Friends Secrets
1 Falls City
Notas iniciais
Spencer Hastings POV’s
Meu pai estava me levando de carro até o aeroporto que, provavelmente, estaria lotado, e também provavelmente, eu chegaria atrasada, pois o transito parecia estar empacado. Estava fazendo, provavelmente, uns 28°C em todo Arizona. E olhe que seria a taxa mais baixa.
Eu estava quase torrando no carro, apesar de todas as janelas estarem abertas e o ar-condicionado estar ligado no último. Mas eu estava dando graças a Deus pelo aviso do meu pai:
“— Vista roupas mais frescas, porque está muito quente lá fora.”
Se não fosse por ele, eu estaria de calça preta, tênis AllStar (meu favorito) e uma blusa branca. Troquei a calça por um short preto até o meio das coxas, a blusa por uma regata também branca, o AllStar preto foi o único que permaneceu.
Em Nebraska, existe uma pequena cidade chamada Falls. Ela é bem pequena, com mais ou menos, cerca de 4 a 5 mil habitantes. E era para este lugar que eu estaria indo. Estaria, se o trânsito andasse.
— A gente não sai do lugar. — reclamei, enquanto colocava um dos pés sobre uma parte livre do banco.
— Tecnicamente, andamos 1 km. — disse Bill, avançando o carro mais um pouco. Ele me fez cair na gargalhada.
— Era esse sorriso que eu queria ver. É esse sorriso que quero que você dê e permaneça enquanto estiver na casa de sua mãe. — Ele apontava para mim, como se aquilo fosse uma ordem. Meu sorriso desmanchou-se e as gargalhadas se cessaram aos poucos.
— Pai, você sabe como a mamãe é...
— Sim, eu sei. É exatamente por este motivo que quero que você sorria. Mostre a ela que você está bem consigo mesmo.
Eu até poderia mostrar a ela que eu estava bom comigo mesma. Isso se eu realmente estivesse.
Finalmente, o trânsito começou a andar, o que me alívio bastante, pois, além do vento que batia no meu rosto, estávamos chegando à sombra do estacionamento do aeroporto.
— Se sairmos do carro rapidinho você ainda chega a tempo. — falou Bill enquanto tirava o cinto. Fiz o mesmo, descemos do carro e fomos até o porta malas, onde peguei duas malas enormes de rodinha e uma de mão. Que parecia mais pesada que as outras.
— Ainda da tempo de desistir. — alertou meu pai, enquanto me dava a última mala.
— Pai! — Dei um tapinha em seu ombro. Ele sabia que eu não desistiria da viagem porque ele sabia que eu sabia que minha mãe precisava de mim. É que, como ela trabalhava sempre, ela não se considerava uma boa mãe, porque nunca ficava comigo.
E então, quase baixo, ouvi a moça dizendo:
“Voou 451 com destino a Falls, dirija-se a sessão de embarque.”
— Ta na hora. — falei com uma voz melancólica. Não porque estaria indo embora dali, mas era onde eu estava indo. Falls é uma cidade parada.
— Adeus. — Ele me abraçou.
— Não é um adeus.
E a partir daí, foi tudo rápido. Embarque, avião e até logo. Não queria deixar meu pai sozinho pelo simples fato dele ser irresponsável como uma criança e desastrado como um adolescente. Só o que eu queria era que, quando eu voltasse, a casa ainda estivesse de pé.
Diferente dele existia minha mãe, Melissa. Eu nunca entendi como eles se apaixonaram sendo tão diferentes um do outro. Talvez um dia eu entenda. Ou talvez não.
Como se não me visse há séculos, Melissa me abraçou pelo máximo de tempo que podia. Acho que os guardas do aeroporto deveriam estar preparados pra qualquer coisa que ela tentasse, pois, pelo jeito que ela me abraçava, parecia que ela estava me matando.
— Você parece mais alta. — disse Melissa, enquanto me ajudava a colocar as malas no carro.
— É impressão sua. — falei enquanto entrávamos juntas em seu Captiva preto de vidro fumê.
Em pouco tempo, já estávamos bem longe do aeroporto quando Melissa começou a falar. Ela começara a conversa com o assunto errado.
— Já arrumei uma vaga para você na escola da cidade. Suas aulas começam amanhã às 8.
Dei um longo suspiro de desanimo. Agora estava mais que difícil sorrir, porque, além de não estar bem comigo, não estava bem com minha mãe e provavelmente, não estaria bem com a minha nova escola.
— Não fique assim, Spencer. Logo logo você arranjará coleguinhas com quem brincar. — Ela colocou uma mão sobre meu joelho.
Ela estava de brincadeira? Coleguinhas? Brincar?
— Mãe, eu não tenho mais seis anos. Não tenho coleguinhas. — Olhei para a janela, virando o rosto para minha mãe que, parecia ter ficado sem jeito. Com certeza, ela perdera a noção do que é ser mãe de uma adolescente.
— Eu sei que não, querida. Eu expressei mal, me desculpe. Mas... E amigos? Uma hora você precisará de amigos. Ou de namora...
— Olha mãe, eu não preciso de amigos, não preciso de namorados, não preciso de ninguém. Só quero viver minha vida sozinha. — murmurei cada palavra, refletindo-as a mim mesma.
Será mesmo que eu queria aquilo? Será mesmo que eu precisava daquilo?
Antes que ela pudesse dizer algo, seu celular tocou. Abri a porta luvas e nele, continha mais ou menos cinco celulares. Parecia que dois estavam tocando ao mesmo tempo.
Olhei para ela, um pouco zangada, pois ela prometera não trabalhar enquanto estivesse comigo. Eu deveria saber que empresários não “param” o trabalho assim, do nada.
— Me desculpe. — ela murmurou e logo depois, pegou um e atendeu.
Até chegarmos a sua luxuosa casa de classe média, ela ficou com o telefone socado no ouvido, rindo e falando de números e nomes que não me preocupei em saber. Não reconheceria nenhum mesmo.
Desci do carro e não me importei em bater a porta. Eu estava com raiva e queria que ela soubesse disso.
Fui até a porta malas, apertei ao botão e fui pegando as malas.
— Falo com você depois. — Ouvi-la dizer.
Melissa desceu do carro e foi até onde eu estava.
— Spencer, me desculpe. Eu tinha que atender. — Ela impediu que eu pegasse a última mala e a olhasse.
— Mas você prometeu, mãe. Certas promessas são importantes. Você acha que foi fácil para eu viver 5 anos da minha vida com uma mãe que se importa mais com seu trabalho do que com sua filha que está passando por uma fase complicada? — Aquelas palavras passaram para fora da minha boca da forma que eu nunca imaginei. Aquilo foi uma torrente de palavras que nunca imaginei que estivessem dentro de mim.
— Eu entendo. Desculpe-me, Spencer. — Ela abraçou-me de uma forma forte, com que eu me sentisse segura e que, eu realmente, tivesse uma mãe que estaria ali para me proteger dos monstros ao meu redor.
Depois daquele entendimento inesperado, não tive outra escolha a não ser jantar e deitar-me e, desde já, lamentar-me pelo primeiro dia da aula.
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