Frequência do Amor
15 Capítulo 15
O silêncio do carro que levava Taehyung de volta para casa parecia diferente naquela noite. Não era um vazio, era um eco da paz que ele acabara de deixar na kitnet de Seochon. Ele encostou a cabeça no vidro frio e viu as luzes de Seul passarem como borrões. Ele precisava falar. Pegou o celular e discou o número que sabia que estaria disponível, não importava a hora.
— Tae? Está tudo bem? — a voz de Namjoon soou baixa, possivelmente ele estava no estúdio ou lendo na biblioteca.
— Hyung... — Taehyung suspirou, e o som saiu carregado de uma realização que o assustava. — Eu acabei de sair da casa do JungWoo.
Houve uma pausa do outro lado. Namjoon conhecia aquele tom de voz. Era o tom que Taehyung usava quando encontrava uma música que mudava sua alma ou uma obra de arte que o fazia chorar.
— E como foi? — Namjoon perguntou com suavidade.
— Foi... real. Mais real do que qualquer coisa que eu já vivi nesse meio, hyung. A casa dele é minúscula, mas nela cabe o universo inteiro. Ele me mostrou as estrelas, me serviu um risoto que parecia uma fórmula matemática de tão perfeito... e eu o abracei.
Taehyung fechou os olhos, revivendo a sensação do corpo de JungWoo contra o seu.
— Eu estou apaixonado por ele, Namjoon. De um jeito que não dá mais para fingir que é só curiosidade ou admiração. Eu sinto que, se o mundo acabasse amanhã, o único lugar onde eu estaria seguro seria naquela cozinha de dois metros quadrados ouvindo ele falar sobre o período Cretáceo.
Namjoon soltou um suspiro longo, um som que misturava compreensão e uma ponta de preocupação fraternal.
— Tae... você sabe o que isso implica, não sabe? — Namjoon começou, a voz assumindo aquele tom de líder que precisa enxergar três passos à frente. — O JungWoo não é como as pessoas com quem costumamos lidar. Ele tem um funcionamento sagrado. O Peakboy me contou o que conversaram no jantar. O JungWoo é autista, Tae. E isso significa que o amor dele não vai ter as nuances, os jogos ou as "máscaras" que você está acostumado a ver. Vai ser uma verdade bruta, o tempo todo.
— Eu sei — Taehyung respondeu prontamente. — E é exatamente isso que me prende a ele.
— Mas tem o nosso mundo — Namjoon interveio, o tom mais grave. — A sua vida é um barulho constante. É flash, é fã, são horários que mudam a cada cinco minutos, é a falta total de privacidade. Como você vai trazer alguém que precisa de silêncio, de rotina e de previsibilidade para dentro desse caos? Você está disposto a ser o escudo dele contra a sua própria fama? Porque se você falhar, o dano nele não vai ser apenas emocional, vai ser sensorial, vai ser físico. Além disso, Tae... precisamos ser realistas sobre nós. Somos um grupo. Sete homens que o mundo observa com uma lupa. Um relacionamento entre dois homens, na nossa posição e no nosso país, não é apenas um namoro qualquer. É uma declaração que reverbera em todos nós. Você está pronto para o peso que isso coloca nos outros membros?
Taehyung apertou o celular contra a orelha. A pergunta de Namjoon era a variável que ele ainda não tinha coragem de calcular totalmente. Ele pensou em Jimin, em Jungkook, em cada um dos seus irmãos.
— Eu tenho medo de ser "demais" para ele, hyung, e tenho medo de ser o motivo de um escândalo que respingue em vocês — Taehyung confessou, a voz falhando levemente. — Eu sei o peso que cada um carrega para manter essa engrenagem funcionando. Eu não quero colocar a pele de vocês em risco. Mas o JungWoo... ele é a única coisa que me impede de me perder completamente no "V". Ele não me vê como um ídolo.
— Se o JungWoo é a sua paz, a gente vai ajudar a manter o muro de pé — Namjoon disse com firmeza. — Nós somos uma família antes de sermos um grupo. Se for real para você, será real para nós também. Não carregue o medo do prejuízo sozinho. Mas aprenda a linguagem dele. Não adianta querer que ele entenda as suas entrelinhas. Você vai ter que ser tão honesto quanto ele.
Taehyung olhou para as próprias mãos, que ainda pareciam carregar o calor da cintura de JungWoo.
— Eu estou pronto para recalibrar a minha vida inteira, hyung. Se for para manter o brilho dele intacto... eu faço qualquer coisa.
— Então você já tem sua resposta. Vá descansar. Amanhã o mundo volta a fazer barulho, mas pelo menos agora você sabe para onde voltar quando precisar de silêncio.
Taehyung desligou o celular e o jogou no banco ao lado. O apoio de Namjoon trouxe um alívio temporário, mas logo foi substituído por uma realização avassaladora que o fez saltar no assento.
— Espera aí... — ele murmurou para o vazio do carro, os olhos arregalados de pânico súbito. — O que eu estou fazendo? Eu estou aqui planejando como enfrentar a indústria, como proteger ele do mundo e como recalibrar a minha vida... e eu nem sei se é recíproco!
Ele começou a repassar cada segundo daquela noite na kitnet. O abraço na pia. JungWoo não se afastou, ele relaxou, ele até apertou seus braços de volta... mas e se foi apenas um gesto de amizade? Ou pior, e se foi apenas uma reação sensorial neutra?
— "Você é uma descoberta", ele disse — Taehyung começou a falar sozinho, gesticulando freneticamente. — Mas o que isso significa no dicionário dele? Uma descoberta tipo um fóssil novo que ele coloca na estante? Ou uma descoberta tipo "eu quero você na minha vida"? Meu Deus, eu estou apaixonado por um homem que pode me ver como uma variável estatística interessante!
Ele lembrou que JungWoo é literal. JungWoo não faz jogos. Se ele não disse "eu te amo" ou "eu quero você", talvez ele nem tenha passado perto desse pensamento.
— Eu abracei ele por trás! Eu encostei o rosto no pescoço dele! E se ele só foi educado? Não, o JungWoo não é educado, ele é honesto... Mas e se a honestidade dele for apenas: "Taehyung é quente, o calor é agradável para o meu sistema sensorial hoje"?
O pânico de não saber ler as entrelinhas de alguém que não tem entrelinhas atingiu Taehyung como um balde de água fria. Ele era o rei da intuição, o homem que lia olhares, e agora estava completamente cego diante da lógica cristalina de JungWoo. Ele encostou a testa no banco da frente, rindo de nervoso da própria desgraça. Ele estava pronto para lutar contra o mundo por um homem que talvez só estivesse feliz porque o risoto de cogumelos tinha ficado no ponto certo.
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