Frankenstain
1 Inverno de 1775
Notas iniciais
Tudo começou na primavera de 1774 do ano de nosso Senhor.
Uma morte.
Uma mulher muito bonita e gentil amava sua família de todo coração e seria capaz de fazer tudo por quem amava; tinha dois filhos saudáveis e um marido que a amava muito, porém, isso não foi capaz de salvá-la da vontade divina.
Ela faleceu durante a noite, na hora mais escura, na hora mais fria. Deixando dois filhos por criar e um marido desolado.
O marido – um médico e cientista renomado de sua época e meio – não conseguiu seguir sem sua amada esposa e converteu todos os seus esforços para realizar uma loucura que até então só ouvira falar pela boca de loucos.
Ele reanimaria um cadáver.
Ele traria sua esposa de volta a vida.
Entretanto, não queria arriscar o corpo de sua amada em experiências tão amadoras e primitivas.
O que ele criou ganhou vida no inverno de 1775.
Um cadáver vivo, sem alma.
Costurado, jogado, forçado de volta à vida por um louco.
Horrorizou-se com sua criação, percebendo que jamais seria capaz de fazer algo semelhante com a amada esposa.
O que criou não era homem, nem demônio, nem anjo e nem morto. Não sabia o que tinha criado, só sabia que não o queria.
Tentou destruí-lo.
Antes que sua criação tomasse consciência de qualquer coisa, ele a acorrentou e jogou no rio mais revolto que tinha perto de suas terras.
A criatura foi levada pelas águas por muitos quilômetros, aquilo teria matado qualquer ser, mas este ser nocivo sobreviveu ao ódio das águas.
A criatura encontrou seu caminho de volta.
O desejo de vingança queimava em seu ser.
Uma vida por outra vida. Era o que ele queria até então.
Tiraria o que mais valia para seu criador.
A casa era grande e bonita, podia ouvir os animais de fazenda ao longe nos estábulos, porém, a casa parecia vazia, inóspita e fria.
Ouviu um galho se quebrando.
Imediatamente se virou e deparou-se com dois meninos e uma menina carregando lenha, todos brancos como papel.
Dois deles lembravam seu criador em postura e um pouco da aparência, enquanto que o outro chegava a destoar no trio com o ar alegre e despojado, além de uma pele morena, olhos safira e cabelos em estranho tom.
Sua reação foi jogá-los longe e com um único tapa fez com que o pequeno moreno voasse contra uma árvore, se ele não morreu com aquele golpe era sorte a dele, pois ele não era seu alvo.
Sua mão foi erguida acima da cabeça, um tapa era tudo o que precisava, de um único tapa, com este gesto seria mais do que capaz de matar o menino restante e depois era só dar conta da menina.
Mas...
Por alguma razão a criatura não conseguiu.
A menina percebeu a indecisão da criatura, soltou tudo o que carregava e saiu correndo na direção da casa.
¬ PAPA!! — o grito ecoou. — PAPA!! PAPA!!
A criatura ficou ali encarando o menino restante, este devolvia seu olhar em uma mistura de medo e curiosidade, apesar de sua expressão ser seria e fria. O menino ficou ali parado apenas o encarando de volta.
Com cautela, o pequeno moveu sua mão até uma bolsa que carregava e dela retirou uma maçã grande e vermelha, bastante viçosa e suculenta.
O fruto atraio a atenção da criatura, o menino então a estendeu e ofereceu com um leve sorriso.
Com o fruto em mãos, não tinha certeza do que fazer, então encarou o menino novamente e este o orientou a mordê-la através de uma mímica curiosa. A criatura o fez e logo mais se flagrou degustando mais outro fruto oferecido pela criança.
¬ Bom, não? — questionou o pequeno com um mínimo sorriso.
Parou por um tempo e o encarou.
Até pouco tempo atrás, qualquer um poderia ver que a intenção da criatura era matá-lo, então porque agora o olhava como se fosse capaz de ver algo mais?
¬ DÉGEL!! — o rugir profundo acompanhado do engate de uma besta foi o bastante para que eles se virassem.
Em um ato impensável e inimaginável, a criatura empurrou o menino para trás de si e o protegeu do tiro de seta dado pelo seu criador, pelo pai daquele menino.
A criatura tombou de joelhos com um gemido de dor, chegando a fitar seu criador com certo nível de ódio, o tiro na lateral do abdômen não o mataria, mas isso não queria dizer que ele não sentia dor.
¬ Papa, não! — o menino se colocou entre o homem e o ser.
¬ Saia da frente, Dégel! — seu tom era de ordem, ele não erraria desta vez. — Essa coisa é um monstro, um monstro que eu criei, admito, cometi este pecado e mereço pagar por ele, mas eu não deixarei que essa coisa toque em vocês! Olhe o que essa coisa fez com Kardia!
O menino virou o rosto da direção do moreno.
Ele estava inconsciente, a cabeça sangrava e seu braço estava torcido num ângulo estranho. A menina agora estava ao seu lado, parecia desesperada e incerta do que fazer para ajudar.
O pequeno engoliu seco e a preocupação adornou seu olhar por alguns instantes, mesmo assim, ele se manteve firme e ali ficou defendendo a criatura.
¬ Ele não é uma coisa, Papa! — revidou a criança. — Ele tem um nome! É um ser! Uma pessoa! Uma vida! Ele tem o direito de viver!
¬ Então me diga do que devo chamar esta coisa! — bradou o homem irritado. — Então me diga por que devo manter viva esta criatura do Inferno e que nem uma alma possui, o que dirá um nome!
Por uns instantes o menino não soube o que responder, não tinha perguntado se a criatura possuía algum nome ou algum tipo de apelido, só sabia que gostava de maçãs.
E foi com esse pensamento que a criatura foi nomeada.
¬ O nome dele é Milo! — bradou com a coragem que tinha. — E ele pode não ter uma alma, Papa, mas eu vejo em seus olhos que ele tem potencial para ter uma! E não importa o que aconteça, eu não vou deixar o senhor matá-lo!
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