No quarto ao lado, a conversa era animada. Chuck a perguntava como era morar num lugar totalmente estranho. Ela respondeu que era estranho, porque todos a achavam diferente. Mas que sua vida lá agora tem um novo ritmo.

- Agora, as pessoas têm um carinho tão grande comigo, que eu penso: “acordei daquele pesadelo inicial”. Onde quer que eu vá, tem sempre uma pessoa que puxa conversa comigo e diz: Olha, eu te vejo no jornal da tarde todo dia. Chuck, isso é tão emocionante. –diz ela, com os olhos brilhando.

- que bom, meu anjo! Eu sabia que você era capaz disso. Mas o que você faz que as pessoas te admiram tanto?

- sei lá... Acho que é porque eu sempre tomo café na casa delas... – e solta uma risada.

- Serio?

- Serio. Elas chamam. Eu com fome. Café na mesa... você acha que eu sou capaz de recusar?

- ai Eduarda! :S

- é tão legal, elas me olham com uma cara tão satisfeita! Teve um menininho, que ele machucou a perna. O trem quase fez com que ele amputasse a perna. Eu fui lá, perto da casa dele. Ai eu ajudei a família dele, até que ele se recuperasse da perna. Ele deveria ter uns cinco ou seis anos... Ai, a família dele ficou tão feliz com a minha atitude, que eu sempre ligo pra ver como eles estão. Hoje ele tem sete anos e diz que também quer ser jornalista, pra ser igual a mim.

- que lindo Duda! To tão feliz com isso! Mas, mudando de assunto... E o seu namorado? – Duda fica toda vermelha.- não precisa ficar com vergonha, não vou dizer nada, só quero saber quem é.

- é... Que ele ainda não é bem meu namorado...

- entendo... – diz ele, paciente. –Como que ele chama, então?

- Patrick. – responde ela.

- Patrick... Nome muito inglês pra quem é da França, não acha?

- eis a questão. Ele não é Frances.

- Não?

- olha que mundinho pequeno. De quatro anos que eu estou aqui, e conheço esse país quase que inteiro, me aparece um canadense.

- ele é...

-...Canadense.

- Patrick... Canadense... –pensa Chuck em voz alta.

- Mas não quero falar sobre isso. Não tem nada concreto ainda.

- Tudo bem meu bem.

- Mas e você? Ta namorando também?

- Eu? Quem dera...

- não?

- não serio...

- Hã... Esses fins de shows e final de turnê...

- O que você quis dizer com isso, senhorita Comeau?

- eu? Nada... Ate parece que não te conheço...

- mentira, meu anjo. Ah, às vezes a gente sai com umas...

- duas... Três...

- Apenas uma, Duda. – respondeu ele, segurando o riso.

- Ta, e só ficam ne?

- Hum... É! – disse ele, finalmente sorrindo. Eles começam a se olhar, com cara de serio um pro outro. Isso por mais ou menos cinco minutos. Logo Chuck dispara a rir.

- Que foi, Chuckito? – pergunta Duda, preocupada.

- Não agüento ficar serio!

Ambos começam a rir bem alto. Depois, lembram da hora e resolvem ir dormir.

- Vou dormir agora, Chuck. To cansada.

- Ta de férias não?

- Não. Férias só em dezembro.

- Então boa noite, meu anjinho.

- boa noite! Se precisar de alguma coisa à noite, se vira e acha, mas não me acorde!

- tudo bem! – ele levanta, da um beijo no rosto dela e volta pra sua cama.

De madrugada, Chuck se levanta pra ir ao banheiro. Quando sai do quarto, vê um vulto na sala. Ele resolve chegar perto pra ver, mas com medo a vista.

- quem está ai? – pergunta ele, mas não obteve resposta. Ouviu-se apenas um suspiro triste. –Oii... eu não mordo! O que custa me responder?

- Cala boca Chuck! – foi a resposta que teve.

- David, o que faz na sala, no escuro uma hora dessas?

- talvez não esteja conseguindo dormir?- responde ele, em ironia.

- O que eu te fiz? – pergunta novamente, Chuck, preocupado dessa vez.

- Perdão Chuck... é que eu acabei discutindo com a Alisha de novo... Mas estou me sentindo mal por isso.

- Eu sei como é... Mas acho que você não deveria pedir perdão pra mim e sim pra ela.

- eu não tenho coragem... eu sei que daqui a meio minuto ela vai me fazer sofrer de novo.

-então, por que ta chorando?

- porque eu ainda gosto dela. – disse, não contendo as lagrimas e chorando, finalmente. Chuck não conseguia ver seu rosto, mas se dispôs a consolá-lo.

- David... David... –disse ele, se aproximando. – Olha... eu sei o quanto você está se sentindo mal... eu entendo que você gosta da Alisha. Se não você não estaria casado com ela ainda. E já tem 4 anos que você atura tudo isso, às vezes entre lagrimas, mas sempre de pé. Tem também a sua filha, que você não pode e nem queria abandoná-la e sair mundo a fora. E também a questão da minha prima. Eu entendo o quanto vocês se gostam, tanto que você a chama de princesa, né? Mas a Alisha é um pouco mais difícil. Alem de ela não saber o passado de vocês dois, ela é sua esposa, você tem que dar atenção pra ela. se coloque um pouco no lugar dela.

- você estava ouvindo detrás da porta? Ou fez curso de adivinhação? –disse David,espantado com a resposta de Chuck.

- Nem um, nem outro. Por quê?

- Porque exatamente tudo que eu pensei e tudo que eu disse pra Alisha, você acabou de repetir.

- eu só quis te dar um conselho. – David o abraça. Chuck fica surpreso.

- eu não sei o que eu faço da vida. To cansado de sempre fazer as coisas erradas. Nas horas erradas. E com as pessoas erradas.

- David, para com isso! Vacilar, todo mundo vacila.

- eu fiz minha mãe desgostar de mim, estraguei a vida da Alisha, pus mais uma vida no mundo e a minha vida está mais que perdida.

- nunca é tarde pra recomeçar David. Você ainda está jovem pra isso. Pensa, reflita na sua vida. Vê o que precisa melhorar e mude.

Chuck da um beijo nele e David o solta. Ele, que ainda chorava, limpa as lágrimas que estavam no seu rosto e volta pra janela, onde estava antes de Chuck o encontrar.