Notas iniciais
Hello, pessoas e fantasmas que leem Friendzone. Aqui é a Blue, e primeiramente gostaria de dizer que eu e Mary estamos pensando em escrever o cap. 8 com a Lily narrando como está sendo a vida em Londres nesses quatro meses longe da sua cidade natal e de sua família, amigos e do melhor amigo, Tyler. ENTRETANTO, para isso, seria legal ter um feedback, sabe? Uns reviews que apoiassem (ou não) a gente a escrever, ou quem sabe esperar outro momento para o pov da Lily. Não preciso falar muito pra dizer o quão desestimulante é escrever um cap. relativamente extenso e não ter o retorno das pessoas que leem. MAS, não vou ficar aqui me lamentando, tô parecendo o Tyler, que uó. E sobre o título, não, não é uma homenagem à música do Michael Jackson - se é que alguém pensou, acho que fui só eu -, mas esse título é porque o coitado do Tyler tá na merda, tá na bad, tá mal sem a amiga. E bem, leiam e vejam que ele já não tá pensando muito só na "amiga"... enfim, boa leitura!

Sinos batem dentro da minha cabeça. Espere, são mais como tambores. Um som alto e profundo. Sinto-me pesado demais. Levanto a cabeça e olho ao meu redor, Slash dorme no sofá enquanto estou no chão, no tapete importado e caríssimo, com uma mancha escura que descubro ser whisky quando vejo a garrafa tombada perto do meu rosto.

Sinto-me o mais idiota dos idiotas, passei a noite bebendo e acordei deitado no chão da sala de estar. Parece algo que eu fazia quando estava no fundo do poço.

Nunca fui um cara nostálgico, o que há agora?

(...)

Estou sentado no telhado de casa, próximo a janela do meu quarto, bebendo o que resta da garrafa de vinho que abri há meia hora e fumando meu quarto cigarro nessa manhã. Escuto passos ainda longe e fico irritado pensando no que dizer para fazer minha mãe desistir de me convencer a melhorar, mas me surpreendo quando vejo uma cabeça de cabelos pretos presos num rabo de cavalo e olhos azuis me encararem.

Lily sai pela janela e se junta a mim no telhado.

— Ela te chamou aqui, não foi? Minha mãe sabe jogar baixo.

— Não. Na verdade, ela nem está em casa.

Lily entrar sem permissão nunca foi novidade.

— E por que veio?

— Vim te tirar dessa vida de álcool e cigarro o dia todo. Tyler, isso está acabando com você.

Olho para ela. O cabelo preso bem firme, destacando seu rosto pequeno e os olhos de bolinha de gude. Lily parece uma manhã ensolarada. Roupas simples e atitude petulante.

— Recuso sua ajuda.

— Não vim pedir permissão para te ajudar.

Ignoro-a e pego a garrafa de vinho a fim de terminá-la, mas sinto sua mão pegá-la rapidamente e colocar fora do meu alcance. Isso me irrita profundamente.

— Devolve, Lily.

Ela me olha séria e joga a garrafa lá embaixo, no quintal.

— Ficou maluca? — me sobressalto.

— Não sei, talvez eu já seja maluca e você esteja ficando pior do que eu se destruindo assim.

Levanto e entro no quarto de novo, mas agora bufando. Percebo que ela vem atrás de mim, mas quero fazer qualquer coisa exceto lidar com Lily agora. Estou descendo as escadas quando ela diz alto:

— Sabe muito bem que não vai se livrar de mim, Tyler!

— Me deixe em paz. Por que ninguém consegue fazer isso? Por que acham que sou um bebezinho que não sabe cuidar de si? — grito enquanto ando pela casa.

— Todo mundo sabe que você não é nenhum bebezinho indefeso. Tyler, me escuta! — ela puxa meu braço com uma força que me surpreende e me faz encará-la. Não consigo. — Olhe para mim, Tyler. — levanto o rosto e, ao encarar Lily de volta, sinto o coração disparar e tudo o que venho tentando esquecer cai sobre mim de uma vez. — Eu sei que tem passado por coisas horríveis, mas você não pode deixar isso te abater assim.

— É muito fácil para você dizer isso. Não foi você que levou o toco do ano e em seguida perdeu o pai.

— Não, não fui eu. E você tem razão em dizer que é fácil para mim, eu não perdi meu pai e não levei um toco do meu namorado. Mas não é nada fácil, escuta bem, nada fácil ver meu melhor amigo se acabando assim. Eu sei que pra você parece besteira, mas você passa o dia todo bebendo, o que antes acontecia apenas em festas e era controlado. Você fuma, se isola e some de repente. Isso está te destruindo.

— Só faço isso porque você e minha mãe sempre tentam me consolar e me ajudar e eu não quero! Não quero ajuda, não quero esses olhares de pena que todo mundo me dá quando me vêem na rua. — sinto a garganta arder. Meu peito arde também.

— Realmente acha que tenho pena de você? — Lily está parada no meio da sala, os braços jogados ao lado do corpo e os olhos nos meus. — Eu só quero te ajudar. Só quero meu melhor amigo de volta.

— Do que precisa?

Ela não gosta do que digo.

— Eu só preciso do meu melhor amigo comigo. — sua voz é mais baixa. Sei que ela está de guarda baixa e raramente faz isso. Sinto-me péssimo. — Sei o quanto egoísta é dizer isso, mas eu não aguento mais te ver assim. Terminamos a faculdade há quatro meses e nesse tempo todo você está aqui, na casa dos seus pais, bebendo, fumando e sendo desleixado. Esse não é você.

— Agora a casa é só da minha mãe. — o gosto do vinho com o cigarro é péssimo, mas, de alguma maneira, continuo me afundando nisso. Sinto lágrimas se formarem em meus olhos que ardem por incontáveis noites de insônia.

E Lily sempre sabe o que fazer. Ela rapidamente vem ao meu encontro, de braços abertos, e me abraça. Não aguento mais segurar toda a dor que me sufoca e toma meu tempo. Minha vida mudou da noite para o dia. Numa terça-feira, minha namorada, que eu ainda amo apesar de tudo, terminou comigo da pior maneira que podia. E quase exatamente uma semana depois, meu pai sofreu um acidente na estrada. Um motorista bêbado chocou com o carro dele. E agora o bêbado sou eu.

Que merda de vida.

Aperto Lily tão forte que me pergunto se dói nela. Ela se afasta e então nos sentamos no sofá desgastado e com almofadas velhas. Ela me faz apoiar a cabeça em seu ombro enquanto me abraça meio de lado. Continuo chorando.

— Eu quero me livrar disso tudo. Mas é mais forte do que eu. — falo entre soluços.

— Você é muito mais forte do que todas essas coisas e vai ver isso. Eu prometo que vai. — sua voz parece vibrar sobre meu cabelo desgrenhado. — Eu vou te ajudar a sair dessa, Tyler. Parece que esqueceu que sempre estarei aqui quando precisar de mim.

(...)

“Parece que esqueceu que sempre estarei aqui quando precisar de mim”. Essas palavras jamais sairão da minha cabeça. Preciso tanto dela agora, mas ela não está aqui como prometeu. Isso me afeta e me incomoda de uma maneira que jamais imaginei. Sinto-me incapaz de resolver qualquer coisa e viver minha própria vida sem ela. Acho que no fundo sou apenas um fraco.

Quatro meses

É outono, minha estação predileta de quando era pirralho. Eu e Billy, meu pastor-alemão, brincávamos com as folhas secas que se amontoavam no quintal. Lembro de ficar por incontáveis horas me desgastando correndo de um lado para o outro e vendo o cão me seguir ofegante e com o rabo abanando. Lembro também de ficar muito triste no outono seguinte quando só havia eu e as folhas secas. Billy morreu atropelado e desde então, com meus nove anos de idade, prometi que jamais teria outro cachorro. Primeiro em memória a Billy e segundo pela dor de perder um animal de estimação ser excruciante.

Porém, fui obrigado a vencer esse trauma e quebrar esse juramento quando Lily me deu um filhote de labrador de presente de aniversário. Ele não era igual o do filme, era preto. Havia sido abandonado e encontrado numa caixa de papelão rasgada e levado até um abrigo. Justamente nessa época, Lily era voluntária no abrigo de animais e assim que recebeu o novo “hóspede”, teve a idéia de dá-lo a mim.

Foi o melhor presente que já recebi. E só ela poderia ter feito isso.

Agora estamos os dois aqui, no sofá, vendo NBA enquanto Slash morde seu brinquedo em formato de coxa de frango e eu como amendoim. Amendoins não fazem muito bem ao meu estômago, mas são viciantes e eu nunca consigo parar de comer. Eu só paro quando passo mal ou quando Lily me dá um tapa na mão e rouba o saco de amendoim e joga fora. Ela é tão mandona que às vezes me irrita. Mas sinto tanta saudade que até desses ataques de chefe eu sinto falta. Se estivesse aqui agora, provavelmente reclamaria do jogo de basquete na TV e andaria bufando pelo apartamento até achar algo melhor para fazer do que ficar comigo assistindo ESPN.

O que será que ela está fazendo agora? Bem, aqui são quatro da tarde, em Londres deve ser sete da noite, talvez? Acho que posso ligar para ela. Se bem que depois daquele recado enorme e cheio de lamúrias que deixei em sua caixa postal e ela respondeu, também em recado, brincando e dizendo que me desculpava e que também sentia saudades, não sei se é bom ligar.

Ultimamente tenho pensado demais nela. Ao acordar, ao tomar o café da manhã, enquanto trabalho, quando saio do trabalho, quando tomo banho... — pior momento de se pensar nela, aquele sonho e aquela noite sempre vem à minha cabeça... droga, droga, droga, para quê lembrar disso? — e em qualquer outro momento do meu dia. Isso me irrita um pouco. Na verdade, muito.

...

Estou à espera do cheeseburger com batata frita mais incrível do universo. Não, não estou falando do Mc’Donalds, os lanches deles não chegam aos pés dos que minha mãe faz. Melinda Reed é uma chefe de cozinha sofisticada, mas quando é apenas minha mãe é uma expert em lanches caseiros deliciosos.

— Da última vez não demorou tanto assim. Estou morrendo de fome, mãe. — reclamo enquanto bato a ponta do calcanhar no pé da cadeira. Ela odeia isso.

— Tyler, você sabe muito bem que odeio ser apressada. E pare de bater o pé na cadeira. Já perdi a conta de quantas eu perdi ao longo do tempo com você fazendo isso. — minha mãe está fritando as batatas enquanto rio dela. Realmente destruí muita coisa desde pequeno.

— Mãe, eu posso comprar o que a senhora pedir. Posso encher essa casa de cadeiras se quiser.

— Sei que pode. Mas não é por isso que vai ficar aí fazendo esse barulho irritante. — ela coloca as batatas sobre um papel toalha e depois no prato, ao lado do cheeseburger. Mal posso esperar para comer, parece que faz séculos desde a última vez.

Ela não demora muito e logo traz o meu prato com tudo extra. Pão extragrande, hambúrguer extragrande, queijo extra, molho especial que só ela faz e não conta para ninguém, também extra; e batata extra. Seu cheeseburger parece o filhinho do meu, é bem menor. Ela sempre come junto comigo quando lhe faço essas visitas que, apesar de agendadas devido sua agenda apertada por conta do restaurante, são inesperadas.

— Está acontecendo alguma coisa, filho?

Sua pergunta me pega de surpresa, mas é só pergunta de mãe. Primeiro mastigo o saboroso lanche e então, assim que consigo respirar e resistir à próxima mordida, respondo:

— Não. Por quê?

Olho para minha mãe. A pele branca ainda com um bronzeado antigo, as rugas perto dos olhos e na testa mais aparentes do que as sardas perto do nariz, o cabelo bem preso num coque baixo de quem sempre cozinha, os ombros relaxados e os olhos castanhos e cansados me olhando.

— É a segunda vez que me visita essa semana. — ela come uma de suas batatas.

— Então não faz um século que não como esse cheeseburger. — eio.

— Veio aqui na segunda-feira dizendo que estava com saudades de casa. Hoje é quinta. Qual é a desculpa?

— Poxa, querer ver minha mãe e comer esse lanche incrível que parece vir de um túnel do tempo direto da minha infância é tão estranho assim que preciso de uma desculpa? — engulo o resto da comida.

— Não fale de boca cheia, te dei educação. — ela sempre me deu bronca sobre isso. Parece que não funcionou. — E não é isso, Tyler, é claro que não estou reclamando. Queria poder te ver todos os dias, mas não o deixaria comer esse lanche, é claro.

Rimos juntos e eu comento:

— Se eu pudesse comeria isso pelo resto da minha vida.

— Filho, não tente mudar de assunto. Eu te conheço. Tem algo errado com você. — ela larga seu prato. Ah, tanta coisa boa sendo deixada de lado...

— Não vai comer? — aponto seu prato.

— Garoto, pare de ser esfomeado. Eu te dei educação! — tenho vontade de rir de sua bronca, mas sei que se fizer isso ficará brava de verdade. — Você quer mudar de assunto, mas não vai conseguir. O que está havendo? — ela respira fundo, paciente. — É a empresa?

— Mãe... — tento fazer com que esqueça esse assunto. Não sei o porquê, mas me é desconfortável. Apesar de saber que não há nada de errado acontecendo.

— Já sei, é a Lily.

Começo a tossir, a batata parece atravessar minha garganta, mas apenas engasguei. Minha mãe nem se mexe, ela sabe que não estou fingindo, mas também sabe que vou usar disso para mudar de assunto.

— Mãe, não estou com problema algum.

— Está com saudades dela, é normal. É muito normal, filho, vocês são melhores amigos, vivem juntos desde que nasceram. Você não consegue se apaixonar por nenhuma mulher, então é ela que acaba fazendo esse papel de mulher importante na sua vida. E claro, tê-la tão longe de você e por tanto tempo assim, é difícil e está te afetando.

Odeio esse poder sobrenatural das mães de sempre terem razão.

— Certo, eu estou com saudades, mas não é para tanto, mãe. Fala sério.

Ela fica me encarando. Tenho medo disso desde pequeno. Mais precisamente, desde quando tentei levar a caixa onde ela guardava um aparelho de jantar de porcelana e derrubei no chão. Eu tinha oito anos e fui teimoso, minha mãe me encarou desse mesmo jeito de agora, tudo porque ela queria que eu admitisse que havia derrubado a caixa, mas não havia contado.

No final contei que tentei carregar a caixa e a derrubei e quebrei tudo.

E apanhei.

— Bem, se não é isso, o que te aflige?

Quase engasgo.

— Como assim? Não vai insistir em dizer que é pela saudade que sinto?

— Arrá! Então sente saudades. — ela ri e seus olhos diminuem e as rugas ao redor aparecem mais.

— Mas é claro que sinto. — admito rapidamente. Respiro fundo e tento ser mais calmo. — Ela é minha melhor amiga, é normal que eu sinta saudade. A senhora disse isso, por que se finge de surpresa agora?

— Ai, Tyler, meu filho... Isso vai passar. Tudo dará certo e logo Lily estará de volta. Aposto que ela também está com saudades de você. — minha mãe sorri e levanta-se da mesa e vai até a pia.

Fico sem entender nada. Ela não faz isso, é teimosa como eu. Na verdade, eu sou teimoso como ela. O que importa é que ela jamais desiste do que acredita, não assim tão fácil.

Será que estou viajando na maionese?

— É, talvez ela esteja. — tento não me alongar nesse assunto. Não me sinto muito bem com isso.

Depois do cheeseburger peço insistentemente por uma sobremesa e minha mãe recusa-se a fazer uma, então proponho o que ela mais adora fazer comigo desde que me ensinou: bolo.

Eu sei, bonito, rico, educado, divertido e ainda sabe cozinhar. Sei que sou para casar.

E, ironicamente, a mulher para quem pedi a mão me recusou da pior maneira possível. Eu sei que ela perdeu, mas às vezes acordo de sonhos onde tenho uma vida de casado com Dianna que é perfeita e quando de fato volto à realidade, percebo que é só imaginação, porque a realidade é que é o pesadelo.

...

Dirigindo de volta para casa, penso em como Lily tem razão em dizer que me tornei um galinha depois do meu término traumático com a Dianna. É como se ela tivesse deixado um buraco enorme no meu peito e, desde então, eu preencho esse espaço vazio com outras mulheres, várias delas. No final do dia, quando deito no travesseiro, parece que consigo ouvir os ecos do abismo que tenho em mim. É a tal da solidão.

Uma vadia, diga-se de passagem.

Os momentos em que não me sinto assim só é quando sou bem sucedido nas minhas fórmulas e criações e, posteriormente, os perfumes viram um sucesso. E o outro momento, que na verdade são vários, é quando estou com Lily, parece que só ela me faz esquecer por alguns minutos o quão miserável sou por dentro.

O meu real medo é que, nessa viagem idiota que ela fez, acabe mudando sua vida e se afastando de mim. Sei lá, vai que ela conhece um britânico almofadinha e se apaixona por ele e quando voltar nem ligará para mim?

Não, Lily apaixonada? Acho difícil. É bem improvável que ela se apaixone e me largue de vez. Ela é uma mulher muito interessante e bonita, e realmente, são muitos os caras interessados nela. É impressionante, ela poderia ser a minha versão feminina, mas recusa a maioria deles. Lembro que na época do colégio Lily já era popular e os garotos sofriam para ficar com ela, eram poucos os vencedores. Lembro de Edward, seu primeiro e único namorado sério. Ele era um cara legal, estudava jornalismo e tinha o mesmo perfil sério e comprometido de Lily, mas eles terminaram meio de repente. Ela nunca quis conversar sobre isso mesmo com meus pedidos insistentes para saber e ajudá-la, porém tudo sempre pareceu bem, ela sempre deu a volta por cima. Diferente de mim.

Pensar em Lily e em como ela é importante na minha vida de repente me incomoda demais. Estou deixando a saudade tomar conta de mim e pensar nela todo santo dia. Isso é ridículo. Já perdi até as contas de quantos sonhos eróticos tive com ela. Isso também é ridículo.

Mudo minha rota que ia para casa, agora para um bar no centro de Manhattan. Enquanto estou parado no trânsito envio uma mensagem para um seleto grupo de amigos para que me encontrem lá.

Meu trajeto não demora tanto, o que é normal, e quando chego ao bar vejo que três deles já estão na nossa mesa de sempre, bebendo. Forço-me a ter uma aparência e um comportamento animado e divertido e cumprimento-os.

Por enquanto é apenas David, Bobby e Tom que estão presentes. Na verdade, quase sempre são apenas eles.

— E aí, cara! Levei até um susto quando li a mensagem. Faz uns meses que não se junta a nós pra encher a cara e pegar mulher. — Bob fala enquanto bate a mão na minha.

Acomodo-me na cadeira e respondo, rindo:

— Foi exatamente por isso que mandei a mensagem, estou trabalhando demais desde que minha sócia viajou e não tenho tempo pra nada.

É, eu menti. Não estou saindo como antes porque não sinto tanta vontade assim. Pareço um gótico que não sai de casa e vive nas trevas desde que Lily foi para a maldita Londres.

— Sua sócia? Aquela gostosa do olho azul? — David fala já parecendo estar bêbado e eu o olho de cenho franzido.

— Olha só como fala dela. — não consigo esconder minha irritação eles percebem. — E sim, é ela.

— Desculpa aí, amigão, esqueci como é séria a amizade de vocês. — eles riem da minha cara e eu ignoro todos. Concentro minha atenção nos copos de uísque que o garçom traz até nossa mesa.

...

— Tom, não acredito que vai abandonar a gente e vai se algemar a essa mulher. — rio alto e nem percebo se tem alguém olhando, só estou indignado com a cara que Tom faz ao admitir que deu um anel de compromisso a uma mulher que conheceu no trabalho e o mudou totalmente.

— Não vou abandonar vocês, só não vou mais sair pegando todas por aí. — ele ri se chacoalhando todo, é assim quando está bêbado. Ruim, na verdade, uísque não é a melhor bebida para ele, mas sempre bebe com a gente. — Mas Tyler, admiro você por não se algemar a ninguém. Você é foda, cara, aposto que é o único aqui entre nós que não vai passar por isso. — ele bate na mesa dando ênfase no que fala.

Tom já quebrou uma mesa uma vez quando fomos todos até a casa de David jogar pôquer. Ele estava bêbado e ficou muito puto porque perdeu uma grana alta e de tanto bater na mesa quebrou-a ao meio.

Nunca ri tanto na minha vida.

— Ah, duvido. Tyler vai acabar ficando com essa sócia dele. — Bobby começa. — Cara, eu juro que não sei como vocês nunca ficaram. Como consegue? Comigo não tem essa de ser amigo de mulher bonita, não consigo. Até consigo, mas não dura muito tempo até eu transar com ela. — mais risadas altas e goles de uísque.

Por mim são só os goles. Não consigo rir disso.

E eles percebem.

— Não. Não me diz que você já pegou? Porra! Não contou nada pra gente? — Tom bate na mesa de novo e dessa vez não consigo não rir e admito o que eles suspeitam.

— Não era pra ter acontecido nada, mas... Peguei.

Todos rimos alto e olho ao redor e percebo que o bar está mais vazio. David levanta seu copo como se fosse brindar e continua rindo.

— Você é foda, Tyler. Rico, pega todas que quer e ainda pegou a amiga gostosa. Assim não dá para competir com você. — ele diz e a maneira com que fala de Lily me incomoda de novo.

Mesmo que ele esteja dizendo a mais pura verdade.

— E aí, como é que foi? — Tom, o sem noção, pergunta.

— Ah, você quer que eu conte, cara? — não sei como, mas rio.

Acho que é a bebida.

— Não quero detalhes, é lógico, mas... É ainda mais gostosa na cama, não é?

Não quero relembrar aquela noite, mas falando dela para eles é impossível.

— Para facilitar sua vida mais do que já é fácil, — David começa, rindo. — Resume como foi.

Penso por alguns segundos sem me policiar de que estou falando da minha melhor amiga.

Dou meu último gole no uísque.

— Ainda sonho com ela em cima de mim. — eles me olham primeiro um pouco chocados, mas logo começam a rir alto de novo e Tom balança a cabeça positivamente, como quem apenas concorda com algo que nem sabe o que falar.

— Cara, eu não queria falar isso, mas que inveja de você. — é David quem fala dessa vez, arrastando o copo vazio pela mesa e fazendo o gelo bater contra o vidro. — Toda vez que eu te via com ela, aquela pose de marrenta que na cama pede pra puxar o cabelo com força... Porra, Tyler, você podia ter me apresentado antes de pegar.

Filho da puta. Homem é uma raça desgraçada, e eu sei disso porque além de ser um, sou bem parecido com David. E ele adivinhou, o desgraçado.

Olho para ele meio largado, já sentindo o efeito do álcool.

— Você não ia aguentar, amigão.

— Mas você não ficou mal depois? Sei lá, vocês são sócios e você dizia com tanta convicção de que eram só amigos e tal... — Bobby, o mais sério entre nós hoje, fala.

— Ah, até que... Não. — respiro fundo, por dentro sinto a solidão ecoando para mim. — Na verdade, estou me sentindo o pior cara do mundo desde a noite em que transei com ela. Ela fingiu que nada aconteceu. Nada! Como ela pode dizer que nada aconteceu? Como é que ela pode negar o melhor orgasmo que teve na vida? Ela não pode fazer isso.

— Cara, você não está lidando bem com isso. — Tom parece preocupado e dessa vez sou eu quem bate na mesa.

— Cala boca, Tom. Você não sabe do que está falando.

— Vai ver ela só não quer dizer na sua cara que foi horrível ou que você é péssimo.

Fuzilo David com os olhos.

Desgraçado.

— Ninguém jamais falou isso de mim. Não seria ela a mentirosa. — levanto a mão pedindo outra dose, mas Tom fala comigo de novo.

— Tyler, acho que já chega por hoje, cara. O bar está vazio, só tem a gente aqui. É melhor irmos embora.

— Embora por quê? O que está acontecendo que é melhor ir embora?

— Cara, você realmente não sabe lidar com essa situação. Por acaso está gostando da sua sócia gostosa?

— David, eu já mandei você não falar dela assim, porra.

Ele ri e eu fico irritado. E parece que apenas segundos depois presto atenção no que ele disse: eu gostando dela? Faz-me rir.

Vejo Bobby levantar o braço e pedir a conta e isso me irrita, mas não preciso me preocupar, tenho mais todo tipo de bebida que quiser em casa, não preciso deles para beber. Tom me joga dentro de um táxi e fala meu endereço ao taxista. Que merda estão pensando? Que não sei ir embora sozinho? Que não posso dirigir? Quem eles pensam que são?

Merda, merda, merda! Estou pior do que antes. Não era para isso acontecer, era para eu ter ficado mais leve e divertido, tranqüilo, sem pensar em Lily. Então por que diabos estou assim tão irritado?

O taxista dirige rápido demais para o meu gosto e meu estômago começa a se revirar. Quando estou prestes a pedir que pare o carro para que eu possa vomitar, chegamos ao meu prédio. Deixo uma nota de 50 dólares no banco, abro a porta e caio na calçada, meio agachado meio ajoelhado. Sinto-me largado na sarjeta, bêbado e sozinho.

Fico de pé com dificuldade e um flash me cega. Por favor, que não sejam papparazzis.

— Noite ruim, Reed?

— Vida ruim.

O fotógrafo ri e tira mais fotos enquanto cambaleio prédio adentro. Entro no elevador e Dimitri me encara com nojo, mas felizmente não diz nada. Ele aperta o botão da cobertura e fica o mais distante possível de mim. Sinto que vou vomitar a qualquer momento, tenho até uma pequena vontade de fazer isso sobre os pés de Dimitri, só por me olhar torto toda vez que me vê.

— Dimitri, — enrolo o nome dele e isso parece irritá-lo. —Já tentou falar seu nome três vezes bem rápido? Dimitri, Dimitri, Dimitri. Cara, é quase impossível!

Gargalho tanto que fico mais enjoado. Dimitri me empurra para o meu apartamento antes que eu vomite no elevador. Slash vem correndo, feliz em me ver, mas para. Parece que até meu cachorro está com nojo de mim.

— Senhor Reed, é melhor tomar um banho. Está cheirando a bebida.

— Meta-se com a sua vida, Dimitri.

Faço uma mesura proposital enquanto a porta do elevador se fecha.

Estou em casa e agora tenho três opções: dormir, tomar banho ou ligar para Lily.

Mas escolho a que irá me aliviar mais no momento: correr até o banheiro e vomitar.

Parece que todos os meus órgãos saem de mim e vão parar na privada. É nojento e grotesco, mas quem nunca bebeu tanto e chegou em casa vomitando as tripas e o coração?

Eu já, inúmeras vezes.

Penso em só lavar o rosto e ir dormir, mas olho para o box e o chuveiro parece me chamar para tomar uma ducha. E é isso que faço, e só depois disso me sinto um pouquinho melhor. Vestindo apenas um roupão, fico com preguiça de subir até o quarto então me jogo no sofá e pareço grudar nele. Não demoro nada para adormecer.

(...)

Dez anos atrás

Dianna foi embora antes das dez, disse que o pai estava controlando seu horário depois da última vez em que saímos e ela chegou depois da meia noite. Não que estivéssemos fazendo algo demais, apenas fomos a uma festa na casa de um dos caras do colégio, perdemos Lily de vista e tivemos que procurá-la pela casa inteira, apenas para descobrir que ela já tinha voltado para casa de carona horas antes.

Meus pais viajaram hoje pela manhã e, aleluia, tenho a casa todinha para mim. E o que se faz em oportunidades como essa? Transa loucamente com a namorada. Mas como a namorada tem que estar em casa as dez, o esquema já era.

Depois do banho, decido que o jeito de aproveitar minha privacidade temporária é ficando pelado. Ah, a natureza selvagem.

Desço para a cozinha e jogo um saco de pipocas no micro-ondas. Assisto algum filme tosco de besteirol americano até um pouco depois da meia noite e depois de passar por todos os canais e não encontrar nada de bom resolvo que dormir pelado deve ser libertador.

Acordo duas horas mais tarde com um barulho, me viro na cama e me deparo com Lily empoleirada no parapeito da janela, com uma perna para dentro, o cabelo solto bagunçado. Sua cara entrega que ela viu o que eu estava torcendo para que não tivesse visto.

— Você está pelado?

— Por que você está aqui?

— Ah, meu Deus, que visão do inferno. Você pode se cobrir pelo amor de Deus?— ela olha para o lado de fora.

— Estou na minha casa, fico como eu quiser. E você, por acaso, sente vergonha da minha nudez? — coloco os braços atrás da cabeça e ensaio uma pose. Ela não olha para mim de jeito nenhum, mesmo eu já estando coberto. — O que acha?

— Tyler.

Lily consegue me ameaçar só dizendo meu nome.

— Já estou coberto faz tempo, sua louca.

Ela entra no meu quarto bufando, mas fica sentada no parapeito da janela. Ainda estou com sono, mas essa não é a primeira vez que minha melhor amiga surge de repente na minha janela.

— O que aconteceu? — pergunto.

— Não tinha nada para fazer em casa. Estou entediada.

— Mentira.

— Por que acha que algo aconteceu?

— Porque você não vem até minha casa às duas da manhã e entra pela janela só porque está entediada. Esqueceu que te conheço, Lily?

— Que saco. — ela sai da janela, tira os chinelos e vem para minha cama, deita-se na direção contrária, os pés perto da minha cabeça e a cabeça perto dos meus pés. É muito comum fazermos isso. — São os meus pais. De novo. Mas não quero falar disso, não vale a pena.

— Tudo bem, então sobre o que quer falar?

— Não acho que quero falar.

Argh, ter a amizade de uma garota às vezes é um saco. Como é que devo entender essas loucuras dela de uma hora querer algo e logo depois não querer mais?

Ficamos em silêncio por algum tempo, mas como acabei ficando sem sono, puxo assunto:

— No que está pensando?

— Nada.

— Sei. — faço cócegas em seus pés e arranco dela um riso rápido. — Por que saiu da festa sem me avisar?

— Já não falamos sobre isso?

— Não. E achei que quisesse conversar, se não sobre seus pais, sobre algo que eu quisesse falar.

— Eu só estava cansada daquela festa, Tyler, não estava a fim de ficar lá.

— Podia ter me falado, eu te levaria para casa.

— Eu não queria atrapalhar a noite de vocês. Então peguei carona com a Courtney.

— Odeio a Courtney. Ela estava com o namorado, o que chama de Kurt?

— Sim.

— Deve ser um saco ter uma namorada que te chama de Kurt só porque ela pensa que os dois juntos parecem um casal rockstar famoso e drogado.

Começamos a rir desenfreadamente. Lily tem uma risada engraçada que a faz se chacoalhar toda, eu considero isso como um bônus entre suas qualidades.

— Bem, foi completamente desnecessário. Eu deveria ter voltado a pé, seria mais legal e produtivo.

Rio de novo. Aposto que além da bizarrice de chamar o namorado de Kurt, sendo que o garoto se chama Nate, ela ficou falando sobre as maravilhas da cirurgia plástica o caminho todo.

— De qualquer jeito, na próxima vez eu te levo embora.

— Está certo. Vou cobrar.

— Fique à vontade. Não vou te trocar por outra garota assim tão fácil.

— Nem se for a Dianna? — sua voz soa mais baixo, Lily nunca foi muito boa em falar de sentimentos, por mais bobos que sejam. Tipo o medo de ficar sozinha no mundo.

Ela jamais ficará sozinha, pois eu sempre estarei aqui. E por mais que saiba disso, eu sei que tem medo do mesmo jeito.

— Posso ter vocês duas, não posso?

— É, quem sabe.

— Fica tranquila, cabem até quatro garotas no meu carro.

Ela bufa e me dá um chute no braço e acabo rindo, mas faço-a parar. Por Deus, é só uma brincadeira.

Não demora muito e Lily acaba pegando no sono desse jeito mesmo. Não tenho coragem de acordá-la, então, com cuidado, levanto da cama, visto uma calça — é melhor assim, evitar que da próxima vez ela me veja na luz — pego outro cobertor para mim e cubro-a com o meu.

(...)

Eu preciso parar de ter sonhos com Lily, tanto os eróticos quanto os que eu já vivi antes. É perturbador. Ela só está trabalhando em outro país, apenas isso. Duvido que esteja passando pelo mesmo que eu. Por que será que eu tenho que passar por essas coisas bizarras?

Notas finais
Bem, já falei mais do que devia nas notas iniciais, mas peço de novo por reviews que nos digam se seria legal ou não ter um cap. narrado pela Lily, até pra gente saber como está a vida em Londres e se ela já conheceu o noivo que já sabemos que vai voltar com ela pra NY em algum momento. Esperamos que tenham gostado e que nos deixem saber. Agora, até o próximo cap. e bjos o/ Mary passando aqui só para dizer que 97% desse capítulo foi escrito pela Blue e se não fosse por ela, NÃO teria Friendzone (que horror), porque estou com um bloqueio criativo horroroso, sofri até para escrever isso aqui... Enfim, agradeçam à ela. Beijos! p.s: um capitulo só da Lily, por favor, vai ser incrível!!!