Frequência do Amor
16 Capítulo 16
Notas iniciais
16
Os dias seguintes ao jantar e ao abraço na kitnet foram engolidos por uma espiral que Taehyung conhecia bem, mas que nunca pareceu tão sufocante. Era época de preparativos intensos, sessões de fotos para capas de revistas e ensaios que exigiam cada fibra de seu foco. Taehyung ainda estava enfrentando um cancelamento por conta de uma careta mau interpretada em uma entrevista. Que o silêncio tinha se tornado um artigo de luxo que ele não podia pagar.
Em meio ao caos de trocas de figurino, maquiagem sendo retocada a cada cinco minutos e o constante burburinho da equipe técnica, a mente de Taehyung fugia. Ele se pegava olhando para o relógio entre um flash e outro, calculando mentalmente os horários de JungWoo. Imaginava que, àquela hora, JungWoo estaria finalmente finalizando seu turno exaustivo na cozinha do restaurante, retirando o avental com a mesma precisão de sempre e caminhando em direção ao ponto de ônibus, ansioso para retornar ao seu refúgio de dez metros quadrados. Taehyung sentia uma pontada de inveja daquela rotina previsível; imaginava JungWoo chegando em casa, tirando os sapatos e se preparando para descansar no silêncio absoluto, longe de qualquer interferência humana, exatamente como ele sempre fazia após o trabalho. Esses pensamentos eram as únicas âncoras que impediam Taehyung de se sentir à deriva no meio de tantas pessoas gritando seu nome e coordenando seus movimentos.
Quando o turno de Taehyung finalmente acabou, já passava das três da manhã. O trajeto de volta para casa na van escura foi um borrão de luzes de neon e exaustão física. Ele sentia os músculos das costas tensos e os ouvidos ainda zumbindo com a música alta do estúdio e as instruções repetitivas do coreógrafo. Ele estava esgotado, com aquela fadiga que ultrapassa a pele e se instala nos ossos, mas, ao mesmo tempo, sentia uma necessidade desesperada de se reconectar com algo que fosse real e estável.
Ao chegar em sua cobertura, o contraste do vazio foi quase doloroso. Ele deixou a jaqueta de grife cair sobre uma poltrona qualquer e caminhou até a varanda, olhando para o céu poluído de Seul que escondia as estrelas que ele agora tentava identificar por causa de JungWoo. Ele se sentia um estranho em sua própria vida agitada, como se o "V" fosse uma armadura pesada demais para ser carregada por tanto tempo sem pausa.
Ele pegou o celular, a tela brilhando contra seu rosto pálido de cansaço, e viu que não havia mensagens novas. JungWoo respeitava o horário de sono e o seu tempo de recuperação pós-trabalho com um rigor matemático. Taehyung hesitou, sentindo o peso do isolamento da sua própria fama, mas acabou digitando:
"Acabei de chegar em casa. O turno foi longo e o barulho não para de ecoar na minha cabeça. Esqueci o meu cachecol aí, mas acho que esqueci mais do que isso. Esqueci como é o som do silêncio."
Ele não esperava uma resposta imediata, pensando que JungWoo já estaria mergulhado em seu descanso sagrado, mas o ícone de digitação apareceu em poucos segundos.
JungWoo:
"O som se dissipa, Taehyung. O silêncio é a regra do universo, o barulho é apenas uma breve exceção térmica. Vá dormir. O corpo humano não funciona bem sem descanso."
Taehyung encostou a testa no vidro frio da janela e sorriu, sentindo um alívio genuíno. Era uma resposta técnica, curta e livre de qualquer sentimentalismo projetado, e era exatamente o que ele precisava. JungWoo não tentava confortá-lo com clichês; ele oferecia a estabilidade inabalável dos fatos.
— Uma breve exceção... — Taehyung sussurrou para o vidro embaçado por sua respiração.
Ele percebeu que, por mais agitada e barulhenta que sua vida fosse, o "V" e toda aquela correria eram apenas a exceção. O silêncio que ele encontrava na cozinha de JungWoo, ou mesmo através daquelas mensagens lógicas, era a regra para a qual ele sempre queria voltar para se sentir inteiro novamente.
Ele caminhou até o quarto e se deitou, sentindo o peso do corpo finalmente ceder ao colchão. Pela primeira vez em dias, seus batimentos cardíacos desaceleraram até um ritmo calmo. Ele ainda tinha o cachecol para buscar e uma música para mostrar, mas saber que a lógica silenciosa de JungWoo estava acordada e presente em algum lugar da cidade era o suficiente para deixá-lo finalmente dormir.
Conforme os dias passaram, a correria frenética do comeback e a pressão dos projetos finais realmente começaram a diminuir, dissipando-se exatamente como JungWoo previra. O barulho ensurdecedor das promoções e a euforia constante foram perdendo intensidade até se tornarem apenas calor residual em sua memória. A regra do universo, o silêncio, estava voltando a se impor conforme sua agenda finalmente dava uma trégua.
Assim que o último compromisso oficial foi concluído, Taehyung não voltou para sua cobertura. Ele dirigiu através da noite calma de Seul, sentindo o peso da armadura de celebridade finalmente cair de seus ombros. Ele subiu as escadas familiares de Seochon, sentindo o ar frio da noite, e parou diante da porta de madeira da kitnet.
Ele deu três batidas leves, mantendo o ritmo que sabia que não seria invasivo para os ouvidos de JungWoo. Quando a porta se abriu, Taehyung se surpreendeu. JungWoo o olhou e, por um breve segundo, seus olhos se iluminaram de uma forma que Taehyung nunca tinha visto; ele estava sorrindo com o olhar. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, JungWoo deu um passo à frente e o envolveu em um abraço firme.
Taehyung deu um sorriso cansado, mas genuíno, sentindo o corpo relaxar ao retribuir o gesto.
— Você estava certo, JungWoo-ssi — disse ele, ainda no abraço. — O barulho finalmente se dissipou. O silêncio é a regra do universo...
JungWoo se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Taehyung, mantendo as mãos apoiadas nos braços dele. Com uma sinceridade tão pura que não precisava de nenhuma explicação lógica, ele disse:
— Eu senti sua falta, Taehyung.
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