Notas iniciais
Mais um. Boa leitura.

Fraterno

By Amanur

Capítulo 6

...


Eu sabia que o meu irmão era um bundão (em todos os sentidos, incluindo o físico), mas não sabia o quanto. E não sabia se ele estava dizendo aquilo apenas para me tirar do sério, ou se realmente era o que estava se passando naquela cabeça oca. Então, na raiva, me virei para ele e joguei minha mochila em seu rosto.


— Qual é, Sakura, te liga! — ele resmungou, tentando se desviar — Tenho certeza de que todos nós aqui temos a mente aberta, e ninguém teria preconceitos se você saísse do armário. — ele diz, cheio de sarcasmo.

— Com certeza não... — o loiro comentou, me olhando de forma um tanto indiscreta e insinuante.


Ao perceber a bobagem que acabou de fazer, Sasuke atirou a minha mochila no rapaz, que quase caiu da cadeira.


— Ah, foi mal. Eu estava mirando nela, mas acho que escapou da mão. — o idiota diz.


Em seguida, um homem corpulento entrou em sala, carregando uma sacola enorme, cheia de livros. Ele era barbudo e tinha um cigarro aceso na boca. Aquela fumaça cinzenta lhe acompanhava onde quer que fosse como se fosse uma extensão do seu corpo. Mas eu tinha certeza que isso era proibido, por que havia uma placa enorme acima do quadro, acusando-o de seu crime. Mas somente ao ouvir a moça ruiva tossir, e acho que foi intencionalmente, ele tirou aquele canudo branco da boca e o atirou na lixeira, resmungando consigo mesmo.


De acordo com as minhas anotações, ele era o professor de História da Filosofia Grega. Em silêncio, a turma o viu tirar uma caneta piloto azul de dentro da sacola. Sem dizer nada, nem oi!, o homem nos deu as costas para escrever algo no enorme quadro branco.


Ele começou escrevendo “O QUE É FILOSOFIA?”, “O QUE SIGNIFICA PHILO?”, “O QUE SIGNIFICA SOPHIA?” e “COGITO ERGO SUM”. Sua letra era enorme, em caixa alta, para cego algum botar defeito.


Confesso que me senti um tanto nervosa, por que eu não fazia a menor idéia de nada sobre aquilo. No máximo eu poderia dizer que filosofia é o estudo sobre o conhecimento, e ainda assim não tinha certeza. Na escola eu tive aulas de filosofia, mas apenas relacionada à ética e aos pensamentos religiosos — algo pelo qual traria uma bela dor de cabeça ao papai.


Ainda sem pronunciar uma palavra sequer, o professor começou a andar de um lado para o outro com os braços cruzados, nos olhando um por um, atentamente. Ele parecia ponderar sobre tudo, e ao mesmo tempo distraído. Fiquei, então, observando os passos dele pela sala de aula. Mas eu não sabeira dizer bem ao certo o por que. Apenas fiquei analisando o padrão dos passos que ele dava, sempre em linha reta, com espaçadas de dois palmos de uma perna para a outra. Quando eu era pequena, gostava de seguir a sombra do papai e da mamãe. Seguir a dele acho que seria fácil.


Depois de umas dez voltas, para lá e para cá, então, o barbudo tirou de dentro do bolso de sua jaqueta jeans surrada uma maçã. Distraidamente, ele começou a girar aquela fruta na mão, ainda nos observando.


Ouvindo meu irmão suspirar pesadamente, o olhei de canto. Sasuke começou a se remexer na cadeira, resmungando coisas que me neguei a ouvir. Mas como a sala estava praticamente vazia, acho que era impossível o professor não tê-lo ouvido.


— Se você for mesmo macho, repete o que disse em voz alta! — o professor, então, disse, apontando o dedo para o meu irmão para que todos tomassem conhecimento de com quem ele falava.


Sasuke se arrumou na cadeira, bufando em desdém, junto com uma risadinha. Sinal claro como cristal de que estava incomodado com algo. Mas assim mesmo, ele estufou o peito, se enchendo de oxigênio, se preparando para o confronto.


— Eu disse que não estamos pagando a faculdade para ficar te admirando desfilar de um lado para o outro, como se estivesse numa passarela de top models!


Não sei se o professor gostou da resposta dele, ou se apenas estava rindo por deboche mesmo. Só sei que, em seguida, o homem adentrou a sala, caminhando entre as fileiras de mesas e cadeiras como se fosse um soldado em guerra. Foi até a moça ruiva, se escorou na mesa dela, mas ainda olhando para o Sah.


— Adoro desafiar garotões, metendo a palavra macho no meio. — e então, ele olhou para o restante da turma — Experimentem fazer isso, e verão que os gestos serão, em maioria, os mesmos. — e voltou a olhar para o Sasuke, que sequer se virou para trás — Vão estufar o peito, dilatar as narinas, empinar o queixo e encarar olho no olho só para provar que tem algum colhão nas calças. Psicologia tem muito a ver com filosofia também, sabiam?


E então, finalmente, o professor encarou a ruiva, e perguntou:


— Você sabe me dizer o que a filosofia e a psicologia têm em comum?


Acho que ela também estava nervosa, pois a ouvimos engolir a seco. Aquele homem realmente botava medo. Só não mais do que as freiras da minha antiga escola e, lembrando disso, consegui me acalmar mais.


— A... A observação? — a garota respondeu, cheia de hesitação.


De repente, o professor deu um soco em sua mesa, fazendo-a saltar para trás, mas o homem ainda berrou.


— A OBSERVAÇÃO! OUVIU BEM, GOSTOSÃO? — não sei se a rima foi proposital, ou não, mas achei que ele se referiu ao Sasuke, por que olhava diretamente para ele.


No lugar do meu irmão, eu teria enfiado a cabeça na mochila para me esconder da vergonha pública. Mas eu deveria saber que o Sasuke jamais faria isso. Ele apenas se virou para os fundos da sala, onde o professor estava.


— Claro, claro... Se o senhor acha mesmo que eu não OBSERVEI que era gay, sinto em decepcioná-lo, “profi”. Quantas vezes a questão: Ser ou não ser... gay!, já lhe ocorreu?


Há uma linha bem fina, quase transparente, que separava a piada dos insultos. Alguns chamam isso de humor negro, mas acho que insulto é sempre insulto, principalmente quando a vítima da piada não acha graça. E Sasuke, simplesmente, utrapassou esses limites.


Para a sua sorte, acredito, o prefossor ignorou. Ou pelo menos foi o que deu a entender a princípio. Ele voltou para a frente da sala, e começou a discursar sobre filosofia.


— A filosofia antiga nasceu de uma necessidade em explicar o mundo com explicações reais, sem buscar explicação no mitológico, no incompreensível; derrubando assim o mito para introduzir uma nova forma de analisar e compreender o mundo e seus fenômenos. A palavra filosofia é de origem grega, é composta por duas palavras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem à palavra sophos, sábio. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. E filósofo é aquele que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber. Descartes, quem nunca ouviu falar nele?, elaborou um novo método de conhecimento fundado sobre a razão, a única capaz de permitir ao homem alcançar um conhecimento perfeito das verdades mais elevadas. O famoso “Cogito ergo sum”. Penso, logo existo!, que faz do pensamento o princípio da existência.


Eu ia anotando tudo o que ele dizia em tópicos, para poder dissertar em casa. Mas, de repente, fui interrompida pelo professor parando em minha frente.


— Você existe?


Tive que pensar sobre o assunto. Ele estava querendo saber se eu penso, ou havia algo a mais naquela pergunta?


— Não tenho certeza. — respondi.


O professor arqueou a sobrancelha, puxou a cadeira da mesa a minha frente, e sentou me encarando.


— Diga por que!


Suspirei.


— E se tudo isso for um sonho? Quero dizer... Às vezes, acontecem coisas que não parecem reais.

— Por exemplo?

— Algo... Algo que não pode nem ser dito como um feito de Deus... — disse, hesitante.

— Algo que não pode nem ser dito como um feito de Deus. Coincidência?

— Não.

— Pode exemplificar?


Estive muito próximo a dizer o que não deveria. Então, apenas me esquivei, baixando a cabeça, resmungando “não sei”. Mas o professor não acreditou em mim. Ficou um bom tempo me fitando, analisando os movimentos dos meus olhos, como se fosse um psiquiatra.


— Posso te pedir para escrever então, o que tem em mente, já que prefere não dizer em voz alta? Me traga isso amanhã! A confidência é garantida.


Suspirei aliviada, apesar de sentir o olhar furtivo do Sasuke pesando sobre minhas costas.


Tivemos duas horas de aula. Do restante da turma, ele pediu para que escrevessem o que viam numa simples maçã. Saí da sala mais do que satisfeita com o primeiro dia, mesmo sabendo que ainda não havia acabado. Fomos, então, para o restaurante universitário. Eu, Sasuke, e o loiro que não tirava os olhos de mim.


Quando Sah cismava com alguma coisa, não havia o que fizesse mudar de idéia. E essa era a regra número um que vinha no manual inexistente de seu funcionamento, que poucos sabiam. Ele passou o horário do intervalo inteiro apenas reclamando da aula, botando mil e um defeitos que não existiam, enquanto eu tomava uma caixinha de suco com canudo. Esvaziei a caixa até não restar uma gota para contar história, enquanto reparava no amigo dele, que parecia muito entediado o ouvindo.


—... e por isso não gosto de prefessores. Acham que sabem de tudo só por que são formados. Tsc! Grande bosta! Quanquer anta, que botar a cabeça para funcionar, consegue chegar as mesmas conclusões que ele! — ele dizia, se achando com a razão.

— Desculpa a pergunta, mas qual o seu nome? — perguntei ao loiro, o cutucando no braço.


Sasuke se calou no mesmo instante, surpreso por não estar sendo ouvido. Ele também sempre teve essa mania de necessitar ser o centro das atenções. Mas enquanto ele desperdiçava saliva à toa, eu ia pensando em minha meta de resoluções para o ano. O loiro era bonito. Tinha olhos em um belíssimo tom opala, de dar inveja a qualquer pintor. E seus fios dourados batiam na altura dos ombros, em um corte pouco convencional, com franjas. Mas sempre que sorria, parecia iluminar todo o ambiente, com aquele nariz de ponta fina, levemente empinado.


— Naruto. — respondeu.


Passei o resto dos cinco minutos do intervalo que Sasuke deixou de falar, conversando com Naruto. Perguntei de onde conhecia o Sah, e por que escolheu fazer filosofia. Ele respondia minhas perguntas sem deixar o sorriso de lado.


— Nos conhecemos no ano passado, na escola. Nos dávamos muito bem, mas jamais imaginei que iriamos acabar escolhendo a mesma profissão... — ele dizia.


E não iam!, quis dizer. Mas me deixei distrair por sua voz bonita, que tinha um certo tom lirico. Depois fiquei sabendo que ele costumava cantar numa banda. E aqueles foram os primeiros cinco minutos da minha vida em que consegui passar sem pensar ou olhar para o Sasuke.


Enquanto voltavamos para a sala, Naruto ia comentando sobre os trotes que alunos veteranos costumavam aplicar nos ingressados. Lembrei do dia em que o Chi chegou em casa com tinta até nos cílios. Mas por mudanças de regras, a instituição proibiu os trotes, e agora o pessoal apenas organizavam festas à fantasia para dar as boas vindas aos novos alunos. Só quando nos sentamos de volta em nossos lugares, foi que percebi que o Sah manteve-se calado o restante do tempo.


Notas finais
Algum comentário?
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Notem que há um motivo pelo qual eu resolvi fazer com que eles estudassem filosofia, ao invés de teologia. Ele terá um papel importante, para que sirva de base para se discutir sobre a questão moral sobre o incesto. Como eu já disse para alguns, eu não li a bíblia, por isso não os fiz estudar teologia. Além do mais, creio que todos saibam que a religião condena o incesto, assim como o homossexualismo.
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As informações sobre filosofia foram retiradas e adaptadas destes sites:
http://www.brasilescola.com/filosofia/
http://www.mundoeducacao.com.br/filosofia/filosofia-grega.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_antiga
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Lembrando que o propósito principal da fic é debater sobre o assunto, se é mesmo errado ou nao, e não me focar no séquiço entre os irmãos! ahuiahuia mas para as safadinhas de plantão, sim!, haverá isso :D