Freedom Planet: Faith & Shock
54 Inveja - Parte 2
Notas iniciais
Shenlin Park
Bairro Milenar | Noite
Após os eventos do último capítulo, tomemos agora como cenário uma área mais esma e afastada, longe de transeuntes e comércio local. Estávamos desta vez em um dos becos escuros do Bairro Milenar, onde dava acesso a um pátio, mais precisamente um depósito de telhas orientais e ornamentação.
Lá estavam Viktor e Yan Shu, que o convidou até o lugar afastado para conversarem abertamente. Logo o felino, ex membro do clã Uhma, disse:
— Você deve estar com muitas dúvidas, mas não mais do que eu.
— Porque me trouxe até aqui pra conversar, Yan Shu?
O felino então se aproximou de forma intimidadora para o jovem, dizendo:
— Você teve a audácia de ajudar na Xihan Zone, me levou até o hospital, me disse baboseiras melosas até dizer chega... e disse pra eu te procurar no restaurante.
— Nossa, você foi?! Mas... A Izumi não me disse nada...
— NÃO SE FAÇA DE IDIOTA! – Disse, manifestando seus poderes – O que eu mais odeio nesse mundo são exibidos almofadinhas como você!
— O que?! Eu? Mas porque está me dizendo isso?
— Calhorda... Você não se satisfez de me humilhar e tratou logo de ir a forra comigo me dizendo pra ir vê-lo trabalhar naquele restaurante!
— O QUE?! VOCÊ ESTÁ LOUCO, CARA? – Gritou Viktor.
— DESGRAÇADO! PATIFE! – Yan Shu estava mais irritado – Deveria ter me deixado morrer nas mãos do meu mestre! Pelo menos eu estaria tendo um fim digno e dentro do que eu procurei pra minha vida!
— Yan Shu, cara... Fica calmo! – Disse, se sentando a um monte de telhas próximo – Escute bem... Se você pensar bem, não faria o mínimo sentido eu ter te ajudado lá naquele armazém e eu tentar te ajudar agora.
— Não faz sentido você, um stranger, estar vivendo entre nós e trabalhando! – Disse, com sua aura brilhando – VOCÊ NÃO TEM IDEIA DO QUE É VIVER NESSE PLANETA E SER TRATADO COMO UM MARGINAL!
— EI, PARA COM ISSO, YAN SHU!
— ME DÊ UM BOM MOTIVO PRA EU NÃO ACABAR COM VOCÊ AGORA!
— PORQUE ESTÁ FAZENDO ISSO? Olha... Para de gritar e me deixe me expressar.
— Você tem um minuto... UM MINUTO PRA EU COMEÇAR A VARRER O CHÃO COM VOCÊ!
— Eu quero que você trabalhe comigo, é isso! – Disse, bem direto.
Yan Shu ficou totalmente imóvel, incrédulo pelo o que acabou de ouvir. E ele logo reagiu:
— HAHAHAHAHA! Você não pode estar falando sério... HAHAHAHAHA!
— E porque não?
— Um stranger como você me chamar para trabalhar... Você não me conhece, não é?
— Pouco... Me lembro que da primeira vez a gente quase lutou, mas a Lilac te derrotou.
— Grr... Não me lembre disso, idiota... – Disse, virando o rosto.
— Na segunda vez você me esmurrou que eu quase morri...
— Disso eu tenho boas recordações... – Disse, com um sorriso no rosto.
— VOCÊ QUASE ME MATOU! COMO ISSO PODE SER BOM?!
— Você invadiu meu território! O que você queria que eu fizesse?
— Deixar a mim e ao Mu sair dali sem ferimentos já era muito bom, sabia?
— Sem chance! O clã Uhma não admite piedade!
— Ah legal... Aí eu que tinha que morrer!
— Eu não ia te matar...
— Você me golpeou com força e ia me acertar com todo seu poder! Fica difícil acreditar!
— E qual é a sua? Você quer que eu peça desculpas? É isso? Eu sabia... Você só quer ir a forra comigo!
— O que?! Não muda de assunto! Você ia me matar!
— Porque meu clã não gosta que eu mostre fraqueza!
— Mas ia me matar!
— EU IA! – Disse, percebendo o que disse.
Yan Shu, após falar o que disse, demostrou um pouco de vergonha em seu rosto, já que:
— ... você me salvou lá no galpão... e eu dizendo isso sei que não foi legal.
— Porque você ia me matar?
— Viktor, não é fácil...
— PORQUE VOCÊ IA ME MATAR, YAN SHU?
— Pelo mesmo motivo que você sabe...
— Como assim?
— Pra alimentar meus conterrâneos da Xihan Zone eu preciso de gemas... A vida em Avalice não é fácil, Viktor. Ter cometido crimes faz muitas portas se fecharem. Eu só tinha o clã Uhma como lugar onde sabia fazer o que sei, mas agora... Estou na sarjeta. Poderia roubar e ser preso, pois na cela do palácio os presos são alimentados. Mas e aqui fora? Aquela gente passa fome todo dia porque o clã Uhma impede que elas saiam do lugar. E se saírem, não voltam porque podem ser eliminadas. Eu fazia tudo aquilo as escondidas, dizendo que ia selecionar possíveis membros, pra poder dar de comer a eles.
Viktor brevemente esqueceu do fato de que estava próximo da morte daquela vez que estava junto com Mu lutando pela vida. Embora possa parecer hipocrisia de Yan Shu, ele entendeu onde o felino queria chegar. E apagando de vez de sua mente qualquer rancor, disse:
— Você faz isso a quanto tempo?
— Um ano. Desde que esse lugar estava um pandemônio por causa desses lances com aqueles aliens do espaço.
— Ah você está falando do Brevon, não é?
— Sim... Conhece?
— Lilac me disse tudo... Foi uma imensa confusão e a Milla quase morreu...
— Eu sinto por isso... Mas aquela dragão é forte, eu reconheço.
— Ela é sim...
Um minuto se passou e o silêncio dos dois se manteve. Yan Shu estava sem graça e Viktor sem ideias para manter a conversa. Mas alguém deveria abrir a boca para dizer algo: o felino foi o primeiro.
— Porque você disse para eu ir até o restaurante onde você trabalha?
— Eu já disse. Pra você trabalhar com a gente.
— Viktor, isso é tão idiota que qualquer pessoa não acreditaria! Ninguém empregaria um cara como eu!
— Eu faria isso.
— Ha! Conte outra...
— Ei, não é piada! Eu estou mesmo falando sério!
— E porquê essa insistência em me ajudar? Ainda a pouco você estava me condenando por ter te esmurrado.
— Sim, não escondo isso. Aquilo não foi legal, mas pra tudo tem um motivo. Você estava muito errado em pensar em me matar, só que eu estou vivo. A Rin salvou a mim duas vezes!
— E o que tem isso? Aquela raposa sempre está impedindo a expansão do clã Uhma. Onde você quer chegar?
— Nem ela sabia que você estava dando de comer aquela gente... Aliás, eles não sabem até hoje. Todo os Quatro Postulantes não tem ideia do ato generoso que você fazia todos os dias! Por isso que eu te convidei... “Você não é uma má pessoa”, foi o que Lilac disse para um amigo meu chamado Noah (capítulo “O torneio TORMENTA – A Reunião”).
— Lá vem... Porque isso agora?
— Noah tinha feito coisas ruins, como traumatizar uma oponente em público. Mas ele não o fez porque quis. Tinha uma força maligna por trás disso e que foi selada pra sempre... Bem, Lilac sempre acreditou nele, de que era uma boa pessoa e que ninguém tinha moral de dizer o contrário. O preconceito acaba escondendo a pessoal real que se vê. Nós lutamos juntos, sofremos juntos e comemoramos juntos... No fim vencemos e Noah passou por muito mais coisas ruins, mas contra ele!
— E como terminou essa história?
— Não terminou. Ele continua a viver, cada dia, cada noite... Embora eu não tenha mais contato, ele resolveu todos os problemas e segue sua vida em Shang Mu. Ele sofreu muito com isso. O preconceito quase venceu, mas ele teve forças pra mudar uma situação ruim... e nós estávamos lá ao lado dele. Depois disso, só houve coisas boas.
— Aonde quer chegar com isso? Só sou um anônimo, Viktor...
— O Noah também era...
— E eu fiz coisas ruins...
— Ele também...
— Pare com essa conversa fiada! Você sabe muito bem que eu não sou uma... – Disse, sendo interrompido.
— VOCÊ NÃO É UMA MÁ PESSOA!
— Vi-Viktor...
— Não estou comparando o nível de “coisas ruins” que ambos fizeram. Noah não teve culpa de nada que ele fez, mas você sim... Então não pense que estou escondendo isso de mim mesmo. Só que estou falando unicamente de você e eu... O que você me fez já passou, eu superei. Você precisa fazer o mesmo...
— Falar é fácil... Como você pode ser tão inocente a ponto de pensar que tudo vai se resolver assim, do nada?
— Eu dei o primeiro passo que foi te pedir pra me procurar no restaurante. O segundo passo eu não posso dar.
— E porque?
— Porque o segundo precisa ser dado por você.
— Como é?
— Você tem uma chance de continuar ajudando aquelas pessoas. Mas vai depender desse passo. E então... O que você quer fazer da sua vida?
Desde que chegou em Avalice, Viktor finalmente agiu por contra própria no que diz respeito a ajudar outras pessoas desconhecidas. E Yan Shu não sabia lidar com a situação, já que nunca havia passado por tamanha provação.
Qual seria sua resposta?
Minutos depois...
Bairro Milenar
Sr Taotao’s Storage | Um pouco mais da noite
Ajudando ao raposa feneco em descarregar as últimas caixas em seu armazém situado no Bairro Milenar, Sr Taotao limpou seu rosto com uma toalha após terminar. Mas logo se encheu de preocupação.
— Onde será que estará o Viktor? Eu disse que estaria aqui...
— ... – Mu se limitou a ficar calado.
— Estou preocupado. Ele não costuma demorar...
— ... – O feneco se manteve em silêncio.
— Hm... Acho que é melhor voltarmos no Sallo Temple pra ver o que houve.
— Ótimo... – Disse, fechando o armazém – Mais trabalho. Posso ficar calado, não posso?
— Pode sim... Embora isso me irrite.
Só que ao fundo no quarteirão aparecia Viktor, caminhando, como Mu disse:
— Ele está vindo lá... *Idiota...*
— Que bom! Agora podíamos levá-lo até sua casa e...
O “e...” se estendeu um pouco mais, porque... Bem, vocês sabem que o jovem humano não estava sozinho. Então...
— PORQUE VOCÊ ESTÁ SENDO ACOMPANHADO PELO YAN SHU, VIKTOR?! – Disse Sr Taotao.
— EU VOU CHAMAR A POLÍCIA JÁ! – Disse Mu, pegando seu celular.
— EI, ESPERE! NÃO FAÇA ISSO! – Gritou Viktor.
— VEREMOS SE EU NÃO VOU FAZER!
— CALMA, MU! Olha... Fui eu quem o chamei pra vir comigo!
Dessa vez Sr Taotao interveio, dizendo:
— Que história é essa, Viktor?
— Ele está comigo. Não vai fazer mal a ninguém... Nunca mais até.
— Ok... Você tem um minuto pra me explicar.
Só que Mu não era assim tão compreensível:
— COMO É?! EU JÁ ESTOU NA LINHA COM UM POLICIAL...
E logo o feneco teve o celular confiscado pelo panda vermelho empreendedor, dizendo:
— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SR TAOTAO?!
— Dando chances para o Viktor se explicar!
— Explicar?! O Yan Shu está aqui junto com a gente, possivelmente vai fazer uma das dele...
— Você está vendo o Viktor preocupado? Eu não... Talvez só um pouco porque nós gritamos com ele sem saber de nada.
— SEM SABER?! O Yan Shu quase o matou! Eu estava lá! Eu vi!
— Hã?! Isso é verdade, Viktor?
Como Mu falou mais do que deveria, Viktor não vou outra forma a não ser dizer a verdade:
— Sim, ele tentou...
— Mas então porque ele está aqui com você?
— Pra que eu pudesse pedir pra que ele trabalhe comigo na cozinha do restaurante.
O silêncio repentino. O que dizia sobre o momento. Sr Taotao e Mu ficaram assim por aproximadamente três segundos, com o feneco dizendo:
— Isso já basta... Me dê meu celular, Sr Taotao. Vamos MESMO chamar a polícia!
— Ei, rapaz... – Disse, escondendo o celular – Não tão rápido...
— COMO É QUE É?! O SENHOR OUVIU O QUE ESSE LUNÁTICO AÍ DISSE?!
— Sim, eu ouvi. Mas é algo tão sério que eu não posso fazer piada e nem interpretar como uma.
— O SENHOR TÃO JOVEM JÁ FICOU ESCLEROSADO?! O fracassado aí quer dar um emprego pra ele e está dizendo isso na cara do senhor!
— Mu, abaixe sua voz... E esclerosado é o senhor seu pai, está bem?
— Mas...
E voltando suas atenções a Viktor, o panda vermelho disse:
— Viktor, você está mesmo falando sério, não é?
— Sim, estou...
— Bom... Você tem noção do que está me pedindo, não é?
— Com certeza...
— Você quer que eu empregue o Yan Shu, um delinquente que... – Ele foi interrompido.
— Ex-delinquente – Disse Yan Shu.
— Hã?! Você disse “ex-deliquente”? O Yan Shu, o que gostava de fazer arruaça e brigas por todo Bairro Milenar, que seguia o clã Uhma... simplesmente deixou de ser mal da noite para o dia e agora é bonzinho?
— Bonzinho “bonzinho” não, mas eu não sou mais do clã Uhma. Eu não estou mais com eles.
— Ok... Isso tudo está acontecendo rápido demais... Deixa eu começar outra vez: você, Yan Shu, saiu do clã Uhma pra arrumar um emprego e começar a seguir na linha da lei simples e unicamente porque viu que estava errado?
— Sim. Isso mesmo... ou quase isso... ou sei lá.
— Ok... Isso sim me pegou de surpresa... Curioso.
Só que Mu não parecia mesmo acreditar no que estava ouvindo e, tampouco, ter paciência.
— ELE ESTÁ TE ENGANANDO, SR TAOTAO! ME DEIXA CHAMAR A POLÍCIA!
— Mu, você não vê que... – Tentou dizer Viktor.
— VAI SE FERRAR, VIKTOR! EU NÃO QUERO FALAR COM VOCÊ!
Só que:
— Mu, pare de gritar e trate bem o Viktor.
— Sr Taotao, o senhor está mesmo acreditando nessa ladainha toda?
— Isso não é ladainha nenhuma. Não percebe que um delinquente está mesmo tentando se redimir? Eu não vejo mentira nas suas palavras e, aliás, o Viktor tem confiança nele.
— Ah legal... Show! Que beleza! Agora vamos todos dar as mãos e ficarmos ao redor de uma fogueira cantando músicas dessas bem cafonas sobre amizade e perdão... – Disse, sendo sarcástico – ISSO É TOLICE! Não caia na conversa dos dois, Sr Taotao!
Desta vez quem tomou a frente de tudo foi Yan Shu. Irritado pelo feneco ter feito pouco caso de sua ideia, ele se expressou:
— Aí, seu prego... Não vou esconder de ninguém aqui que estou com muita vontade de triturar tudo isso que você chama de cara, mas eu não vou fazer isso... Não vou fazer... Sabe porque? Estou desesperadamente tentando fazer alguma coisa da minha vida e esse cara aí, esse stranger que eu me arrependo de ter esmurrado, tá tentando me ajudar de verdade. Então, por mais idiota e inocente que ele esteja sendo, eu vou tentar mesmo seguir a ideia dele... – Disse, com o punho a frente – Só que eu não tenho tanta paciência que ele e que meu futuro patrão também tem, então fica esperto e cala a sua maldita boca, seu orelhudo caído tagarela!
— Co-como é que é?!
Sr Taotao, já esgotado do assunto, colocou um fim na discussão.
— Chega, Mu. E você também, Yan Shu... Segura o punho. O feneco é meio estressado, mas trabalha bem e é esforçado.
— Sr Taotao, o senhor está dando mesmo ouvidos a esses dois?
— Escute, garoto: eu já cansei das vezes que você insistentemente fica falando mal do Viktor. Só que dessa vez você está passando dos limites!
— O que o senhor quer dizer com isso?
— Quero dizer que você está prestes a ser demitido por ficar desdenhando de meus funcionários!
— Espera... Funcionários?!
— Sim. Yan Shu, bem vindo a minha equipe. Está contratado!
— Muito obrigado, senhor...
Mu quase teve um ataque:
— AH NÃO! PODE PARAR COM A BRINCADEIRA SEM GRAÇA! COMO O SENHOR PODE CONTRATA-LO?!
— Simples: a sinceridade dele e, o principal, a indicação do Viktor. Aliás, qual a especialidade dele, Viktor?
— Bem... Ele é cozinheiro também...
Yan Shu ficou esfregando os dois dedos indicadores um contra o outro mostrando estar envergonhado, já que seu rosto corado lhe entregou.
— Ah... Eh... Eu...
— Então você é um cozinheiro?! Mas que surpresa!
— É que... Bem... Hehe... Eu...
— Ei, nada de ficar envergonhado! O Viktor também é cozinheiro, tudo bem? Fico muito feliz em saber que agora eu tenho dois! Haha! Perfeito!
Yan Shu ficou bastante feliz com o ocorrido. Ele, junto a Viktor e Sr Taotao, combinavam e se acertavam com relação ao que iriam fazer e tal. Mas se tinha alguém que não conseguia admitir isso era Mu. Ele, ainda mostrando incredulidade em seu rosto, pensou:
— *Se ferrar com isso tudo! Esse fracassado do Viktor não para de me desagradar... Olha o que esse idiota fez! Trazer o Yan Shu pra trabalhar com o Sr Taotao é muito cretino da parte dele... Idiota! Fracassado! Isso não vai terminar bem, eu sei... E o Sr Taotao aceitou isso ainda!*
Embora tenha sido uma noite bem conturbada, o acordo feito naquele momento surtiram efeito imediato, muito bons para alguns e horrível para um só. Sr Taotao, Viktor e Yan Shu formaram alí uma parceria bem inusitada, e Mu... Bem, o raposa feneco simplesmente ficou transtornado e muito irritado com tudo aquilo. Não só por saber que agora tinha como colega de trabalho Yan shu mas por ter Viktor como um incômodo.
Sendo assim, o felino ex-delinquente se despediu e foi embora, enquanto os três embarcaram a caminhonete de Mu. E assim a noite se seguiu...
Horas depois...
Dragon Forest
Casa da árvore de Lilac | Bem mais a noite
Com Viktor já chegado a residência e aprontando o jantar, Lilac e Milla arrumavam a sala. Entretanto, havia uma alguém que estava descolada do resto da trupe.
Uma felina.
Bem faladora, por sinal.
E de cor verde.
E que se auto intitula como a maior badgirl de Avalice.
“Mas o que ela estaria fazendo?” talvez seja o que vocês tenham perguntado.
Para ela era um momento especial, seja lá como e porque.
Enfim...
Sozinha, no quarto das garotas, lá estava ela. Sim, a Carol. A Tea (não “o chá”). E olhando para tela de um tablet (que eu desconheço de como ela conseguiu ter um) estava começando um anime. E Carol, usando um chapéu de palha e vestindo uma camisa vermelha e bermuda jeans (ela parecia estar fazendo cosplay), cantou junto com a música da abertura:
— ARITTAKENO YUME O... KAKIATSUME! SAGASHI MONO SAGASHINI YUKU NO SA... ONE PIECE! – Cantarolou Carol, com lágrimas nos olhos – EPISÓDIO MIL, CARAMBA! NYAH!
E lá seguiu ela sozinha, se divertindo quebrando a quarta parede e acabando de vez com o ritmo da história. Acho que já estão até cansados desses atrevimentos, não estão? Nada disso tem a ver com a trama, mas a gata tagarela tinha mesmo que fazer valer sua vontade de [censurado] com a história. Essa [censurado] tinha que ser controlada pra parar de fazer [censurado]! Mas que [CENSURADÍSSIMO]!
— POCKET NO COIN, SORETO YOU WANNA BE MY FRIEND? WE ARE! WE ARE ON THE CRUISE! WE ARE! – Cantou Carol, terminando a música de abertura – Eu amo tudo isso, nyah! Vai chorar, locutor? :3
(Meu salário aumentou. Tenho que me lembrar disso antes que eu faça uma besteira algum dia...)
— Chequin do Hunter bateu certinho, né? Tá feliz, locutor... Eu sei, nyah! :3
(Ok. Chega disso...)
Voltando a sala...
— Garotas, estou quase terminando de preparar o jantar. Só mais uns quinze minutos! – Disse Viktor.
O aviso veio porque Lilac e Milla estavam famintas. Sentadas a mesa, elas, com ruídos estranhos vindo de sua barriga, diziam por si só o apetite grande.
— Ah... Eu estou com muita fome, Lilac...
— Eu também, Milla... Os treinamentos da Neera hoje foram meio puxados...
— Cadê a Carol? Ela é sempre a primeira a se sentar a mesa.
— Ela está lá no quarto. Disse que tinha um anime que ela não podia perder por nada desse mundo e também disse que queria “sacanear com o locutor, nyah! :3” – Sim, ela disse fazendo o rosto de Carol e imitando sua voz.
— Hahahaha! Essa Carol... Eu não tenho a mínima ideia do que isso quer dizer, mas é engraçado.
— Nem me diga, essa maluca... – Disse a dragão, mudando de assunto – A propósito, como está indo seu laboratório?
— Está muito bonito! Já trouxe os beckers e os erlenmeyers que a Zoey me disse pra comprar... E já encomendei junto com o Wallace alguns bicos de bunsen...
— Ah... Isso que você disse aí, Milla...
— O que tem? São instrumentos de laboratório. A Zoey disse que um laboratório “es rico cuando lo tienes todo”!
— Ah nada... Está tudo bem. Você deve saber o que está fazendo... *Ela esteve mesmo ocupada esse tempo todo... Está até dizendo coisas que eu nunca ouvi na vida*
Minutos depois (para minha tristeza) Carol entrou a sala, se sentando a mesa. E lá, ela disse:
— Cadê a bóia? Tô cheia de rango! – Disse, com um sorriso no rosto.
— E você... Porque essa alegria aí? – Perguntou Lilac.
— Só tô felizaca com o anime que vi. Mano, foi mó bom, cê loco!
— Maluca... Queria saber de onde você tirou aquele tablet. Sabia que aquilo custa muitas gemas?
— Relaxa que eu consegui de um meio legal, com nota fiscal, Danfe, todos os impostos etc e tal. Então nada de dizer ao que “tu já surrupiou isso” porque eu tô na linha, nyah!
— Se você está dizendo... Nossa, eu estou com muita fome... VIKTOR, EU NÃO AGUENTO MAIS!
O jovem fez o que pode em pouco tempo e, as pressas, levou a mesa o jantar. E ele, as servindo, disse:
— Como tinha pouco tempo e vocês estão famintas, então fiz tudo no improviso...
— Improviso? Hm... – Disse Lilac, como se o estivesse provocando.
— O que foi, Lilac?
— Você nunca foi de improvisar... Já esteve em uma situação melhor, cozinheiro esforçado, haha!
— Ah é? Está me desafiando? Pois bem... Eu fiz Hossomaki, está bem?
— O que?! – Disse, surpresa – Mas como?!
— E eu também fiz Uramaki, está vendo?
A dragão viu mesmo e muito bem preparados, mesmo em pouco tempo. Ela olhou novamente, como se estivesse desafiando novamente o jovem, mas não tinha como argumentar.
— Tá... Você novamente me surpreendeu. Eu perdi...
— Opa, essa eu vou comemorar!
— Não exagera, hein! Eu ainda vou te ver em uma situação mais adversa e quero ver você se dar bem na cozinha!
— Aceito o desafio! – Disse Viktor, mostrando entusiasmo – Bem, hora de comer!
Antes que ele terminasse, Carol e Milla já estavam devorando a iguaria oriental, acompanhada por Lilac.
— Nossa, vocês estavam mesmo com fome!
— Tava sim, piá. Tava muito, tava demais... Tá AWESOME agora! – Disse Carol, comendo dez Uramaki.
— Não come tudo, Carol! – Disse Lilac, também pegando dez Uramaki.
Enfim, as garotas comeram tudo. Claro, sobrou para o Viktor também. De uma forma não muito corriqueira, Lilac lançou um desafio ao jovem que surpreendeu Milla. A canina não via muito disso acontecer, ademais.
Horas depois...
Era chegado a hora de dormir. Viktor já estava em seu quarto (que era o de hóspedes. Era. Não mais.) e já havia ido dormir, pois seu dia foi bem cheio. Mas as garotas, mesmo que também estivessem esgotadas pelos seus afazeres diversos. E enquanto estavam deitadas em suas camas, conversavam um pouco antes de dormirem. Entretanto, Milla foi logo no ponto que a deixou com dúvidas mais cedo:
— Lilac, porque você disse aquilo para o Viktorius?
— Hã?! Como assim?
— Você o desafiou do nada... Ele estava fazendo o melhor que podia pra cozinhar pra gente...
Carol, entendendo ao seu jeito, disse:
— Ih essa parada aí... Estaria nossa heroína púrpura com inveja do piá? Haha...
Só que a dragão não ficou muito satisfeita com o que ouviu de sua amiga tagarela:
— Para com isso, Carol!
— Então acertei... Se o Arn Aldon estivesse aqui eu diria “sentiu”, nyah!
— Carol, estou falando sério! – Disse, mostrando estar irritada.
Foi preciso Lilac ser mais direta para Carol entender que aquilo havia incomodado sua amiga de verdade. Mas ela logo disse:
— Opa... Desculpa aí.
— Desculpa... Isso é coisa que se diga?
— Tá... Foi mal. Pô, não tinha intenção de te deixar mal... Perdão.
— Hunf... – Disse, se virando.
— Ih qual foi? Lilac...
— Vai dormir... Até amanhã.
— Para com isso! Vai... Fala o que houve!
— Não... Vai dormir!
Milla precisou intervir. Sabendo que um mal estar ficou por alí, ela foi até sua amiga e, segurando sua mão, disse:
— Lilac, fala com a gente. A Carol não fez por mal... você sabe disso.
A dragão, percebendo que deveria expôr o que sentia, ainda mais porque Milla havia pedido e Carol tinha se desculpado, se sentou a cama. Ela não demorou para responder:
— Neera mais cedo disse que eu tenho inveja do Viktor.
— Como é?! – Disse Carol – Mas que mané ela foi, aquela tsundere com saia...
— A minha mestra disse isso mesmo? – Perguntou Milla.
— Ela disse sim, Milla... – Lilac continuou – Ela, ao dizer isso, olhou bem nos meus olhos e... Bem, eu senti de verdade com isso que ela fez.
— Como assim, Lilinda?
— Carol, quantas vezes o Viktor errou na comida?
— Ah... Bem... Well... Se eu dizer “nunca” vou ser reprovada?
— Não... É isso mesmo. Ele nunca errou. Nunca.
— O que tem isso? O cara manda bem na cozinha, ele é um c-o-z-i-n-h-e-i-r-o profissa... De modos que o piá vai sempre destruir na cozinha.
— Sim, Carol... Você está certa... – Disse, respirando fundo.
Esse comportamento fez com que Milla ficasse mais preocupada.
— Lilac, porque você está assim? Parece que recebeu uma má notícia.
— Milla... Escute: quantas amizades o Viktor fez nos últimos meses?
— Bem... Contando com a agência... Deixa ver: Liane, Sheng, Tats, o Noah, a Asuka, Sr Taotao, Brendan, Bonnie, todos os garotos do orfanato... Faltou alguém? – Disse, com seu indicador para cima – Ah! Tem a Tayce também!
— Deixa a minha deusa nórdica fora disso! – Disse Carol, irritada – Nada de amizade do piá com ela! Não! Never!
— Hã?! Porque não?!
— Deixa esse assunto morrer! Deixa quieto, hunf!
— Hm... Tá bom... – Milla se lembrou de uma última pessoa – Ah é! A Lenzin também!
Lilac suspirou de forma tímida ao ter ouvido o nome da guardiã de Shang Mu, que logo foi percebido por Carol:
— Tá... O que que foi, Lilac?
— O que tem, Carol?
— Tu que começou a conversa... A Milla falou o nome da Lenzin e você sentiu de novo! O que tá pegando?
— Carol... Milla... Pra terminar: quantas vezes vocês viram o Viktor desistir de algo?
Um silêncio perambulou por alguns segundos no quarto das garotas, com Carol respondendo:
— O piá tem o sangue do cara batalhador que todo mundo admira e quer ser. Ele nunca desiste. Tipo, o cara fez 1x1 com a Neera na vera, sem medrar. Tá certo que ele levou um sacode bonito, mas tava lá de pé e pronto pra mais... E o cara ainda peitou o bonitão do Ying, “derrotou” o Gong, deu um murro no Sheng que até o Ralf do Kof teria inveja... E caraca, o cara lutou contra a Xiaohuang! E tu viu o show que ele deu... Cê loco, o cara mesmo limitado fez coisa pra caramba!
Lilac parecia se servir mal. Ela apertou o travesseiro contra o próprio peito com tanta força que era impossível esconder esse sentimento. Carol foi logo intrusiva:
— O que tu tá sentindo, Lilac? Tu me deixou preocupada agora...
— Carol...
— Diz pra gente, Lilac. O que está acontecendo?
Ela não podia mais segurar:
— Olha o tanto de coisa que ele fez em tão pouquíssimo tempo aqui...
— O que tem?
— Ele apareceu em nossas vidas, mudou tudo... Como é que uma pessoa como ele consegue se sair tão bem?
— Hã? Lilac... – Disse Carol.
— A Neera me disse uma coisa que me incomodou e estou com medo de que o que estou sentindo confirme o que ela disse...
— E o que foi que a duas cores disse?
— Que eu tenho inveja do Viktor.
— Não fala isso não, garota! Credo, que coisa... Porque que ela disse uma meleca dessa?
— Eu disse que ela tinha inveja do Viktor, mas a Neera insinuou que eu tivesse... Só que parando agora pra ver o que o Viktor fez até hoje em Avalice, estou confusa...
— Qual foi, Lilac?! Diva, se não fosse você a gente tava sem nada no planeta! A gente lutou com você porque tu não desistiu de fazer o certo!
— E veja o que o Viktor faz todo dia... Nós temos Royal Magister como nosso mentor e curador. Não nos falta nada aqui em casa... Vivemos em aventuras, quase sem responsabilidades... Mas ele não adotou nada disso pra viver! O Viktor trabalha, é mestre de vários órfãos, tem muitos amigos por toda Avalice... Não entendam mal de mim: eu o admiro. Tudo o que ele fez foi por mérito dele mesmo, mas...
Milla precisou abraçar sua amiga. Em momento algum Lilac se portou dessa forma. Longe disso, sua alma de lutadora não podia ser abalada por um sentimento como esse. E a canina sabia disso:
— Minha mestra uma vez disse que eu não podia ir além do que eu queria ir... Mas sabe porque ela me disse isso? Pra me desafiar. Eu posso ir além, sempre... Só que preciso viver cada dia como o último. Eu acho que o Viktorius, de onde ele veio, já vivia do mesmo jeito que está vivendo aqui. Então pra ele deve ser o mínimo...
— A Milla tá certa! – Disse Carol – Tu tá vendo a situação como se estivesse com inveja. Mas na verdade tu tá é vendo a ponta do iceberg. Pô, a Milla que é a kawaii percebeu isso, diva púrpura! A gente tá ligada que tu não tá assim toda ressentida por causa do que o Viktor fez e sim pelo o que você não fez... ainda!
— Hã?! Como assim?
— Como assim?! Acorda! Tu salvou o mundo, salvou a Milla, me salvou, caiu na porrada contra a Neera e venceu... A Neera! A panda tsundere overpower mestra puliça e sacerdotisa! E para terminar com chave de ouro: você meteu a porrada sem pena no insetão do Brevon! Tu varreu o chão com ele, fez de João bobo que mais parecia o Whindersson tendo a cara mudada para uma obra do Picasso pelo Popó... Conheceu um alienígena: o Torque! Tu tá bem na fita no espaço sideral todo, guria! E para terminar: você tem um poder imenso! Seu Chi é sinistro! Eu tenho que comer muito pra ficar no seu nível, minha rival lindona!
— Tem que comer mais, Carol...
— É, eu tenho... – Disse, entendendo a provocação – Ei, qual foi?!
Por muito pouco as risadas voltaram, com Milla e Lilac se divertindo com a reação de Carol. Por bem, a dragão entendeu que tudo não passava de um mal entendido sobre ela mesma.
— É, vocês estão certas... Agora vejo o tamanho da sorte de eu ter amigas como vocês... e claro, do Viktor também!
— Claro, miguxa! A Neera só disse isso pra te provocar. Não vai na dela não... Vai que isso também era um teste...
— Pensando por esse lado... É verdade. Pessoal, muito obrigada. Estou me sentindo muito melhor agora.
— Que bom! – Disse Milla, a abraçando.
Após a conversa de libertação, minutos depois Milla já estava dormindo, mas a dragão e Carol ainda conversavam:
— O piá é esforçado... Me amarro nele.
— Sim, ele é... Por isso eu adoro ele – Disse Lilac.
— Só que o Vitin não tem Nirvana nem Chi... Deve ser mó barra viver de lutas e ser limitado...
— Carol, fale baixo! Você sabe que ele é sensível a esse tipo de comentário...
— Ih foi mal... E tu tá certa – Disse, ficando de cabeça baixa – Aquela luta contra a Neera...
— O que tem?
— Será que ele superou mesmo?
— Claro que sim! Ele conversou com ela até!
— Eu sei, Lilac... Mas papo reto: aquela não foi uma surra legal. As vezes fico pensando como o Viktor, de como deve ter sido sinistro segurar a onda depois da demônio fazer aquilo com ele... Pô, ela deveria ter pegado leve... Ela até tirou sangue dele... O cara lutou com a alma na mão, mas sem Chi não dá...
— Eu sei, Carol... Mas ele superou tudo isso! Ele deu a volta pra cima em ter vencido a Xiaohuang em seu próprio nível. Se existe alguém com espírito forte e garra em excesso, esse alguém é o Viktor!
— Essa parada! Isso aí, caramba!
— Isso mesmo!
A paz interior é um sentimento sem preço. Lilac e Carol conversaram por mais alguns minutos antes de irem dormir.
A noite seguiu tranquilamente.
No dia seguinte...
O dia começou cedo na casa da árvore de Lilac, com Viktor preparando a refeição matutina e presentando as garotas com mais um de suas guloseimas. Desta vez ele mas preparou bolo de milho, servindo como bebida chocolate quente. Nem foi preciso dizer que todas adoraram, em especial Lilac. A todo instante ela sorria para o jovem, como um ato de agradecimento silencioso mas belo e muito sincero. Salvo as traquinagens costumeiras de Carol, a manhã foi mesmo agradável. Isso foi mesmo visto em Milla, que percebeu que a harmonia havia voltado. A felicidade tomou conta da casa da árvore... mais uma vez.
Horas depois...
Cidade de Shang Tu| 10:00
A partir dessa hora, ao mesmo tempo, o Team Lilac, mesmo dividido, começou as suas atividades. Em Dragon Region, Milla seguiu imediatamente para seu laboratório, já quase pronto. E para ajudá-la, lá estava Wallace, dando os últimos detalhes a estrutura da construção e medindo os níveis de cada andar.
Mas as ações mais ativas estavam em dois lugares da cidade. Comecemos em:
Royal Palace
Royal Palace Training Center | Dojoh Royal
O local de treinamento do palácio estava a todo vapor. Muitos dos guardas do reino e policiais da STPD praticavam e melhoravam seu desempenho enquanto Lilac e Carol, destacadas do grupo, treinavam sem parar. Supervisionadas por Neera e monitoradas quase que de forma onipresente por Pangu, as duas amigas estavam se esforçando ainda mais que no dia anterior.
Após um longo período de luta, uma pausa foi exigida pela panda, para que Lilac e Carol descansassem e hidratassem seu corpo. E foi justamente durante essa pausa que a dragão foi até Neera, dizendo:
— Ei, Neera...
— Hm... O que você quer, Lilac?
— Sobre aquilo de ontem... Eu fiquei pensando...
— Espero que tenha encontrado a resposta.
— Eu encontrei sim... E estou até mais motivada.
— Eu gostei de ouvir isso. Assim pode manter seu foco em coisas mais importantes.
— Isso é verdade. A propósito, eu sei o que pode ser bem importante...
— Hm... E o que seria?
— Ir treinar com o Viktor – Disse, esboçando um sorriso.
Neera entendeu que aquilo foi uma provocação, e foi de fato, mas a panda não esboçou ter sentido tal desafio.
— Faça isso... e pode ter certeza de que no dia seguinte o Royal Palace Training Center estará de portas abertas para vocês.
— Se saiu bem na resposta, panda.
— Lisonjeada, dragão. Agora preparem-se para mais lutas contra suas réplicas... – Disse, saindo do salão.
Lilac cutucou sutilmente Neera, que não recuou e contra argumentou. Embora aliadas, as duas alimentaram um pouco de rivalidade desde que a panda perdeu contra ela durante os eventos do confronto contra Brevon. Inclusive Neera acidentalmente foi atingida por seu próprio poder, que a fez congelar. Embora tenha sido por segundos, foi tempo suficiente para Lilac conseguir escapar do aparato policial que foi mobilizado para recapturar as garotas. Como dito, elas são rivais e é costumeiro ocorrer algumas provocações entre elas. E nos pensamentos da panda, se fez a prova:
— *Se saiu bem, dragão. Eu te entreguei a dúvida de estar com inveja do fracassado mas conseguiu passar por isso. Mas não pense que eu irei cair em suas brincadeiras joviais assim tão fácil...*
O treino recomeçou, com ainda mais intensidade.
E em outro lugar da cidade...
Shopping Central de Shang Tu
Resto & Sushi Bar Taotao | Hora do expediente
— Então é só seguir com o cardápio. Os ingredientes estão aqui no quadro. Se você tiver dúvidas, é só me pedir!
Viktor estava mostrando os procedimentos de cozinha para Yan Shu, mas...
O felino ex-delinquente era bom no que fazia. Durante o período que esteve na cozinha, ele não só ajudou Viktor como teve autonomia de preparar os demais pratos que o jovem humano fazia. Com isso o fluxo de clientes aumentou no que diz respeito a chegada e saída. Resumindo: os pratos estavam sendo servidos mais depressa e com a mesma qualidade. Com isso Izumi, que já tinha como arma seu carisma único, teve seu trabalho facilitado, assim como Sr Taotao, que conseguia servir aos clientes sem precisar de apressar como antes.
O ritmo de trabalho melhorou bastante. E isso era muito recompensador a Viktor e, principalmente, a Yan Shu. Ele percebeu que todos os empregados estavam felizes e contentes com seu trabalho. Parecia até que já trabalhavam juntos a muito tempo, tamanha era a sincronia.
Entretanto, sempre tem alguém que é do contra:
— *Não acredito no que estou vendo... NÃO ACREDITO! Não pode ser verdade... Nem ferrando!*
Era Mu, que chegou com mais mantimentos para o restaurante. Ele fazia isso pelo menos disso vezes ao dia além de ajudar a levar a comida para o orfanato todo final de expediente. Só que dessa vez ele não suportou a pressão e decepção de ver Yan Shu devidamente uniformizado, limpo e trabalhando muito bem, coisa que Sr Taotao disse:
— Mu! Haha... Ainda bem que você veio!
— Ah... Sr Taotao... Eu...
— Estávamos precisando de condimentos. Você os trouxe?
— Trouxe sim... Mas...
— Mas o que? Vai, me dê a caixa...
— Sr Taotao, eu não acredito que o senhor levou essa ideia de...
— Nem comece com esse assunto que já está consumado! O Yan Shu está exercendo um papel fundamental para o aumento da nossa produtividade!
— COMO É QUE É?!
— Isso mesmo! Agora pode ir... E não esqueça que mais tarde vamos ao orfanato!
Vendo com seus próprios olhos o sucesso de Yan Shu em seu primeiro dia, Mu deixou o lugar as pressas e bastante transtornado. E enquanto fazia isso, sirenes foram ouvidas pelo lado de fora do shopping. Rapidamente um grupo de policiais adentrou ao centro de compras, sendo liderados por:
— Neera Li?! – Disse Sr Taotao, surpreso – O que faz em meu humilde estabelecimento?
Sim, era ela mesma. E sem rodeios:
— Houve uma denuncia de que um delinquente está aqui em seu restaurante.
— Hã?! Mas... O Yan Shu é meu funcionário agora...
— Eu sabia! Um delinquente como ele es... – Parecia que era um vírus as pessoas demorarem pra processar a informação no restaurante, não? – ELE É SEU FUNCIONÁRIO?! Eu ouvi bem?
— Sim, senhorita policial. Ele é meu empregado agora. Cozinheiro.
Ela então foi por si só até a cozinha e lá avistou a Viktor, que disse:
— Ne-Neera Li?! Mas...
— Onde está Yan Shu, Viktor?
— O que tem eu?! – Disse o felino, que estava cortando cebolas – Posso saber o que houve?
Neera não conseguia acreditar no que estava vendo e foi além:
— Desde quando você está aqui?
— Hoje.
— O que você fez pra estar aqui?
— Indicação do Viktor.
— E como ele o indicou?
— Falando com o Sr Taotao.
— E porque você do nada decidiu trabalhar e sair da delinquência?
— Bem, vergonha na cara é um bom motivo?
— Huh... – Exclamou, mostrando aceitação e se virando para Viktor – Ele te agrediu naquele dia e você não se importa? Digo isso porque você tem o poder de me fazer prende-lo agora!
— Eu não guardo rancor, senhorita. Está tudo bem...
A panda percebeu então que a denuncia até se confirmou, mas não havia nenhum problema no lugar. A única pessoa que poderia avisar Yan Shu de algo seria Viktor... e nós já sabemos tudo que aconteceu. Sendo assim, ela se retirou do lugar, dizendo:
— Finalmente algo de muito útil esse stranger fez a sociedade. Dessa vez ele não fracassou...
No lado de fora, os policiais, inclusive Neera, entraram em suas patrulhas, seguindo para o palácio. Só que, do outro lado da rua, estava Mu devo de sua caminhonete acompanhando tudo. E nem preciso dizer que ele estava uma fera, não?
— Mas o que... PORQUE NÃO LEVARAM AQUELE BANDIDO PRESO?! Não é possível que ninguém consiga ver que tudo isso é um verdadeiro absurdo! AH DANE-SE ISSO TUDO! GRR...
Cantando pneu pela rua, ele seguiu pela via, tão irritado quanto antes.
Horas depois...
Bairro Milenar
Sallo Temple| A noite
— Muito bem a todos vocês! 2F (Fei Fei), Sue Ay, Nero e Ralf Shark... Eu adorei o trabalho de todos!
Já estávamos no meio da aula. Após os exercícios iniciais, Viktor pediu para que mostrassem pra trabalhos. E, como prometido, era a vez deles lutarem. Observando a aula, lá estavam Sr Taotao e Mu, com seu mau humor patenteado. Brendan e Bonnie completavam os espectadores.
Quanto a aula, ela seguiu normalmente. Viktor os treinou como no dia anterior, com aquecimento e fundamentos básicos. Aak, como de praxe, era o mais empenhado, servindo de exemplo. Quem adorou isso foi Mika, que ficou em seu encalço a aula inteira, o acompanhando na maior parte do tempo, para surpresa de todos. Ainda que Shioji e Alekzandra tenham feito um treino exemplar, os dois estavam um nível acima. Mas isso era bom: quatro rivais, duas duplas. O felino do clã Tai disputava espaço com a raposa ártica do clã Blue; e o felino ninja do clã Jun contra a raposa ártica do clã Benz. Ou seja, duas irmãs raposas contra dois felinos de clãs distintos.
Entretanto, desta vez era a hora do combate entre os faltantes do outro dia. Viktor selecionou bem as duplas: Nero vs Sue Ay e 2F vs Ralf Shark.
Como se tratavam dos mais jovens, as lutas seguiram em um nível iniciante. Na primeira delas, Nero e Sue Ay empataram em 1 a 1. Não houve muito de luta, já que ambos eram muito inexperientes e era visível que a timidez e falta de iniciativa fosse esperada. Mas Viktor estava lá para apoia-los como podia, seguindo com o treino.
A luta seguinte, 2F contra Ralf Shark, não foi muito diferente: o “tubarão” até tentou fazer golpes mais agressivos, mas esbarrou na falta de prática. Fei Fei venceu por 3 a 0, mas porque Ralf se descuidou e deu brechas. Viktor deu total apoio emocional nesse momento bem sensível, já que eram muito jovens e poderiam desanimar. Ledo engano: eles todos estavam mais motivados.
— Esse é o espírito! Não tenham medo de arriscar! Esse é o caminho... e eu vou guia-los!
Após essas palavras, Mu se retirou, dizendo:
— Estou indo para a caminhonete, Sr Taotao... *Cansei dessa droga toda... Se ferrar...*
A aula seguiu, ao mesmo tempo que o mal estar do panda vermelho começou a remoê-lo por dentro.
Minutos depois...
Saindo do Sallo Temple logo após os internos estarem no salão principal do templo para jantarem, Viktor, junto com o Sr Taotao, seguiram para a caminhonete. Como todo dia faziam, levavam os caixotes das sobras para o armazém do dono do restaurante. Mas um fato chamou a atenção de Mu: estando ainda no interior de seu automóvel, ele pode ver a aproximação de Evie Chan, que tinha em sua mão UM monte de papéis.
— Hã?! Ela... Eu conheço ela! É uma das Quatro Postulantes!
Ele então desceu, exatamente no momento que Viktor e Sr Taotao se aproximaram do carro. E o jovem humano, vendo a felina, logo disse:
— Oi, senhorita Chan!
Esse foi o momento que Mu lhe tomou a frente, dizendo:
— QUAL É A SUA?! TENHA MAIS RESPEITO A UMA INTEGRANTE DOS QUATRO POSTULANTES, SEU FRACASSADO!
Só que a atitude nada cortês de Mu foi rapidamente contida por Evie:
— Hey Hey! Eu que pergunto... Quem é você para chamar a atenção do meu amigo Viktor sensei, huh?
— Co-como assim?!
— Ora... Onde não entendeu? Vou explicar melhor: Viktor e eu somos amigos! E ele é um sensei!
— COMO É?! – Disse, tão pasmo quanto antes – Nem brincando que ele te conhece... e muito menos que tem sua amizade!
— Ih doido... Sai da frente, xô! Vai... xô! – Disse, afastando Mu.
Ela então se aproximou de Viktor e, sorrindo, disse:
— Estou passando pra te entregar esse convite! – Ela entregou um dos papéis de cor vermelha.
— Mas... O que é isso?
— Hehe... Daqui duas semanas vamos ter o Festival da Primavera! Começo de ano novo é sempre assim!
— Ano novo?!
— Sim, bobinho! Hehe... Nós do Bairro Milenar fazemos festividades pra celebrar nosso ano novo. Então vai ter muita festa, eventos e tudo de bom! – Disse, esboçando um sorriso em seguida – Então vê se não vai faltar! Todo mundo estará lá... A Bunny-chan, a Rin Sama e até o Toto-kun! Ah e todos os templos vão fazer parte também, hehe!
— Eu estarei lá sem falta! Pode contar comigo!
— Yuppie! – Ela saltou de alegria – Vai ser muito legal! Te vejo lá então! Bye bye!
Em seguida, a contagiante Evie Chan deixou o local, continuando a divulgar o evento pelo bairro tudo. Só que, de forma impagável, Mu estava de boca aberta com o que acabou de constatar. O que seria? Vamos aos pensamentos dele:
— *Ele... O Viktor... Ele conhece ela... e todos os Quatro Postulantes?! É isso mesmo?! Não pode ser... Nem ferrando que esse fracassado tem essa influência toda aqui! Eu suportava ele ter um emprego e meu limite foi esse péla saco ser mestre do Sallo Temple, mas... COMO QUE ELE PODE CONSEGUIR SER TÃO RECONHECIDO ASSIM PELOS QUATRO POSTULANTES?! Só a elite do Bairro Milenar tem a honra de ter reconhecimento deles... e justamente ao Viktor eles deram?! Não... Isso está errado... ESTÁ MUITO ERRADO!*
O feneco se limitou a ficar calado, entrando em seu carro novamente. Mas Sr Taotao entendeu muito bem seu sentimento. Entretanto, seguiram com o rito diário e prosseguiram com o combinado.
Minutos depois...
Dragon Forest
Proximidade da casa da árvore de Lilac | Noite
Deixando Viktor a frente da casa, Sr Taotao se despediu do jovem, com Mu guiando sua caminhonete em direção a cidade de Shang Tu, retornando. Mas desta vez foi um pouco diferente. Em um lugar da estrada onde não haviam residências, Sr Taotao disse:
— Pare o carro aqui, Mu.
— Hã?! Aqui?!
— Sim... Pare...
Dito e feito, o raposa feneco estacionou ao acostamento, com o seu chefe começando o assunto:
— Já estou farto...
— Do que está falando, Sr Taotao?
— Das suas atitudes mesquinhas e invejosas nas últimas semanas...
— Como é?!
— Eu sei que foi você, Mu...
— Eu o que?
— Você denunciou o Yan Shu.
— Não sei do que o senhor está falando... – Disse, desconversando.
— Não, é? Não vou te julgar por isso, embora esteja muito decepcionado, mas você tem muita sorte por Yan Shu ter compromisso pra agora de noite e não estar aqui também.
— Porque está dizendo isso?
— Ele tinha interesse de “conversar com você”, se me entende...
— Eu não sei de nada disso...
— Escute, garoto: essa foi a gota d’água. Mais uma das suas e eu vou te demitir.
— Sr Taotao, eu não sei do que...
— Sabe e agora vai me prometer nunca mais fazer nada contra meus funcionários!
— Eu não tenho que prometer nada!
— Mas você vai... Isso se você dá mesmo valor ao seu emprego.
— Tudo começou quando o senhor contratou esse stranger fracassado! Antes disso nós levávamos nossa vida muito bem... Aí ele entrou em nossas vidas e tudo piorou! E muito!
— PARE COM ISSO, MU! – Ele gritou com vontade dessa vez.
— Ah... Sr Taotao...
— Já estou cansado de te ver sendo um invejoso idiota!
— Eu invejoso?! Eu? Fala sério...
— Eu conheço você, não é de fazer isso... Porque insiste em depreciar as conquistas dele? O Viktor trabalha bem, é acessível com todos, é gentil, faz o melhor que ele pode todo dia... E VOCÊ NÃO RECONHECE ISSO? Eu respeito você não querer ter contato com ele e nem gostar de conversar com o rapaz, mas humildade de reconhecer o que ele conseguiu nunca será uma característica de fraqueza! Pelo contrário: você ao agir assim demonstra ter o espírito forte!
— Saco...
— Veja como fala comigo, rapaz! Já basta! Quero que me prometa que não vai mais importunar ou sequer fazer algo que o prejudique. E eu estendo isso ao Yan Shu também!
— O senhor deve estar de brincadeira comigo... Como é que pode mesmo confiar seu negócio a um delinquente como esse cara?
— Senhor ex-delinquente! O nome dele é Yan Shu, ele é um cozinheiro e exímio profissional! Você tinha que ter visto como ele se empenhou de verdade na cozinha... Parecia até que já fazia parte da equipe a mais tempo.
— Isso é muito desagradável...
— JÁ FALEI PRA PARAR!
— Tá... Beleza... Eu vou fazer um esforço. Eu preciso mesmo desse trabalho...
— Então me prometa. Sob a palavra das diretrizes do Bairro Milenar. Honra neste lugar tem um valor maior que gemas.
— Tá... Ok. Eu prometo... – Disse, a contra gosto – Eu prometo não agir assim e me controlar, beleza?
— Ótimo... Era o que eu queria ouvir.
O som baixo do motor da caminhonete elétrica de Mu parecia a única coisa que estava num volume aceitável. Digo isso porque inúmeras vezes o raposa feneco teve em sua mente pensamentos totalmente desconexos com o prometido.
— *Pelo Sr Taotao, eu vou tentar uma última vez... Mas meu ódio está tanto que será muito difícil suportar... Stranger idiota e fracassado, eu eu te odeio.*
A promessa foi feita e sob as diretrizes do Bairro Milenar. Como o Sr Taotao disse, isso valia mais que qualquer gema.
Mas não havia terminado.
Voltando a casa da árvore de Lilac...
— Oi, Viktor.
— Lilac?! Você estava me esperando?
— Sim... Bem, podemos conversar?
Era isso. A dragão estava esperando a chegada do jovem humano ao pé da escada de sua casa. Ela então o conduziu iara até próximo ao lado que ficava as adjacências de sua humilde residência. O céu estava estrelado, com uma fraca brisa refrescante e as duas luas tinham uma luz relaxante aquela noite agradável. Os dois então se sentaram a margem do lago, com Viktor perguntando:
— O que houve, Lilac? Eu preciso preparar o jantar.
— Carol comprou pizza.
— Sério?! Eu vou querer provar com certeza!
— Hehe... Eu sei que vai...
— Bem, o que quer conversar?
— Me responda: o que rolou entre você e a Lenzin?
Isso sim pegou Viktor de surpresa, mas por motivos diferentes.
— Hm... Curioso que é a primeira vez que você me pergunta isso... É coisa da Carol?
— Também... Mas eu já suspeitava.
— Olhe, Lilac... Eu...
— Seja sincero. Eu prometo não ficar chateada com você. Nem tenho motivos pra isso...
— Sério mesmo?
— Sim... Fique tranquilo...
— Tu-tudo bem... – Disse, tomando fôlego – A senhorita Lenzin e eu pertencemos a mundos diferentes... Mas eu fiz questão de termos laços. Pois bem, nós somos amigos íntimos. Tivemos momentos juntos, onde conversamos coisas pessoais com mais ternura...
— Então é isso... – Disse, segurando na mão do jovem – Ontem a Neera insinuou que eu tinha inveja de você, sabia?
— Sério?! Mas porque?
— Pra me testar... Por isso. Eu já devolvi a gentileza, pode ficar tranquilo. Ela não vai mais me provocar usando esse argumento.
— Tudo bem, mas porque você perguntou de mim e a Lenzin?
— Eu queria tirar a prova de que você não tinha segredos. Na verdade você manteve, mas não pensou duas vezes em me dizer a verdade.
— Claro que não! Porque iria esconder coisas de você? – Disse, com pensamentos de lembrança.
Sim, Viktor se lembrou do que precisou esconder para não trazer problemas. Ele tinha ciência do que fez, mas:
— Porque você ficou calado do nada, Viktor?
— Nada não, Lilac... Só estava pensando... – Ele tentou se esquivar.
— Pensando, é? E o que era, hm? – Disse, o provocando.
— Algo me diz que você está com ciúmes...
— Ah então é isso? – Ela ficou um pouco corada.
— Vai dizer que é mentira? E então...
Mas a dragão foi sincera.
— Ok... Só um pouquinho, vai...
— E porque?
— Queria saber o que a Lenzin fez que eu não fiz pra ser uma amiga íntima, só isso... Hunf!
— Espera. Deixa ver se entendi bem: você está irritada porque ela é uma amiga íntima e você não?
— Claro, não é? – Lilac chegou a fazer beiço – Vai logo, diz aí!
— Ei, calma... Olha, a senhorita Lenzin é uma pessoa mais fechada e que precisava de mais atenção. Não é fácil viver se isolando de todos e tendo muitas responsabilidades... A Lenzin vive assim e eu tenho empatia por ela.
Lilac se sentiu um pouco mal pelo o que ouviu, já que isso era um bom motivo. Mas ela, sorrindo, provocou o rapaz:
— Então vou me afastar de você e ficar “guardiando” minha casa nas sombras, Vicotoriuos Ashem!
— É Viktorius!
— Vicutorius!
— Viktorius, Lilac!
— Viktourus!
— Nossa, será que só a Milla sabe falar o meu nome certo?!
— Hahahaha! – Ela sorriu, também provocando – Estou brincando, Viktorius Daiyamondo Ashem!
— Haha... Então a Lilac sabe dar uma de Carol de vez em quando...
— Aquela gata gosta muito de você, falando nisso... – Disse, também em tom de provocação.
— Opa... O que você quer dizer com isso?!
— Hum... Deixa eu ver... Vocês dois dão um belo casal... Um gentil e uma badgirl... Ó, dupla lendária!
— Ei, mas o que... – Tentou dizer, sendo interrompido.
— Hahaha! Calma... Haha! Estou te provocando, bobo! Você sempre cai em brincadeiras...
— Ah mas você sempre fala de uma forma tão convincente que eu pensei que estava falando sério!
— Tá... Hehe... – Disse, o abraçando – Desculpa... Você fica fofo ficando confuso...
— Fico?! Que coisa...
Os dois ficaram calados por um tempo. Mas Viktor a surpreendeu, dizendo:
— Dá licença... – Disse, se deitando no colo de Lilac.
— Hã?! Mas o que você está fazendo?!
— Se eu sou o fofo aqui, então quero ser mimado que nem a Milla! – Ele imitou até os trejeitos da canina.
Lilac gargalhou alto, como se não estivesse acreditando:
— Hahahaha! Isso foi inesperado! Hahaha! Nossa, Viktor...
— Hehe... Estou ridículo, não?
— Está sim... Mas fofo.
— Hehe...
E como foi provocado, ele deu de volta:
— Ok... Somos amigos íntimos agora. Mas quero algo em troca...
— O-o que vo-você quer dizer com isso?! – Lilac estava ainda mais vermelha.
— Hum... Eu quero que você seja você mesma sempre!
— Ufa... – Ela mostrou alívio.
— Ué... O que foi?
— Nada... Mas eu prometo a você isso. Eu sempre vou ser bem sincera sendo eu mesma.
— Exatamente!
— O que quer dizer?!
— Você será a dragão forte e destemida e eu o humano que vai receber mimo todo dia!
— Ei, nada de trapaça! Está fazendo jogo psicológico comigo!
— Hahaha! Toma de volta a zuera, nyah! :3
— Ah não... Sério que você está imitando a Carol?!
— Essa parada, falei? Nyah! :3
— Ok, agora você está ridículo... – Provocou Lilac, novamente.
— Estou fazendo meu melhor. Imitar a Carol é difícil...
— Ah... Difícil é viver com ela... Paciência...
Viktor estava deitado com a cabeça apoiada no colo de Lilac, relaxando durante a conversa bem amistosa entre estavam tendo. Eram muitos os momentos que tiravam para fazer isso inclusive. A proximidade dos dois era quase de irmão mais velho e mais novo. Uma amizade forte e admiração mútua.
— Viktor...
— Sim, Lilac?
— Você está indo muito bem. Desde que você conversou com a Neera, eu percebi que você está mais focado em fazer o certo. Eu não tenho ideia do que conversaram, mas isso a agradou. Continue assim... está ótimo.
— Eu prometo. Vou continuar assim... por mim e por todos.
— A propósito... Tem uma coisa que eu nunca perguntei...
— O que?
— Você e a Neera dariam um bom casal?
Viktor ficou um pouco irritado, mas não negativamente.
— Nem pensa nisso, dragão! – Disse, ficando corado.
— Hahahaha! Você está todo vermelho, Viktor!
— Para com isso!
— Hahahaha! Bobo...
Mas um pouco de seriedade ocorreu ao meio da descontração do momento:
— Isso que a Neera disse mexeu com você, não é?
— Um pouco...
— Você é forte, Lilac. E não me refiro a sua força física. Seu espírito mesmo...
— Carol e Milla me disseram isso... Sério, eu devo muito a todos vocês.
— Porque diz isso?
— Vocês que me dão condições de ser forte. Eu não sou perfeita, longe disso... Mas tê-los como meus amigos me dá forças e sabedoria suficiente pra aprender a seguir em frente...
— Então foi por isso que você quis conversar, pra conseguir mais “força”...
— Também... Eu gosto de conversar com você, é um dos motivos. Sempre sabe o que dizer, é gentil, sabe muito de lutas... Você sempre é acessível. Eu já te disse que garotos como você são raridade. Eu não culpo a Lenzin de ter com você essa amizade íntima. A gente fica a vontade com você, falamos besteiras e você só conversa do mesmo jeito. Isso dá muita confiança, sabe? A gente se sente bem ao seu lado... Por isso que pedi pra você continuar assim...
— Eu entendo, Lilac... – Disse, a olhando nos olhos – Renovo minha promessa de continuar nesse caminho. Eu estou feliz com o que estou fazendo. Realizado até. Eu não tenho a mínima ideia se um dia eu vou voltar para meu mundo, mas eu vou viver aqui em Avalice na mesma vontade...
A conversa rendeu por mais alguns minutos. Lilac realmente estava se divertindo ao conversar com Viktor, já que ela passou a brincar mais com o jovem, que se sentiu mais a vontade. Tudo isso tinha um fundamento: a dragão queria tirar a prova de si mesma do que o humano significava em sua vida. Além disso, ela também pôde ver um lado até então desconhecido de Viktor: afeto. Pela conserva íntima que tiveram naquela noite confortável, os laços se renovaram e ela enfim entendeu o que Lenzin conseguiu:
“Proteção. Reconhecimento. Amizade. Ela precisava disso e ele a deu. E essa gentileza e respeito... Desta vez Viktor me deu o que eu precisava.
Companhia e carinho. Ele faz isso naturalmente. Por isso você é importante para todas nós.
Obrigada, Viktor.”
Tudo estava correndo bem, podem ter certeza disso. A afinidade de Viktor com Lilac aumentou, se igualando para com Milla. O jovem não conhecia esse lado aberto e receptivo da dragão, o que o fez estreitar ainda mais sua relação na vida dela. A amizade ganhou novas ligas e se fortificou exponencialmente.
A noite seguiu mais do que tranquila.
O tempo passou.
Três dias depois...
Cidade de Shang Tu | Mais um dia em Avalice
Os dias se passaram rápido, como se fossem páginas de um livro. A história de todos continuou sendo escrita, com seus ritos como de praxe.
Lilac e Carol treinando todos os dias no centro de treinamento do palácio, com Neera as orientando e Pangu monitorando seus movimentos.
Milla, com a ajuda de Wallace, seguia a construir e arrumar seu laboratório. Fora as inúmeras vezes que Mr Stumpy lhe fez companhia.
A equipe do Resto & Sushi Bar Taotao continuou com seu trabalho, onde Yan Shu se empenhava ao máximo, assim como Viktor e Izumi. Sr Taotao tinha muito orgulho de seus empregados, lhes dando todo o suporte possível.
Não só no centro da cidade tudo ia bem.
No Bairro Milenar, como todo início de noite, os treinamentos no Sallo Temple seguiam normalmente. O crescimento dos alunos era visível a cada dia, principalmente aos mas novos.
No Puleun Temple, Izumi começou a treinar, sendo ajudada por Alie Sha a todo instante. Sua condensação de força evoluía, como esperado. E claro, lá estava lá Tokoyame fazendo das suas.
O mesmo pode ser dizer do Vin Temple, onde lady Tullipa lecionava a seus discípulos toda noite. Até Bunny Ruby fazia parte, dando o equilíbrio adequado ao nível do Orvalho Rubro.
No Jingshen Temple também. A shifu Moonlight manteve suas aulas de concentração de energia espiritual para harmonizar a todos os movimentos de luta. Evie Chan sempre era a mais entusiasmada.
Xiaomi Temple. Nem é preciso dizer que o poder de Chi explodia toda aula que a mestra Xiaohuang aplicava. A Flor de Lótus do templo, Rin, elevava o nível da prática. Todos a admiravam.
Não nos esqueçamos da Xihan Zone: Yan Shu conseguia manter o pavilhão sozinho e servindo a seus amigos com uma refeição bastante saborosa e nutritiva. Ele estava feliz, sabendo que fazia o certo dessa vez.
Enfim, os habitantes da cidade de Shang Tu levavam suas vidas com muita luta e apego. Todos tinham suas dificuldades, mas ninguém se dava por vencido.
Entretanto havia alguém que alimentou um sentimento ruim todo esse tempo...
“Eu já estou cansado de tudo isso.
Como é que podem viver assim? Se ferrar...
Bando de privilegiado, levando a vida só na aba dos outros e por influência de fulano e ciclano.
Esse stranger... Viktor. Meu ódio já cresce só em ouvir seu nome.
Eu odeio esse mané, esse fracassado vigarista. Privilegiado de droga...
Recebeu tudo de mão beijada, todo paparicado e cheio de mimos...
Erra todo dia, mas sempre tem passando pano para suas presepadas.
Já estou farto disso. É muita falta de noção dessa gente pensar que esse cara, esse fracassado sem valor, é tudo isso que ele mostra.
Chega disso.
Cansei de esperar. Alguém tem que dar um basta a esse show de idiotice.
Um privilegiado como ele não tem lugar aqui.
Lutar pelo espaço que vive é dever de todos. Não importa se você tem amigos ou não: você luta pra sobreviver.
Bando de hipócrita. “Ele se empenha muito todo dia” Se ferrar com isso! Isso já me encheu...
Se ninguém consegue fazer alguma coisa, seja porque não vê ou não quer...
Então só basta a mim fazer algo a respeito.
Isso mesmo! Eu vou resolver esse problema.
E colocar esse stranger no lugar que ele merece.
E nesse dia, Viktor vai desejar voltar de onde veio... e ficar lá pra sempre!
CHEGA DE OPORTUNISMO! CHEGA DE PRIVILÉGIOS!
É hora de fazer justiça”
Shenlin Park | Noite
Bairro Milenar
Mr Taotao’s Storage
Como todos os dias logo após a aula de karatê no Sallo Temple, Viktor, Sr Taotao e Mu levavam as sobras para o armazém do panda vermelho situado no interior do bairro Milenar.
Entretanto, hoje foi um pouco diferente. Mais cedo, Sr Taotao disse aos dois que teria um compromisso empresarial em um escritório no centro da cidade de Shang Tu e que não estaria junto com os dois. Combinado, essa tarefa ficaria na incumbência de Mu e Viktor.
O feneco levou o jovem humano, após o expediente, até o templo, aguardando em sua caminhonete até o fim dos treinos.
Foi exatamente nesse momento que ele pensou no que fazer para obter a tal “justiça”.
E voltando ao presente...
Com os dois descarregando a caminhonete, prontamente Mu disse a Viktor:
— Isso que você está levando aí... Temos que descarregar no fundo do armazém.
— No fundo?! Mas... O Sr Taotao nunca me disse isso.
— Tem muita coisa que você nunca ouviu...
— Hm... Tudo bem então...
Os dois seguiram, com o raposa feneco a frente, para o interior do grande armazém. Era um lugar espaçoso e com várias caixas que tinham mantimentos para o restaurante e alguns pertences do panda vermelho. Mu colocou um dos caixotes sobre uma plataforma enquanto Viktor caminhou até o final do armazém, com uma caixa um pouco maior.
Mas assim que se virou, viu Mu o olhando de forma séria. Achando isso estranho, Viktor disse:
— O que houve?
— Nada... Só observando um idiota. Ou eu preciso dar satisfações pra isso?
— Você é estranho... – Disse, continuando a caminhar.
E seguindo seu caminho, o humano ouviu mais do raposa feneco:
— Você faria um grande favor a todos se gentilmente sumisse de Shang Tu, sabia?
— Qual é o seu problema, Mu?
— Você... Eu acho que eu já disse isso. Ou você esqueceu de suas perguntas idiotas também?
— Você também me disse que não queria conversar comigo. O que houve que agora está fazendo isso?
— Só tentando te elucidar bem... Sua presença aqui entre nós é um erro. Só me diga que vai embora e nunca mais voltará.
— Você é maluco! – Disse, colocando a mão na maçaneta da porta.
Mas Viktor percebeu que a porta estava fechada. Por mais que forçasse, ela não se abria. Nessa dúvida:
— Estranho... A porta não abre...
— É que precisa disso aqui pra abrir... – Ele lhe mostrou a chave – Chaves servem pra abrir portas fechadas, seu idiota.
— Ótimo... Me dê então – Viktor ignorou as provocações dele.
— Dessa vez não... – Disse, a guardando – Não sem antes termos uma conversa.
— Como é que é? Mu, o que está acontecendo? Diga logo, pois tenho que fazer o jantar das garotas...
— Oh sim... Viktor, o rapaz prendado que quer mostrar que vale alguma coisa para a dragão heroína, a gata tagarela e a canina fofinha... Viu? Em uma só frase te mostrei o quanto você é pequeno...
— Você toma cuidado como fala delas... Principalmente da Carol!
— Ah então eu descobri sua favorita... Pensa em namorar com ela? Não, cara... Aqui não tem lugar pra você se misturar com a gente... Stranger!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— CHEGA! – Viktor estava ficando irritado – Me dê a chave, Mu!
— E desde quando você tem o direito de pedir as coisas? Vou te dar uma chance: implore por ela.
— O que?!
— Isso mesmo... Você não tem moral de ter as coisas sem implorar. Já viu como você vive entre nós? Favor, Viktor... Você vive por favor, na casa de uma dragão que essa sim tem valor... E você, sem valor, vive as custas dela e de todos que você conhece. Não percebe o quanto privilegiado é? Você vive aqui em Avalice porque tiveram pena de você. Te vêem como um pobre coitado que não tem como se defender e muito menos atacar.
Pela segunda vez desde que enfrentou Spade, Viktor mostrou em seu semblante uma raiva tanto quanto aquele momento. Ele não parecia estar disposto a dialogar mais como feneco.
— Me dê essa chave agora...
— Você sabe que eu não irei fazer isso, seu idiota. Implore por ela...
— Se você não me der essa chave por bem, pode ter certeza que eu vou pegar a força... – Disse, se aproximando.
— Olha só o Viktor... Mostrando iniciativa e pensando que pode lutar de igual pra igual com um de nós de Avalice....
Como era conhecedor de artes marciais, Viktor segurou uma das mãos de Mu, o imobilizando e o levando ao chão. Foi fácil e bem rápido. E enquanto o segurava, a conversa seguiu:
— Mu, eu não tenho a mínima ideia do que você está tentando fazer, mas te aviso que isso é algo imbecil da sua parte!
— Ahh... Me solta, seu idiota!
— Me dê a droga da chave!
— Vai ter que fazer melhor que isso, stranger fracassado!
— Para com isso! Cara, você é mais fraco do que eu!
— Entendi... Então você tem piedade? Haha... Você não me conhece...
— Você é um covarde! Eu te salvei lá no...
— DANE-SE COM ISSO, IDIOTA! AHHH! – Disse, concentrando-se.
De fato, Mu tinha um físico mais franzino que o de Viktor, até porque o humano desenvolveu seu corpo ao máximo que sua idade permitia. Além disso, seus conhecimentos de auto defesa eram mesmo eficazes... mas na terra. Porquê estou dizendo isso? Bem, a fisiologia dos habitantes de Avalice, no que diz respeito a força e artes marciais, nem sempre condizem com o físico bem estruturado e desenvolvido do indivíduo. Era muito comum encontrarmos lutadores com estatura baixa ou corpo normal desempenharem uma ótima performance em luta. Ou seja, o físico não diz e nem justifica força menor ou maior. A resposta: todo o princípio de desenvolvimento de Nirvana e Chi. Lutadores de Avalice passam por sobre a lógica de nosso mundo por terem habilidades especiais. Resumidamente, se um lutador de Avalice lutar usando de seu Chi, um humano terá inúmeras dificuldades. Nirvana não só potencializa as habilidades: toda a estrutura corporal também.
E a justificativa só que estava prestes a acontecer foi explicada no parágrafo acima: raios foram vistos se lastrando pelos braços do raposa feneco, surpreendendo Viktor. Logo os olhos de Mu se iluminaram, com ele dizendo:
— VOCÊ ME FEZ ATIVAR ESSA MALDIÇÃO! SEU IDIOTA!
— Mas... O que...
Uma explosão energética ocorreu, fazendo Viktor voar para longe. Ele caiu sobre uma das caixas de madeira, a quebrando. Tonto e confuso, ele olhou pra frente e pode ver Mu de pé e com raios serpentinando seu corpo. Exatamente, o raposa feneco tem Chi e ele não parecia estar gostando nem um pouco de fazer isso. Seu rosto retratava nojo, meio que rebaixando Viktor.
— VOCÊ ME FORÇOU A MOSTRAR ESSA VERGONHA! IDIOTA! PATIFE PRIVILEGIADO DE DROGA!
— Mu... Porque... – Disse Viktor, se levantando – Porque está fazendo isso?!
— Idiota... CALA SUA MALDITA BOCA, STRANGER FRACASSADO!
— Você... Você tem habilidades especiais...
— CHEGA DISSO! NÃO DIGA MAIS NADA! EU VOU TE QUEBRAR TODO POR ME FAZER MOSTRAR ESSA MALDIÇÃO!
Mu estava totalmente alterado. Seu rosto, com traços que demonstravam ódio e repulsa, deixava evidente de que iria mesmo lutar contra Viktor. Mas durante esse seu comportamento anormal, em sua mente ele ouvia:
“Eu prometo... Vou te deixar tão forte que eles não terão mais preconceito por você...”
“Eu prometo... Mu, sua mestra se chama Tahn, não se esqueça!”
“Não desista...”
“NÃO DESISTA!”
Mu, muito mais alterado, começou a gritar alto, trazendo ao momento um lamento ordeiro e triste, que fez com que Viktor ficasse assustado.
Uma luta iria iniciar... mas não como as outras. O sentimento era completamente diferente. Era como se uma tristeza tivesse tomado o ambiente e contagiado a todos com sua melancolia e desesperança.
Music: Broken Promisses
Composer: Element Eight
Viktor vs Mu | Sadness in heart and soul
DUEL START
Mu correu em direção a Viktor, o socando em sua barriga três vezes com toda sua força. O humano sequer pôde ser defender, tamanha a brutalidade do feneco. Mas o peso do punho de Mu trazia consigo muito rancor.
— TODO MUNDO DAQUELA CIDADE ME QUEBROU! EU VOU TE QUEBRAR! DO MESMO JEITO!
Viktor recebia os golpes, não entendendo ao certo o que estava acontecendo. Mas uma coisa ele entendeu: a dor era muita. Mu estava demonstrando muita força, vida essa que o jovem humano nunca esperaria. Sabendo de que deveria reagir aos ataques, se colocou em base de luta, tentando defender os golpes. Mas Mu estava implacável e dominado por algo. Era como se estivesse tentando caminhar por uma trilha cheia de dúvidas e incertezas, se entregando ao ódio.
— ELA QUEBROU A PROMESSA! ELA QUEBROU!
— Mu... – Disse, recebendo mais golpes.
— CALA A BOCAAA!
♪O dia em que você me deixou
Houve um sentimento que eu nunca mostrei
O dia que você me contou
Havia as palavras que eu nunca conheci♪
— VOCÊ VAI CAIR, VOU TE QUEBRAR TODO! – Mu estava esmurrando Viktor com toda a força – NINGUÉM VAI TE SALVAR! NINGUÉM! VOU TE DIMINUIR AO NADA!
Como dito antes, não era uma luta qualquer. Os socos de Mu eram para machucar. Viktor não estava suportando tantos golpes seguidos e isso o estava ferindo de forma traumática. A dor era muito maior de que qualquer outra luta que teve em Avalice. E com um forte chute, ele foi arremessado para contra uma parede, com Mu seguindo a seu encalço e executando uma sequência absurda e brutal de socos, que atingiram seu rosto e dorso. O feneco tinha total controle da luta, com seu Chi aflorado com toda a fúria.
♪And now it’s over!
Então, o que resta que eu deveria sentir?
Porque desde o dia em que você me deixou eu tenho estado tão sozinho♪
Viktor foi ao chão, sob o peso dos golpes potentes de Mu. Sua confusão o consumia, mas o sentimento seria mais encorpado. O raposa feneco, dominado por puro ódio, disse:
— TODOS QUE VIVEM COM VOCÊ SÃO TÃO FRACASSADOS COMO VOCÊ! ELAS SÃO IDIOTAS EM PENSAR QUE VOCÊ TEM VALOR! VOCÊ NÃO TEM! NÃO TEM! SABE PORQUE? VOCÊ É UM INÚTIL, UM ERRO! VOCÊ NEM DEVERIA ESTAR AQUI, IDIOTA!
— O que...
— LILAC, CAROL, MILLA... ELAS SÃO TÃO FRACASSADAS COMO VOCÊ! – Gritou, se afastando de Viktor – Vivem te agradando, te enchendo de falsas esperanças... Elas te escondem a verdade o tempo todo pra você não se sentir mal... VAI SE FERRAR! ACORDA! VOCÊ É UM SEM VALOR FRACASSADO E IDIOTA! Todo mundo te olha e tem pena... E você insiste em pensar que é importante na vida deles... VOCÊ VIVE UMA MENTIRA!
♪E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Meu coração não aguenta mais
E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Minha mente teve o suficiente♪
O rancor é uma situação bastante contagiosa. Você guarda esse sentimento dentro de si por tanto tempo e, quando a expõe, quem está em volta pode se influenciar. Viktor era um cara forte em espírito mas, como todos sabem, era humano. E pra tudo nessa vida tem um limite. As palavras duras e incovenientes de Mu despertaram esse mesmo sentimento no jovem, que também mudou seu semblante, se assemelhando ao do raposa feneco. Ele então se levantou e, raivoso, disse:
— Retire tudo que você disse delas...
— EU NÃO VOU! É ISSO QUE ELES SÃO E O QUE VOCÊ É!
— Retire... Retire o que disse...
— Você vai fazer o quê, fracassado?
— Eu vou te quebrar todo se não fizer isso!
— Ótimo... VEM PRA CIMA, IDIOTA!
E Viktor fez exatamente isso. Sem pensar no pior, entre partiu com tudo pra cima de Mu, o atingindo com toda sua força. Como disse antes, essa não era uma luta como as outras: não havia esquivas e nem defesa. Os golpes eram recebidos abertamente, quase como uma competição de punho de ferro de nosso mundo. Embora potentes, os socos de Viktor não infligiam danos a Mu, que voltou a castiga-lo sem pensar nas consequências. Seus socos potentes e incontroláveis eram acompanhados por suas palavras:
— VOCÊ SEMPRE TEVE TUDO NA MÃO! SEMPRE TEVE PRIVILÉGIOS E SEMPRE RECEBEU ISSO SEM SE IMPORTAR COM AS PESSOAS! LILAC, CAROL, MILLA... NÃO IMPORTA QUAL DELAS! ESSA SUAS “AMIGAS” SÃO TÃO IDIOTAS COMO VOCÊ EM TE ADOTAR E TE DAR UM TETO! EU ESTOU SABENDO DE TUDO, SEU FRACASSADO! TUDO QUE VOCÊ TEM É FRUTO DA SUA INCOMPETÊNCIA DE SER COMO NÓS! POR ISSO EU VOU TE QUEBRAR, PRA FAZER JUSTIÇA! TANTOS QUE LUTAM TODOS OS DIAS PRA TENTAREM TER A METADE DO QUE VOCÊ CONSEGUIU... UM PRIVILEGIADO DE DROGA COMO VOCÊ NÃO MERECE NADA! E SUAS AMIGAS FRACASSADAS ESTÃO NO MESMO CAMINHO!
♪Dentro de mim
Tem coisas que eu nunca contei
Eles queimam dentro de mim
E AGORA EU PRECISO SABER!♪
Viktor novamente foi ao chão, bastante ferido. Mu, alimentado por uma determinação do mal, não dava chances e o esmurrou com todo o poder. Lutar contra alguém usando de Chi era uma tarefa impossível, embora já tava feito isso duas vezes e tenha saído vitorioso. Desta vez era diferente. O ódio e a desesperança do feneco enfim iria triunfar?
Viktor estava atônito, paralisado e como olhar distante. Seus sentidos estavam todos embaralhados e sequer conseguia raciocinar. Entretanto, havia algo que lutadores tinham em comum. Uma coisa que sempre era um diferencial, um marco em sua mente que não o deixaria nunca. E foi nesse dia que seus pensamentos afloraram por livre e espontânea vontade.
“Viktor, tem coisas que um lutador deve fazer em combate: ter hombridade. Você deve respeitar o seu adversário sempre para receber isso de volta...”
“Mas, caso esteja em um momento de conflito e entenda que você tem muito a perder, deixe tudo isso de lado. Preservar sua vida se torna mais importante e... Lute com tudo, sem pensar duas vezes. Pode ser seu último dia na terra caso pense diferente...”
“Mas só faça isso se você definitivamente estiver próximo a cair no abismo da perdição. Se você cair, não vai mais sair e esse será seu fim... Então saiba medir a gravidade de suas ações. Eles serão permanentes...”
“Faça uso de tudo que eu te ensinei... Se proteja e proteja quem você ama...”
Mas mesmo diante essas frases de sabedoria, o ódio e rancor de Mu tinha o contagiado, lhe trazendo momentos nada agradáveis.
“Seus pais... Eles... Viktor, teve um acidente... E eles... Seus pais... Foi tudo muito rápido... Eles morreram, Viktor... Eu sinto muito...”
“Viktor... Meu discípulo... A Mikaela (namorada dele)... ela está descansando em paz... Eu sinto por isso... Seja forte...”
“Viktor... Sinto informar que sua avó não resistiu... Ela já tinha uma idade bem avançada e... Sentimos muito, fizemos o nosso melhor...”
“Você não tem Nirvana!” – Era a voz de Noah.
E o pior...
“Você chama isso de um duelo... – Disse Neera, acertando Viktor com um chute destruidor – E muitos chamariam isso de um treino... – Disse, socando Viktor em sua barriga – E talvez seja um aquecimento... – O arremessando para longe, caminhando em seguida – Mas pra mim você não passa de uma pedra de tropeço, para não falar o mínimo!”
Ele já havia superado tudo isso, mas Mu fez os pensamentos de Viktor voltarem com força máxima. E Neera era sua fonte de puro ódio:
“Tudo isso foi uma grande perda de tempo... Você é um stranger sem valor! Eu esperei um pingo de coerência de sua parte, mas estava errada. Você mesmo se desgraça em pensar que pode tudo. Não, você é um inútil. Eu não me importo com a opinião dos demais guardiões. Meu julgamento é final: você não passa de um sem valor inútil que não tem amor a própria vida... e pelo visto nem a quem se importa com você! Eu não vou deixar você levar pessoas ligadas a mim nesse seu caminho de perdição!”
Essas palavras... Somente ao relembra-las foi o suficiente para que aquela mesma ferida do supercílio que a panda provocou em Viktor se abrisse, começando a sangrar.
♪POR QUE VOCÊ ESTÁ TENTANDO TIRAR TUDO DE MIM?
Well I'm begging you
ESTOU AQUI SEM NADA PARA MOSTRAR
Porque desde o dia em que você me deixou eu tenho estado tão sozinho♪
“Viktor, você é um irresponsável. Eu não o considero um mestre... e sequer um lutador digno.”
Ele se levantou, ainda mais irritado... E cheio de ódio. Viktor estava diferente, tomando uma base ofensiva e ameaçadora. Ele fechou os dois punhos, os colocando a frente, num claro sinal de que iria atacar, mas não como de costume. E ele ainda ouvia as palavras de Neera:
“Você não é alguém que protege e sim aquele que é protegido. Não há nada humilhante nisso, mas você procurou seu fim. Estou no dever de proteger meu povo... e hoje você foi protegido. Carregue consigo o peso dessa derrota e passe a seguir as regras. Lhe proíbo de sair de Shang Tu. É uma ordem... e espero que também lhe seja um aprendizado valioso para se manter seguro e vivo em Avalice...”
— Desgraçado imundo... – Disse Viktor, com a voz grossa – Eu não vou me segurar... Vou com tudo... – Entre estava mesmo falando sério – Técnica de guerra: Réquiem do dragão — ドラゴンレクイエム!
— PODE VIR! IDIOTA! EU VOU TE QUEBRAR!
A luta se tornou ainda mais franca e brutal. Viktor e Mu se aproximaram, trocando socos potentes. Embora o feneco estivesse na vantagem, desta vez Viktor não recuava. Ele recebia os golpes mas ignorava a dor. Parecia como a luta contra Sheng, mas o sentimento era outro. A cara golpe desferido contra Mu, o impacto só aumentava e os danos também. Por isso o raposa feneco começou a sentir.
Viktor estava usando o Urro do Dragão.
♪E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Meu coração não aguenta mais
E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Minha mente teve o suficiente♪
Na brutalidade pura, os dois mantinham seus golpes um contra o outro. Mu estava incrédulo, já que Viktor dessa vez não parecia estar sendo impactado pelos socos, mesmo que visivelmente lhe trouxesse contusões. Aos poucos os golpes do humano já o incomodavam, trazendo ainda mais questionamentos.
— O QUE?! NEM FERRANDO QUE VOCÊ VAI ME VENCER!
Viktor se mantinha em silêncio, só se concentrando nos ataques. Seu rosto demonstrava o mesmo ódio que Mu, estejam certos disso.
♪Olha como você se virou para mim
Você fugiu e me deixou aqui sem nada para dizer
Eu sou um homem então se vire e diga para mim
Você não acha que eu tenho algo a dizer♪
Impiedosos e irresponsáveis, os dois continuaram com a peleja, deixando que o ódio transbordasse em seus corações e lhe dessem forças para manterem o nível brutal de combate. E pela primeira vez, mesmo após estar muito ferido, Viktor causou dor a Mu, que passou a sentir os duros golpes em seu corpo.
Talvez se lembrem da última técnica que Viktor nos apresentou contra Xiaohuang. “Lágrimas de dragão” era seu nome.
O Réquiem do dragão é uma técnica de guerra, onde todo o poder liberado pela resiliência era usado em sua totalidade. Em poucas palavras, essa técnica de guerra nada mais era que o Urro do dragão sendo utilizado junto a Lágrimas do dragão. Então combinadas, se tornaram uma só técnica, brutal e... letal.
Viktor nunca havia utilizado antes.
♪Olha como você se virou para mim
Você fugiu e me deixou aqui sem nada para dizer
Eu sou um homem então se vire e diga para mim
Você não acha que eu tenho algo a dizer♪
— EU VOU TE QUEBRAR, SEU MISERÁVEL! – Disse Mu, sentindo fortes dores – Ahh... Como... Como pode... COMO VOCÊ PODE ESTAR RESISTINDO?! E como... Porque... PORQUE ESTOU SENTINDO DORES?! VOCÊ NÃO TEM NIRVANA! VOCÊ É UM SEM VALOR FRACASSADO!
— EU SOU O MESTRE DO SALLO TEMPLE! – Disse Viktor, sangrando em seu supercílio – EU VOU PROTEGER O QUE EU ACREDITO! E EU NÃO VOU CAIR JAMAIS! Seu desgraçado... ELAS SÃO IMPORTANTES PRA MIM DE UMA FORMA QUE VOCÊ NUNCA ENTENDERIA!
— VOCÊ NÃO PODE ESTAR DE PÉ! NÃO DEPOIS DE LUTAR CONTRA MIM COM MEU CHI!
— DANE-SE TUDO! ESTOU CANSADO DE TUDO ISSO QUE PESSOAS COMO VOCÊ DIZEM! A MINHA FORÇA ESTÁ NO MEU KARATÊ... E EU QUE VOU TE QUEBRAR!
♪AGORA OLHE COMO VOCÊ SE VIROU PARA MIM
VOCÊ FUGIU E ME DEIXOU AQUI SEM NADA PARA DIZER
EU SOU UM HOMEM ENTÃO SE VIRE E DIGA PARA MIM
VOCÊ NÃO ACHA QUE EU TENHO ALGO A DIZER♪
“A minha força está no meu karatê...”
Essa frase fixou na mente de Mu. Mas não com relação a arte marcial de Viktor. Tinha outro significado, algo relacionado a sua vida e que o marcou deveras. E ele ouviu mais:
“Não ligue para o que essa gente diz de você. E daí que você é diferente? Eles que estão errados de serem todos iguais e seguirem essa de costumes. Eu sou Tahn, sua mestra, você sabe? Não vou deixar meu discípulo bobo e sonhador ficar nessa de “ah tudo mundo me renega, blá blá...” A força que você tem em suas convicções está na sua mentalidade. Nada de privilégios, você está fazendo tudo sozinho... Seja diferente mesmo. Eles que lutem...”
Ao lembrar disso, Mu ficou ainda mais revoltado, aumentando o impero de seus murros contra Viktor, gritando:
— VOCÊ QUEBROU A PROMESSA! VOCÊ A QUEBROU, TAHN! AHHH! VOCÊ A QUEBROU! QUEBROU! QUEBROU! AHHH! – Ele gritou enraivecido.
♪E agora ficamos com...
BROKEN PROMISES!
Meu coração não aguenta mais
E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Minha mente teve o suficiente♪
Mu e Viktor travavam uma guerra ferrenha, onde nenhum dos dois deixavam de se esmurrar. Uma violência desenfreada, brutal e raivosa. Era notável a força de ambos, mesmo que por meios errados. A todo instante e a todo momento, Viktor se embriagava no mesmo ódio que Mu sentia, ainda mais pelos pensamentos do feneco martelassem sua mente tumultuada. Haviam tantas questões e lembranças nada agradáveis... e isso contagiou a Viktor do mesmo jeito.
O Réquiem do dragão era uma técnica poderosa, mas havia um preço muito caro em usá-la.
Entregues ao ódio do momento, era chegado o o ápice do duelo. Com os dois recuados, se olharam como o mesmo semblante sério e odioso que se encontravam e, como esperado, correram um contra o outro. Eles iriam desferir contra seu oponente o golpe final:
— EU VOU ACABAR COM VOCÊ! – Disse Mu, a meia distância – MEGA PUNISHER!
— TOME ISSO! – Desta vez foi Viktor – DEZ MIL PUNHOS DIVINOS DO REI DRAGÃO!
♪E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Meu coração não aguenta mais
E agora ficamos com BROKEN PROMISES!
Minha mente teve o suficiente♪
Os dois cruzam seus golpes, acertando um ao outro ao mesmo tempo. O impacto foi monstruoso, fazendo com que os dois dizem jogados para longe. Viktor foi arremessado para a área mais escura do armazém, havendo ruídos de caixas sendo quebradas. Mu caiu no outro extremo, sobre sacos de grãos e legumes. A bagunça foi imensa e os danos... tanto quanto.
Havia terminado. O fim foi violento. Todos os limites haviam sido rompidos.
Um silêncio repentino dominou o lugar por alguns instantes.
Fazendo um imenso esforço, Mu deu sinais de consciência, tentando levantar seu dorso. O raposa feneco estava muito ferido, com várias contusões em seu rosto. Ele tava rastros de sangue em sua boca, que subiu um pouco de sua pelugem. Gemendo de dor, enfim conseguiu se sentar, apoiando seu tronco aos sacos que estavam próximos. Ele insistentemente mantinha seus dois braços sobre seu dorso, pois era lá a principal fonte de dores. Era visível seu nervosismo, como se não estivesse acreditando no que tinha acontecido. Em por estar com a cabeça um pouco mais fria, ele mesmo disse:
— O que... O que eu fiz? Minha nossa... O que foi isso tudo... Tahn... o que eu fiz? TAHN, O QUE EU FIZ?! PORQUE? PORQUE?
Junto a suas dúvidas, eis que ouviu ruídos de passos. Logo pôde ver, por entre as sombras da área mais escura do lugar, Viktor caminhando vagarosamente. E durante seus passos, ele dizia:
— Eu sou... o mestre do... Sallo Temple... A minha força está... no meu karatê...
E após entrar no salão mais iluminado, Mu conseguiu ver o estado do jovem: Viktor estava com inúmeras hematomas em seu rosto, como inchaço em seu olho direito e a ferida no seu supercílio direito. Para completar, ele estava mancando e usando seu braço esquerdo para segurar o direito, onde b sua mão aparentava estar bem ferida, possivelmente fraturada. O feneco logo entrou em desespero.
— Pelos deuses... Viktor... Eu... O que foi que eu fiz?! O QUE FOI QUE EU FIZ, TAHN?! O QUE FOI QUE EU FIZ...
Ele continuou a caminhar, mostrando muita dificuldade. Mas não deixou de se expressar:
— Fighting strong... Fighting harder... Fighting harder and stronger... Eu sou Viktorius... Daiyamondo... Ashem...
— Viktor... Eu tenho que chamar uma ambulância...
Olhando para Mu, ele, muito fraco, desabou, indo ao chão, se sentando sobre suas pernas. Viktor parecia estar sentindo muitas dores mas, como sabemos, ele conseguia controla-la. A situação estava mais grave do que parecia. Mas:
— Eu lutei contra você usando tudo de mim... Eu fiz o meu melhor...
— Cale-se, Viktor... Por favor, não piore as coisas... Eu... EU TENHO QUE CHAMAR UMA AMBULÂNCIA URGENTE!
— Não... Está bom assim... Eu estou bem...
— NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ! Se não te levar logo para um hospital, pode acontecer algo muito ruim... Então fica quieto!
— Eu estou bem... Melhor agora...
— Do que você tá falando?! EU TE ESFOLEI! SERÁ QUE DÁ PRA PELO MENOS UMA VEZ VOCÊ CALAR A SUA MALDITA BOCA?
Não era uma conversa comum. Tanto que Viktor logo se expôs emocionalmente:
— EU SOU UMA FRAUDE!
— Hã?! Viktor...
— Eu tentei ser como vocês... Fazer parte de suas vidas, como vocês... Mas eu só sou um stranger, um cara fora do seu mundo que tentou se equiparar a vocês... Mas eu não posso. EU NÃO POSSO!
— Viktor... Pega leve...
— Em todo lugar que eu vou eu vejo aquela panda... Eu sempre tenho a imagem dela na minha mente... Carol estava certa a respeito dela... Perder para a Neera me mostrou o quanto eu sou insignificante... – Disse, olhando para Mu – Aí você veio com esse papo de querer humilhar e ofender as garotas... AS MINHAS GAROTAS! Não... Isso eu não admito... Nem se fosse a Neera...
— Cara, eu... Olha... Me... Me...
— Eu lutei com tudo de mim contra você... e olha o meu estado... Eu sou mestre do Sallo Temple, mas olhe pra mim... OLHE PRA MIM, MU! OLHE!
Lágrimas começaram a sair dos olhos do humano, que mostrava muita dor, mas no coração.
— Essa ferida aqui, está vendo? – Disse, apontando seu supercílio – Ela nunca mais vai fechar, sabe porque? Meu orgulho... está ferido. Meu mestre disse uma vez que um estigma não fecha até que você prove para si mesmo que superou essa dor. EU NÃO SUPEREI! AQUELA PANDA TIROU ISSO DE MIM!
— A Neera... Ela te fez isso?!
— Fez mais... mas essa foi a pior coisa. Além disso, eu ainda guardo comigo a vergonha de ter de ser protegido pelas garotas... Isso dói, Mu... Dói muito, mais que essas feridas que tenho agora... E pra piorar, elas escondem isso de mim... Eu as ouvi conversando... sobre eu não ter Nirvana nem Chi...
— Viktor... Eu...
— Então nós dois estamos aqui, com você me dizendo essas coisas horríveis... Cara, eu tenho paciência. Eu tento todo dia fazer o meu melhor... Mas eu só erro. Eu quebrei promessas da Lilac... várias vezes, menti para ela, omiti coisas... e tudo isso pra vê-la sorrir e ficar tranquila. Mas eu sou uma fraude... e nessa hora que eu parei pra pensar que... você está certo a meu respeito.
Mu estava muito desconfortável com isso. Mas iria piorar:
— Nós lutamos com ódio... Eu te odiei como um inimigo, o Spade por exemplo... Ignorei a dor e peguei nela a força que precisava... Eu quase te matei... E eu te peço desculpas por isso.
— Você está... me pedindo desculpas?! Cara... QUAL É A SUA?! OLHA COMO EU TE DEIXEI! VOCÊ NÃO PODE SIMPLESMENTE ME PEDIR DESCULPAS DEPOIS DE TUDO QUE EU TE FIZ HOJE! NOSSA, EU PASSEI DOS LIMITES!
— Não... Tudo isso foi bom pra que eu visse até onde poderia ir... E eu te admiro, Mu.
— VOCÊ ESTÁ LOUCO?! COMO VOCÊ PODE DIZER UMA COISA DESSA?!
— Esse seu poder, Mu... habilidades especiais... Eu queria ter a satisfação e oportunidade de ter isso, mas eu só sou um stranger... Queria poder ter o mesmo poder que o seu, pra proteger as garotas e ajudar as pessoas... Eu seria um mestre completo...
As palavras de Viktor tiveram um entendimento imediato em Mu. O raposa feneco, não acreditando no que estava ouvindo, logo surtou:
— VOCÊ ESTÁ COM INVEJA DE MIM?! É ISSO MESMO?!
— Seu poder... é elétrico, não? Mu... Esse seu poder é incrível!
— CARA, QUAL É A SUA?! Tipo, você tem ideia da idiotice que você está dizendo?! Como você pode ter inveja de mim? IDIOTA! VOCÊ NÃO SABE NADA DE MIM! Esse meu poder... Tudo isso... É UMA MALDIÇÃO! UMA MARCA RUIM QUE ACABOU COM A MINHA VIDA!
— Eu não vejo dessa forma...
— VOCÊ NÃO SABE DE NADA! IDIOTA!
— Eu continuo te achando incrível...
— Idiota... – Disse, virando o rosto – Se você soubesse minha história...
— Tahn... Você disse esse nome o tempo todo... Quem era ela?
— Uma pessoa especial... que quebrou uma promessa... É uma longa história, Viktor...
— Mu... Quero que... me conte...
— Você quer mesmo ouvir? Se isso vai te fazer mudar de ideia dessas idiotices que você disse, então eu vou te contar...
Continua.
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