Frenemies
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um debruçado sobre o outro, caminhavam trôpegos, duas figuras cambaleantes cujas sombras cresciam e inundavam a rua deserta sob o sol do crepúsculo, braços se erguiam para um brinde imaginário, pernas se enroscavam e levavam os dois companheiros ao chão. Levantaram a custo e seguiram caminho. Sem tardar entravam alegres, entoando uma canção qualquer, numa casa simples.
Vale ressaltar, a moradia pertencia a um deles, não ao outro, fora uma casa conseguida com suor, pois até então, e por culpa de seu companheiro, morava debaixo da ponte, perto de uma ribanceira. A questão era que seu companheiro lhe tirara a casa numa peça que pregara no ano anterior, e por isso teve que lutar para tê-la de volta, mas isto não vem ao caso. Os dois entraram na casa e se dirigiram para a sala de estar caindo um em cima do outro.
O mais velho da dupla murmurou algum descontentamento, dizia que era muito pesado e que se movesse para um lado, o outro, por sua vez, dizia que ele cheirava mal e que tomasse logo um banho. Ficaram assim se digladiando por tempo indefinido, até que um deles tomasse a iniciativa e por fim cedesse. Quem teve essa ideia fora o mais velho, mais uma vez, desistindo de briga tão imatura e indo até o banheiro.
Acompanhemos sua ida à banheira velha que mal cabia uma pessoa. Ele se despira expondo seu corpo envelhecido e de uma magreza de que ninguém duvidaria de sua antiga moradia, suas costelas estavam à mostra fazendo a única curva de seu corpo inteiro, seu peito era saliente, enquanto nada se via de sua barriga além dos ossos, apoiava-se sobre dois gravetos de pernas e saíam das laterais dois gravetos de braços. O homem aguardou a água esquentar enquanto se ensaboava e limpava seus cabelos castanhos que lhe batiam no ombro, todo ensebados e com cheiro forte.
Este homem entrou com meticulosidade na banheira, primeiro adentrou as pontas do pé, sentindo a diferença de temperatura, depois mergulhou a perna e por fim estava como que de uma só vez dentro da banheira, mal fizera volume e a água não sofrera o efeito de Arquimedes.
Seus músculos aos poucos se relaxavam e sua mente, entorpecida, passou a divagar com liberdade. O homem pensava na razão de seu companheiro estar lá, o que o levara a trazer aquela desgraça para a tranquilidade do lar. Ele causara vários estragos em sua vida, especialmente quando era mais novo, e agora que tinha idade para beber, o chamava com mais frequência para saírem juntos, curtir a tarde. Não que pudesse recusar, não que quisesse, mas no seu íntimo sentia um aperto. Era derivado de muitas reflexões anteriores, como qual era a relação deles, afinal. Se eram amigos, inimigos, rivais, uma mistura dos três, ou talvez tivesse ali um elemento a mais, ainda não identificado.
O homem pensou a custo, até seus pensamentos serem invadidos por uma voz que gritava de fora, quando é que ele iria sair, precisava naquele instante usar o banheiro, sem poder reclamar mais, respondeu que a porta estava aberta era só entrar, e foi o que ele fez. Tentou mais uma vez se concentrar, mas o barulho de água escorrendo fazia eco em sua mente, e então puxavam assunto. Seu companheiro reclamava de alguém chamado Choromatsu, que outro dia lhe tomou das mãos uma de suas revistas, na verdade, confiscou-a, pois na capa tinha uma chamada interessante, ora, mas se a revista não era dele, que pelo menos pedisse permissão, era aí que entrava esse doentio vício por ídolos que ele tinha, onde já se viu, pegar das mãos do irmão mais velho, sua revista novinha, etc, etc.
Parecia que uma orquestra sinfônica inteira tocava-lhe ao pé do ouvido, e de fato se sucedia, pois tapou os ouvidos durante todo o falatório. Já terminou, sai logo daí zansu, exclamou sem nenhuma paciência o que foi respondido por um já estou saindo, credo. Voltou ao silêncio e aos seus pensamentos. Sim, por que deixara ele entrar, por que o convidara para dentro de seu antro sagrado, sua cova maculada, eram perguntas pertinentes.
Mergulhou fundo, só a metade de sua cabeça estava para fora da água, para que pelo menos pudesse respirar. Pensava o que seria dele agora, estava a sós com aquele moleque, apenas mais um dos seis diabinhos, só mais um deles. De repente a água pareceu mais quente, até pouco tempo passava a mão envolta do ombro dele e ele fazia o mesmo, andavam alegres por ruas desertas fazendo algazarras, cantando velhas canções, se lembrando de velhos tempos, de quando era ele contra os seis, e agora era ele contra um.
Iyami mirou a palma de sua mão enrugada pelo tempo de imersão, ele estava com mais de trinta anos, Osomatsu era dez anos mais novo que ele, e naquela tarde dissera de um jeito tão natural que gostava da sua companhia, que se sentia à vontade quando saíam só os dois. Os lábios tão cheios de Osomatsu se abriram num sorriso triste, seu olhar emitia um brilho como se refletisse todo o céu, Iyami era envolto por esse céu e deixou, sem perceber, um dos hashis caírem de sua mão para o balcão, e de lá para o chão.
De repente sentiu-se vazio, ali, na banheira, sozinho, sentia falta da companhia de há pouco, daquela voz rouca vibrando dentro de si. Entortou a boca, franziu o cenho e desejou sair dali o quanto antes. Terminou o banho, se enxugou e colocou um pijama de algodão leve. Até que enfim, Osomatsu disse, você pretendia dormir lá mesmo, vem, estou com frio, vamos deitar, e o seguiu até seu quarto, o corpo que se arrastava era diferente do restante de energia do jovem.
Os dois dividiam um colchonete, seu companheiro estava largado, o braço esparramado sobre seu peito, enquanto ele se encolhia e dava um jeito de cair no sono, mas a tarefa parecia ser quase impossível, até a roncar seu companheiro estava disposto. Olhou para o lado e observou o outro, sua boca estava aberta, um fio de saliva escorria por seu queixo, seus cílios compridos davam uma expressão de paz em rosto tão sereno, se ajeitou com esforço embaixo das cobertas. Parecia que o ambiente esquentava, o frio que vinha lá de fora era uma brisa morna de verão, se remexeu ainda mais, e seus olhos não pregavam tão fixados estavam no jovem homem que dormia. Maldisse-se a meias palavras, e virou para o outro lado, fechou os olhos, e então, sem que esperasse por isso, um braço o envolveu e o puxou para perto de um corpo. Dessa vez, parou congelado.
— Estou com frio, Iyami. – Osomatsu choramingou.
— Vá dormir, zansu. Você está bêbado, zansu.
— Me esquenta, Iyami.
— Sheeeh!
Sentiu algo duro contra suas costas, um pouco acima de sua bunda, e logo soube o que era.
— O problema não é meu, vai resolver isso em outro lugar zansu yo.
— Mas eu quero você, agora.
— Moleque insolente. – Murmurou de si para si. – Está bem, zansu.
Osomatsu comemorou dando-lhe um beijo surpresa na ponta de seu dente, o fazendo corar até as orelhas, depois prosseguiu por tirar-lhe as roupas, fazendo o mesmo com as suas.
Dois corpos nus se enroscavam e caíam no piso quente daquela casa simples, misturavam-se o inimigo, o rival e o amigo, e um pouco mais de um outro elemento que agora não estava tão nítido para Iyami, mas que mais tarde se apresentou junto com a ressaca do amanhecer. Dois corpos nus se fundiam naquela sala pequena em cima de um colchonete para uma pessoa, mas que dormiam duas. Dois corpos nus, o do amante e o do amigo, numa única entidade que se movia para frente e para trás, juntos.
Para Iyami não havia nada de incomum no que acontecia, não era a primeira vez, e se era um ato imoral, ele também o era desde muito cedo. A relação que tinha com Osomatsu era incerta, até naquele momento era incerta, e por mais que pensasse era um amálgama de sentimentos difíceis de discernir. Sentia uma atração inconfundível por Osomatsu, mas nunca admitiria ao mesmo, o que faziam algumas noites eram exceções, um divertimento a mais, afinal, os dois se sentiam bem, os dois estavam à vontade. Era um consolo, ninguém iria aceitar nenhum deles, estavam fadados à solidão, não passava tudo somente de um consolo. Nada além disso, era o que dizia a si mesmo.
E então, exaustos, os dois corpos, ainda enrolados, adormeceram, o braço de um envolvendo o outro num confortável abraço.
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