Fria Transcursão
4 Pesadelos
Barry
Sou acordado por barulhos altos e um cheiro horrível. Vejo vários corpos ao chão. Tento olhar para o lado, mas não consigo. Não sinto nada do pescoço para baixo. Estou deitado em uma maca. No entanto, pelo que posso ver, não possuo nenhum ponto ou tipo de curativo. Há feridas e marcas por todo o meu corpo. Flashes se passam pela minha cabeça.
Estava lutando contra Zoom. Por mais rápido que fosse, ele me ultrapassava. A maioria de minhas investidas falhava. Depois de certo tempo de esforço, comecei a me cansar. Por outro lado, meu oponente parecia ficar cada vez mais forte. Hunter consegue me alcançar e começa a me atacar. Tento revidar, sem sucesso. Minhas feridas não se cicatrizam rápido o suficiente. Ele me dá um soco no pescoço e perco a consciência.
Meu coração se acelera ao lembrar disso. Inspeciono o lugar até onde meus olhos permitem e avalio os corpos. Não consigo ver todos, porém não reconheço um sequer. Escuto sons altos por perto que me chamam a atenção. Berros, choros, quedas, explosões, tiros e vários sinais de destruição. Olho para meus machucados novamente, na esperança de que comecem a cicatrizar. Nada acontece. Provavelmente precisarei de mais horas para me recuperar. E enquanto isso não acontece, Central City sofreria o caos absoluto. Tento fechar os olhos e me acalmar, mas tudo que consigo mentalizar é uma imagem do desespero afora.
— Abra os olhos, Barry. Quero que veja isso.
Escuto a voz desumana de Zoom ecoar. Sei que irei me arrepender disso, mas faço o que ele diz. Hunter joga o corpo de Cisco ao chão. Dou um grito que me queima a garganta e lamurio. Zoom caminha para o lado e vejo meu pai, Joe, Caitlin, Iris e Wally. Todos estão com lágrimas nos olhos, porém intactos. Exceto Caitlin. Ela está com o cabelo bagunçado, pele suja e cheia de ferimentos e manchas de sangue. Alguns machucados ainda sangram. Há uma fratura exposta no seu braço direito. Provavelmente tinha sido capturada por Zoom e torturada por dias. Ao contrário dos outros, ela não lamenta. Seus olhos estão arregalados e seu rosto paralisado, em choque. Minha respiração se intensifica e fico ofegante. Hunter agita uma das mãos em direção a ela.
— Hunter, por favor, pare com isso! Faça o que quiser, me mate...
Antes que possa terminar, Zoom crava sua mão no peito de Caitlin sem o mínimo de piedade. Ela estremece e me lança um último olhar, antes de cair ao lado de Cisco. Meu rosto está encharcado e meus olhos ardem.
— Eu vou parar, Barry. Só irei matar todos vocês primeiro.
Minha visão está embaçada, porém ainda consigo ver todo o horror que está acontecendo. Meu sangue ferve e começo a rezar, na esperança de que tudo pare milagrosamente. Tento fechar os olhos e não consigo. Não consigo ignorar as pessoas que mais amo nos seus últimos momentos. Preciso dar-lhes um último olhar e adeus silencioso. Era a única coisa que me restava a fazer.
Só desejava que Zoom me matasse antes e me privasse de mais sofrimento.
Acordo berrando e ofegante. Sinto braços me envolverem e acariciarem minhas costas.
— Ei, ei, isso foi só um pesadelo! Não foi real!
Paro com a respiração e batimentos acelerados.
— Filho, olhe para mim.
Meu pai vira meu rosto e finalmente começo a me recompor.
— Está tudo bem, você está bem — completa com a voz firme, transmitindo-me confiança.
— Estão todos bem? Cisco, Joe, Iri... — Pergunto
— Sim. Todos estão seguros, Barry. Estão todos aqui.
— Caitlin? — Checo.
— Cisco mandou uma mensagem a ela.
Aquilo não era exatamente uma resposta. Sabia que meu pai queria me poupar, só que não era aquilo que eu precisava ouvir. Respiro fundo e fecho os olhos.
— Você está bem?
— Sim, as feridas já estão sarando — respondo apontando para o peito.
— Não foi isso que quis dizer. — Reforça.
Encaro-o.
— Barry, eu moro com você. Escuto seus gritos a noite. Não precisa me esconder as coisas.
Surpreendo-me.
— Por que não me disse isso?
— Queria que você se abrisse por vontade própria. Só que agora mesmo você estava se debatendo, Barry. Quando você abriu os olhos, estava congelado e com o olhar distante. Parecia estar em estado catatônico. Não pode continuar guardando as coisas para si, filho.
Respiro fundo e concordo com a cabeça. Fecho os olhos.
— Eu perdi a paz no momento em que Zoom voltou para cá — confesso — comecei a ter pesadelos com aquela noite em que ele me torturara. Achava que fosse o que ele quisesse fazer, mas agora o seu exército também está acabando com a cidade.
Vacilo.
— Parece que coisas boas só acontecem comigo para que eu tenha de sofrer mais ainda ao perdê-las. Eu vi minha mãe morrer e você ser preso por causa disso. Ganhei poderes e fui trabalhar com o meu ídolo, só para descobrir que ele era o culpado de tudo e queria me derrotar. Encontrei minha mãe de novo e precisei vê-la morrer outra vez. Quando finalmente consigo superar isso, outro vilão aparece atrás de mim e todos com quem me importo. E ele provavelmente raptou Caitlin de novo e...
Agito-me e começo a chorar. Meu pai me abraça forte.
— Ei, acalme-se. Tudo ficará bem. — Meu pai responde, acariciando meu ombro.
— Como você pode dizer isso? — Pergunto com agonia.
— Olha, querido, eu gostaria de poder te dar provas disso. Infelizmente, não posso, mas eu tenho fé em você e em tudo que representa. E não falo apenas do Flash. Você mudou essa cidade para melhor e a vida de todos ao seu redor.
— Não mais. Não importa o que eu ou Cisco façamos, a cidade está sendo arruinada. E Caitlin parece ter sumido. Eu ainda conseguia ser otimista e ver o lado bom das coisas antes, mas isso parece impossível agora.
— Barry, eu sinto muito por todo o sofrimento que você passou e está passando. — Meu pai completa, com os olhos também marejados. — Não posso prometer que isso um dia pare, porém é preciso acreditar que algo bom virá com isso. Eu posso te prometer que você tem pessoas que te amam e sempre estarão ao seu lado. E juntos nos esforçaremos para consertar as coisas. Sempre.
Ele finaliza com convicção e me abraça apertado. Permito-me desabar em seus braços.
+++
Entro no laboratório e vejo Cisco, Harry e Jesse em frente aos computadores. Jesse está sentada no canto da sala, como se quisesse se isolar. Harry e Jesse estão concentrados no que fazem, Cisco está tomando um milkshake. Todos abandonam o que estão fazendo ao me verem.
— Está melhor, Barry? — Jesse pergunta.
Concordo com a cabeça.
— Fico feliz que esteja de volta.
Ela dá um sorriso fraco, porém logo desvia o olhar e se vira.
— Alguma novidade? Sabe algo da Caitlin? — Verifico.
Cisco nega com a cabeça.
— E você?
— Acabei parando no hospital, mas pelo menos menos descobri quem tinha matado aquele homem.
— Quem foi? — Pergunta Cisco.
— Não sei seu nome. Era uma garota. Branca, olhos e cabelos escuros. Parecia asiática e não aparentava mais que dezenove anos. Ela era da Terra-2.
— Isso não é bom — Harry acrescenta. — Não podemos recorrer a bancos de dados e fichas criminais quando grande parte dos bandidos não são nem desse mundo. Pelo menos não enquanto Ramon não dominar os seus poderes.
— Eu estou chegando lá, ok, Harry? Só que mesmo controlando as minhas habilidades, isso não significa que eu seja onisciente ou onipotente — Cisco responde.
Cisco transmite irritação. Ele sempre recorria ao humor quando se sentia desconfortável.
— Tudo bem, não quero pressionar você. Você já ajuda o bastante, Cisco. Ainda assim, Harry tem razão. Há muitos meta-humanos a solta ao mesmo tempo e não sabemos nada sobre seus poderes e antecedentes criminais. Precisamos dar um jeito nisso. — Adiciono.
— Talvez eu possa ajudá-los com isso.
Levanto a cabeça e vejo Jesse em pé no centro da sala. Harry e Cisco se viram para observar a garota.
— O que você quer dizer com isso? — Harry diz.
— Quando os meta-humanos começaram a atacar a nossa cidade, as autoridades não levaram isso a sério de imediato. Uma amiga minha foi uma das primeiras vítimas. A polícia achou que ela estivesse sob o efeito de alguma coisa. Como ninguém tomava atitude, comecei a escrever em um blog para que pudesse alertar as pessoas. Com o passar do tempo, as autoridades reconheceram o problema e a polícia criou uma divisão específica para meta-humanos. Eu invadi o sistema da delegacia e salvei vários relatórios.
— É, só que isso era na sua Terra. Não temos uma conexão de internet que transcenda universos — Diz Cisco.
— Sim, só que por incrível que pareça eu tinha o pen drive guardado na roupa quando Zoom me sequestrou. Ainda tenho-o guardado por aqui — Jesse informa.
— Por que você nunca me disse isso? — Harry questiona.
— Você mais do que ninguém deve entender meus motivos para guardar isso para mim. — Jesse completa, seca.
Harry se cala. Cisco pigarreia.
— Tudo bem! Jesse, por que não vamos procurar o pen drive e transferir os dados para os computadores? — Cisco propõe, estendendo-lhe a mão.
Jesse apenas assente e aceita o gesto. Eles começam a se afastar quando Cisco deixa seu copo cair no chão e dá um pulo. Jesse se assusta.
— Ai meu Deus — Cisco murmura, estático. Seu tom de voz soa claramente abalado.
— Cisco, o que foi? Você viu alguma coisa? — Ela pergunta preocupada.
— Sim. Caitlin. Ela se foi.
Prendo a respiração.
— O quê? Cisco, diga-me. Onde ela está?
— No necrotério. Vi seu corpo, Barry. — Ele responde assustado.
Engulo em seco.
— Caitlin está morta.
Finaliza, deixando aquelas palavras apavorantes ecoando na minha cabeça. Aquilo não podia ser verdade.
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