa e vejo a papelada que Lucy deixou para mim esta manhã. Hora de trabalhar.

Puxo a lata de lixo e começo a ler em voz alta:

—Requerimento de... Tanto faz. Contas da exportadora? Quê? Por que isso está na minha mesa? Honorários... Assédio Moral, hum, e físico... Lixo. —Jogo na lixeira e vejo que os outros papéis são todos parecidos, então nem perco meu tempo. Lily é melhor nisso do que eu. —Ah, o que é isso? Um convite?

Abro o envelope e tiro dois convites para uma festa a fantasia. Hum, interessante, quem eu posso levar? Repasso rapidamente o nome e o rosto de toda garota bonita que conheço, mas são tantas opções que fico confuso.

Procuro mais convites dentro do envelope, mas não encontro nada. Leio mais atentamente, esperando que um sirva para duas pessoas, mas a única coisa que encontro é meu nome em um e o de Lily em outro.

Ah, que legal. A última vez que Lily esteve em uma festa à fantasia, foi na faculdade. E não foi um dia divertido para nenhum de nós dois, por causa de um pequeno incidente com duas garrafas de vodka e balões. Não me lembro de todos os detalhes e é melhor assim. Pego os convites e vou até a sala dela, entrando sem bater. Lucy está sentada de frente para Lily, que faz contas apressadamente no papel.

—Porque você não faz essas coisas no computador? Não foi para isso que o compramos? —Ando até sua mesa e me sento na beirada. —E os computadores são bem mais organizados.

—O que você quer? —Ela está de óculos novamente e eles escorregam por seu nariz —Estou ocupada.

— É que, sabe, vai ter uma festa…

—Não.

—Ah qual é, Lily! É só uma festa, quero que você venha comigo! Por favor? —Faço biquinho, mas, como sempre, ela não vê. —Vamos?

—Tem meu nome no convite, não é?

—Bem, é... —Coço a nuca e olho para o topo de sua cabeça —Lilian Carter.

—Porque você quer que eu vá? Vai se divertir bem mais com as garotas que vai conhecer na festa do que comigo. —Lily tira os óculos e esfrega o olho esquerdo —Eu sou doida, lembra?

—O quê? Fala sério, você é a melhor na dança da galinha! —Rio e ela quase ri junto. Quase. —Não tem como não me divertir com você Lily! Vamos, por favor? Podemos combinar as fantasias...

— Não, Tyler... —Ela coloca os óculos novamente —Muitas contas...

—Super-Homem e Mulher Maravilha?

—Tenho coisas mais importantes para fazer. —Seus rabiscos não fazem sentido nenhum para mim, mas ela não para de fazê-los. —Trabalho, reuniões...

—Batman e Mulher-Gato?

—Tyler...

—Já sei! Bonnie e Clyde! —Ela ergue os olhos dos papéis e sei que chamei sua atenção. —O que acha? Como nos velhos tempos: Lily e Tyler contra o mundo.

—Isso nunca aconteceu.

—Ah, fala sério! Sempre fomos uma dupla! Lily e Tyler, melhores amigos, sócios, heróis de guerra, parceiros de crime. Somos perfeitos como Bonnie e Clyde.

—Só falta formarem um casal... — Lucy fala de um jeito tão natural que apenas ignoro.

—Vamos Lil... Por favor?

—Promete que não vai me deixar sozinha e fugir com a primeira vadia que aparecer? —Nossos olhos se encontram e ela parece quase chateada.

Seu olho esquerdo, que ela coçou momentos antes, está borrado por causa da maquiagem, e de repente ela parece tão vulnerável que não penso duas vezes antes de responder:

—Prometo, Lily. Prometo.

Droga, de novo.

—Então agora me faz um favor e some daqui? -Ela fala voltando a se concentrar nos rabiscos.

—Lily? -Ela solta a caneta e olha para mim do jeito impaciente de sempre. —Valeu. Não vou te desapontar e vamos nos divertir muito! Como nos velhos tempos. —Sorrio tentando prometer em silêncio que vou cumprir com a minha palavra e que não vou deixá-la sozinha no meio da festa como já fiz várias vezes.

Eu era recebido a tapas quando fazia isso, até ela recusar todos os meus convites para festas e eu sair delas sem me preocupar com ela sozinha. Se bem que eu nem me preocupava, sempre acabava bebendo e conhecendo alguém e sumindo da festa. E então, na manhã seguinte, acordava recebendo recados furiosos da minha melhor amiga e me sentindo culpado por tê-la feito voltar de táxi na madrugada.

Lily sabe criar um caos, mas dessa vez será diferente. Não vou deixá-la sozinha. Até porque somos adultos e eu sei bem me controlar com algumas doses e com alguns beijos e amassos sem ter que ir embora da festa. E nós seremos Bonnie e Clyde, não podemos nos separar.

Depois de conseguir que ela dissesse sim para a festa à fantasia, volto para minha sala e meus afazeres. Bem, na verdade, não tenho muitos afazeres como Lily, no entanto, faço muita pesquisa de compostos químicos e desenhos para os frascos. É, eu também cuido do design dos perfumes.

Mas nem sempre foi assim. Tivemos três designers, todas mulheres, e isso foi um problema. A primeira sabia disfarçar que se encontrava comigo na minha sala, até o dia em que Lily entrou sem bater — como sempre faz, e eu também faço isso na sala dela — e nos flagrou no maior amasso, incluindo a designer seminua e eu sem camisa. Claro que ela saiu no mesmo dia. Melhor, no mesmo segundo que Lily disse o nome dela em voz alta e só isso bastou para ela sair correndo.

A segunda, uma loira de parar o trânsito, mas que tinha uma voz irritante de atriz pornô, derrubou sete fracos no chão de uma vez enquanto tentava, frustradamente, fazer um strip-tease no meu laboratório. Ela me fez perder fragrâncias nas quais eu estava trabalhando duro. E se tem algo que eu não admito, é que interfiram no meu trabalho. Minhas fragrâncias, meu laboratório, meus frascos e utensílios são intocáveis. Não deu pra continuar bancando o garanhão e o caso, então, ela se sentiu ofendida e se demitiu.

E a terceira e última foi a mais maluca de todas. Nem era bonita, tinha um corpo bonitinho, mas a cara não era das melhores. Enfim, eu tinha ficado doente e não tinha ido a festas por umas duas semanas, então não fiquei com ninguém, claro. Quando voltei ao trabalho ela foi a primeira que eu vi sozinha na minha sala e me dando mole.

Não resisti à tentação. Mas foi só uma vez. Uma vez.

O problema foi quando ela começou a correr atrás de mim que nem uma psicopata. Estava vendo o dia que o CSI viria até minha sala e me encontraria morto e nu, com ela sobre mim cheia de itens sadomasoquistas ao redor. Tive que inventar que estava gostando de outra pessoa pra ver se ela saía do meu pé. Mesmo assim não desistiu, aquela surtada. Num evento de lançamento, Lily me ajudou a fingir que éramos um casal e ela finalmente pareceu acreditar e sumiu da minha vida.

Rimos muito, mas bem depois, porque Lily não gostou nada de saber que eu transei com a designer recém-contratada, mas no final ela acabou rindo comigo. A gente fingia que era casal de namorados quando estávamos no colegial e íamos a festas onde não conhecíamos ninguém. Ela precisava mais, pois vários caras pediam pra dançar, conversar e outras coisas, só que ela não queria. E aí eu entrava em cena e a gente sempre dava as mãos fingindo ser um casal.

Nos divertíamos muito rindo da cara de idiota que eles faziam. A gente nunca fingiu bem, mas eles acreditavam. Que eu me lembre, essa foi a última vez que fingimos. E a designer maluca e carente serviu pra me fazer cuidar pessoalmente do design dos frascos também. E Lily não perdeu a chance de me avacalhar quando contratou um senhor de 67 anos pra colaborar comigo.

Tudo bem que ele é francês, tem muita experiência, me ajuda muito e é gente boa. Mas tinha que ser homem e bem velho? Não tem condições de irmos a uma balada juntos e disputar quem pega mais, por exemplo. Ele não aguentaria cinco minutos de música alta com sua audição sensível de idoso, e eu não aguentaria cinco minutos de senhorinhas me paquerando no baile de terceira idade.

Mas eu sobrevivo às armadilhas de Lily. E mesmo que de cara eu não concorde e deteste o que ela faz, é o melhor para mim. Ela sempre sabe o que é melhor para mim e no final eu tenho que dar o braço a torcer e agradecê-la. Ganho um sorriso e um abraço dela de volta porque eu sei que ela não resiste quando sou sincero e agradeço. É difícil alguém resistir aos meus encantos, essa é a verdade, mas Lily é diferente. É minha melhor amiga, irmã, sócia, parceira da vida. Não ouso trocar essa mulher por nenhuma outra e nem mais nada nesse mundo.

Ela é Bonnie e eu sou Clyde. É bem simples de entender: estamos sempre juntos.

Notas finais
Eu Mary, particularmente, gostaria muito de saber o que vocês estão achando.... E pra falar a verdade, a Blue também quer saber haha' Então, nos digam, ok? Beijos, até o próximo e, por favor, tentem não se apaixonar pelo Tyler. Obrigada ;)