Fraterno

21 Capítulo 20


Notas iniciais
E agora o momento crítico: quem vai morrer? aiuhauihauiahuaihaiuahui não, gente, eu juro que não matei ninguém desta vez! XD
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Vou começar a responder os reviews do cap anterior agora.
Mas enfim, ta aí, o último capítulo. Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 20

...



Deveríamos mesmo sacrificar nossa felicidade por um bem maior? Não seria isso crueldade, sabendo o quão fracos e imperfeitos somos? Não era para o sangue não significar nada? Por que agora ele parecia ter ganhado um propósito ainda maior?


Depois daquele dia, ficamos mais três sem receber qualquer palavra dos nossos pais. E meus dias pareciam ter sidos pintados em tons de cinza. Deixei de ver aquelas cores vivas, vibrantes e cheias de energia quando estava na companhia do Sasuke. Tudo a nossa volta havia se tornado lento, fúnebre e funesto. Não consegui mais sentir aquela empolgação que a presença do meu irmão me causava. E ele percebeu isso. E saber que esse meu novo humor o afetava, me fazia sentir ainda mais diminuta e insignificante.


Mas assim mesmo, ele continuou a me visitar em meu quarto todos os dias, sem se importar com os olhares atravessados que nossos pais nos lançavam. Ele tentava me animar contando piadas, fazendo comentários idiotas, e me enchendo de beijos. Mas não transamos mais. Simplesmente não conseguimos.


No entanto, o fato do papai não o tirar do meu quarto aos pontapés já indicava algum progresso, eu acho. E, de certo modo, era um alívio não precisar esconder nada. Numa dessas, em que Sasuke entrou no meu quarto, o Chi estava sentado ao meu lado, no chão, me mostrando mais alguns desenhos que ele encontrou do Sah. Desta vez eram retratos meus que o idiota, por algum motivo, não queria me mostrar. Os desenhos eram ótimos.


Quando vimos a cara emburrada do Sah, Chi se levantou para lhe dar o lugar.


— Vocês são loucos, mas não se preocupem. Ninguém dará as costas para vocês. Eles só precisam de um tempo para digerir tudo. — comentou, pondo as mãos nos bolsos da calça que vestia, pertencente ao Sah.

— Assim espero. — Sasuke respondeu sem muita convicção, metendo as mãos nos bolsos da calça do Chi, que vestia.

— Só me façam um favor! Não se beijem na nossa frente, ok?!

— Eu posso te dar um beijinho, no lugar dela? — Sasuke provocou.

— Nem em sonho. — mas Itachi lhe deu um abraço, e Sah o beijou no rosto assim mesmo.


Depois, meu irmão mais velho saiu do quarto e o Sah se jogou na minha cama.


— Isso até que não foi tão mau quanto pensamos, hum? — ele indagou. Concordei com um gesto de cabeça. Realmente era um alívio saber que tínhamos, pelo menos, o apoio de alguém.

— Andei pesquisando na internet sobre leis. Sabia que não estamos cometendo crime? A lei, no nosso país, apenas não autoriza casamentos entre parentes com relações sanguíneas, ou entre filhos adotados com pais adotivos... Mas não há punição alguma para quem se relaciona assim. As pessoas deveriam parar de se preocupar tanto com a vida dos outros, e olhar mais para o próprio umbigo. Tem muito umbigo sujo por aí...

— Uhum... — resmunguei.


No dia seguinte, durante o primeiro jantar em família, depois do que aconteceu, papai anunciou que iríamos passar alguns dias na pousada de praia do tio Madara. A pousada estava fechada naquelas férias por que o tio estava fazendo algumas reformas, mas poderíamos ocupar alguns quartos, já que éramos apenas cinco. O restante da refeição foi quase silencioso — graças às tentativas inúteis do Chi em fazer com que nossos pais suavizassem as expressões duras que mantiveram no rosto.


No dia seguinte, acordamos cedo para arrumarmos nossas coisas. Passar alguns dias na praia me animou. Quem sabe, mudando de ares, eu conseguiria esclarecer melhor os pensamentos; organizar a bagunça mental que se acumulou dentro da cachola.


Deixamos a casa depois do almoço. Nossas malas e mochilas foram socadas no porta malas do sedã do papai, e em seguida pusemos o pé na estrada, como dizem. Nós, os filhos, fomos sentados no banco de trás. Como fiquei no meio, entre meus irmãos, Sasuke passou o braço por trás de mim, e ficou mexendo nos meus cabelos. Às vezes deslizava a mão pelo meu ombro e cheirava meu pescoço; brincava com os dedos da minha mão, e sussurrava alguma bobagem no meu ouvido. Mas assim que papai viu pelo espelho retrovisor, freou o carro no meio da rua.


— Itachi, sente-se no meio, por favor. — disse, friamente.

— Qual é, pai, não é pra tanto! Não estou fodendo a Sakura! — Sasuke protestou.

— Olha o vocabulário, Sasuke. — mamãe resmungou. E aquela foi a primeira vez que em que disse algo diretamente para nós, desde então.

— Mãe, até quando vocês vão ficar contra nós? — perguntei.


Eu não sabia o que o Sasuke realmente pensava sobre isso, mas, para mim, era fundamental ter o consentimento deles. Afinal, eram meus pais; os responsáveis por eu estar ali. As pessoas que mais deveriam nos apoiar nesse mundo, certo?


Mamãe suspirou.


— Não sei... Entendam, nós amamos vocês, e queremos o melhor para vocês. Mas neste caso, precisamos de um tempo para pensar sobre isso. É uma situação delicada.

— Quanto tempo? — Sah indagou, impaciente — Uma semana? Um mês? Um ano? Uma vida inteira?

— Nós não sabemos, Sasuke! Agora, Itachi, faça o favor de sentar entre eles. Pelo menos, em nossa presença, nos respeitem!


Passei por cima das pernas do Chi — que nos olhava numa mistura de cautela e lamento, mandando um pedido de desculpa silencioso —, e sentei na outra janela. Passamos o resto da viagem naquele silêncio chato, vendo a paisagem passar por nossos olhos monotonamente.


Chegamos na pousada ao final da tarde. Nosso tio só se juntaria a nós no dia seguinte. O lugar era enorme, com cinco andares. Tinha exatamente cem quartos — cinqüenta com camas de solteiro, cinqüenta com camas de casal. Aos fundos, ficava a cozinha gigantesca e uma sala de estar tão enorme quanto. Com exceção dos nossos pais, ficamos nos quartos com camas de solteiro, no primeiro andar.


A construção ficava a seis quadras do mar. Assim que larguei minha mochila na cama, resolvi dar uma volta na beira da praia. Eu pretendia ir sozinha, mas depois de duas quadras já percorridas, percebi que estava sendo seguida.


— Eu quero chorar, Ku. Pela primeira vez na minha vida, sinto vontade de chorar. E odeio isso. — ele me disse, enquanto arrastava os pés em seus chinelos de dedos no chão, chutando pedrinhas e se aproximando de mim.

— Por que, querido?

— E se eles decidirem que são contra, e que não vão permitir que fiquemos juntos? O que vão fazer? Já pensou sobre isso? O que vai acontecer?


Sah sempre teve essa mania de apressar os acontecimentos. Como daquela vez em que entrou em pânico pensando sobre o que aconteceria quando nossos pais descobrissem.


— Acho que devemos esperar, Sah. Não adianta ficar nos martirizando com isso. — bati com a língua nos dentes. Que piada eu sou!, disse a mim mesma. Por que era exatamento o que eu estava fazendo.

— Não, Ku! Eles vão nos separar! E aí vai ser tarde demais para lamentar.

— Não, Sasuke, eles não seriam capazes de fazer isso! — protestei.

— Sakura, eu ouvi a mãe conversar com o pai ontem à noite. Ela perguntou por que você teve que se apaixonar justo por mim, com tantos homens por aí! Pense! E se forem capazes? Não se iluda, Ku. Você pode ser surpreendida por quem menos espera a surpresa. E aí será tarde demais para remediar.

— Do que está falando? Remediar? Remediar como?

— Você tem certeza de que quer ficar comigo? De que não se arrepende de nada do que fizemos?

— Tenho, Sasuke...

— Ok. Não acha melhor poupar todo mundo dessa dor de cabeça?

— Sim, seria ótimo. Mas como?

— Vamos embora. Vamos embora hoje a noite.

— Fugir de casa! Que coisa mais infantil! — revirei os olhos, junto com meu estômago. Aquela conversa estava começando a mexer com os meus nervos.

— Foda-se! Na nossa situação, fugir não é infantilidade. É uma questão de sobrevivência. Por que não sei quanto a você, mas eu não sobreviveria sem você, Ku. — ele pegou em minha mão, me fazendo encará-lo de frente. Só então vi seus olhos alagados na própria angústia, que queria me contagiar.

— Há-há. E eu que sou piegas! — sorri, meio sem humor.

— É pegar ou largar, Sakura.


Firmei minha mão na dele, e fomos caminhando até a praia sem dizer nada. A maré estava calma, e havia apenas uma dúzia de pessoas em nosso campo de visão. O vento que soprava era fresco, e as primeiras estrelas já salpicavam o céu que perdia seu tom alaranjado — mais uma vez, a noite engolia o dia.


Tiramos nossos chinelos, e os pousamos na areia branca para sentarmos por cima deles. Mas não soltei sua mão por um segundo sequer.


— Não estou prometendo castelos nas nuvens. Vai ser difícil no início, Ku. Vamos ter que ralar...


Ficamos mais um tempo ali, observando a escuridão espantar as poucas pessoas que resistiam no mar. De tempos em tempos, meu coração dava pulos nervosos enquanto eu pensava sobre aquilo. Seria a decisão mais importante de nossas vidas. Será que não éramos jovens demais? Será que não nos arrependeríamos depois? Será que todo o sacrifício valeria à pena? Será que sabíamos mesmo o que estavamos fazendo?


Voltamos para jantar. Mamãe havia feito um prato italiano. Os italianos costumam fazer refeições alegremente, mas acho que a discussão no carro ainda martelava em nossas cabeças. Depois de ajudar a limpar a louça, eu e a mamãe nos juntamos ao restante que se espalhava na sala de estar, assistindo ao notíciário. Mas não consegui me concentrar no que o apresentador dizia na tela, porque o Sasuke não tirava os olhos de mim, com aquele seu olhar preocupado. Tentei imaginar o que se passava em sua cabeça, e não gostei muito das suspeitas.


Às três da madrugada, Sah invadiu meu quarto, com sua mochila nas costas.


— Pronta? — me perguntou.


Eu não havia desfeito a minha mochila e apenas fiz que sim, com a cabeça. Meus olhos se encheram de agonia e angústia, mas não quis pensar muito sobre o assunto. Sasuke era mais impulsivo, e quis poder ser assim por alguns instantes — infelizmente, eu tendia a pensar demais sobre tudo. Deixar a família que se ama para trás não é uma tarefa fácil.


Peguei uma folha de papal na recepção, e deixei um bilhete em baixo da porta do quarto do Chi. Senti-me na obrigação de, pelo menos, lhe dizer algumas palavras. Lhe agradeci por ter sido meu melhor amigo, pedi desculpas pelo Sah ter pegado dinheiro de sua carteira, e lhe disse que tentaríamos manter contato. Em seguida, Sasuke pegou em minha mão e saímos da pousada como se fóssemos dois aventureiros.


— Eu estava pensando... Talvez eu devesse mudar meu nome. — Sah me disse, enquanto mergulhávamos no frio daquela madrugada.

— Por que?

— Isso evitaria alguma confusão, quando nos acentarmos em algum lugar. Além disso, se quisermos ter filhos, isso seria muito bom. Não poderemos jamais contar aos nossos filhos sobre nós dois, Ku.

— Você pensar em ter filhos?

— Não agora, mas um dia sei que vou querer.. voce não quer?

— Talvez...


...


Quatro anos depois, estávamos alugando um pequeno apartamento no centro da cidade. Sasuke juntava dinheiro para concluir a faculdade trabalhando numa loja de peças eletrônicas, enquanto eu trabalhava num consultório médico como secretária. A independência dos nossos pais foi o passo principal que precisávamos dar para poder assumir aquilo perante nossa família. Sem ela, não precisariamos de consentimento algum, embora ainda doesse receber os olhares atravessados deles. Mas como o Chi disse, pelo menos, eles não viraram as costas para nós. Quando precisávamos de alguma ajuda, papai fazia o que podia. Nunca houve um pedido formal de desculpa, no entanto. Ele foi feito com a troca de olhares, apenas — mas foi o suficiente pra tirar aquele saco de areia das nossas costas. Mamãe foi quem mais apresentava resistência com relação à nossa situação, entretanto. Provavelmente por suas crenças religiosas. Apesar de todos os argumentos que dávamos, ela mantia o pé firme no que acreditava ser errado. No entanto, acho que no fundo ela estava tão confusa quanto estivemos no início, pois sempre nos recebia de braços abertos. Mas era fácil perceber que eles ainda se sentiam desconfortáveis por saber que seus filhos mantiam relações sexuais entre si.

Felizmente o Chi tinha a mente mais liberal.


— O que os outros pensam é mais importante do que como seus filhos pensam, mãe? — Sasuke indagou, um dia.

— Você são dois contra um mundo inteiro, filho.

— Não importa. Você prefere nos ver infelizes, para deixar o mundo inteiro feliz. Você prefere sacrificar a nossa felicidade pelos outros...

— Claro que não... Mas tenho medo do que você possam passar, caso sejam descobertos. E toda mentira tem perna curta.


Realmente fomos um tanto egoístas por não termos pensado na situação deles — por termos pensado somente no nosso lado. Para os vizinhos, nossos pais tiveram que inventar desculpas de que Sasuke se casou com uma qualquer, numa cerimônia civil, sem graça — para não corrermos o risco de pedirem por fotos — e eu fui morar sozinha. Foram as melhores desculpas que conseguimos pensar. Não tinha como assumir aquela relação perante ninguém. E esse era o preço que tivemos que pagar por nossa escolha. De qualquer forma, fomos condenados a viver na mentira. Onde morávamos, mentíamos sobre a família do Sah, para podermos conviver bem com nossos vizinhos. Ele preferiu assim por achar que mente melhor do que eu. Pensaríamos em algo quando formos descobertos.


Eu e o Sah ainda pensávamos se não seria melhor termos um filho adotivo, apesar da minha vontade por dar à luz. Ele dizia que era melhor tirar uma criança da “rua” do que pôr mais uma nesse mundo sujo, onde nosssa liberdade não passa de uma ilusão criada por interesses de falsos moralistas. Mas ainda tínhamos bastante tempo para pensar sobre isso.


Fim.


Notas finais
Algum comentário final? Bom, final feliz para essa, né? Se não todo mundo vai achar que eu só escrevo finais trágicos! Não! E acho que nessa fic nao caberia um final trágico mesmo...apesar de gostar da idéia que eles poderiam ter morrido como Romeu e Julieta! iauhauihauiahi T_T
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Enfim, espero que tenham gostado da história. O propósito dela era questionar toda essa questão moral imposta pela religião e sociedade, e acho que consegui abordar tudo o que tinha para ser abordado com relação a isso. Não prolonguei mais a história, para não ficar muito repetitiva acabaria caindo na mesmice do romance entre os dois, e acho que a acabaria estragando a história...
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Eu teria acabado a história na fuga, mas como previ muitos comentários exigindo saber o que aconteceu depois, pus aí. E é isso. Agradeço a todos por lerem! T_T Por pouco, eu não teria postado essa fic...T_T
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!