Frankenstain

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Notas iniciais
Shun nunca é demais u.u Boa leitura :)

¬ Shun? Com quem está falando?

Levou um susto tão grande que por pouco não caio da viga em que estava sentado.

¬ E-Eu?— respondeu tentando a todo custo disfarçar. – Eu não estou falando com ninguém, irmão.

¬ E porque está gaguejando?— cruzou os braços e ergueu a sobrancelha.

¬ Você me assustou...— choramingou. – É óbvio que eu gaguejaria depois de um susto.

¬ Sério?— rebateu com um leve sarcasmo. – E o que poderia te deixar tão distraído ao ponto de se assustar comigo?

¬ Nunca ouviu falar na expressão “emerso em pensamentos”?

¬ Hum.— descruzou os braços e os colocou na cintura, não estava indo bem. – E o que é tão importante assim para ficar emerso em pensamentos?

¬ Irmão...— é claro que reclamaria. – Só estava pensando, tem algum problema com isso?

¬ E falar sozinho?— oh língua afiada!

¬ Pensando alto!— reclamou em um choramingo.

Os dois ficaram se encarando por algum tempo.

Tinham uma relação realmente forte, mas tinha coisas que não compartilhavam de forma alguma devido as suas diferenças. Podiam ser irmãos, quase pai e filho, mas eram muito diferentes.

¬ Shun.— estava bastante sério, em seus olhos pairava um ar de preocupação. – Sei que não sou o mais compreensivo ou paciente e também sei que sou muito explosivo e por vezes agressivo, mesmo que eu tente evitar esse comportamento perto de você. Mas eu quero que você saiba que eu te amo perdidamente, mais do que qualquer coisa nesse mundo e sempre estarei aqui para você, independente da situação. Então, Shun, qualquer coisa que quiser me contar, eu estarei aqui para ouvir e te ajudar.

Soltou um suspiro e foi para junto do mais velho, o abraçando exatamente como fazia desde criancinha.

¬ Eu também te amo, irmão.— sentiu ser abraçado e acarinhado nas costas. – Mas eu te garanto, eu estou bem, estou apenas pensando alto. Não tem porque se preocupar, prometo que quando tiver problemas a primeira coisa que vou fazer é gritar seu nome, assim pode?— o mirou um tantinho pidão.

O moreno continuou o mirando com o mesmo ar de preocupação, quem quer que o olhasse com certeza poderia ver o coração do Santos pesar.

Por fim, respirou fundo e soltou um suspiro ainda mais profundo.

¬ Tudo bem.— estalou um beijo na testa do menor. – Qualquer problema é só gritar, virei correndo ao seu socorro imediatamente.

Acenou positivo com um sorriso e viu o irmão se afastar, no mínimo estava indo cumprir seus deveres as portas da catedral.

Esperou ele sumir de vistas para deixar os ombros caírem.

Estava cansado, esgotado, drenado, chegou a perder peso e noites de sono por tudo que estava acontecendo.

Não queria ser um fardo, já se considerava um peso por ser um mortal no meio de seres imortais, já se considerava um suplicio depois daquela vez em que invadiram Santuário e se consideraria uma verdadeira sevícia se pedisse ajuda com vozes irritantes em sua mente.

¬ Cala a boca...— chiou baixinho consigo mesmo. – Você é apenas uma alucinação... Cala a boca...

Depois que foi ao Festival dos Tolos acabou ficando muito doente por muito tempo, mal podia sair da cama direito por conta disso, e desde que melhorou dessa doença misteriosa começou a ouvir uma voz em sua mente.

Não eram seus pensamentos, afinal pensamentos se formam com nossa própria voz e aquela voz em sua mente era completamente diferente.

Era uma voz grossa de tom milenar e profundo como um abismo, estranhamente sedutora e suave como um carinho. Era como se quisesse atraí-lo calma e lentamente para algum lugar.

¬ Você não pode fazer nada...— dizia bem baixinho, não queria chamar atenção de novo. – É apenas uma voz chata e persistente, vozes não podem fazer nada...

Em seu coração sentia um medo absurdo daquela voz, era quase um medo irracional, quando criancinha chegava ao ponto de chorar quando a ouvia. Mas agora que já era um rapaz, tentava a todo custo se convencer e negar, entretanto ainda sentia um medo muito grande em seu coração e a voz parecia ter consciência disso.

E apesar de ser uma voz que podia muito bem pertencer a um de seus irmãos, tamanha era a incomum beleza que tinha, esta só falava atrocidades e vulgaridades.

¬ Cala boca...— reclamou um tanto mais alto. – Eu já disse pra calar a boca!

O que mais assustava naquilo tudo não era a existência daquela voz em si, já tinha ouvido falar de muitos loucos relativamente normais que levaram suas vidas normalmente, o que assustava eram os comportamentos e pensamentos que aquela voz gerava.

¬ Eu já disse que não quero te ouvir e que não acredito em você!— apertava os olhos e os nós dos dedos. – Cala a boca! Que droga!

Nunca foi de fazer “mal criação”, sempre foi um menino educado e sorridente, seus irmãos viviam dizendo que ele era uma estrela caída do céu e não apenas um menino gentil.

Entretanto, não fazia nem uma semana que dera uma resposta tão atravessada e cruel ao irmão que este acabou fazendo algo que nunca o viu fazer antes.

Lembrava-se perfeitamente da expressão de seu irmão se contorcer em surpresa e logo em seguida viu sangue escorrer por seu rosto ao mesmo tempo em que o ar abandonava seus pulmões em um suspiro doloroso.

Implorou perdão por horas, mas isso jamais mudaria o fato de que fez o amado irmão chorar.

¬ É claro que eu não te suporto!— não ia chorar, se recusava veemente a chorar. – Queria que eu dissesse o que? Eu te odeio e quero que vá embora!

Aquela voz conseguia despertar e mostrar o seu pior.

Era revoltante e angustiante, coisas que tentava a todo custo evitar, pois sabia que quanto mais revoltado e angustiado ficava, mais forte e confiante aquela voz se tornava.

¬ CALA BOCA!!

Sentiu um frio familiar subir sua espinha e como se tivesse uma laranja inteira presa em sua garganta.

¬ Phoenix...— aquela voz saio cantarolando sem permissão de sua boca. – Sei que está ai... Eu também não acreditaria nas palavras afáveis desse tolinho em seu lugar... E já estou tomando conta de seu amado irmãozinho tolo... Não tem nada que possa fazer além de olhar meu caro rapaz...— aquela risada não era sua. – Vigésimo quinto aniversário... É só uma questão de tempo até ele ser meu...

Sentiu então o ar lhe faltar e imediatamente levou as mãos à garganta, sentindo as lágrimas brotarem e escorrerem copiosamente.

Soluços irromperam sua garganta e deixaram sua voz desesperada e sofredora escapar, nunca esteve tão assustado quanto daquela vez.

Apenas queria que tudo parasse, apenas queria voltar normal.

¬ IKKIIIII!!! IKKIII!!

Imediatamente sentiu o irmão lhe abraçar, mas nem mesmo o abraço que sempre o protegeu e acolheu foi capaz de combater seu medo.

¬ IKKIIIIII!!! IKKIIIII!!

Sentia o irmão lhe apertar no abraço, sussurrar que tudo ficaria bem, que estava ali com medo, que não tinha razões para chorar.

Mas, para sua desgraça e bênção, seu irmão nunca saberia o que era aquilo. Nunca saberia o que era ser o que era.

E, o pior e melhor, nunca saberia o que era não poder escolher, o que era ser preso a aquele destino nefasto.

Homem?

Santo?

Demônio?

Nenhum.

Todos.

Notas finais
"Cala Boca" e "Ikki" não resolveram a treta. O que resolve então? Quem sabe um banho de água benta, não? Espero que tenham gostado :) Bjs. L ;3