Free Fallin'
8 7. Tulipa
Notas iniciais
Renascimento
O final de semana passou sem maiores dramas para Fabinho — ele quase perguntou aos céus se Deus finalmente tinha decidido lhe dar uma folga. Fabinho se esqueceu que não era um dos favoritos do universo — a começar pela própria concepção e nascimento.
Pelo menos ele tinha uma família que o amava, repetia quando os pensamentos sombrios sobre a própria existência eram demais para um ser humano. Ele tinha uma mãe amorosa, amigos fiéis (tudo bem, amigo mesmo só tinha um e Bento era praticamente seu irmão) e talvez — só talvez — Giane.
A mesma Giane que o encarava com o rosto sujo de molho de tomate durante um almoço na casa de tia Salma.
- Modos é uma coisa que você ainda anda precisando. — disse em tom desinteressado e viu Giane rapidamente limpar o rosto com um guardanapo de papel, corando levemente.
- Nem todo mundo é um fraldinha cheio de frescuras e metido à besta. — ela retrucou dando de ombros e ele sorriu.
- Você ter me ensinado bons modos à mesa é ser “cheio de frescuras”, mãe. — ele disse, olhando para mãe que se levantava da mesa.
Sua mãe lhe sorriu com um brilho malicioso no olhar. Ele sabia que se parecia muito fisicamente com Plinio Campana mas, nessas horas, ele via o que era puramente Irene em si mesmo. E, sendo filho de sua mãe, ele começou a temer pelo comentário que ela faria no meio de tanta gente do bairro.
- Vocês dois deveriam parar de picuinhas, que claramente já não são mais crianças. — o tom dela indicava que ela sabia o que potencialmente acontecia entre os dois debaixo do próprio teto.
Irene estava errada, mas ele não teria coragem jamais de abrir a boca e tentar desmentir as implicações, principalmente quando Giane olhava para o próprio prato como se ele lhe contasse segredos da imortalidade, enquanto seu rosto parecia ferro incandescente.
Ele sempre soube que ela seria uma explosão, só nunca imaginou sua mãe sendo o gatilho.
E é claro que ela ficava linda com esse rubor todo. Ele ainda não tinha visto ela ser menos que adorável. Mesmo que o adjetivo que sua mente traiçoeira continuasse repetindo fosse apaixonante.
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Os saltos quase vertiginosos e caros de Amora Campana ecoavam pelo piso da Class Mídia fazendo todos saírem do caminho da beldade. O rosto lindíssimo parecia contorcido em uma careta e expressão de nojo que a deixavam menos perfeita. Não era usual para ela parecer menos que perfeita.
Fabinho sabia o ritual: até queria debochar, implicar e agir como se eles tivessem o mesmo nível de poder, mas seu instinto de autopreservação falava mais alto e ele tinha um emprego que gostaria de manter, mesmo que odiasse quase todo mundo daquele ambiente, o que é muito comum para jovens adultos no ambiente de trabalho.
Abaixou a cabeça e fingiu estar dedicado selecionando fotos de sorvetes para a nova campanha da agência; supostamente, Amora seria a garota propaganda dessa campanha milionária… Ah, as vantagens de estar emocionalmente envolvida com o filho do dono de uma das maiores agências de publicidade do país.
- Vocês ficaram sabendo? O Nelson não aprovou a Amora, disse que ela não parece o tipo que toma sorvete. — Carol comentou quando o assunto da fofoca já estava dentro do escritório de Natan. — Parece que ela vai perder uns bons milhões por não assinar essa campanha.
Edu segurou uma risadinha.
- Imagina pagar milhões para uma campanha e se recusar a contratar a maior it girl desse país! Ela não come sorvete, mas é capaz de vender areia no deserto para seus seguidores. — ele debochou, enquanto Fabinho fingia não ouvir.
O cliente tinha razão: Amora não passava a ideia de alguém que comesse sorvete — a menos que fosse sorbet de restaurante fino na Europa (e olhe lá). Se ele queria uma sensação de realidade, ele precisava de uma girl next door, de uma pessoa que passasse a sensação de estar em casa. Conteve um grunhido porque ele sabia como a campanha deveria ser.
E quem deveria estrelar.
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Giane olhava o próprio telefone e a solicitação de amizade de Maria Luiza Campana como se esperasse ser mordida por um animal selvagem. Se recusasse seria estranho, mas se aceitasse, uma teria acesso à outra. Se fosse sincera, não achava Malu uma pessoa ruim, mas isso não significava que ela fosse um risco. Afinal, ela vivia pesando as possibilidades de Malu descobrir um irmão mais velho e o quanto isso afetaria Irene e, mais ainda, Fabinho.
Decidiu ignorar a solicitação de amizade por enquanto. Não era como se postasse qualquer coisa para seus 6 seguidores.
Focou no trabalho a ser feito: as tulipas claramente precisavam de uma troca de água e, talvez, afastá-las um pouco mais das janelas, pois às vezes a beleza também precisa de sombras.
Ouviu uma certa voz em sua cabeça lhe dizendo que nunca a imaginou tendo pensamentos pseudo poéticos e se odiou por perceber pela enésima vez nessa vida o quão conectada e em sincronia sempre estava com ele. Por que não podia ter isso com Bento?
“Porque talvez você seja uma tulipa e ele um girassol.” A maldita voz lhe disse e ela controlou um grito de frustração.
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A reação encantada de Bento com a Toca do Saci aquecia o coração de Malu. Ela nunca conheceu alguém que parecesse tão certo para si quanto ele — alguém com os mesmos princípios e o mesmo desejo de ter uma família amorosa que ela. Não que seus irmãos adotivos não fossem amores de sua vida (Bem, se fosse sincera uma deles não era e nem fazia questão de ser), mas a relação com eles era sempre maternal: alguém tinha que ser uma mãe naquela casa e claramente Bárbara Ellen não seria essa pessoa (Bem, talvez para uma filha). Malu queria irmãos de verdade.
- Este lugar é lindo. — ele disse com um dos sorrisos mais lindos que já viu. — Acho que ainda temos alguns livros infantis na casa do tio Gilson que podemos doar para a biblioteca. Talvez Fabinho ainda tenha alguns livros infantis também, a Irene adora guardar as coisas, uma coisa quase acumuladora.
Essa era a deixa que ela esteve esperando o dia todo.
- E o pai do Fabinho, ele também é assim? — ela quis chorar com quão bizarra a questão soara. Bento claramente ficaria desconfiado no súbito interesse em Fabinho e ela se sentiria na obrigação de explicar as prováveis loucuras de sua cabeça e descobrir que tudo não passara de sua imaginação dramática (uma clara herança de sua mãe).
Bento, por um milagre, não pareceu se importar com a pergunta.
- O Fabinho não conhece o pai, como muita gente. Sinceramente, não sei se ele sentiu falta em algum momento desde a nossa infância… A Irene é uma mãe sensacional.
- Imagino. Ela tem um ar tão reconfortante. — Malu disse tentando conter a potencial excitação de que talvez tenha encontrado um irmão. — Eu estava pensando em colocar aqui as barras para as aulas de ballet de Irene, o que você acha?
Se isso fosse verdade, seu pai teria que se explicar e muito. Era um sinal do universo que seu pai estava voltando para casa depois de meses longe.
Ela só precisava descobrir como introduzir “Eu acho que somos irmãos“ para Fabinho sem ele achá-la louca — mesmo que ela também se achasse completamente insana por ter certeza de que ele era seu irmão. Deus, como ela ia contar para seu pai que ele provavelmente tem mais um filho?
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— O que é isso, Fabinho? — o sangue gelou em suas veias.
— Um moodboard fake para a nossa campanha de sorvete. — ele respondeu entredentes já esperando o esporro que levaria. As pessoas no escritório pareciam suricatos prevendo o perigo e o encarando enquanto Silvia olhava para a tela.
— É leve e divertido, mas não parece muito com a campanha que tínhamos decidido fazer, mesmo que seja bem melhor que a ideia original. — Érico disse em tom baixo para Silvia que assentiu levemente.
- Talvez valha a pena mostrar para o cliente. — Silvia discutia com Érico discretamente.
— Natan não vai gostar de não ter tido a ideia. — Érico ressaltou e Silvia deu de ombros.
— Ele vai ficar calmo quando o cheque descontar.
Fabinho sabia que tinha feito merda. Só não sabia qual o tamanho da burrada ainda.
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Giane fechava a loja no automático. Bento passara o dia todo fora e ela teve que segurar todos os rojões do dia. Às vezes sentia que sua sociedade era desigual, mas faria quase qualquer para fazê-lo feliz.
— Teve um dia merda também? — Fabinho comentou se escorando na parede da Acácia. Ela só grunhiu em resposta. — Merda assim?
— O que você quer? — perguntou sem paciência, como se isso afastasse Fabinho.
— Conversar. Não sei se você se tocou, minha querida maloqueira, mas infelizmente para mim, meu melhor amigo está sempre com a minha irmãzinha — ele fez uma careta ao dizer isso. — Eu também me sinto abandonado às vezes.
— E isso é meu problema? Vai caçar alguém em aplicativo de namoro se sente tão sozinho. — ela disse sarcástica, porém ambos sabiam que era um blefe pelo leve rubor em suas bochechas.
— Quer mesmo que eu faça isso? — ele perguntou dando um passo extra em direção dela.
— Desembucha logo o que você quer porque estou cansada e querendo meu sofá. — bufou se afastando levemente do amigo e caminhando em direção à casa que dividia com o pai, Fabinho a seguiu sem questionar.
Ambos viviam no universo das palavras não ditas, mas — pelos deuses! — eram tão bons em achar os significados nos silêncios compartilhados.
- Amora Campana causou um furacão de categoria 5 na Class Mídia e eu tive que desviar dos escombros. — ele olhou para o lado meio constrangido — E eu acho que me coloquei sem querer na zona de impacto. Estou até com medo de amanhã.
Ela soltou um assovio impressionado.
- E você? — ele perguntou vendo a tensão nos ombros da amiga.
— Sua irmã me adicionou em redes sociais e eu tive que lidar com uma noivazilla sozinha da Para Sempre. Ela queria muito que eu achasse tulipas para um casamento no outono e reclamou quando eu disse o preço, isso se eu achasse. — abriu a porta de casa e deixou Fabinho entrar primeiro.
Foi a vez dele em soltar um assovio impressionado.
- Precisamos de férias, maloqueira. — disse se jogando no sofá da casa da amiga.
— Com que dinheiro? Com a herança que você se recusa a ir atrás? — ela roncou e conteve uma risadinha quando ele a olhou irritado. — Somos dois pobres: eu de nascença em pedigree e você por escolha. — soltou uma risadinha pelo nariz. — Você julga, mas tem mais em comum com os riquinhos da Vila Madalena que fazem cosplay de pobre do que pensa.
Os palavrões de Fabinho fizeram com que soltasse uma gargalhada gostosa.
- Deixa eu fazer a sua janta logo, antes que eu desista de cuidar de você. — ele revirou os olhos, fingindo se incomodar. — Uma mulher adulta que não consegue fritar um ovo…
- Eu tenho você para isso. — ela comentou jocosa e Fabinho optou por não continuar a implicância.
Nenhum dos dois ignorou quão familiar tudo era. Só não vocalizaram — o silêncio sempre foi o melhor amigo da relação entre eles.
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Madá desceu da moto de Jorge e fez um sinal de paz para o homem que buzinou ao partir. Finalmente estava de volta à São Paulo e a Casa Verde estava exatamente como lembrava — tudo bem, estava mais florida.
Procurou a chave da casa em um dos inúmeros bolsos da jaqueta enquanto admirava a noite. Viu um garotão sair da casa de uns vizinhos e riu ao pensar em como ele lhe parecia familiar, talvez um filho de algum amigo do bairro.
Pegou o celular e discou o único número que havia memorizado.
- Maluzita da vovó, adivinha quem fugiu? — ela disse entrando em sua casa. — Relaxa, eu estou na Casa Verde. Conceição prefere a morte a pisar aqui. Nem a filha favorita ela veio buscar. Malu, meu amor, eu não posso acompanhar seu raciocínio, como assim o Plinio tem um filho?
Madá sorriu. Ela realmente estava sentindo falta do caos do mundo exterior.
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