Frankenstain
53 Outono de 1866
Notas iniciais
Observava do alto.
Ainda faltava uma hora para o dobrar dos sinos, mas era a hora certa do amanher.
Assistiu as nuvens se tingirem de vermelho, laranja, amarelo e roxo, cores suaves e gentis que coloriam o céu, tornando-o único num dos momentos mais belos do dia.
¬ Já acordado?
¬ Irmão.— sorriu para o mais velho. – Quis ver o sol nascer, deu vontade...
¬ Imagino.— sentou-se ao lado do menor. – É lindo não é?
¬ É sim.— concordou voltando a mirar o amanhecer. – Poderia passar o resto da eternidade vendo e revendo o amanhecer e entardecer.
¬ Eu posso fazer isso!— brincou levando um empurrão.
¬ Você é um chato.
¬ Preferia que eu falasse o que?— respondeu. – Que iria me enjoar rápido?
¬ Claro que não.— deu a língua e cruzou os braços por um suspiro. – Mas admito que seria a sua cara uma resposta dessas.
¬ Mas é claro que não!— se defendeu. – Como posso me enjoar se todos os dias tem cores diferentes?!
¬ Cores diferentes?— o mirou na mesma hora e entortou a cabeça.
¬ Ai...— coçou a nuca. – Digamos que eu vejo muito mais cores num dia do que você. Eu enxergo as cores normais, mas por trás delas eu enxergo outras cores, é como ver as várias camadas de uma pintura.
¬ Que legal!— ele ainda mantinha a inocência. – E que cores você ta vendo hoje?
¬ Hoje?— virou-se para o horizonte.
Via os vários tons quentes naturais do dia, mas por trás deles, como se fosse capaz de ver todos os espectros da luz, via várias outras cores. Haviam cores maravilhosas que se quer tinham nome e que ainda sim conseguia enxergar, haviam tons que nenhum artista alcançaria e haviam brilhos que olho algum veria.
¬ Hoje o dia é branco com salpicados de vermelho.
¬ Parece lindo.— observou. – Mas porque salpicado de vermelho?
¬ Essa visão que temos é conhecida como Visão do Advento.— explicou. – Ou seja, o salpicado de vermelho na verdade é sangue. Hoje vai ter um grande derramamento de sangue inocente, daí o branco.
Os olhos do mais novo cresceram e o ar foi preso, a ideia do que foi sugerido pelo mais novo era de gelar seus ossos.
¬ Não faça essa cara.— disse fazendo carinho em seus cabelos. – Sangue é derramado todos os dias. Pessoas morrem e nascem todos os dias. Nós apenas zelamos pela humanidade, não podemos interferir diretamente nela por mais que nossa vontade às vezes seja essa.
O menor suspirou e mirou o irmão.
¬ Lembra que dia é hoje?
¬ Hoje?— tinha esquecido. – Não. Que dia é hoje?
¬ Você esqueceu o meu aniversário?— fez um minúsculo bico.
Na hora deu um pulo com o susto do crime.
Fez o que lhe foi mais instintivo e natural, abraçou o mais novo cheio de carinho e beijou seus cabelos. Seria estranho com qualquer outra pessoa, mas com o mais novo era algo completamente natural.
¬ Desculpa!— pediu o apertando nos braços e ouvindo a risada divertida. – Estou tão atrapalhado com os deveres que tem dia que eu esqueço meu próprio nome! Entretanto, porém, não obstante! Feliz Aniversário!
¬ Obrigado.— riu contente. – Não ligo muito se os demais esquecerem, são bastante ocupados e eu entendo, só que machuca mais quando é você quem esquece.
¬ Também...— riu mostrando a palma da mão e batendo com dois dedos na mesma. – Você cabia aqui.
¬ Eu não era tão pequeno assim!— reclamou, naturalmente.
¬ De fato.— riu ainda mais. – Você era minúsculo!
¬ Seu chato.— o empurrou entre risos. – Você não tem que trabalhar?
¬ E você não tem que soar os sinos?— rebateu.
Os dois se levantarem e trocaram mais um abraço, qualquer pensamento ou sofrimento se dissolvia dentro daquele abraço.
¬ Se cuide na missão de hoje.— disse o menor.
¬ Digo o mesmo.— respondeu. – Obedeça o Cygnus e não saia da catedral.
¬ Sim, irmão.— revirou os olhos com um sorriso.
Dobram os sinos, Paris despertou ao soar de Notre-Dame.
A arma foi embainhada e a armadura vestida, estava pronto para batalha ao soar de Notre-Dame.
Sinos grandes com sons trovejantes e pequenos com sons de oração, pareciam divinos os sons dos sinos de Notre-Dame.
Assistiu do alto da catedral a partida dos irmãos, sentia um peso absurdo no peso todas as vezes porque sabia que um deles podia nunca voltar e ainda sim assistia sua partida.
¬ Shun!— ouviu a voz de Cygnus.
Soltou um longo suspiro desanimado, enrolou a corda em seu colete de couro e desceu a parede correndo até estar frente à frente com o loiro, que se assustou com sua aparição repentina.
¬ Aqui!— respondeu com um leve sorriso.
¬ Besta!— deu um peteleco em seu nariz. – Já falei que é perigoso ficar dependurado na cruz da catedral. Ainda mais com uma cordinha dessas, não importando o quão habilidoso é.
¬ Desculpa.— esfregava o nariz. – Eu queria vê-los ir embora...
O mais velho suspirou e deu-lhe um abraço, afagando suas costas e beijando seus cabelos. Mostrar o lado carinhoso sempre foi mais fácil com o pequeno mortal.
¬ Eu sei que não queria se despedir.— disse ao seu ouvido. – Mas podia deixá-los o verem ao menos uma vez, eles ficam tristes também.
¬ Eu sei.— respondeu baixo. – Mas a dor é mais forte e só me deixa vê-los de longe.
¬ Tudo bem.— o afastou delicadamente com um afogo nos fios anteriormente castanhos. – Você cresceu tanto... Mal acreditamos que está em seu vigésimo quinto aniversário...
¬ Faz parecer que já sou velho.— respondeu sorrindo.
¬ Pra nós, hoje, você se torna um adulto.— respondeu também sorrindo. – E, por isso, temos um presente para nosso pequenino adulto.
¬ Um presente?— entortou a cabeça.
¬ Phoenix queria te entregar pessoalmente, mas ele saio em missão, então passou a nobre tarefa para mim.— explicou. – Agora, se me acompanhar até a sala de armas para ganhar o seu presente, eu agradeço muito. Aquilo ali não pode ser erguido por nenhum de nós, sabia?
¬ Como assim?— foi atrás do irmão.
Todos por quem passavam lhe desejavam felicidades e diziam estar ansiosos para verem-no com o presente embainhado e preso à sua cintura, eles pareciam bastante animados com a possibilidade.
Já tinha entrado na sala de armas várias vezes antes, seus irmãos o levavam ali direto, mostravam as armas e quais as melhores formas de usar. Se houvesse uma emergência, era pra ele correr pra sala de armas, apanhar uma delas e se defender do que quer que entrasse ali.
Mas dessa vez era diferente.
Cygnus o estava levando para o armário gradeado com as armas dos Santos que haviam ascendido, este ficava distante das demais armas, elas eram diferentes afinais.
¬ Estas armas possuem apenas um mestre.— explicou o mais velho abrindo uma das grades com seu cosmo. – Talvez você não consiga apanhar nenhuma, entretanto, não custa nada tentar, certo?
O menor apenas acenou bastante nervoso.
Ao mesmo tempo que tinha medo de erguer uma daquelas armas, queria muito ser capaz de erguer uma daquelas armas.
A primeira mal foi tocada e já lhe deu um choque. O susto que levou acompanhado da dor e seguida do formigamento fez o loiro ao seu lado dar risada.
¬ Não esperava menos da arma de Leo.— comentou ainda rindo. – Tente a próxima.
¬ Prefiro não tentar se for perder a mão na próxima.— respondeu em choramingo.
¬ Ora vamos...— sorriu. – Foi só um choquinho, nas próximas a reação da arma vai ser a mesma.
¬ Se eu morrer, volto pra puxar seu pé.— respondeu dando a língua.
O mais velho apenas deu risada e o incentivou a tentar mais uma vez.
A próxima arma também o recusou, dessa vez uma chama azul tentou morder seu dedo e quase o arrancou, e não estava sendo dramático. Fazia até sentido toda aquela resistência por parte da arma de Pegasus.
Depois dessa arma veio uma lança de gelo, que congelou superficialmente a pele de seu braço e que o irmão descongelou com um sorriso nostálgico. Disse que a arma de seu mestre era bem enjoada mesmo.
Depois veio três bastões unidos por correntes escarlate, suas chamas eram vermelho sangue, pareciam mais uma energia do que fogo em si. Esta apenas o picou e a dor foi se alastrando, mais uma vez o irmão o socorreu com um sorriso nostálgico.
¬ Não quero mais...— era justo.
¬ Vamos...— beijou sua testa. – Só mais essa vez, a última arma.
¬ Só mais essa!— reforçou.
A próxima arma não fez nada, deixou-se ser apanhada e erguida com facilidade.
¬ Ótimo.— disse o mais velho sorrindo. – Agora a desembainhe.
¬ E como eu faço isso?— rebateu.
A arma aparentemente já estava desembainhada.
A empunhadura era enorme, parecia a empunhadura de uma arma de duas mãos.
Em compensação a lamina era minúscula, devia ter o tamanho da lamina de uma adaga, e seu único diferencial era que ela se dividia em três, lembrando vagamente uma cruz ou garfo, era estranha na verdade.
¬ Eleve seu cosmo.— respondeu. – Você sabe como fazer isso, nós te ensinamos.
Mirou o irmão e voltou-se para a arma pouco depois.
Sentiu o familiar calor correr suas veias e aquecer seu corpo da cabeça aos pés, era um pouco doloroso no começo, mas depois de um tempo se tornava agradável, era como tomar sol em um dia frio.
Então ouviu um clique e deu um pulo ao ver a lamina cair no chão, relevando uma corrente de elos em formato de prisma afiados.
¬ Mas...!
¬ É sua.— disse o mais velho. – Essa arma sempre foi sua.
¬ Mas o que é essa arma?!— tinha medo de tocar e se machucar.
¬ Essa é a Nebula.— respondeu. – Ela possui uma corrente que se estende até o limite de seu cosmo e para atacar ou defender deve usá-la como um chicote... Quer testar?
¬ Quero...— era estranho, mas realmente queria.
O mais velho sorriu e o guiou para o pequeno campo de treinamento do lugar, alguns de seus companheiros já estavam lá e sorriram abertamente ao verem o rapaz empunhado uma das armas sagradas.
¬ Irmãos!— chamou em alto e bom som. – O nosso pequeno aqui virou um adulto hoje! E ele conseguiu empunhar a Nebula com facilidade! Alguém quer ensinar ele a lutar com ela?!
Todos se entreolharam e pareciam entrar em acordo quanto a ordem dos adversários. Logo a maioria se afastou do centro da pequena arena, restando apenas um dos Santos mais belos entre os mais belos.
¬ Vejamos se cresceu em habilidade tanto quanto em caráter.— observou sacando suas facas.
¬ Não seja bruto Piscis!— disse Cygnus também se afastando.
¬ Não se preocupe.— respondeu sorrindo. – Amo este menino como todos os outros, jamais o machucarei. Está pronto, Shun?
¬ Não.
O mais velho soltou um riso melodioso.
¬ É sempre assim.— respondeu. – Vou avisar os primeiros ataques, assim você pode se defender, mas conforme for melhorando eu vou parando de avisar. Está bem?
¬ Certo.— acenou positivo e empunhou melhor sua nova arma.
¬ Vou atirar em seu ombro esquerdo então.— anunciou erguendo suas facas negras. – Só avisando que ser acertado pelas Mávros doí muito.
¬ Isso não ajuda!— revidou erguendo sua Nebula.
Só teve tempo de ver a temida faca voando em sua direção e desviar o mais rápido que podia, ficando apenas com um risquinho no ombro.
¬ Piscis!— o irmão brigou com o outro.
¬ Ele está aprendendo.— respondeu. – E vide que ele desviou muito bem para um iniciante.
Colocou a mão no ombro machucado, estava dormente pelo assustador frio que sentiu tomar a área ao redor do corte.
Mesmo assim, se levantou, empunhou a arma direito mais uma vez e se posicionou, ainda era um homem e tinha seu próprio orgulho.
¬ De novo.— pediu.
O mais velho apenas sorriu e indicou o mesmo braço, atirando a faca logo em seguida.
Dessa vez não ergueu a arma, ela não era uma espada ou escudo para ser erguido à frente do rosto. Apenas manteve as mãos baixas e bateu como um chicote ao mesmo tempo que fazia um movimento de lançamento, ouvindo o estalo ensurdecedor dos elos.
Fechou os olhos ao ver o quão perto a faca estava e manteve a postura firme, não iria desviar dessa vez. Ficou apenas esperando pela dor.
Mas a dor não veio, veio apenas o som se metais caindo.
Quando abriu os olhos estava sendo aplaudido pelo mais velho, em seu rosto havia um risco e dele escorria um filete.
¬ Eu não teria feito melhor.— elogiou sorridente.
Na hora sentiu todos os músculos darem uma pequena amolecida e só não caio de joelhos porque ainda tinha a alegria de acertar para o manter de pé.
¬ Muito bom.— Cygnus se aproximou com um sorriso. – Quem quer ser o próximo?
¬ Não!— foi emoção demais para uma hora apenas.
¬ Ah!— reclamou Cancer. – Não é justo! Também quero ensinar o tampinha!
¬ Você quer ter alguém pra bater.— disse Draco. – É diferente.
¬ Você.— apontou para o irmão Aeris. – É um chato. E não quer treinar comigo!
¬ Pra você ficar pisando na minha cabeça?— revidou. – Não, muito obrigado.
¬ Parem os dois!— disse Capricornus de cara fechada, sempre de mal humor. – Shun está certo em não querer mais participar. O braço está ferido e ele não tem nossa resistência, temos que pegar leve com ele. Primeiro se aprende a andar e depois a correr.
¬ Concordo com Capricornus! – expressou-se Sagittarius treinando com seu arco do outro lado da arena. – Deixem o pequeno descansar, amanhã voltaremos a ensiná-lo como se luta com uma arma tão difícil quanto a Nebula. Ele foi muito bem hoje.
¬ Todos de acordo?— Libra era sempre o mediador.
¬ Que escolha temos?— respondeu um Cancer emburrado.
¬ Pois bem.— Cygnus sorriu de leve. – Embainhe sua arma e poderá tirar o dia só pra você.
¬ E como eu faço isso?— ter desembainhado já foi uma conquista.
¬ Que tal diminuir seu cosmo?— o loiro respondeu risonho.
Corou um pouco ao perceber o óbvio e fez como foi dito, logo pode prender a arma ao seu colete de couro e voltar o olhar para o irmão mais uma vez.
¬ Saiu-se muito bem, estou muito orgulhoso de você.— beijou sua testa. – E tenho certeza de que se Phoenix estivesse aqui agora ele diria o mesmo.
O rapaz apenas sorriu e assentiu bastante contente com a nova conquista.
¬ Agora vai.— disse com um sorriso encorajador. – Aproveite o seu aniversário.
Acenou mais uma vez e saio correndo, deixando os Santos para trás com sorrisos que logo morreriam.
Cygnus cobriu os olhos e soltou um suspiro cansado enquanto se sentava onde estava mesmo, sentia o orgulho sendo substituído pelo temor aos poucos.
¬ Hoje é o vigésimo quinto aniversário.
¬ Nós fortificamos todas as saídas.— Libra tentou confortá-lo. – Nada sai e nada entra.
¬ Sabe tão bem quanto eu que Hades tem várias maneiras de entrar e sair.— respondeu amargurado.
¬ Precisamos acreditar que ele vai ser mais forte até o fim.— volveu o mais velho. – Desde que ele não saia da catedral ficará tudo bem.
Soltou mais um suspiro e fechou os olhos, desejava como nunca uma década de sono.
¬ Espero que esteja mais certo do que qualquer outra coisa no mundo.— respondeu.
Corria de volta a seu quarto feliz da vida, assim que o Phoenix voltasse iria mostrar e contar tudo o que fizera nos dias de sua ausência.
Já estava planejando todo seu dia.
Iria desenvolver suas habilidades de escalada por boa parte do dia, então iria colocar sua leitura em dia, quem sabe passar a mão no vinho do vigário e por último, mas não menos importante, treinaria mais um pouco com sua arma e então iria dormir bastante.
Só que nem tudo é como planejamos.
¬ Ah!...
Encontrou uma mulher sentada na borda de sua cama, em suas mãos havia uma lira e por seus lábios saia a voz mais melodiosa que já ouvira antes.
Deveria gritar, entretanto, começou a sentir seu corpo cada vez mais relaxado e dormente, era como estar dormindo acordado.
Seus pensamentos e sensações foram se dissolvendo aos poucos, logo estava caído de joelhos e com a visão turva, um sorriso débil e sem motivo tomava seus lábios.
Logo sentiu a escuridão lhe engolir em um abraço semelhante ao que sentia na hora de dormir, apenas aceitou o escuro como um abrigo e ali ficou adormecido, apenas descansando de todos os desgastes de sua curta vida.
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