Freedom
1 Prólogo
"Conseguimos, Libris!! Finalmente conseguimos!!" Ela falou, afagando o pescoço de seu cavalo com ânimo, eles não poderiam mais machucá-la. O cavalo, um Manga-larga Paulista cinza, reagiu ao seu toque com carinho.
Ela apartou o galope, passando para uma marcha simples, encaminhando o animal para um riacho, os alforjes com apenas uma porção de roupas e alguns materiais para jardinagem, nada muito grande, isso só iria atrapalhar sua fuga. Ela parou o cavalo dentro do riacho e o animal, sedento, passou a beber água, sem ter nenhuma reação ao fato da dona ter pego uma faca, que um dia pertencera a sua mãe, e um espelho, apoiando o mesmo na sela, separou as mechas de seu cabelo um pouco maiores que a linha de seus ombros e os cortou, o mais rente possível à cabeça, e foi corrigindo com uma pequena tesoura sem ponta, dessas que as crianças pequenas usam nas escolas nas aulas de artes.
"Não posso deixar que ninguém me reconheça, sei que estou longe, Libris, mas você sabe como eles são...." O cavalo resfolegou, como se respondesse a garota. "Eles não vão procurar um menino, né??" Um sorriso acompanhado de uma simples risadinha a atingiu, teria algumas horas, agora, que ela teria sido incapaz de fazer isso. A luz da lua cheia da madrugada iluminava seu sorriso enquanto ela avaliava o novo corte de cabelo com seus olhos cor de ametista.
Lillian, tirou do bolso uma das únicas lembranças de seu pai, uma escritura, velha, rasgada em algumas partes, desgastada e amarelada, mas, para ela, sua salvação. Seu pai deixara escondido num de seus livros favoritos, um de poesias, Sentimento do Mundo, se ela bem se lembrava do nome. A escritura indicava uma pequena fazenda em uma cidade escondida no interior, a cidade de Bluebell. Escondida deles, conseguiu falar com o prefeito da pequena cidade, Rutger, ele garantiu a existência da propriedade e que pertencia a sua família, Sterhart.
"Será que é muito feio mentir para o prefeito de uma cidade sem nem o conhecer, Libris??" Ela falou, guiando o cavalo para a margem para, em seguida, desmontar "Eu não mentiria se pudesse, você sabe disso, né??" O cavalo agitou a cabeça e a crina, como se concordasse com Lillian, ela já aceitava a situação, mas alguém que olhasse a dupla de fora, teria certeza de que Lillian era louca ou que o cavalo era superinteligente, capaz de responder o que ela falasse.
Depois de revirar um dos três únicos alforjes que o cavalo carregava, ela tirou um terno que também já tinha sido de seu pai e vestiu, camisa social branca seguida pelo terno escuro uma cor cinza pesada e a gravata da mesma cor, sua sorte seu pai ser relativamente pequeno, pedindo que ela só ajustasse as calças. Manteve os mesmos sapatos, um coturno preto, os mesmos que sua mãe usava, muitos falariam que o calçado não encaixava com o traje social, mas, como ela estava a cavalo, ajudava na desculpa perfeita, não queria ter deixado os coturnos pesados para trás, já tinha deixado muita coisa....
"Pois bem," ela falou, procurando deixar a voz mais grave possível, o mais masculina possível "O que você acha, meu amigo??"O cavalo relinchou, concordando com a garota "Pena que não posso crescer uma barba pra me ajudar" Ela riu enquanto o cavalo parou o que fazia e passou a encarar a moça, indicando estar faminto.
"Aqui está, seu maluco" ela sorriu entregando uma maçã para seu único amigo em anos, depois passou a mão nos cabelos, seu corpo não seria difícil de esconder com aquelas faixas espessas para esconder seu seios que ela agradecia por não ser muito grandes e as roupas que ela comprou com o pouco dinheiro que ela tinha, junto as roupas que sobraram do pai. Ela pegou uma mecha de cabelo que ficou presa em seu ombro e cogitou em colar no queixo, mas só iria entregar a farsa.
"Vamos Libris, temos 2 horas até a penumbra pré-amanhecer, que teremos que parar um pouco" Libris gemeu e relinchou, devia estar cansado, ela pensou, mas era a única forma de chegar no horário combinado com o prefeito e se afastar o máximo possível de possíveis perseguidores "Vamos parar mais pra frente, no horário da penumbra.... Se eles me encontrassem, principalmente agora, não sei o que fariam com você......" Ela olhou para o relógio de bolso, este um presente de muito tempo atrás do seu pai para sua mãe, para ter certeza quanto ao horário que deveria ser, revisou os alforjes e subiu na sela que ela mesma atou às presas no dorso de seu amigo.
"Foram 10 anos presa, Libris, nos últimos 3 anos só tive você, vamos garantir que nossa liberdade seja conquistada em conjunto!" Lillian, com seus 21 anos, ergueu seus olhos ametista lacrimejantes para a trilha e tocou, com um carinho especial, os flancos do manga-larga que por sua vez, ergueu-se nas patas traseiras e saiu a galope pela trilha sob o controle carinhoso de Lillian, ambos estavam livres e não seriam mais machucados por aqueles que por tanto tempo os feriram.
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