Frequência do Amor
10 Capítulo 10
10
O som da campainha ecoou pelo apartamento de Taehyung, quebrando o silêncio de uma espera que parecia ter durado horas. Taehyung deu uma última olhada ao redor. Ele havia passado a tarde organizando tudo; as superfícies de granito brilhavam sob a iluminação quente da cozinha e o jogo de facas que comprara recentemente — por recomendação de JungWoo — estava alinhado sobre a bancada. Ele respirou fundo e caminhou até a porta.
Ao abrir, ele deu de cara com a imagem que vinha ocupando cada fresta de seus pensamentos. JungWoo estava ali, parado no corredor. O visual dele era exatamente como Taehyung lembrava: os traços do rosto eram finos e delicados, uma beleza que parecia esculpida, mas os olhos tinham aquela profundidade séria de quem observa tudo. Ele estava com seus abafadores de som no pescoço, o acessório que sempre usava para neutralizar o barulho do trajeto, mas, dessa vez, havia algo diferente. Ao encontrar os olhos de Taehyung, a expressão de JungWoo não trouxe aquela tensão de estar em um lugar novo. Ele parecia relaxado. Parecia, de certa forma, que estava chegando em um lugar onde queria estar.
— Você veio mesmo — Taehyung disse, com um sorriso que nasceu livre e contagiante.
Antes que JungWoo pudesse dizer qualquer coisa, Taehyung se deixou levar pelo impulso. Ele deu um passo à frente e envolveu JungWoo em um abraço espontâneo. Foi um abraço de boas-vindas real, firme, sentindo por um instante a presença calma de JungWoo contra si. JungWoo ficou estático por um breve segundo, mas logo relaxou, retribuindo o contato de forma sutil.
— Oi, Taehyung — JungWoo respondeu baixinho quando se afastaram, a voz calma e com um tom suave de contentamento. Ele olhou para dentro do apartamento com uma curiosidade leve. — Aqui é muito tranquilo. É o tipo de silêncio que faz a gente se sentir bem.
Taehyung riu, sentindo o peito leve. — É o efeito da vizinhança, eu escolhi a dedo. Entra logo.
JungWoo entrou com passos medidos, observando a decoração com atenção. Taehyung apenas o acompanhava, fechando a porta atrás de si.
— A casa é sua, JungWoo. É um lugar simples, mas é onde eu consigo ser eu mesmo — Taehyung explicou, caminhando ao lado dele.
Ele fez um tour breve, mostrando a sala de estar e o terraço com vista para a cidade, mas logo o guiou para a cozinha.
— E aqui — Taehyung disse, indicando a área — é onde eu tento colocar em prática tudo o que você me ensina.
Eles entraram na cozinha. JungWoo parou no centro do cômodo. Seus olhos percorreram cada detalhe: a iluminação focada, a organização dos insumos e a disposição das tábuas de corte. Ele se aproximou da bancada principal, deslizando as pontas dos dedos pela pedra fria. Houve um silêncio enquanto ele analisava o espaço.
— Taehyung... — JungWoo começou, e um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios enquanto ele olhava para o amigo. — Estou impressionado. De verdade. Você montou uma estrutura quase profissional aqui.
Taehyung encostou-se levemente na bancada oposta, observando a reação de JungWoo. Ele se sentia realizado ao ver que o esforço que fizera para entender aquele mundo estava sendo reconhecido.
— Eu levei a sério o que você disse sobre respeitar o processo — Taehyung confessou, a voz mais baixa. — Se eu ia aprender com você, precisava pelo menos ter o ambiente certo.
JungWoo assentiu devagar, ainda admirando o lugar. — Ver que você se esforçou para criar esse espaço diz muito sobre como você valoriza as coisas que conversamos. É um bom começo.
Ele se virou totalmente para Taehyung, e por um momento, a dinâmica entre eles mudou. Não era mais sobre a aula ou sobre as técnicas. Era sobre eles dois ali, naquele espaço privado, dividindo uma proximidade real.
— Obrigado por me convidar — JungWoo disse, com uma sinceridade que desarmou Taehyung. — É bom estar aqui.
Taehyung sorriu, sentindo que a noite estava apenas começando. Eles estavam confortáveis um com o outro, e isso era tudo o que importava.
JungWoo deixou os abafadores de som sobre uma banqueta e começou a arregaçar as mangas da camisa com uma precisão que Taehyung achou hipnotizante. Ele não perdeu tempo; logo estava examinando os legumes que Taehyung havia selecionado.
— Vamos começar pelo básico: o corte. Se a base não for uniforme, o cozimento será desigual — JungWoo explicou, pegando uma das facas. — Mostre-me como você está segurando.
Taehyung se posicionou, tentando lembrar de cada instrução que ouvira pelo telefone. Ele segurou o cabo da faca, mas sentia que seus dedos, grandes e agora mais pesados pela musculatura, pareciam desajeitados para a delicadeza que a lâmina pedia. JungWoo observou em silêncio por alguns segundos, com uma paciência que Taehyung não esperava de um chef tão rigoroso.
— Você está colocando força onde precisa de jeito, Taehyung — JungWoo disse, aproximando-se.
Diferente do tom formal de antes, JungWoo moveu-se com naturalidade para trás de Taehyung. Por ser mais baixo e ter uma estrutura mais fina, o corpo de JungWoo quase parecia "abraçar" as costas de Taehyung para alcançar a bancada. Ele passou os braços pelas laterais do corpo de Taehyung, envolvendo-o para alcançar suas mãos.
Taehyung soltou uma risada anasalada, achando a situação engraçada. — JungWoo, eu acho que estou bloqueando sua visão. Você é um pouco... compacto demais para esse ângulo.
JungWoo não se abalou. Ele soltou um riso baixo, um som raro e suave que vibrou perto das costas de Taehyung.
— O problema não é o meu tamanho, é a sua teimosia em ficar rígido como uma estátua. Relaxa os ombros.
A sensação era inusitada. JungWoo guiou a mão de Taehyung com a sua, os dedos finos e precisos movendo-se sobre os dele. Era um contraste visual e tátil: a mão maior e forte de Taehyung sendo conduzida pela mão menor e experiente de JungWoo. Enquanto a lâmina deslizava suavemente pelos vegetais, o clima de "aula" começou a se misturar com conversas aleatórias.
— Você sabia que se os chefs do século dezoito vissem a qualidade desse aço, eles achariam que é feitiçaria? — JungWoo comentou, enquanto corrigia a angulação do pulso de Taehyung.
— Feitiçaria? Eu acho que eles achariam feitiçaria é o fato de você conseguir falar de história da metalurgia enquanto me impede de perder um dedo — Taehyung brincou, virando um pouco o rosto para olhar JungWoo, que estava logo ali, concentrado.
Eles riram juntos, uma risada leve que preencheu a cozinha. Taehyung percebeu que JungWoo era um professor surpreendentemente paciente; ele não se irritava com as falhas, apenas as corrigia com um toque ou uma explicação calma. Em certo momento, Taehyung se atrapalhou com uma cebola que teimava em escorregar, e a frustração o fez soltar um resmungo engraçado.
— Ela está viva! — Taehyung exclamou.
JungWoo riu de novo, encostando a testa de leve no ombro de Taehyung por um segundo enquanto tentava se recuperar do riso. — Ela não está viva, você que está tentando lutar com ela em vez de acompanhá-la.
A proximidade física, que antes poderia parecer estranha, tornou-se o ponto alto da noite. Taehyung se sentia confortável com o corpo de JungWoo ali, naquela espécie de abraço funcional, e a conversa fluía entre dicas de culinária, piadas sobre as esquisitices dos vizinhos e reflexões sobre como a vida era mais simples quando se tinha uma boa refeição pela frente.
— Sabe — Taehyung disse, enquanto eles finalmente terminavam a primeira etapa — eu achei que você seria um professor muito mais assustador.
JungWoo se afastou um pouco, limpando a lâmina com um pano, e olhou para Taehyung com um brilho divertido nos olhos.
— Eu sou assustador com quem não se esforça. Com você... é diferente. Você é um bom aluno, mesmo sendo um pouco desastrado.
Taehyung sorriu, sentindo que aquela cozinha nunca tinha sido tão cheia de vida como naquele momento.
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