Fraterno
1 Prologo
Notas iniciais
Fraterno
By Amanur
Prólogo
...
Meu irmão me perguntou como tudo aconteceu, mas tive que parar para pensar um pouco sobre isso. Na verdade, eu gostaria que tivéssemos sido gêmeos. Aí, eu poderia ter dito que foi desde o início; desde o início de nossa existência, quando estávamos ovulando no ventre de nossa mãe. Eu gostaria que tivéssemos sido gêmeos para poder dizer que tudo aconteceu por que sempre estivemos juntos, por sempre termos essa conexão mais intensa; um acompanhando o silêncio escuro do outro, no útero materno. Que foi desde que partilhávamos do mesmo alimento, do mesmo calor, da mesma companhia, do mesmo oxigênio... Acho que esse é o maior sentido de se ter um irmao gêmeo: para nunca abandonar o outro.
Mas não foi assim.
Eu nasci um ano depois que ele. Então, o que eu disse a ele foi o seguinte:
— Aconteceu quando você nasceu, e deixou para trás, no ventre de nossa mãe, parte de sua essência para que eu me apegasse a ela; por que, de alguma forma, você sabia que eu viria depois, e não queria que eu me sentisse sozinha.
Ele riu, com aquele jeito cativante de lábios colados que só ele tem, e disse que eu era piegas de mais.
E então eu ri, lembrando de nosso segredo, do qual jamais mencionamos um para o outro, outra vez. Eu tinha sete anos, e ele oito, quando fugíamos dos nossos pais na beira do lago, próximo a nossa casa. Nós tínhamos acabado de presenciar um momento íntimo entre eles, na sala de estar. Os dois estavam discutindo sobre “coisas de adultos”, e mamãe parecia muito brava com o papai. E então, de repente, ele tirou uma rosa vermelha das costas, e entregou para a mamãe. Em seguida a puxou para perto dele e lhe deu um beijo bastante intenso e íntimo. Eles fizeram as pazes, mas ficaram bravos quando nos viram no corredor, espiando. E então, eu e o meu irmão mais novo saímos correndo para o lago. Ficamos meio sem jeito, saber o que dizer um para o outro, até que, de repente, ele me puxou e imitou o que papai fez com a mamãe. Entregou-me uma florzinha amarela, bem pequenininha, dessas que nascem no meio da grama do jardim, e me deu um beijo nos lábios.
— Por que você fez isso? — perguntei.
— Desculpa... — ele me disse, meio cabisbaixo.
— Pelo que?
— Eu quebrei a cabeça da sua boneca.
— Mas por que você imitou o papai? — insisti.
— Ah... — ele chutou areia para o lago, meio sem jeito — A mamãe perdoou ele, e achei que você fosse me perdoar também.
Crianças imitam tudo o que os adultos fazem e, por isso, na época, não dei muita bola. Além disso, nós mal sabíamos o que um beijo na boca significava. Mas por algum motivo, nunca me esqueci daquele momento. E cresci a cada dia lembrando e relembrando aquilo, tomando cada vez mais consciência do que havíamos feito — mesmo que inocentemente. E então, a coisa foi piorando.
Mas nem sempre eu soube o que estava acontecendo, é claro. Se eu sempre tivesse sido honesta comigo mesma, as coisas poderiam ter sido bem mais simples. Eu acho.
Quando finalmente aceitei entender — pois por muito tempo me neguei o direito a isso — a idéia do que acontecia comigo, entrei em crise. Achei que estivesse doente, possuída por algum demônio, ou qualquer coisa do tipo! Como pude fazer todas aquelas coisas horríveis — e foram muitas! — que fiz para o meu próprio irmão?, eu me perguntava. Foi horrível. Foi sufocante. A sensação que tive era de que, a partir de então, sempre que eu olhasse para o Sasuke, todos saberiam o que eu tinha em mente; todos desconfiariam de mim.
Eu tinha dezesseis anos, naquela época. Tranquei-me no quarto por uma semana, e não aceitava ver meu irmão, o Sasuke, na minha frente. Deixava a mamãe, o papai e o Chi entrarem no meu quarto. Mas o Sasuke não. Ele estava proibido! Arranjei uma desculpa esfarrapada dizendo que ele havia me magoado com algum comentário maldoso. Eu achava que, se ficasse um tempo sem vê-lo, aquelas idéias ruins iriam sumir da minha cabeça.
Mas claro que fui ingênua por achar que apenas uma semana seria suficiente para esquecer todos os momentos de uma vida inteira ao lado dele. Sasuke e eu éramos muito unidos. Em carne e osso, unhas e dentes. E somos assim desde pequenos.
Parte disso, devo confessar, é culpa minha. Quando eu estava na quarta série, e ele na quinta, eu fiz com que ele reprovasse para que estudássemos juntos. Eu atrapalhei seus estudos, o distraindo com vídeo games, filmes e desenhos animados. Eu não deixava que ele fizesse seus deveres de casa, e o incentivava a matar algumas aulas também. Bem, eu não me orgulho disso, e o fato de ele nunca ter me culpado, me deixava, e ainda deixa, em pedaços. Mas fiz tudo isso pensando apenas em poder ficar mais próximo a ele. Ele reprovou de ano e, desde então, estudamos juntos; estivemos sempre juntos.
Sasuke era aquele tipo de garoto hiperativo, meio malicioso, sagaz... Mas, às vezes, ele tinha seus momentos de ingenuidade — o que me serviam como analgésicos, devo dizer. Pois, ele me deu trabalho quando estava na escola. Quando começou a entrar na puberdade, então!, foi um horror! O demônio paquerava todas. Mas para a minha sorte, talvez — pois havia vezes que ouvir a verdade doía —, ele sempre me confiava suas confissões, pois sempre me considerou sua melhor amiga. Só que eu nem sempre fui honesta com ele também. Teve algumas vezes, da qual não me orgulho, em que tive que bancar a irmã cretina (mais ainda!) e espalhar alguns boatos falsos sobre ele, por que algumas de minhas colegas nutriam interesse por ele. Bom, contei para a garota mais fofoqueira, propositalmente, que Sasuke era gay. Na verdade, no início, eu levei isso meio que como uma brincadeira. Eu só queria espantar os olhados das meninas para ele, e dizia a mim mesma que isso tudo não passava de ciúmes de irmã caçula. Mas os meninos, quando souberam do boato, começaram a pegar pesado no pé dele. E no meio do ano, em uma sexta feira da qual jamais esquecerei, Sasuke chegou em casa com o rosto todo inchado e roxo, com mais hematomas espalhados pelo corpo.
Não achei um pingo de graça naquilo, e não preciso dizer o quão estúpida me senti por ter feito o que fiz, certo?
Então, quando chegou ao final daquele ano, pedi para que o papai me colocasse em um internato. Faltava apenas um ano para que concluíssemos a escola. Mas com um ano de distância, talvez, eu conseguiria pôr minhas confusões em ordem.
Minha família dividia opiniões quando o assunto era religião. Meu pai era ateu, mas minha mãe era Judia Reformista, que, em outros termos, significa que ela é mais liberal. O Judaísmo Reformista indica que a lei judaica deve ser vista como um conjunto de diretrizes gerais e não como um conjunto de restrições e obrigações cujo respeito é exigido de todos os judeus. E mamãe, raramente ia à sinagoga da cidade rezar.
Mas depois do que descobri sobre mim mesma, por algum motivo, me fiz apegar à religião. Agarrei-me com unhas e dentes ao Cristianismo, por que era a doutrina ao qual eu tinha mais conhecimentos. Mamãe falava pouco sobre suas crenças, e papai menos ainda, por falta delas. Mas até então, eu nunca havia parado para refletir em nada sobre o que a religião Cristã dizia. Na verdade, nem depois que me aliei a ela, durante um tempo, não quis contestar nada. Afundei-me cegamente ao que me diziam, pensando apenas em encontrar uma escapatória para os meus pensamentos confusos. Pacientemente, eu obedeci a tudo, acreditando estar fazendo a coisa certa.
A escola que papai me matriculou era católica; de freiras. A princípio, ele não quis me matricular lá, por que queria que eu tivesse minha opinião própria a respeito do mundo, sem a influência de ninguém. Meus pais sempre se preocuparam com que tivéssemos uma educação laica. Mas aí eu o fiz ver que se não tivesse a influência de freiras, eu teria a dele com sua descrença, o que daria no mesmo. Eles não falavam mal de religião alguma, mas pelo simples fato de sabermos suas opiniões a respeito, já nos influenciava, mesmo que minimamente. Mas mesmo assim, ele me matriculou só por que era a única que ainda tinha as matrículas abertas.
E então, no último dia em casa, no primeiro dia do ano, me despedi de todos com um forte abraço. E pela primeira vez, me senti estranha abraçando meus irmãos. E aquilo era um gesto tão trivial para nós, que chegava a ser ridículo que eu me sentisse daquela forma! Eu vivia abraçando os dois; sempre me dei bem com ambos. Sempre tivemos uma forte ligação.
Bom, claro que, como todos os irmãos no mundo, de vez em quando, nós tínhamos nossas brigas. Não éramos, exatamente, a família perfeita. Mas o modo como eles me abraçaram, demonstrava que eles se esforçavam para nos mantermos unidos. E isso me lembrou uma coisa. Sasuke me ensinou a ler, e Itachi me ensinou a contar. E agora, eu os ensinava a abandonar... Aquela seria a primeira vez que um de nós se afastaria por tanto tempo. Eu iria voltar, mas me sentia como estivesse abandonando meus irmãos, meus melhores amigos.
Naquela época, o Itachi estava com vinte anos, e eu morria de inveja dele. Ele sempre pareceu estar a quilômetros de distância do meu alcance. Basicamente, ele, como o mais velho, era o tímido, estudioso, dedicado... O orgulho da mamãe e do papai. Mas era a ele quem eu confessava minhas maiores aflições e frustrações, justamente por ser mais maduro que o Sasuke. E ele sempre foi um ótimo ouvinte, além de um exímio conselheiro. E acho que ele sempre me viu como a irmã casula que precisava guiar. Por alguma razão, ele se colocava no papel.
Já o Sasuke era totalmente o oposto. Extrovertido, inquieto, festeiro, desligado. Era a preocupação da casa. A mamãe vivia com medo de que ele aparecesse algum dia, de repente, com uma menina grávida. Eu também tinha esse medo, mas eu era a única que sabia que ele ainda era virgem. E era tudo graças às minhas influências, que sempre lhe dizia que ele se arrependeria de ter a primeira experiência com qualquer uma. Em compensação, no entanto, Sasuke adorava me pentelhar me chamando de Ku — coisa que odiava com todas as minhas forças. Mas quando eu queria sair do tédio, eu sabia que era com ele quem encontraria a escapatória. Ele era meio sem vergonha, e me ensinou várias coisas que jamais sonhariam em aprender com o Chi. O Sasuke meio que corrompeu — se é que realmente havia algo a ser corrompido, ele dizia — minha mente. E eu, era meio termo. Meio tímida, mas sempre acompanhava o Sah nas festas... E por isso, era a melhor amiga dele; sempre nos demos muito bem.
Mas pus tudo isso a perder, pelo nosso próprio bem.
Confinei-me por um ano inteiro na escola interna, sem receber visitas de ninguém. Aceitava somente receber ligações nos fins de semana. Nos primeiros meses, eu falava com o Sasuke todo sábado, como se nada tivesse mudado. Mas depois, com o tempo, ele foi se limitando a perguntar apenas como eu estava. E em seguida, ele passava o telefone para o Chi, a mamãe ou o papai. Foi só então que senti que estava, finalmente, me separando dele para ocupar meu devido lugar.
Só que, na verdade, eu estava apenas me iludindo. Tentava tapar os buracos que as dúvidas deixaram em mim, com a falsa ilusão de que eu poderia mudar o imutável. Enquanto estava em casa, eu me sentia numa maré de pesadelos e torturas sentimentais confusas. No entanto, foi só quando voltei para casa que vi que a tormenta realmente começou a desabar sobre a minha cabeça.
Ser irmã dele foi a coisa mais difícil que já fiz na minha vida. Pelo simples fato de me ter sido tirado o direito a amá-lo com toda a plenitude da palavra.
Notas finais
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