Frankenstain
59 Outono de 1871
Notas iniciais
O povo foi abandonado.
O exército prussiano estava mais bem preparado, vencendo todas as batalhas com facilidade.
A população cada vez mais desgostosa e humilhada, perdia seus filhos e filhas para uma causa vazia.
O estado não valia de mais nada, não mandava e nem cuidava, apenas olhava sem poder fazer nada. E, para completar a desgraça, o Imperador estava preso e deposto em Seran.
Grande merda estava a França, hein!
Em UM ANO a Prússia colocou o berço da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” de joelhos! Terminou de afundar o país na lama e ainda o usava de capacho!
A merda era tanta que o governo largou Paris às pressas quando soube que o exército prussiano estava marchando sobre a Cidade Luz!
Largou o povo! Abandonou o povo a própria sorte!
Uma perfeita analogia da sua vida se fosse pensar.
Mas com a diferença de que ele ficou e ia defender os seus com unhas e dentes!
¬ Eles vão aproveitar não é?— perguntou.
¬ Já estão.— arrancou a bebida de sua mão. – E você tem que estar sóbrio para lutar, Milo.
¬ Eu bem queria estar ébrio, Cygnus.— respondeu nem dando atenção. – Vou reunir as famílias em torno da cidade, a ameaça dessa vez não é exclusiva do Santuário.
¬ Só tente não se matar.— volveu suspirante.
¬ Certo.
Não tinha muitos motivos para sorrir na vida.
Dava para contar os motivos nos dedos.
O primeiro era seu bom e velho amigo de viagens Diamond, estava velhinho e nunca mais poderia correr ou levar alguém no lombo por conta do ferimento de projétil. Ainda era um bom cavalo e conseguia levar uma bolsa ou outra, entretanto, era um bom amigo e reconhecia que o cavalo merecia um descanso, agora passando seus dias nos pastos do assentamento cigano.
O segundo era a pequena garotinha do outro lado do Atlântico, na verdade, agora uma mocinha. Ela sempre lhe mandava cartas e sempre foi atenciosa com os momentos, mesmo nos piores dias a pequena soube lidar com a situação e o ajudou a melhorar um pouco, mesmo que por meio de uma carta.
E a terceira razão era saber que ainda podia ter fé nos homens, por mais inescrupulosos que a maioria deles se tornou, ainda existiam aqueles que lhe davam esperanças e razões de sorrir.
¬ Os Wánax devem proteger o Santuário ao lado dos Santos e Deusa.— ditava a cigana. – O restante de nós vai escalar os telhados de Paris e proteger o povo de cima. Todas as armas devem estar carregadas e prontas para uso, não economizem munição e não deixem ninguém chegar à catedral.
¬ Sim senhora!— responderam os mensageiros antes de saírem correndo para espalhar a notícia pelo lugar.
¬ Eles te respeitam muito, isso é bom.
¬ Só porque sou velha, Milo.— respondeu adentrando sua antiga carruagem.
¬ Velhas não atiram ou lideram rebeliões armadas, Esmeralda.— volveu a vendo voltar com um mosquete. – E você não está velha, ao menos não aparenta.
¬ Agradeço a gentileza.— testou a mira rapidamente. – Mas eu sou uma Sintza, e sou uma Descendente de Phoenix e Andrômeda. Eu atiro e lidero um povo, não vou cair sem lutar antes.
¬ Vejo que já estamos no espírito da coisa.— respondeu com um levíssimo sorrir.
Os parisienses não ficaram quietos e aceitaram seus destinos nas mãos prussianas, muito pelo contrario, cada um pegou uma arma e saio na rua.
Eles se organizavam, governavam a si mesmos e faziam a segurança um do outro, realizaram até mesmo uma eleição para decidir seus destinos enquanto seus lideres fugiam para Versalhes.
O povo de Paris era forte e inspirador.
Mesmo traído, ainda tinha força e fé o bastante para lutar contra a injustiça.
Liberdade!
Igualdade!
Fraternidade!
Essa é Paris!
Esse é o povo de Paris!
Essa é a força, convicção e fé de Paris!
E essa fé, por mais maravilhosa que fosse, podia ser usada tanto para o bem quanto para o mal de seu próprio povo.
Paris estava para ser retomada por seus lideres de forma violenta.
Não bastava ter resistido à invasão prussiana com louvor, agora teria que resistir à invasão de seus próprios filhos!
Mesmo depois de ter abandonado o povo, o governo ainda se achava no direito de mandar e desmandar na vida das pessoas!
Aquilo não era um governo!
Era um tirano de várias faces!
¬ FOGO!!
Os estalidos das armas roubadas reboaram por Paris, derrubando vários soldados surpresos e apavorando os mais atrás. Ninguém esperava que o povo estivesse disposto a tanto.
¬ FOGO!!
Agiam como um seguimento militar.
Não estavam despreparados, estavam mais preparados do que nunca e mais motivados também. E ainda tinham o auxilio invisível das famílias de Descendentes nos telhados.
Podiam até devolver o poder ao tirano e se submeter a ele novamente, mas não sem antes lembrá-lo que lobos domesticados ainda têm dentes afiados.
¬ FOGO!!
Era uma batalha perdida, todos sabiam.
Jamais venceriam um exercito realmente treinado, mesmo com o auxilio de uma pequena “milícia”, mas diminuiriam o número de seus inimigos ao ponto de que mais nenhum mal pudesse atingir suas famílias.
A história ensina isso.
Um exército completo mata e rouba.
Um exército diminuído apenas ameaça.
¬ PREPARAR ARMAS!!— esperou prenderem as laminas. – FOGO!! AVANÇAR!!
Atiraram derrubando mais uma fileira e então avançaram um passo com armas e escudos, os telhados também sendo tomados aos poucos sobre suas cabeças.
Soldado algum de farda azul passaria pelas fileiras.
E esse cenário se repetia por Paris inteira.
Mulheres, crianças e idosos, em sua maioria estavam abrigados em hotéis com suas próprias armas para defesa; porém, os demais se encontravam junto aos homens, cuidando um dos outros fosse por tiros de defesa ou arrancando balas de seus corpos.
Os homens e rapazes eram a linha de frente, colocando-se como escudos e armas, não deixariam a cidade desprotegida, o que dirá sua catedral secular.
¬ Ao redor de Paris, homens e mulheres lutam por alguma justiça!— o rapaz empunha sua voz como seu pai fazia. – Nós lutamos pelo mesmo! Mas nosso inimigo não usa farda, manto ou algodão! Nosso inimigo usa trevas!— apontou para grandiosa catedral atrás de si. – Por nossos irmãos! Por nossos Senhores! Por nossa Deusa! Por Theós! Nós iremos lutar! Nós iremos vencer! E não iremos recuar! Não iremos deixar que as trevas se apossem de Paris e muito menos de nossas vidas!
Estufou o peito cheio de força, o anel de pedra benben brilhou, a armadura parcial cobriu seu corpo e seus olhos brilharam com o cosmo que corria em seu sangue.
Foi assim com todos os presentes, as armaduras envolveram partes de seus corpos e seus olhos faiscaram como o tinir de armas em combate.
¬ O REINO DE THEÓS ESTÁ DENTRO DE NÓS E AO NOSSO REDOR!! NÃO EM PRÉDIOS DE MADEIRA E PEDRA!! — urraram o brado milenar.
¬ CORTE UM PEDAÇO DE MADEIRA E LÁ ESTAREI!! LEVANTE UMA PEDRA E ME ENCONTRARÁS!! — e a resposta veio de suas costas, não de seus iguais.
Viraram-se bem a tempo de ver o extraordinário.
As estátuas, enfeites, torres e adornos de Notre-Dame tomaram vida, assumiram formas mais humanas e vestiram armaduras completas, a frente delas estava o Nephelim com sua meia armadura e um bastão com correntes.
¬ PROMETAM!! — gritou para os presentes. – PROMETAM QUE SEMPRE LUTAREMOS JUNTOS!! PROMETAM QUE PROTEGEREMOS UM AO OUTRO!! E PROMETAM, ACONTEÇA O QUE ACONTECER, NÓS IREMOS SOBREVIVER JUNTOS OU MORRER JUNTOS!!
¬ PELO SANGUE DE ATHENA!! – foi sua resposta.
Sangue é a tinta do destino e vida.
Rezava para que a tinta não tivesse jorrado aquele dia de escrita.
¬ FECIT A ESQUERDA!! NATOS A DIREITA!!
O chão tremeu pelos urros e passos de bestas, ainda mais horrendos por ter os sons de tiros e gritos do povo e familiares nos limites de Paris.
Todos os Aeris deram um passo a frente dos demais, se colocando ao lado de seus respectivos Wánax e familiares – era um momento inapropriado, mas achava surpreendente a semelhança física entre Phoenix e Kagaho.
Eles se posicionaram de acordo com suas armas, alguns se ajoelharam e agiram como barreiras vivas, outros tencionaram as pernas prontos para avançarem e outros tencionaram os braços ao faiscarem os olhos prontos para atirar.
Seguidos por seus Wánax, estavam prontos para o estopim da batalha.
¬ POSSIDETS NAS COSTAS!!
Já havia participado de várias batalhas, mas aquela estava alcançando proporções que nunca seria capaz de imaginar.
Agora os Argertum eram quem se colocavam a frente.
Um Santos morreria primeiro que qualquer um de seus Descendentes, aqueles homens e mulheres eram seus filhos de certa forma e eles os defenderiam como qualquer pai faria.
Posicionaram-se tal quais os Aeris e enrijeceram suas expressões, assoviaram como águias e os Kirins de pedra se reanimaram e armaram seus botes acima de suas cabeças.
¬ IUDICE A FRENTE!!
Comparado aos outros, os Aurum eram bem poucos e realmente eles eram poucos, mas certamente eram os com mais presença ao avançar de cabeça erguida em desafio.
Toda vez que os via lutar, tinha a impressão de ver cães mansos se tornarem lobos em defesa.
Nenhum deles se ajoelhou ou tencionou os músculos, não era por orgulho ou soberba, era por conta de sua forma de agir, muito baseada na reação e não na ação.
Ao mesmo tempo em que a ameaçava crescia e que avançava ao lado dos Santos – puxado pelos Gemini, é claro –, sentia um frio correr suas costas como a mão de um morto e uma queimação de brasa subir sua garganta.
Já tinha sentido essa sensação antes, mas em apenas duas épocas de sua vida e com apenas dois seres, um deles, em especial, era o que mais lhe marcava a memória com aquela sensação horrível.
¬ Hey!— mirou Cancer na mesma hora. – Manigold não deve ter comentado, ainda mais com o jeitão que ele tem. Mas sabe o que ensinei aos Auditore sobre Tanathos?
Negou.
Vindo de Cancer podia ser qualquer coisa, e o Santos ainda deu um sorriso de canto e voltou a mirar a frente.
¬ Nós miramos seus olhos profundos com intensidade, damos um sorriso animado, passamos reto por sua figura sombria e então respondemos com alguma graça: Hoje não, volte amanhã. — ele falava com uma tranqüilidade quase preocupante.
O chão tremeu com mais força pelos urros que irromperam Paris, fazendo surgir rachaduras na rua, nas calçadas e nas laterais dos edifícios.
No momento seguinte, sombras começaram a surgir de todos os lados, eram centenas delas e estavam sedentas por sangue dourado.
¬ SETAS!!— aquela era a voz de Mentor. – ESCUDOS!!
Os arqueiros dispararam uma saraivada, dezenas de flechas e setas se fincaram nas espessas armaduras negras. Várias outras passaram pelos vãos das pesadas sombras, queimando a carne e transformando o inimigo em cinzas.
Mesmo assim, o número era gritante e logo aquela massa se chocou contra os escudos e lanças dos Santos.
Saindo por detrás dos seres imortais, os Wánax empalavam os inimigos ao avançaram pelos poucos espaços e os Kirin caiam de dentes amostra sobre seus inimigos.
A batalha eclodiu como um raio solitário seguido de seu barulhento trovão, sua mente arteira ainda fez questão de recriar a luz do relâmpago.
¬ MILO!!
O rugido da fiel cadela o fez girar sobre os calcanhares. Ela jamais o gritaria se não fosse algo preocupante.
Aproveitou que precisava virar e tratou de dar cabo de dois Natos. Um foi derrubado com uma rasteira e o outro foi trazido ao chão com um agarrão no pescoço, ambos tiveram as cabeças esmagadas por um potente golpe do bastão Needle.
Por fim ergueu-se e seguiu o mais depressa que podia até as Kirin, que raramente o deixavam sozinho desde a morte do ruivo.
As cinco fêmeas rosnavam receosos para uma figura alta e intimidante, ela nem parecia se incomodar com as mesmas, apenas desviava de seus ataques como se estivesse entediado e esperasse por algo ou alguém para livrá-lo daquele enfado.
No exato instante em que as íris escarlates cruzaram com as de tom azul céu, um sorriso cruel surgiu por debaixo do elmo ao mesmo tempo em que uma das cadelas foi arremessada para longe com um ganido agudo.
¬ OCEANIA!!— e a mãe foi atrás.
Apertou o passo com fúria, lançando-se sem pensar contra o inimigo.
Este parecia imensamente feliz em vê-lo.
Seu bastão foi detido com facilidade pela espada negra de mão dupla, os rostos estavam tão próximos que a respiração quente de ódio atravessava as proteções faciais e batia com certa violência contra as maçãs do rosto.
¬ Há quanto tempo Scorpius...— disse com um sorriso. – Ou devo dizer Milo, tal qual sempre lhe chamamos?
Estancou no lugar.
Aquila lhe ensinou bem, palavras possuem um poder assustador, especialmente os Nomes como lhe lembrara Albafica tempos atrás. Nunca, em momento algum, disse seu nome a um inimigo. Como aquele podia saber?
¬ Você não me conhece!— rosnou o empurrando com mais intensidade e quase o derrubando se não tivesse desviado com elegância.
¬ Te conheço melhor do que si mesmo.— respondeu soberbo. – Fui eu quem uni pedaço por pedaço de seu atual corpo. Fui eu quem tive o zelo de unir nervo por nervo, músculo por músculo. Fui eu quem tomou a coragem necessária para dar-lhe vida. Fui eu quem teve a loucura de acolhê-lo e até tentar aceitá-lo em minha casa. Se eu não te conheço Milo, eu queria saber quem poderia conhecer.
Sentiu como se algo tivesse sido quebrado dentro de sua mente, dava para ouvir os estilhaços batendo dentro de sua cabeça.
Aquela luta se tornou particular no momento em que viu seu oponente fazer um gesto de espera para seus companheiros e tirar o elmo logo em seguida, revelando um sorriso cruelmente orgulhoso.
Agora parecia que tinham lhe acertado a boca do estômago com o soco mais potente do mundo.
¬ Criador...
O homem loiro atirou o elmo para o lado, fazendo o metal negro quicar no chão e arrancar uma lasca das pedras. A espada que carregava foi embainhada enquanto um sorriso deveras cruel e zombeteiro surgia em seus lábios.
Os braços foram cruzados em afronta e relaxo.
¬ Como vai Milo?— entortou a cabeça de leve. – Mal, eu imagino. Afinal falhou em cuidar de meu bisneto.
Aquilo o atingiu como um aríete, sentindo os ossos das mãos estalarem e os dentes rangerem em fúria contida na garganta.
¬ Você não o conheceu.— disse com a voz alterada. – Não tem o direito de falar nada sobre ele.
O homem fez uma careta desacreditada e logo depois começou a rir com gosto, era como se tivesse pena de si. Ergueu a mão apenas para limpar os olhos de suas lágrimas negras, sinal de que riu com bastante gosto de sua ingenuidade.
¬ Sabe, pensei que seria eu a rasgar a garganta dele.— começou com um sorriso. – Mas parece que foi Minos quem se banhou em seu sangue e eu o invejo por isso. Afinal sangue bom de derramar é sangue vermelho com dourado, uma cor tão linda. Harpia, pobre coitado, queria tanto ver essa cor que lhe custou a forma corpórea, idiota. Falei para ele esperar, a hora certa iria chegar.— mirou-o curioso, um tanto animado talvez. – Diga-me, ele sofreu muito? Tinha muito sangue? Queria tanto estar lá para ver.
A espada foi sacada em questão de segundos.
O impacto entre as armas foi tão violento que a espada de mão dupla teve a lamina trincada e o bastão teve uma lasca arrancada.
A força aplicada fez o Iudice dar três passos apreçados para trás e então travar a postura no quarto passo, segurando a força monstruosa do loiro com uma mínima facilidade.
¬ Perdeu o respeito por seu criador, monstro?— sorria animado com aquilo.
¬ Olhe-se no espelho, Iudice!— rosnou enfurecido.
¬ E você já o fez?— respondeu sorridente.
O céu ficou ainda mais escuro e as sombras se tornaram mais espessas.
Aquela era a hora mais escura e de maior poder de seus inimigos.
Por toda cidade se ouvia gritos, se via mulheres e crianças fugindo enquanto os primeiros pelotões do exercito francês avançava com alguma dificuldade.
Casas de todos os tipos e edifícios de todas as riquezas salpicavam brasas ardentes no ar frio, a cidade gemia, estalava e chorava em visível dor de perder seus filhos e filhas.
Animais urravam e choravam pela dor que sentiam ou pelo medo que tinham, eles eram o lado que nenhum homem queria mostrar.
O cheiro de fumaça e ferro tomava os sentidos e inebriava as mentes sensatas, o canto da morte era cada vez mais audível.
Soldados se misturavam aos Espectros.
E o povo se misturava aos Descendentes resistentes.
Os conflitos não paravam, eram constantes, incessante, dias e dias de derramamento de sangue e resistência.
E os inimigos eram sempre as mesmas bestas incansáveis.
De repente, ouviu-se um grande grito de fúria, era uma mistura horrenda de alguém tocando um violino desafinado com outro alguém gritando com a dor da tortura. Logo em seguida ouviu-se o chamado de uma trompa de batalha e seus oponentes agora pareciam assustados ao recuarem.
¬ Minos...
O homem com quem lutava pareceu se desesperar mais que todos os outros e então aplicou uma grande força, conseguindo assim o empurrar para longe.
— Nos vemos em outro momento Monstro. — fez uma reverencia zombeteira. – Por hora tenho mais o que fazer.
¬ Você não vai a lugar algum!— respondeu se lançando contra ele novamente.
Entretanto, um Fecit entrou em seu caminho e conteve seu golpe, se tornando seu adversário único naquele momento em que seu criador apenas sorria nervoso e sumia entre as sombras da noite.
¬ Ainda vou matá-lo!— falou tão alto quanto conseguiu.
Deu conta do Fecit com três golpes violentos de Needle, deixando que suas cinzas caíssem em suas roupas e cabelo, ambos bastante sujos.
Olhou ao redor na primeira calmaria, o peito subia e descia cansado, desgastado e sujo com os restos inimigos.
Seus amigos e companheiros não estavam muito diferentes de si próprio, alguns corriam jogar-se sobre os corpos mortais ou pular na tentativa de alcançar as luzes que subiam aos céus.
¬ Ah não...— murmurou.
O líder cigano parecia entregue ao se aproximar junto do jovem indígena brasileiro, em seus braços com pinturas de guerra jazia o corpo do irmão; incrivelmente, nenhum dos dois derramava uma única lágrima pelo primeiro de muitos corpos.
¬ Ubiratã!— a índia se aproximava do irmão mais velho. – Ubiratã. Onde está o Ibi... ra... já...
O olhar se encheu de lágrimas que não demoraram a correr pelo rosto bonito da índia, logo seus joelhos tocavam o chão e seu grito ecoou por metros e metros.
O irmão mais velho se ajoelhou à sua frente e teve o irmão caçula tomado de seus braços pela irmã. Ele permaneceu irredutível enquanto a irmã chorava e oscilava sobre o corpo do menor, as lágrimas queriam correr, mas precisavam ser presas pela sanidade mantida.
¬ Eu devia ter me atentado mais ao menino...— culpava-se o cigano.
¬ A culpa não é sua... Fui eu quem quebrou a promessa de levá-los para casa...— concluiu de cabeça baixa.
Não demorou muito para poeira se assentar e o choro de toda Paris se tornar mais alto que qualquer grito ou disparo até pouco tempo ouvido.
Somente na primeira e única folga encontrada foi que descobriu a razão do grito horrendo e da trompa, e, além disso, a razão para que os Daemones começassem a retirada que durou cinco dias e quatro noites de conflito subseqüente.
Saio correndo em disparado a procura dos Aurum, precisava encontrar ao menos um deles, seria melhor encontrar Athena, mas era uma certeza que Mentor estaria a defendendo com unhas e dentes mesmo de aliados.
¬ GEMINI!!— gritou assim que avistou o mais novo da dupla ao longe. – GEMINI!!
O mais velho virou-se a tempo de segurá-lo, afinal estava descendo uma ladeira quase sem controle de suas pernas.
¬ Pra que tanto desespero homem?— questionou com claro espanto e indisposição.
¬ Cancer. Piscis. Onde estão?— questionou aflito.
O rosto do mais velho expressou surpresa e pouco depois expressava a mais pura tristeza, a compaixão transbordava de seus olhos.
Thanatos estava tendo muito trabalho com os mortos.
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