Friagem
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Estranhamente, o natal parecia mais frio que o normal. Antes, George nunca lhes tinha dado tanta importância, mas agora os flocos estavam mais aparentes, as luzes de natal estavam perdendo o brilho e o espírito natalino nem sequer tinha aparecido para fazê-lo se sentir melhor e mais confortável. George afundou-se exausto no sofá amarronzado. Não conseguia nem mais fingir um sorriso, tampouco a boa aparência habitual. Sua roupa estava amassada e seu cabelo mal lavado, além de sua pele sardenta e oleosa. "Infeliz" era uma boa palavra para descrevê-lo no momento, e o tempo lhe mostrava como se nada estivesse bem e parecia que sua situação desgastante nunca iria melhorar. Mas mesmo assim, ele ainda balançava a cabeça submetendo-se a um péssimo sorriso quando alguém acenava para ele na Toca; medo, talvez, mas era melhor do que os olhares de pena que recebia quando virava as costas. Tomou mais um gole da bebida gelada em sua mão, sentiu sua garganta rasgar-se e depois de mais um grande gole a depositou a garrafa na escrivaninha de madeira ao lado do sofá.
Olhou ao redor e percebeu que, diferente dele, todos estavam aproveitando o momento. Pareciam tão animados, mesmo que seus rostos transformavam-se em uma feição cansada quando ninguém estava observando, ninguém exceto ele, obviamente. Depois do fim da segunda Guerra Bruxa, George passou a observar mais os detalhes de qualquer lugar onde estivesse, como se todos os fios de seda das suas roupas, as penas e os pergaminhos, ou os flocos que caíam lá fora nunca tivessem estado ali, sequer existido, e agora era chamativo demais para ignorar. Tinha muitas coisas melhores para fazer ao invés de passar o tempo assim, mas seu corpo parecia pesar quando tentava sequer levantar para ir fazer algo realmente produtivo, como trabalhar nas Gemialidades Weasley, agora solitária e abandonada demais para suportar alguma felicidade falsa. Entediado e se sentindo pior do que já estava, ergueu-se do sofá e foi até a saída dos fundos, passando pelos convidados animados, amigos e parentes, que sorriam para ele quando passava.
A cozinha estava normalmente quieta, como sempre, mas dessa vez isso não lhe incomodou. Aproveitou o tempo lá fora e botou mais um casaco, que tinha pendurado ao lado da porta de madeira, ignorando os chamados de Molly e Charlie para entrar em uma conversa animada sobre dragões, ou as mãos acenando de Harry, Ron e Bill para conversar sobre Quadribol, o esporte que tinha ficado extremamente chato ultimamente. Antes de sair, ouviu a voz de Fleur e Ginny conversando animadas por perto, mas as ignorou.
Dessa vez, diferente do espaço aquecido na Toca, estava realmente frio lá fora, fazendo jus ao tempo natalino. Observou novamente como os flocos caíam devagar, passou a língua pelos lábios arroxeados e gélidos tentando não deixar o frio tomar conta dele. Sentia falta acima de tudo, dos momentos com Fred, e sentiu seu peito apertar de dor apenas de imaginar como seria se ele estivesse ali. Relembrou de uma vez quando eles tinham sete anos, exatamente na véspera de Natal, que decidiram pegar grandes gravetos, amontoá-los perto da casa e botar fogo para aquecer o lado de fora. Péssima ideia, já que eram crianças ingênuas, mas tinha sido extremamente divertido. Por sorte, o fogo não tinha queimado tanta coisa, apenas algumas meias que Molly tinha pendurado logo acima das madeiras finas e depois da brincadeira, chamuscadas, mas mesmo eles ficaram de castigo por quase um mês inteiro. Por outro lado, Fred e George tiveram a sorte de ficarem sozinhos em seu quarto, logo no segundo andar, e observar a neve cair na noite escura, enquanto saboreavam uma parte do peru que Molly tinha feito.
Se ele fechasse os olhos, por um breve momento, era como se estivesse realmente vivendo a lembrança daquela noite.
1985 – A Toca
Fred tinha uma aparência cansada e se esforçava para carregar os tantos galhos, já George voltava uma pequena pedra para acender a fogueira.
— Aonde nós iremos a montar?— perguntou animado.
— Ali perto. — apontou Fred com um aceno rápido para perto das meias penduradas por Molly, naquela mesma manhã fria. George pegou metade dos gavetos de Fred e os dois se aproximaram do lugar.
Fred se ajoelhou ao lado, enquanto George pegava a pedra e a forçava contra um graveto, que estava a poucos centímetros dos outros, fazendo-o soltar faíscas. Depois de alguns segundos, todos os outros gravetos já estavam pegando fogo.
— Deu certo!
— Deu certo — repetiu George. Fred tinha um sorriso travesso no rosto e suas sardas pareciam mais aparentes que nunca. George, igualmente animado, observava o irmão, prestando atenção mais em seus detalhes do que na sua própria mini fogueira. — Ano que vem nós vamos para Hogwarts
— É, vamos sim. Charlie e Bill disseram que é melhor ficar longe da tal floresta.
— Floresta? Aquela estranha que tem perto de Hogwarts?
— Na verdade ela fica dentro, mas eu não tenho certeza.— respondeu Fred, incerto.
— Ah, ela é tão perigosa assim?
Fred acenou em concordância com a cabeça, e George viu o reflexo do fogo nos orbes castanhos à sua frente. De joelhos à fogueira, ele sentiu-se estranho; estava com medo, diferente de Fred, tão seguro de si. Invejava o irmão no momento, claro, mas sabia que nunca teria uma companhia tão boa quanto essa.
— Fred — surpreso e sentindo-se culpado, chamou-o.
— Agora não, George, olha como o fogo está crescendo.— indagou ao irmão. Os olhos bravos o olhavam.
— Mamãe está logo atrás de você — exclamou paralisado. — E as meias estão pegando fogo.
. . .
— George? – ouviu uma voz feminina o chamar, e abriu os olhos devagar. – Não sabia que estava aqui.
— Tudo bem, Hermione. Eu já estava de saída mesmo. – Deu meia volta e foi em direção à porta, onde Hermione estava parada. Conseguiu sentir o ar quente de dentro e semicerrou os olhos. Não estava com vontade de conversar no momento, mesmo que alguns minutos atrás o silêncio estava matando-o.
Cachecol vermelho, casaco longo amarronzado e as calças pretas davam um contraste maior à pele escura dela. George sentiu-se com inveja; ela, Hermione Granger, parecia ter tudo na palma da mão, como uma rainha aproveitando o seu reino sem sequer perceber-se nesse posto tão alto e digno. Ela tinha Ron, com quem se importasse com ela e amasse sinceramente, Harry, um melhor amigo que sempre parecia estar disposto a ajudá-la, e os Weasley, prontos para recebê-la nos momentos ruins. Diferente dele que estava afastando todo mundo drasticamente.
— Sabe, se você quiser conversar…
— Eu estou ótimo!— exclamou rispidamente e a empurrou levemente para o lado. Olhou com raiva para ela. “Não finja que se importa” gostaria de ter murmurado, mas parecia que as palavras não saiam. Envergonhado, percebendo o que fez, acrescentou. – Desculpe, eu não quero falar sobre isso agora.
— Tudo bem, eu entendo.
“Você realmente não entende”, engoliu o seco. – Obrigado.
Hermione se afastou e George fechou a porta, desajeitado. A cozinha continuava vazia, felizmente, e ele pode se sentar em uma das cadeiras em torno da mesa de madeira larga. O relógio marcava precisamente oito horas e ele suspirou, cansado. Primeiro Natal desde que Fred foi embora e ele aparentava quase morto, mas ainda sim, conseguia ouvir bem o ranger dos talheres pendurados nas paredes, balançando devagar pelo vento que entrava pela porta mal fechada, e observar os detalhes do metal totalmente entediado.
Novamente, fechou os olhos, e conseguiu ouvir as vozes familiares se aproximando, esperando que ninguém o atrapalhasse novamente.
1983 – A Toca
— Meninos, não corram em torno da mesa! – Molly esbravejava.
Fred e George riam. Charlie estava sentado na mesa folheado outro livro grosso, como de costume, e Percy estava brincando com uma mini-vassoura que Arthur tinha lhe dado em seu aniversário. Bill tinha ido voar sozinho lá fora, bravo com Charlie.
— Arthur, que bom que chegou! — o homem entrou na cozinha com uma aparência cansada. Percy correu animado para lhe dar um abraço, deixando sua vassourinha de lado. Arthur retribuiu o abraço e foi dar um beijo em Molly, quase tropeçando em Fred e George correndo, e Charlie apenas acenou de cabeça para ele. Estranhou a falta de Bill, mas não deu tanta importância. — Tire esses ruivinhos daqui enquanto eu preparo o almoço.
— Fred, George, escutem sua mãe antes que ela lhes deixe de castigo de novo. Lembram-se do que aconteceu mês passado? Acho que não queremos repetir aquilo, meninos.
Quando os garotos pararam, Molly olhou-o agradecida e voltou a prestar atenção a panela com água fervendo à frente. Bill entrou com um Ron sujo de lama, e antes que levassem alguma bronca saíram sem que Molly ou Arthur os percebesse.
Os gêmeos pararam cansados e com uma leve decepção estampada em seus rostos sardentos. Percy riu baixo, e Fred o olhou irritado. “Não” disseram em uníssono, sentindo-se culpados.
Eles saíram com Arthur da cozinha, deixando Charlie conversando sobre seu primeiro ano em Hogwarts com Molly, contando as novidades, enquanto Percy continuava entretido com seu presente.
. . .
George ouviu um barulho, como uma caneca de metal caindo, e abriu os olhos.
— Desculpe George, não sabia que estava acordado – falou envergonhado – Não queria fazer barulho, sabe. Pensei que estivesse cansado e…
— Tudo bem, Ron. Acho que devo ter cochilado ou algo assim.
— Ah, bem, é Natal. Todos nós estamos meio cansados pelo fim da guerra, mesmo que já tenha se passado alguns meses.
George acenou coçando os olhos. Segunda vez que isso tinha acontecido em um dia, que maravilha. “Realmente, é impossível descansar um pouco por aqui.”, pensou.
— Desculpa, não estava prestando atenção, o que disse?
Ron terminou de pegar três copos nos armários e se virou para sair.
— Nada de mais. Feliz Natal, George.
Antes que pudesse responder, Ron tinha saído. Por um momento pensou em dizer sobre o que estava sentindo, afinal era seu irmão, mas o pensamento o fez corar de vergonha.
“Idiota, como se ele ligasse."
Levantou-se, e como nas outras vezes, partiu para um lugar mais privado. O jardim dos fundos e a cozinha tinham sido péssimas escolhas, e só tinha restado o seu quarto; corrigindo, o seu antigo quarto. Estava de mudança, e quando chegou lá, depois de passar pelos amigos e familiares animados, percebeu o quanto aquela cena machucava-o.
Tudo estava arrumado dentro de caixas. Tudo, exceto uma cadeira velha que tinha sido posta na varanda. Parecia como se alguém soubesse que a maioria de suas melhores lembranças com Fred tinha sido ali.
Caminhou devagar tomando cuidado para não esbarrar em nada. Tinha uma leve e quase invisível camada de pó pelo cômodo, mas mesmo assim, um cheiro familiar pairava pelo ar e parecia ficar mais forte na varanda. Permitiu-se sentar na cadeira e inspirar o aroma. Amoras.
1991 — A Toca
— Hey George, olhe o que eu peguei escondido! — anunciou Fred, entrando com uns potes cheios de amoras roxas e algumas avermelhadas.
George saiu da cama, onde estava terminando a tarefa de Poções que o Prof. Snape tinha lhes passado para as férias. — O que nós iremos dizer se perguntarem?”
— Botamos a culpa no Percy.
— Ótima ideia. Vou trancar a porta. — George se prontificou e pegou o pequeno bule de chaves na escrivaninha, enquanto Fred botava os materiais escolares no chão, com o pote de amoras saborosas ao lado.
— Vamos lá, vou te ajudar em Poções!— disse animado. George se sentou ao seu lado encarando-o sério.
—Fred, você é péssimo em Poções.— revirou os olhos.
— Tanto faz, aquele velho narigudo nunca vai saber disso mesmo.
George riu e saboreou o gosto viciante de uma das amoras. Fred o imitou, e assim eles passaram a tarde fazendo a tarefa entediante, mas que Fred tinha conseguido deixá -la divertida, comendo as amoras escondidos.
. . .
Sentiu um vazio. Diferente da dor de mais cedo, uma impossível de aguentar, era como se ela tivesse desaparecido e dado lugar a algo pior. Queria deixar as lágrimas escorrerem, até tentou, mas não saía nada. Nada, nenhum mero e patético soluço. Como se já tivessem esgotado e ele estivesse cansado demais para dar-se o trabalho de lamentar. Fred não voltaria nunca mais, e por um momento, George imaginou como seria ir junto com ele; mas tão rápido quanto tinha vindo, se ausentou e acabou deixando o medo ocupar seu lugar. Talvez a Grifinória não tivesse sido a casa certa para ele, porque nem sequer conseguia pensar como seria cometer suicídio. George merecia viver uma vida assim, igual a ele, tão péssima e dolorosa, por ter deixado Fred escapar igual líquido de suas mãos sólidas.
Doía muito. Doía como o inferno em chamas; doía como centenas de estacas sendo enfiadas lentamente em seu peito; doía como ser chicoteado, pagando pelos seus pecados; doía como ter o coração arrancado para fora de seu peito, por um médico insano à procura de diversão. Mesmo assim, parecia que nenhum dos mais horrendos castigos era pior do que o qual George estava sentindo queimar seus pulmões vagarosamente naquele momento.
De qualquer forma, sem nenhum caminho para percorrer, George iria passar a noite ali se remoendo, mas dessa vez ninguém se daria o trabalho de interrompê-lo. Nem mesmo na noite de Natal, depois de duas falhas tentativas.
Dessa vez, sem Fred e sem as amoras saborosas, ele iria ver a neve cair mais uma vez.
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