A cobertura do hotel em Seul era impecável, luxuosa e terrivelmente silenciosa. Para Taehyung, o mármore frio sob seus pés parecia refletir exatamente como ele se sentia por dentro. O show havia terminado há poucas horas; o suor já tinha secado e os aplausos tinham se tornado apenas um zumbido distante em sua mente.

Ele se aproximou da imensa parede de vidro que ia do chão ao teto. Lá embaixo, a cidade brilhava, mas para ele, aquelas luzes pareciam estrelas mortas. O vazio no peito era uma presença física, uma pressão que tornava o ato de respirar um esforço consciente. Kim Taehyung amava o que fazia, amava seus companheiros de grupo e sua família sempre foi seu porto seguro. Não havia uma tragédia, um trauma ou um motivo aparente para aquela dor. Mas a depressão e a ansiedade são doenças que não precisam de justificativas; elas simplesmente habitam o corpo, transformando a gratidão em peso e o sucesso em um abismo solitário. Naquele momento, Kim Taehyung não era o ídolo mundial; era apenas um homem cercado por um vazio que a fama não conseguia tocar.

Seus pensamentos começavam a flutuar por águas turvas, questionando o sentido de tudo. Por que o topo do mundo parecia tão frio? Em um movimento automático, ele buscou o celular no bolso, apenas para ter algo onde ancorar as mãos trêmulas. Ele abriu as solicitações de mensagens, navegando por um oceano de elogios vazios, até que seus olhos travaram em um texto que não começava com um grito, mas com um sussurro.

A mensagem vinha de um perfil simples, sem fotos profissionais, pertencente a alguém chamado JungWoo:

"Olá. Eu sei que você deve receber um milhão de mensagens agora, mas meu coração não vai me deixar dormir se eu não te enviar isso..."

Taehyung franziu o cenho, sentindo um arrepio percorrer sua nuca enquanto lia o parágrafo seguinte. As palavras pareciam ter sido sopradas diretamente em seu ouvido:

"Você gasta tanta energia tentando não ser um peso para os outros que acabou esquecendo como é o seu próprio peso. Eu vejo como você sorri quando quer gritar e como pede desculpas por existir, mesmo quando é você quem está sendo ferido. O vazio que você sente não é falta de amor do mundo, é a sua própria ausência dentro de si mesmo. Por favor, pare de se pedir desculpas e comece a se oferecer trégua. Trate sua própria alma com a doçura que você dedica aos outros, antes que não sobre nada de você para receber o que você tanto oferece."


O texto tinha uma cadência quase mística, como uma oração dita em voz baixa no meio do caos. Taehyung sentiu os olhos marejarem. Como aquele estranho sabia que ele estava se punindo? Como ele conhecia a exata temperatura do seu vazio?

A mensagem terminava de forma informal, trazendo-o de volta à realidade:

"Eu não sei o que aconteceu exatamente aí dentro, mas espero de verdade que você fique bem, tá? Acho que agora minha alma pode descansar. Melhoras."

Sem pensar, Taehyung digitou uma resposta curta, com os dedos ainda instáveis: "Muito obrigado. De verdade."

Nos dias que se seguiram, a rotina de Taehyung continuou a mesma — ensaios, reuniões e flashes —, mas algo em seu interior havia mudado. As palavras de JungWoo haviam se instalado em sua mente como uma melodia persistente. Sempre que a pressão aumentava ou que o "vazio" tentava retornar, ele se pegava repetindo o sussurro daquela mensagem: "Trate sua própria alma com a doçura que você dedica aos outros".

A curiosidade era uma chama lenta, mas constante. Taehyung voltava àquela conversa várias vezes ao dia. Ele olhava para o pequeno coração vermelho — a única resposta que recebeu — e se sentia intrigado. Por que aquela pessoa não tinha dito mais nada? Por que não houve um "sou seu fã" ou um "por favor, me veja"?

Aquele silêncio de JungWoo era, para Taehyung, a prova mais real de que a mensagem não tinha sido um truque para chamar atenção, mas um ato de bondade genuína.

Ele entrou no perfil de JungWoo algumas vezes, mas apenas de relance, sentindo um estranho respeito pela privacidade daquele homem. Ele via as fotos de comida, o céu noturno e o nome "JungWoo", mas ainda não se permitia analisar os detalhes. Ele estava focado no mistério daquela alma que parecia tê-lo lido tão bem.

No quarto dia, após um ensaio exaustivo onde ele se sentiu especialmente "vazio", a necessidade de conexão venceu o receio. Ele não queria falar com os produtores, nem com os membros (que ele amava, mas que já conheciam todas as suas dores), ele queria falar com a voz do sussurro.

Deitado no sofá de seu camarim, Taehyung abriu a DM. O coração vermelho ainda estava lá, silencioso. Ele digitou, hesitou, apagou e finalmente enviou algo que soava como um pedido de socorro disfarçado de curiosidade:

"Eu ainda estou pensando no que você me escreveu. Como você sabia? Como sabia exatamente o que eu estava sentindo?"

Ele bloqueou a tela imediatamente, o coração batendo rápido contra as costelas. Ele não sabia se JungWoo estava acordado ou se sequer veria a mensagem tão cedo, mas o simples ato de perguntar já parecia o primeiro passo para sair do abismo.

Passaram-se algumas horas. Taehyung já estava em casa, o silêncio do quarto tornando o brilho do celular ainda mais incômodo. Quando a notificação finalmente apareceu, he leu a resposta de JungWoo e franziu o cenho imediatamente.

"Não sabia, apenas fui mandado repassar. Não o culpo se me considerar um louco!"

Taehyung jogou o celular sobre os lençóis e soltou um riso nasalado, cheio de descrença.

— "Fui mandado repassar"? — ele repetiu para o teto, irônico. — Qual é a desse cara?

A resposta soava como algo saído de um filme ruim ou de alguém tentando desesperadamente parecer interessante e misterioso. No mundo de Taehyung, pessoas que diziam ter "mensagens do destino" geralmente queriam algo em troca: dinheiro, influência ou apenas a satisfação de dizer que falaram com ele.

Ele cruzou os braços, sentindo uma mistura de irritação e uma curiosidade teimosa. Se JungWoo fosse um fã, ele teria surtado com a resposta de Taehyung. Se fosse um golpista, teria aproveitado para puxar assunto. Mas aquela frase curta e a admissão de que ele era "louco" deixavam um vácuo difícil de preencher.

Taehyung pegou o celular de novo, encarando a foto de perfil sem rosto. Ele não se sentia "confortado" agora; ele se sentia desafiado. Ele queria entender se aquele cara era um excêntrico real ou apenas alguém muito bom em criar uma persona enigmática.

— Ok, "louco" — murmurou Taehyung, os dedos pairando sobre o teclado. — Vamos ver até onde vai essa sua história.

Ele não respondeu com doçura. Respondeu com a defensiva de quem já foi enganado muitas vezes:

"Mandado por quem? Você fala como se fosse um profeta. É assim que você aborda todo mundo?"

Ele enviou e bloqueou a tela. O "vazio" ainda estava lá, mas agora estava sendo mascarado por uma irritação curiosa. Ele queria uma resposta, mas, acima de tudo, queria entender qual era o jogo de JungWoo.

A resposta de JungWoo veio logo em seguida, curta e sem nenhum esforço para parecer especial:

"Para ser sincero, nem eu mesmo sei explicar. Só sei que eu queria muito descansar, o meu turno tinha sido longo, mas algo não me deixava em paz. Eu precisava enviar esse recado para conseguir dormir. Só isso. Fiquei um pouco preocupado, eu acho."

Taehyung leu a mensagem e soltou uma risada curta, balançando a cabeça. Ele não sentiu uma conexão mágica ou profunda; ele sentiu que estava falando com alguém genuinamente estranho.

— É, você realmente está parecendo um louco — Taehyung digitou, sem filtros. Ele não estava tentando ser profundo, estava apenas constatando o óbvio. Quem mandava mensagens para estranhos no meio da madrugada dizendo que "algo não o deixava em paz"?

Do outro lado, JungWoo viu a mensagem. Ele não ficou ofendido, não tentou provar seu valor e nem continuou o assunto. Ele apenas digitou a última frase da noite:

"Eu não o culpo por pensar assim. Boa noite, Taehyung."

Taehyung visualizou e não respondeu. Ele bloqueou a tela, achando a interação toda muito esquisita, e jogou o celular de lado. Não houve uma "investigação" ou uma busca por significado. Ele apenas fechou os olhos, achando que aquele era apenas mais um dos episódios bizarros que a fama trazia para a sua vida.

A conversa se encerrou ali, no vácuo e no estranhamento.

Notas finais
Muito tempo que não posto nada. Escrevi essa história, entre outras e gostaria de dividir com outras pessoas. Espero que quem tenha lido esse capítulo tenha gostado.