Notas iniciais
Ooooiiieeee!!!!! Deculpa a demora, é que eu estava mais focada na minha outra história, Red, que faz mais sucesso u.u
Gente, quem não conseguir idealizar Godofredo, é só ver aqui no link que eu vou deixar nas notas finais, okay?
Espero que gostem do capítulo! Eu fico muito animada quando escrevo esta história! :p

No céu, reinavam relâmpagos e trovões. Pequenos focos de furacões se estendiam e se formavam ao longo do horizonte, resultando em ventanias ferozes que elevavam e bagunçavam o cabelo de Ágatha. O cinza pintava as nuvens, que pareciam vigiar com certa fúria o que acontecia na superfície.

O despertador soou alto demais para os ouvidos de Ágatha que, por consequência, acarretou uma dor de cabeça aguda. Sua mão, inconscientemente, se dirigiu ao despertador. Deu-lhe um tapa tão forte que ele caiu no chão, fazendo um estrondo ao se chocar com o piso de madeira. Ágatha xingou o barulho mentalmente. Ela gemeu ao se virar na cama e perceber que seu pescoço doía. Massageou o local dolorido e contou até três.

Até ai tudo bem, mas por que contar até três?!

Hoje era o terceiro dia consecutivo que tivera esse mesmo pesadelo; faltavam três meses para sua irmã voltar do Canadá; três dias até a prova de matemática; três horas até a escola começar.

De mau humor, ela levantou-se da cama e se deparou com sua imagem no espelho do guarda-roupa. Seu cabelo loiro cacheado estava cheio de nós enquanto seu pijama um pouco desproporcional para seu tamanho, pois era grande para ela, estava amassado. Se aproximou mais do espelho, mais um pouco e um pouco mais até notar uma protuberância na testa. Era o fim do mundo para qualquer adolescente.

Correu para o banheiro e passou a pomada que seu dermatologista havia indicado para combater as espinhas e que Ágatha, como todo adolescente, tinha preguiça de usar.

- Ainda bem que é só uma – murmurou ao passar o remédio.

Espinhas. Motivo de desespero para qualquer um em qualquer idade. Ela vem com aquela vontade irresistível de espremê-la até sair o puszinho de dentro dela. Admita. Você também adora fazer isso. Ágatha saia com vantagem em relação a isso, porque era uma menina disciplinada, que conseguia controlar seus impulsos – alguns.

A sua mãe, Michele, bateu na porta do quarto.

- Vamos, querida! O café já está na mesa!

Depois de vestir o uniforme da escola – uma blusa rosa, que ela detestava, uma saia marrom clara, meia-calça cor de pele e uma sapatilha preta -, ela se olhou no espelho pela última vez e não ficou satisfeita com o que viu. A espinha ainda estava visivelmente incomodativa. Decidiu então colocar um band-aid, daqueles pequenininhos e redondinhos de quando você vai tirar sangue. Usaria sua franja de lado para disfarçar.

Enquanto descia as escadas, agradeceu em silêncio por não ter que, novamente, ser empurrada da escada por Miranda. Também não teria que ter aquela tão indesejada indigestão ao vê-la comendo seu café da manhã – frutas e um suco sem açúcar – do seu jeito patético e cheio de manias.

Na mesa da sala de jantar, sua mãe se encontrava sentada na cadeira dando aquelas papinhas nojentas e melequentas de bebê para Gabbe que estava sentado na cadeira especial para sua idade. Marcus, seu pai, lia o jornal do dia enquanto bebericava seu café com leite.

Ágatha se sentou em silêncio, sem querer incomodar ninguém ou desequilibrar a paz e o clima feliz do lugar. Ela os observava como se fossem pessoas de outro mundo, digamos assim. Não com estranheza ou medo, mas como se ela não pertencesse àquela família. Uma vez, quando criança, chegara a perguntar se fora adotada, mesmo sendo evidentes os traços genéticos herdados dos seus pais. Mais uma prova de que ela era filha de Michele e Marcus se expressava em uma pequena mancha redondinha que ficava em sua mão direita. A mesma aparecia em sua mãe e avó.

- Filha – Michele a chamou carinhosamente enquanto ela encarava seu prato de cereal, sem a mínima fome – Hoje à tarde, irei levar seu irmão ao médico.

Ágatha assentiu, calada. Refletiu sobre as palavras de sua mãe. Não seria mais fácil falar que ela teria que passar a tarde toda sozinha? Que fique claro: Ágatha não gostava de cuidar de Gabbe, mas ele se comunicava com ela, falava – mesmo que não fizesse sentido -, precisava dela, dava importância.

Seu pai continuava em silêncio. Um silêncio perturbador e muito barulhento. Pelo menos, era assim que Ágatha pensava, como se lá no fundo daquele silêncio profundo houvessem palavras e sentimentos guardados e reprimidos. Um pedido de desculpa por ter colocado seu filha primogênita, uma prioridade em sua vida, esquecendo-se de que ele também tinha outra, quem sabe tão talentosa quanto Miranda.

Ágatha se pegou sentindo um ardor no fundo dos seus olhos. Nesse mesmo momento, seu pai se levantou, despediu-se de Gabbe, dando um beijo na sua cabeça, outro em sua mulher e apenas acenou para ela com um sorriso de lado.

Um progresso! Ele sorriu! E Ágatha sorriu também pela primeira e última vez no dia.

[...]

Tudo havia ocorrido normalmente até agora.

Susana e Patrícia, as meninas que enchiam seu saco com comentários ridículos, porém inteligentes – não me pergunte como isso é possível – estavam sentadas do outro lado da sala nas últimas cadeiras.

Eu não preciso falar isso, mas aqui vai: elas eram namoradas. Pois é.

Ágatha estava sentada na sua cadeira de costume no cantinho esquerdo no fundo, esperando o tempo passar quando sua amiga chegou.

Luiza se sentiu perdida a princípio. Não conseguiu localizar sua amiga, porque era míope e não usava óculos. Exatamente. Uma menina míope que não usava óculos estava forçando a vista para procurar por sua amiga que havia se escondido no fundo da sala, pois não gostava de sentar na frente, o que era algo péssimo já que Luiza sempre acompanhava Ágatha aonde ela fosse.

A verdade era que Luiza possuía a mesma insegurança constrangedora de sua amiga, e este foi um dos principais motivos para que nascesse essa amizade. Apesar de ambas nunca se defenderem ou algo do gênero, elas sempre davam um jeito de animar umas as outras. E foi por causa disso que Ágatha levantou a mão e acenou para ela.

Luiza veio em sua direção, tombando com algumas mochilas e cadeiras, ouvindo as reclamações das pessoas logo em seguida.

- Bom dia, Ágatha – disse sentando-se e quase não exteriorizando seu bom humor.

- Bom dia – devolveu ela sendo um pouco mais fria que a amiga.

Pronto. O dia já tinha começado com o pé esquerdo.

Aquele barulhinho chato das conversas paralelas das coleguinhas de Ágatha irritavam-na, fazendo-a ter que cobrir os ouvidos com as mãos, e acabou não escutando o que Luiza disse.

- Ei, tá me ouvindo? – perguntou ela enquanto estalava os dedos bem perto do seu rosto.

- Ahn? – foi o que conseguiu dizer.

Luiza revirou seus olhos castanhos.

- Eu estava falando que a lista para a inscrição da galeria já está no mural.

- E eu com isso? – retrucou.

- Qual é, Ágatha? Por que você não mostra logo de uma vez o quanto é boa?

Ela abaixou a cabeça para não encarar a indignação presente nos olhos da amiga.

- Eu...

Antes que pudesse terminar a frase, a professora de artes entrou na sala. Aquela ironia do destino murchou seu coração por um instante. Não era uma ironia engraçada nem estranha. Ela reforçava a ideia de que suas pinturas deveriam ser mostradas na galeria da escola no tão esperado Dia dos Talentos.

O Dia dos Talentos acontecia uma vez no ano no finalzinho do segundo semestre e era uma bosta. Não só na minha opinião, mas na dela também. Podia-se resumir a um monte de garotas tentando ser cada vez melhores que as outras, e elas faziam de tudo para isso, desde suborno até ameaças. Um verdadeiro inferno.

No decorrer da aula, Ágatha pensava e repensava sobre o que deveria fazer. Tinha a impressão de que se seguisse as palavras de Luiza, algo muito ruim iria ocorrer. Susana riria das suas telas enquanto Patrícia as menosprezaria. Quem sabe as duas não fariam uma fogueira no pátio aberto, queimariam as pinturas ao som de palavras insanas que pregariam maldições e mortes? No final da cerimônia, a sacrificariam e beberiam seu sangue...

- Senhorita Savin? – a professora chamou sua atenção pela quinta vez, à beira do estresse – Ágatha Savin!

- Não fui eu! – a dita cuja se levantou num susto e soltou essas palavras automaticamente.

Todas as alunas da sala riram dela, menos uma.

- Sim, professora? – ela respondeu depois de se sentar novamente com a cabeça abaixada pela vergonha.

- Eu estava fazendo a chamada, querida. – disse, usando a gentileza na voz para tentar reconfortá-la.

Ágatha concordou em silêncio.

[...]

Depois de uma tormenta dessas na escola, ela foi para casa descansar. Sabia que passaria a tarde inteira sozinha e, para não se sentir mais abandonada ainda, iria ficar no seu atelier pintando ou até mesmo não fazendo nada, apenas pensando e pensando.

Ágatha adorava a hora da saída não só porque iria para casa, haviam outras questões envolvidas nisso.

Mentira. Era só uma mesmo. E se chamava Arthur.

Ele também fazia transporte com ela e com, infelizmente, metade da escola. Entre as infinidades de meninas, estava Patrícia. Sim, aquela do ritual satânico. E para ser melhor ainda, ele tinha que ser o único garoto do transporte. Tadinha dela.

Será que preciso comentar que a ida à sua casa foi totalmente desastrosa? Que Patrícia não largava Arthur um segundo? Que o pneu do carro furou e os alunos tiveram que dar uma caminhada maravilhosa com o sol de meio dia até suas casas? Acho que não.

Chegando em casa morta de cansaço, Ágatha subiu direto para seu quarto para fazer logo as atividades. Não muito tempo depois que começou a fazer os exercícios, sua barriga roncou de fome. O negócio era tão sério que chegou a pensar que seu estômago comeria seus órgãos internos numa espécie de revolta por não alimentá-lo.

Em meio a uma equação do tamanho de uma sucuri, ela ouviu um barulho de vidro se quebrando. Arregalou os olhos e sentiu seu sangue gelar. Pegou seu taco de beisebol debaixo da cama e foi para a cozinha discretamente.

Desceu as escadas, passou pela sala e, escondida, contou até cinco. Quando ela viu um garoto mais ou menos da sua idade – cabelos pretos, lisos, curtos e repicados, olhos puxadinhos para o lado – agachado com um pano na mão, limpando os cacos de vidro, soltou um grito.

Ele se assustou e caiu no chão, sentado. Assim que a viu, reconheceu-a e disse:

- Há quanto tempo! – sorriu.

A garota se assustou ainda mais com suas palavras. Desesperada, começou a bater nele com o bastão, mas ele conseguiu se desviar e tirar o bastão de suas mãos.

- Quem é você?! – perguntou, recuando alguns passos.

- Sou eu! Godofredo! – sorriu novamente e se levantou com a maior facilidade, como se ele fosse leve como uma pluma. Aquilo a assustou. – Você não se lembra de mim?

- Não pode ser... – murmurou para si mesma, incrédula – Você não exis...

Ele correu para silencia-la o mais rápido possível, colocando seu dedo gélido contra a sua boca. E ela conseguiu senti-lo.

- Você não pode falar isso – sinalizou sério, com seus rostos colados.

- Por quê? – perguntou depois que Fredo se afastou mais. Ainda estava assustada com tudo que tinha acontecido.

Ao invés de responder, ele deu um sorriso bobo e leviano. Ágatha fitou-o por alguns segundos. Todas as suas lembranças tinham vindo à tona. Eles juntos conversando no seu aniversário de treze anos sobre coisas banais, eles brincando juntos no parquinho do seu antigo colégio, e se lembrou do momento em que o criou.

Ela assistira ao seu primeiro anime aos cinco anos enquanto as outras crianças da sua idade assistiam Barbie ou filmes da princesa. Então, decidiu que queria ter um amigo igualzinho aos personagens. Mas, naquela época, ele existia apenas em sua cabeça, ou melhor, na sua imaginação. Não era como agora que Fredo havia se materializado bem na sua frente.

- Como eu consigo te ver? – questionou, tudo ainda parecendo surreal.

- Essa é fácil – respondeu num tom de brincadeira. – Foi você quem me criou.

Até a voz dele se parecia com a qual ela pensava ouvir. Era determinada, mas não responsável. Grossa como qualquer menino da sua idade – a idade que ela definiu para ele -, mas não deixava de ter um pouco de imaturidade.

- Não era exatamente assim que eu te imaginava – comentou – Você me parece mais...

- Coreano? – interrompeu-a. Ela assentiu – Eu sei. As coisas mudam assim como os seus pensamentos.

- O que você está fazendo aqui? – não pode deixar de perguntar.

- Ágatha Savin! Essa não foi a educação que sua mãe lhe deu para recepcionar uma visita! – reprimiu, mas sua voz era tão divertida que valeu como um nada.

Ela suspirou, mal humorada.

- O que é isso no seu rosto? – perguntou ele.

Ela arregalou os olhos. Tinha se lembrado do curativo que fizera mais cedo para tentar esconder a espinha. Devia ter se esquecido e, agora, estava totalmente à mostra.

- Não é nada.

- Claro que é!

- Não é! – respondeu, irritada.

Foi então que o rosto de Fredo se iluminou.

- É uma espinha! – exclamou e começou a rir logo em seguida.

- Quer para com isso, menino abusado!

Quanto mais ela o reprimia, mas ele ria.

- Quer para de rir e começar a limpar essa bagunça que você fez?

- Mas não fui eu! – retrucou com um sorriso malandro. As covinhas em suas bochecham denunciavam o quanto estava se divertindo com a situação.

- Foi sim!

- Eu só derrubei o copo, porque você – apontou para Ágatha – estava com fome.

- Mas isso não é desculpa! – defendeu-se, enquanto sua barriga roncava mais uma vez.

- Tcha-au – falou acenado para ela e rindo, como se tudo aquilo fosse uma piada.

- Aonde você vai? – perguntou seguindo-o até a sala.

Fredo abriu a porta principal, caminhou dois passos e sumiu.

Notas finais
E ai? O que acharam??? Comentem seus limdos.
Apresento-lhes, Godofredo: http://stc.obolog.net/photos/4f0f/4f0f40361a29as38606.jpg