Fresh Blood
1 Capítulo 1 - O novo nascimento
Cada músculo do meu corpo tremia enquanto eu cozinhava de dentro para fora. Eu nunca havia sentido nenhum tipo de dor que pudesse se aproximar daquela. Cada partezinha de mim doía, partes que eu achava que nunca doeriam doíam, eu podia sentir cada um dos meus órgãos gritando por ajuda. Mas não havia nenhuma ajuda, apenas dor e escuridão.
Eu não estava mais na rua, eu sabia disso, pois me lembro de alguém me carregando nos ombros, mas isso não queria dizer que eu sabia onde estava ou quanto tempo havia passado, muito menos o que havia acontecido comigo. Sabia, apenas, que estava na companhia de duas pessoas, dois homens, um com uns vinte e poucos e o outro não passava dos dezoito. O mais velho cuidava de mim, podia ver seu rosto nos poucos segundos que ficava acordado, o mais novo aparecera vez ou outra, sua voz era muito séria para a idade, não muito diferente da expressão facial.
Apesar de toda a dor e tremedeira, eu sentia que estava melhorando, era como se eu devesse pagar por ficar forte outra vez. Na primeira vez que eu acordei, não senti nada, realmente nada, nem mesmo meus músculos, fiquei parado, sem conseguir mover nem minhas pálpebras. Fiquei apenas ouvindo a discussão dos dois. O mais novo queria se livrar de mim, o mais velho disse que achava melhor eu me recuperar e depois eles decidiriam o que fariam.
Eu queria fugir. Queria poder sentir minhas pernas e fugir dali o mais rápido possível. Eu não sabia o que havia acontecido, mas devia ter sido grave já que o modo como o garoto falava era quase como se ele me quisesse morto. O mais velho não parecia ter uma opinião muito diferente, mas parecia ser mais piedoso.
— Acho que ele está forte o suficiente. — O mais velho disse, sua voz era grave e segura. — Ele está no estágio final, já sofreu muito, ou você faz agora ou ele morre.
— Ainda não entendi porque eu tenho que fazer isso contra a minha vontade. — O mais novo rebateu. — Você devia ter deixado ele na rua como qualquer outro humano que foi atacado, mas ao invés disso decidiu que era melhor trazê-lo para casa, você devia fazer isso.
— Você sabe que eu não posso transformar ninguém. — O outro tentou se justificar. — Eu fiz um juramento de sangue, eu queimaria de dentro para fora se esse garoto bebesse de mim.
Transformar? Beber dele? Sou um amante de filmes, sei que isso parece muito vampiresco, mas isso não passa de ficção. Eu estava tentando gritar, mas nenhum som saía, eu havia sido sequestrado e dopado por dois maníacos com problemas relacionados a diferenciar realidade de fantasia. Ao mesmo tempo que eu tentava me debater eu me movia apenas alguns centímetros, enquanto os dois estavam muito ocupados com a discussão, nenhum deles percebeu meu pânico.
— Então por que você trouxe ele, seu porco velho? — O garoto estava muito irritado.
Em vez de ficar irritado com o xingamento do menino, o homem apenas soltou uma gargalhada descontraída, como se já estivesse acostumado com o temperamento explosivo do menor.
— Zeno, você devia amar mais os humanos, eles são quem nos sustentam. — O mais velho disse. — Esse garoto foi uma vítima dê a ele uma chance de se vingar desse atentado aos que suprem nossas necessidades como seres supremos.
— Você me dá nojo. — Ele falou se aproximando de mim. — Eu sei muito bem que você pode nos ouvir e está se perguntando o que está acontecendo. Você sofreu um ataque, nós somos vampiros, nós existimos, e você foi atacado por um selvagem, vou completar a sua transição para que você fique vivo, sei que terá várias perguntas, não as faça para mim, Vênus será o seu mentor, pergunte a ele.
— Você vai transformar o garoto, você é quem deve ser o mentor dele. — O mais velho falou rindo. — Desculpe, alteza, eu vou cuidar do garoto, assim como cuidei de alguns que vieram antes dele.
— Se você beber mais que o necessário eu quebro o seu pescoço antes que o meu sangue chegue ao seu estômago.
De jeito nenhum eu queria beber sangue de um perturbado que acha que está em um filme, que, além de tudo, quer me matar. Tentei segurar a minha mandíbula o máximo que eu consegui, mas ele abriu minha boca com a facilidade de quem abre um envelope. Então minha boca se encheu. Quando eu era criança e machucava o dedo, eu tinha, por instinto o costume de colocar o dedo machucado na boca, eu já havia sentido o gosto do sangue, era metálico, horrível. Mas o sangue que estava em minha boca era diferente, era doce, mas não como se eu fosse enjoar, parecia mais como o suco uma fruta tropical e rara, eu poderia beber aquilo o dia inteiro, mas a ameaça de ter o meu pescoço quebrado foi bem convincente. Depois do primeiro gole, o calor parou, alguns goles depois eu conseguia me mover e já não estava mais tremendo. Cada vez mais eu me sentia melhor, cada vez eu queria mais e mais o sangue do garoto.
— Chega. — ele puxou o braço. — Limpe-se, você está parecendo um animal.
Antes que eu pudesse ter qualquer reação, ele se afastou e me encarou sério. Foi a primeira vez que eu consegui ter uma boa visão do seu rosto. Seu cabelo era de um tom cinzento de loiro, se aproximava dos ombros e, com certeza, era o cabelo mais bonito que eu já havia visto na vida, ele era relativamente baixo e jovem, seus olhos eram de um tom amarelado, como os de um gato de rua, mas o que mais me chamou atenção foi a pedra losangular vermelha colada no meio da testa.
— Cuide dele. — ele disse, por fim, saindo do cômodo.
Eu estava assustado. Eu fui sequestrado por dois caras que achavam que eram vampiros e achavam que eu era um deles, bebido sangue e gostado. Aquilo de modo algum acontecia em um fim de semana comum na minha vida.
— Então, qual é o seu nome? — O mais velho sentou-se ao meu lado.
— Marshall. — Respondi.
— Sou Vênus e aquele é Zeno. — Ele falou. — Desculpe pelo Zeno, ele passou por muita coisa nas últimas décadas.
Esse cara era completamente maluco, bonito, mas maluco. Como aquele garotinho poderia ter passado por muita coisa nas últimas décadas? Só se ele tivesse vinte anos e fosse completamente azarado desde o momento em que ele nasceu.
Eu devo ter tido uma reação engraçada, pois Vênus abriu um sorriso. Quando seus lábios se abriram formando uma lua virada para cima, os olhos vermelhos fecharam formando duas pequenas luas para baixo. Era fofo, de alguma forma. O cabelo preto fora cortado de maneira rebelde, um pouco caía sobre o rosto e o resto era uma completa bagunça. Ele devia ter aproximadamente vinte e cinco anos, talvez fosse irmão mais velho de Zeno, porém, esse por sua vez não possuía nada colado na testa.
— Marshall, eu sei que você deve ter milhões de dúvidas, vai demorar um pouco para você se acostumar e principalmente entender o que está acontecendo. — Ele disse. — Não vou te forçar a aceitar tudo de uma vez, mas não posso te deixar ir.
— Olha. — Falei me afastando o máximo que consegui. — Essa coisa de vampiro não existe. Vocês são loucos, me deixe ir embora e eu não conto nada para ninguém.
Ele sorriu novamente.
— Depois que o cinema foi criado ficou ainda mais difícil de acreditar. — Ele encarou o chão. — Na minha época apenas alguns livros existiam, Drácula ainda era jovem, Nosferatu nem passava pela cabeça dos criadores, um filme divertido admito, mas muito diferente da realidade.
— Claro que é diferente da realidade, vampiros não existem. — Falei irritado.
Vênus não disse nada. Apenas pegou um espelho em uma das gavetas da cômoda. Em algumas lendas, vampiros não possuíam reflexo, mas aparentemente, na história em que os dois acreditavam eles possuíam. Quando vi meu reflexo eu me assustei um pouco por parecer pálido e doente, quase como um paciente que está muito tempo no hospital, sangue ainda não seco sujava a lateral da minha boca e meu queixo, mas não era isso que ele queria que eu visse. Sobre a minha jugular haviam duas marcas escuras e profundas, como se eu realmente tivesse sido mordido por alguém com dentes muito pontudos.
— Acho que isso não vai ser o suficiente para te convencer. — Ele disse pensativo.
— Vai virar um morcego? — Perguntei.
Ele não se limitou a um simples sorriso como das outras vezes, o homem explodiu em uma gargalhada divertida. Se eu não estivesse tão confuso e assustado eu provavelmente teria rido junto com ele.
— Nós não podemos fazer isso. — Ele disse limpando uma lágrima que havia se formado no canto do olho. — Mas nós nos queimamos no sol, então cuidado, ainda é dia, então não podemos sair, mas acredito que durante a noite eu te leve para esticar as pernas.
— Claro. — Dei um sorriso falso.
Quando Vênus me levasse para esticar as pernas seria a chance perfeita para pedir ajuda, sair correndo e gritando feito um louco. O plano aprecia extremamente óbvio, talvez Zeno quisesse colocar uma coleira em mim antes de sairmos.
— Você está fedendo. — Zeno falou entrando no quarto. — Ontem Vênus comprou algumas roupas para você, tome banho e vista elas, depois você pode tomar um pacote de sangue.
— Vou levar ele para um passeio durante a noite. — Vênus disse animado. — Você quer vir junto?
— Você quer morrer? — O garoto perguntou assustado. — Não pode levar um recém-criado para passear como se fosse o seu filhote, eu sei que você foi transformado há anos, mas não consegue lembrar da fome? O cheiro das pessoas? Como sabe que ele vai conseguir se controlar? Não pode fazer isso.
Vênus ficou sério e concordou com a cabeça.
— Acho melhor você ir para o banho. — Ele disse, por fim, apontando a porta do banheiro. — Desculpe, mas acho que não vamos poder sair ainda.
— Não se aproxime muito da janela. — Zeno disse quando passei por ele. — Ou se aproxime e tenha a sua primeira queimadura.
Entrei na porta que ficava no lado oposto ao quarto, quando você tem medo é melhor obedecer, sabemos disso, não devemos resistir a assaltos, nem sequestros, apenas obedecemos e rezamos pelo melhor. O banheiro era bem grande e pouca luz natural entrava no lugar. Encostei a porta, mas deixei um pequeno espaço aberto para poder ouvir a conversa dos dois.
— Desculpe. — Vênus disse. — Meu objetivo é te proteger, mas, mesmo assim, eu trouxe problema para o senhor, peço que deixe que eu cuide do garoto, você sabe que um a mais poderia nos ajudar a sobreviver.
Senhor? Era de certa forma engraçado ver um cara visivelmente mais velho chamando um garoto de senhor. Talvez eles levassem a brincadeira de vampiro tão a sério que Zeno havia sido transformado algumas décadas, ou até séculos antes de Vênus e por isso o garoto devia ser tratado com respeito.
— Você recebeu baixa por ser muito bom com os humanos. — Zeno disse. — Você se apega a eles, sabe que não pode fazer esse tipo de coisa, sabe o que aconteceu da última vez que você fez isso. Houve consequências sérias que não afetaram só você, minha mãe não te pouparia de mais uma erro gigantesco, aquele garoto é ilegal e o meu sangue corre nas veias dele, é mais do que a sua obrigação cuidar para que não aconteça nada de errado envolvendo ele.
De alguma forma que eu não podia dizer qual, Zeno percebeu que eu estava ouvindo a conversa. Antes que eu pudesse me dar conta, seu rosto estava apenas alguns centímetros do meu. Com o movimento brusco acabei me assustando e dando o maior pulo da minha vida para trás. Em direção a janela. Então eu senti a pele do meu rosto queimar como nunca havia acontecido. Era quase como colocar minha própria cara dentro de uma frigideira. Tentei me proteger colocando o braço sobre o rosto, mas não deu certo.
— Idiota! — Zeno disse me puxando novamente para a sombra. — Eu mandei você ficar longe da janela.
Bolhas de diferentes tamanhos estavam no meu braço. A pele estava vermelha e ardida, eu não conseguia entender como aquilo estava acontecendo, talvez a história toda dos vampiros fosse verdadeira.
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