Taylor parou o carro no melhor motel que tinha na beira da estrada. Miley acordou num salto e, no minuto seguinte, estava do lado de fora, tomando o resto de café de Taylor. Mary mal saiu do carro e já apertava os botões de seu celular.

Sobrara apenas eu e Selena.

— Selly, acorda — chamei, sacudindo meu corpo, que, de certa forma, a fazia sacudir também. — Rápido, vamos dormir numa cama de verdade.

Selena apenas mexeu a cabeça para tirar a franja do olho.

— Vamos, Selena — sussurrei em seu ouvido, tentando me mexer.

— Deixei-a aí — falou Mary na janela do meu lado. — Temos que fazer o check-in de qualquer maneira.

— Adoraria fazer isso — eu disse com sarcasmo. — Mas ela não me larga.

— Trágico — comentou Miley atrás de Mary.

Taylor abriu a porta do outro lado e puxou Selena.

A garota levou um susto.

— Obrigada — agradeci, movendo os braços que estavam duros.

— O que foi? — perguntou Selena.

Eu conhecia aquele tom. Ela estava sendo cínica. Sorri, e Selena percebeu que eu notara que ela nunca dormiu realmente um sono profundo.

— Vamos dormir num motel — respondeu Miley, amassando o copo de café e jogando no chão.

Desci e me deparei com um caminhão passando em alta velocidade de volta para pista. O cara sorriu para mim, como se tivesse tido tempo de registrar que eu era uma menina de dezoito anos com um corpo quase em forma e cabelo castanho.

— Sim, tudo bem — falou Selena enquanto caminhávamos até a porta do motel, fazendo de tudo para se desviarem dos caminhões. — Mas com que dinheiro?

— O nosso — eu disse. — Ainda não chegamos ao ponto de roubar.

— Teremos de alugar um quarto só — falou Mary fazendo números no ar. — Senão, não terá gasolina até a próxima parada.

— Um quarto não seriam duas camas? — perguntei. Miley concordou com a cabeça. — Ótimo, pedimos um colchão ou fazemos Mary dormir no chão.

Mary me fitou com raiva, mas ela já havia se acostumado com minhas piadas sarcásticas.

— Vocês são maiores de idade? — perguntou uma velha no balcão.

Miley lançou um olhar mortal à velha. Quer dizer, nós não tínhamos altura o bastante para termos dezoito anos? Qual é!

Taylor tirou a identidade e mostrou para a mulher.

— Elas têm dezoito. — A velha olhou atentamente o documento de Taylor antes de entregar para ela, procurando alguma falsificação. — Um quarto, por favor. E um colchão, se for necessário.

— Cinco, não são? — perguntou um cara de vinte anos sentado numa cadeira de balanço. — Acho que cabem em um quarto só, e sem colchão reserva.

As meninas sorriram entre si. Mary entregou o dinheiro certo para a velha do balcão e o cara nos encaminhou para o quarto.

— Para que lugar vocês vão? — indagou o cara, que não parava de olhar para Selena. Passei a mão pelo cabelo, lançando olhares mortais para ele.

— Estamos andando — respondeu Selena corando.

Mordi o lábio, feliz. Selena apenas corava quando não gostava de alguém e esse alguém conversava com ela.

— Sem destino?

— Mais ou menos isso. E filmando e tirando fotos — disse Miley.

— Legal. Queria eu ter essa coragem. — Ele piscou para Selena. Ela continuou o ignorando, sem dar à mínima.

— Aqui está. — O cara abriu a porta do quarto de número 25 e continuou sorrindo para Selena, mesmo depois de ter levado um fora. — Se precisar, chame o David, que sou eu. Até amanhã.

Ele entregou a chave da porta para Taylor e saiu pelo corredor.

Entrei primeiro. O quarto era pequeno com uma porta que dava para o banheiro igualmente minúscula. Tinha duas camas de casal e um beliche de solteiro em cima de uma das camas. A televisão era de 14’ e só pegava um canal. Não tinha insetos e os móveis reluziam pela limpeza. Era um bom lugar.

Miley pulou na cama mais perto da porta e anunciou que aquela era a dela. Taylor e Mary disputaram a beliche, com vitória de Mary, que pegou sua mochila e a jogou lá em cima. Taylor sorriu para Miley sem graça e deitou ao lado dela.

Mais uma vez, Selena e eu sobramos.

A suspeita de que as outras três fizeram tudo por querer se intensificou quando Mary de sua risada de “quero contar algo, mas não posso” (sim, ela tinha uma risada nesse estilo).

Olhei para ela no beliche. Miley revirou os olhos, mas Selena apenas pôs a mochila no chão ao lado da cama e foi para o banheiro com a escova e a pasta de dente, como se não notasse o jeito estranho das garotas.

— Qual é a piada? — perguntei quando a porta do banheiro se fechou.

— Nenhuma — responderam as três em uníssono.

— Me digam, então, o porquê de tantos olhares e risadas de revelação. — Cruzei os braços determinada.

Taylor suspirou.

— Selena tem uma pequena... — Mas Selena saiu do banheiro e ela quietou.

— Vamos dormir — sugeriu Mary antes que Selena perguntasse algo.

— Pelo jeito é a única opção — alfinetei. Mary e Taylor ficaram vermelhas.

Esperei minha vez de usar o banheiro impaciente. Tinha certeza de que o que Taylor iria dizer sobre Selena tinha a ver comigo. Uma pequena... O que? Queda, paixão? Por diabos quem? E se o pior estava concretizado? E se Selena sentisse coisas por mim? Eu não tinha certeza e a curiosidade me matava.

Meus pensamentos foram interrompidos por Mary, a penúltima a entrar no banheiro, que saiu de lá com seu pijama amarelo estampado com o Bob Esponja. As outras três caíram na risada enquanto entrei no banheiro, troquei de roupa e escovei os dentes.

— Quando você vai contar para ela? — Ouvi Miley perguntar.

— Não sei. — A voz de Selena ecoou e, mesmo não a vendo, soube que ela dera de ombros. — Talvez depois da viagem.

— Depois da viagem?! — Mary gritou e as outras fizeram “shh” para ela. — Selena, talvez não haja tempo para isso depois da viagem!

— Lógico que não! — apoiou Taylor. — Ela vai continuar viajando e você vai para a faculdade e nunca vocês vão conversar de novo.

— Eu agradeço seu apoio por nós — ironizou Selena. — Nós vamos nos ver depois. Quer dizer, não vivemos em 1960, onde as pessoas não tinham computador. Podemos conversar sempre.

— Claro, mas talvez não tenha tempo para conversar sobre o que vocês sentem. — Engoli em seco. Que conversa era aquela?

— Então como eu faço? Como eu digo pra ela?

— Isso é com você — disse Mary.

Não querendo estragar a chance de uma conversa longa sobre alternativas de como dizer o que Selena sentia, mas já estragando, saí do banheiro, no rosto uma expressão de tédio e sono.

— Está mesmo na hora de dormir — falou Miley olhando no relógio. — Uma e meia da manhã.

Ela, que estava deitada na cama, puxou a coberta para próxima de seu corpo e virou para a parede. Taylor deitou ao lado dela, com outra coberta. Mary pulou para o beliche e, em menos de cinco minutos, já roncava. Selena havia deitado na nossa cama e arrumava o cobertor.

Um cobertor.

Apenas um cobertor.

Lancei um olhar de raiva para Taylor, que nos observava com um ar de riso no rosto. Ela nos desejou boa noite. Desliguei a luz e fui tateando no escuro até a cama. O sorriso de Selena se refletiu no luar.

— Porque está assim? — ela indagou quando entrei debaixo do cobertor.

— Assim como?

— Está estranha, como se não quisesse mais ficar comigo. — Selena acariciou meu braço, que se arrepiou todo.

— Não é verdade — sussurrei, pois se ouvia três roncos distintos no quarto.

— Então o que houve?

— Nada.

— Eu te conheço tem quantos anos? Doze? — Suspirei zangada; ela não estava usando aquilo. — Você não consegue esconder nada de mim.

— Às vezes consigo — respondi carrancuda.

— Não, não consegue. — Desviei os olhos para que ela não os encarasse. Se Selena me fitasse, eu estava perdida e contaria tudo para ela.

Essa é uma das coisas que eu menos gosto nela. Selena tinha o dom da persuasão, de fazer as pessoas dizerem ou fazerem o que ela queria. O pior era que ela insistia até conseguir o que queria. Uma pessoa determinada — sua melhor qualidade para mim.

Por isso, nos últimos meses, quando meu amor por ela já estava batendo no ponteiro da loucura, eu evitava olhar em seus olhos quando me dirigia a ela. Sentia-me muito idiota por fazer isso, mas o olhar de Selena podia fraquejar o mais corajoso e colocar coragem no mais fraco. Eu não tinha muitas escolhas.

Enterrei o rosto nas mãos. Selena virou para o outro lado da cama. Ela estava sempre chateada comigo porque eu não conseguia mais olhá-la nos olhos. Ela notava quando eu estava triste, alegre e quando eu tinha algo a esconder. E isso tudo me matava, porque eu não poderia contar o que eu escondia.

— Me desculpe. — Pousei minha mão em seu ombro e a puxei para olhá-la pela primeira vez.

Me arrependi no momento em que aqueles olhos vidraram nos meus. Havia tanto tempo que não os fitava que tive um choque. A cor era linda, mais linda que da última vez. Um castanho claro que, mesmo na escuridão do quarto, era possível se ver.

Respirei fundo para controlar o impulso de beijá-la.

— Como se eu estivesse irritada com você. — Ela sorriu e me deu um beijo na bochecha. — Boa noite.

— Vocês podem fazer o favor de irem dormir? — irritou-se Mary, sua voz nasalada de alguma forma. — Estou morta de cansada.

— Desculpe — dissemos eu e Selena.

Selena virou para o outro lado mais uma vez. Encostei minha cabeça no travesseiro e tentei dormir, mas só consegui horas depois, quando todo mundo havia terminado de roncar.

Antes de cair no sono, achei a mão de Selena por baixo do cobertor.

Notas finais
Capítulo um pouco grande, mas assim que é bom :) Espero que curtam.