Freedom
4 Capítulo Três
Notas iniciais
Edward POV.
Naquele dia em especial, as coisas estavam diferentes.
O tempo continuava instável lá fora, as pessoas provavelmente seguiam sua rotina normalmente, independente disso.
Mas não eu.
Pela primeira vez em meses, meu quarto estava, finalmente, limpo, livre de qualquer sujeira. As roupas de cama foram trocadas e agora estavam limpas, as cortinas estavam abertas e o chão sem qualquer traço de poeira e roupas sujas.
Tudo em seu devido lugar.
A janela do meu quarto se encontrava aberta e ventava um pouco. Há quanto tempo eu não a abria mesmo?
Eu realmente não me lembrava qual fora a última vez que aquilo tinha acontecido.
Só que naquele dia, realmente tudo estava diferente.
Fazia exatos três meses desde que ela havia partido.
E agora, pensando nela, e no que havia acontecido nesses meses, eu me lembrava de Alice.
E no que ela sempre vinha me dizendo.
Eu não mudara da noite para o dia, muito menos havia mudado completamente agora. A dor que eu sentia cada vez que pensava nela me atormentava e dizer seu nome era algo extremamente desafiador. Simplesmente não dava.
Só que eu estava melhor.
Me sentia melhor.
Sabia que teria dias que seriam mais difíceis que outros; como hoje, por exemplo. E eu realmente não sabia se algum dia a dor que eu sentia pela ausência dela um dia iria passar.
Só que Alice estava certa.
Quase três meses desde o dia que ela praticamente invadira minha casa haviam se passado, e Alice voltava aqui toda semana, para repetir as palavras que me machucavam mais que tudo.
Ela estava morta... E não iria voltar.
Eu mandava minha irmã ir embora todas as vezes, no começo, ignorando-a por completo e evitando olhá-la. Algum tempo depois ela suspiraria e iria embora.
E eu realmente pensava que ela iria me deixar em paz.
Entretanto, ela era Alice.
Simplesmente não desistia.
Um mês depois de suas visitas constantes, eu a escutei de verdade. Duas semanas depois conversamos. Pela primeira vez desde que tudo tinha acontecido, eu tinha desabafado, e ela ficou ali, apenas escutando tudo.
E mesmo assim as visitas não pararam.
Ela viria às vezes apenas para me fazer companhia, assistir a um filme, jantar. E nesses últimos dias, não só ela tinha vindo. Meus pais, minha cunhada, Jasper – com quem Alice dizia apenas ter um relacionamento aberto –, Emmett.
E as coisas estavam caminhando lentamente.
O Natal tinha sido o dia que eu reerguera toda aquela barreira ao meu redor, impedindo qualquer um de se aproximar. Compareci a casa de meus pais apenas porque eu sabia que aquilo era realmente importante para eles, mas eu não estava realmente lá. Escutava, assentia de vez em quando, mas meu coração não parava de bater de forma dolorosa. Eu a queria comigo, eu a queria viva, eu a queria bem.
No Ano Novo as coisas também pioraram um pouco. Ela nunca chegaria a esse ano, ela não veria mais os fogos, ela não daria aquele sorriso lindo mais.
Só que agora já estávamos em janeiro, o natal havia sido há duas semanas.
E naquele dia, eu me encontrava bem.
Tinha ajeitado meu quarto, o que já era uma coisa.
Mesmo que eu tivesse melhorando aos poucos, as coisas iriam se ajeitar pouco a pouco.
Dando um passo de cada vez.
Não esperava sair correndo e cantando, até porque eu não me sentiria bem e a vontade com isso. A ferida ainda era recente, eu só estava me permitindo voltar à vida.
Aos poucos.
Dei uma olhada no meu quarto novamente e segui para o banheiro, onde tomei um banho longo e quente. Minha aparência ainda era um pouco assustadora demais, mas eu iria resolver isso.
Hoje mesmo.
Assim que desliguei o chuveiro e sequei-me, enrolei-me em uma toalha e parei diante do espelho, já começando a me analisar
Barba grande demais, assim como o cabelo. Estava um pouco menos pálido e as olheiras ainda estavam lá, mas... como eu repetia para eu mesmo toda hora: passos de bebê.
Abri o meu armário e tirei o que seria necessário ali para me barbear. Demorou um pouco, mas eu consegui. Logo estava livre da barba, meu rosto totalmente visível novamente.
Ajeitei tudo e me virei, indo até meu quarto e me vestindo apressadamente. Coloquei jeans, uma blusa preta e calcei tênis também pretos. Depois de pegar meu celular, carteira e chaves, saí do apartamento.
Era hora de cortar meu cabelo.
Não demorei muito a encontrar um lugar e algum tempo depois saí de lá, a aparência um pouco melhor.
Decidi então fazer o meu último dever daquele dia.
Compras no supermercado.
Eu nem me lembrava da última vez que havia feito isso.
A caminho de lá suspirei pesadamente, sabendo que ainda tinha muito o que fazer. Meu coração pulsava dolorosamente no meu peito, desde que acordara. Eu sentia falta dela.
E algo me dizia que eu iria sempre sentir.
Bella POV.
Eu mal conseguia acreditar que quatro meses tinham se passado desde que tudo acontecera, pensei, assim que abri os olhos. Jacob se encontrava em casa naquela semana, o que era verdadeiramente um milagre.
E mais milagre ainda quando ele dizia que não fazia ideia quando ia ter que viajar novamente, porque ao que parecia, ele e Rosalie tinham algumas coisas a investigar e descobrir.
- Parece ser mais complexo do que imaginávamos – suspirou. – Talvez as coisas demorem um pouquinho mais, Bella.
Isso tinha sido há alguns dias e até agora eu não sabia de mais nada.
Suspirei pesadamente e levantei-me, caminhando até o banheiro e resolvendo tomar um banho. Quando terminei, desci para a cozinha e comecei a preparar o café.
- Bom dia! – A voz de Jacob soou próxima a mim, fazendo-me pular de susto. – Desculpe, é que não resisti a esse cheiro gostoso.
Eu revirei os olhos e sorri um pouco, porque de repente...
Eu só conseguia pensar nele.
Será que ele estava bem? Será que já havia saído de casa e parara de ignorar a família?
- Bella?
- Oh! – virei-me. – Desculpe, eu estava um pouco distraída...
Jacob me avaliou durante alguns segundos, depois suspirou.
- Está pensando no Edward, não está?
Edward...
Eu pensava nele todos os dias, assim como sentia falta. Às vezes perguntava dele para Rose – não diretamente –, porque eu queria que ele estivesse bem.
Eu queria que ele não estivesse sofrendo.
Um dia desses, eu tinha tomado coragem e pedido a ela uma foto dele, a qual eu mantinha no quarto que eu ocupava. Olhar aqueles olhos tão lindos, aquele sorriso torto que sempre me encantara.
E acho que sempre encantaria.
- É... – murmurei, começando a preparar a mesa. Jacob se levantou e começou a me ajudar. – Acho que vou sempre me lembrar dele, pensar... Não sei se um dia vou superar, não sei se quero isso, embora seja doentio ficar sofrendo para sempre dessa forma.
- Você fala como se não fôssemos conseguir provas o suficiente – disse, pegando o café.
- Eu acho que vocês vão conseguir. – Sentei-me em uma das bancadas. – Embora eu confesse que tenha medo de algumas coisas... Mas... sinceramente, eu não sei se Edward e eu vamos mesmo ficar juntos.
- Por que diz isso, Bella? – indagou-me. – Pelo que eu saiba de você e de Rose, ele sempre foi louco com você.
- Eu estou fingindo que estou morta, Jake – dei-lhe um sorriso triste. – É perfeitamente compreensível se ele não conseguir me perdoar.
- Vai ser um idiota – deu de ombros. – Você está fazendo isso para protegê-lo. Se ele não aceitar... definitivamente, um idiota.
Nós passamos o resto do café da manhã em silêncio, apenas comendo. Jacob me expulsou da cozinha quando acabamos, dizendo que ele iria lavar o resto da louça.
E eu aproveitei para ir para a biblioteca.
Sentei-me em uma das imensas poltronas que havia ali e peguei um livro. Um igual ao que Edward tinha me emprestado certa vez. Acariciei a capa do livro, sorrindo um pouco ao me lembrar de tudo o que passamos juntos.
Eu sentia falta dele. Eu sentia muita falta dele.
Será que algum nós nos encontraríamos? Será que ele seria capaz de me perdoar?
Será que – e engoli em seco ao pensar nisso – ele teria outra?
Seria perfeitamente compreensível, até porque eu mesma tinha pedido que ele seguisse em frente, que me esquecesse, que constituísse uma família.
Só que iria doer.
Iria doer demais.
Lembrei-me, de repente, do meu Natal, e em como me senti sozinha. Jacob fora passar com seus pais e, obviamente, Rosalie passara com os Cullen.
Com Edward.
É claro que eles me visitaram assim que puderam, trazendo presentes e tudo o mais. E eu meio que me sentia ingrata por não ter ficado imensamente feliz.
Eu o queria. Comigo. Eu queria Edward.
Respirei fundo e procurei afastar tais pensamentos da minha mente, levantando-me e procurando por outro livro.
Só que aí, senti uma vontade imensa de escrever.
Nos últimos dias, eu tinha pensado em toda a minha história e começado a escrevê-la, usando outros nomes e características, claro. Usava o notebook que ficava no escritório e já tinha várias páginas prontas.
Só que eu ainda não havia tido coragem de mostrar a ninguém.
Sentei-me diante do notebook e o abri, ligando-o. Assim que tudo terminou de carregar, pus-me a escrever, contando detalhes de minha vida na cadeia, de como era descobrir estar apaixonada pelo psicólogo e tão logo mais descobrir que ele retribuía a tal sentimento.
Eu ainda não sabia qual fim atribuir à história. Será que o público aceitaria um final triste? Seria que aceitaria que eu morresse e o personagem que representava Edward terminasse triste e sofrendo?
Eu não tinha respostas para nenhuma dessas perguntas, assim como não tinha respostas para o meu futuro.
E isso parecia e era assustador.
Edward POV.
Eu voltei a meio que trabalhar uma semana depois. Não atendia meus pacientes ainda, porque eu precisava lidar com meus próprios sentimentos antes de ajudar as pessoas completamente, mas eu estava trabalhando.
No hospital.
Eu trabalhava na ala infantil, ajudando criancinhas, o que realmente estava me fazendo bem. Lá eu me permitia tocar para elas, brincar com elas, sorrir sempre.
Era bom, era uma terapia.
E estava me fazendo bem.
Eu sabia que minha família estava se sentindo imensamente feliz com a minha melhora óbvia. Todo o meu apartamento tinha sido limpo e as coisas pareciam estar se ajeitando.
Como eu já imaginava, alguns dias eram mais difíceis que outros. Às vezes eu chorava por horas e passava um dia todo na cama, as coisas dela a minha volta.
E eu decidi que precisava superar esse medo bobo de dizer seu nome.
E para isso, eu precisava enfrentar algo.
Eu precisava ir até o cemitério Byrd.
Eu acordei cedo naquela manhã de sábado, colocando jeans escuros, camisa e sapatos pretos. Peguei meus óculos escuros e apenas passei uma mão nos cabelos, antes de pegar chaves, carteira e celular, e partir para o cemitério.
Esse cemitério era dedicado aos detentos que eram acusados de pena de morte. Como ela não tinha parentes e minha família não tinha uma conexão com eles – não que os diretos do presídio soubessem, é claro –, o Estado pagara seu velório.
Eu estacionei o carro e adentrei o local, sentindo um peso enorme no coração. Todas as cruzes do local eram iguais e algumas estavam até mesmo tortas. Comecei, então, a andar pelo cemitério, prestando atenção em casa uma delas, procurando pela certa.
Demorou cerca de dez minutos, mas finalmente achei.
Uma cruz perto de uma árvore, com um número de inscrição, um nome embaixo – o seu nome completo –, a data de seu nascimento e morte, e nada mais.
Respirei fundo, buscando todas as forças que eu necessitava naquele momento, para dizer aquilo.
- Isabella Marie Swan.
Não passou de um sussurro, que foi logo seguido por lágrimas e mais lágrimas. Os soluços vieram logo depois e eu me vi ajoelhado, sentindo-me desesperado.
Ela se fora.
Ela morrera.
E ela não iria voltar.
Alguns momentos depois, consegui me acalmar, respirando fundo e me levantando. Fitei a cruz, com apenas o número de inscrição, o nome e a data que nascera e morrera ali.
Nada mais.
Fui embora alguns minutos depois, as lágrimas ainda escorrerendo. Eu precisava chegar em casa, precisava deitar em minha cama e ver as coisas dela.
Eu precisava de um pedacinho dela comigo, por menor que fosse.
E acho que sempre precisaria.
_
Demorou alguns dias até que eu me recuperasse da visita. Agora, por mais difícil que ainda fosse, eu conseguia dizer seu nome.
Mesmo que fosse pouco.
Agora, uma semana depois de minha visita ao cemitério, estava a caminho da minha tarefa mais difícil: a caminho da casa que Bella morava antes de ir para a prisão.
Eu fiquei sabendo por Alice que Rose mantivera o apartamento, assim que assumiu o caso de Bella, pensando que ela seria libertada. Ela pagara alguns meses adiantados, que acabariam logo, então...
Eu estava indo visitá-lo nesse exato momento.
Minhas mãos tremiam enquanto eu segurava no volante com força e trincava o maxilar. Eu entrei na rua que me havia sido indicada por Rosalie e fui observando os números das ruas. E logo parei de frente para uma casa que tinha o mesmo número do papel.
Era a casa dela.
Estacionei e saí do carro, caminhando até a porta e pegando a chave do meu bolso. Com a mão direita tremendo muito, coloquei a chave na fechadura e rodei, abrindo a porta logo em seguida.
A casa tinha cheiro de fechada e estava escura. Sentindo meu coração apertar a cada passo que eu dava, estiquei a mão e apertei o interruptor.
Parecia que uma faca tinha me furado as costas.
As coisas estavam em seu lugar, mas tudo ali – a poeira, as janelas fechadas – indicava que ninguém vivia ali por um tempo.
Na verdade, desde que Isabella Swan fora presa, sua casa estava fechada.
O problema era que eu conseguia imaginá-la ali. Jogada no sofá, aninhada em um cobertor enquanto via televisão ou lia. Eu sentia falta dela – eu sentia muita falta dela. O sorriso, os olhos, o modo que seu cabelo emoldurava o rosto. Os beijos, os toques.
Eu ainda a amava, mesmo meses após sua morte.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto sem que eu me desse conta, enquanto caminhava pela casa, descobrindo outros cômodos, descobrindo outras coisas.
Descobrindo mais sobre ela.
A cozinha estava sem alimentos nenhum, descobri isso ao abrir a geladeira e os armários. Mas eu conseguia imaginá-la cozinhando e comendo às pressas ali. Na porta da geladeira, encontrei um bilhete.
Consulta com o dentista às 3:30 p.m. no dia 12/maio.
- A letra dela... – sussurrei, em meio a um sorriso.
Eu peguei o bilhete para mim antes que percebesse e o guardei no bolso, saindo logo em seguida do cômodo. A próxima parada foi o escritório.
Havia livros ali. Milhares de livros. E fotos também. Eu vi cada uma delas, sentindo mais do que nunca falta da mulher por quem eu ainda era completamente apaixonado.
Por que ela tinha que ter partido daquele jeito?
Eu parei no banheiro também e sorri ao ver o shampoo de morangos dela. Sorri ao imaginá-la cantando enquanto tomava banho...
E decidi que era hora de criar coragem para ir olhar o último cômodo da casa: o quarto dela.
Eu segui pelo corredor e parei numa porta também fechada, sem indícios de que seria o quarto. Mas era a última...
Eu a abri e encostei-me no batente da porta, observando tudo ao redor, enquanto as lágrimas ainda desciam com toda a força pelo meu rosto.
Era o quarto dela... As coisas dela.
Sem ter mais forças e sem me importar com a sujeira, caminhei até a cama e me deitei, puxando o travesseiro para mim. Mergulhei o rosto ali e chorei tudo o que tinha para chorar.
Como eu podia suportar sua perda? Como podia lidar com isso, mesmo tendo passado meses desde a execução dela? Como podia seguir em frente e lidar com toda essa dor que eu estava sentindo naquele momento?
Eu não tinha respostas para nenhuma dessas perguntas, mas sabia que tinha que começar a lutar para ser feliz sem ela, acostumar com sua ausência.
Ela iria querer isso, afinal.
Ela iria querer que eu seguisse em frente.
Notas finais
Aproveitei duas aulas chatas e me empolguei, colocando todas as ideias em um papel, haha. Acabei adiantando algumas coisas.
Enfim, semana que vem tem que chegar logo! *-* Porque no final do próximo capítulo... Melhor me calar, hã?
Edward começando a dar um rumo em sua vida, o que será que isso significa?
Espero que gostem (; E, já sabem, quem quiser spoiler, só deixar email.
Beijos, meninas.
Até sexta que vem (;
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