Frank - Ou O Frankenstein Moderno

1 Capítulo 1 - Frank


Começou no momento em que Frank abriu os olhos.

A solidão começou desde o momento em que a mãe tornou-se um borrão e sua única realidade foi a porta da casa do pai, que desde o primeiro olhar já expressava o desgosto pelo garoto. O pai dizia que era porque nunca quis um filho; Frank sabia que era por causa de sua cor. Não foi fácil manter-se na casa, mas a vida seguiu. A vida em casa era seguida pelos olhares de desprezo e insatisfação, enquanto a vida na escola não era muito diferente; em uma vizinhança majoritariamente branca, com um complexo de maioridade, era difícil se encaixar. Eventualmente, Frank aceitou a solidão que lhe restou.

Victor Frankenstein era um homem de sucesso; um médico renomado, um pouco excêntrico mas altamente considerado pela comunidade científica. Para o próprio Victor, sua vida era perfeita: uma bela namorada, uma família amorosa, uma carreira brilhante; seu único erro foi achar que seu passado jamais o alcançaria. Foi assim que encontrou Frankie na porta de casa uma manhã, nenhum bilhete e mesmo assim o médico sabia o que lhe esperava. Considerou abandoná-lo ou leva-lo para longe, mas isso poderia gerar perguntas que não queria responder; assim, simplesmente colocou o garoto para dentro e decidiu lidar com seu fardo até o momento em que não fosse mais necessário.

E foi assim que Victor Frankenstein criou uma criança independente, sem nenhuma habilidade social, mas que sabia viver por si mesma. Não demorou muito para que o homem simplesmente decidisse largar o garoto sozinho, a única ordem sendo a de nunca deixar a casa. E Frank, sem conhecer muito além das quatro paredes que o rodeava, seguia a vida obedecendo aquela regra que não lhe parecia tão insensata.

A gota d’água foi quando Frank percebeu que os garotos lhe atraíam mais que as garotas. Não foi algo inédito perceber que aquilo não era o aceitável, e manter suas preferências em segredo não foi algo tão difícil considerando a falta de atenção que recebia. O que o garoto não esperava era o momento em que o pai o pegaria de surpresa em um suposto dia de trabalho, às escondidas com um garoto da vizinhança que não se importava de interagir com Frank, “contanto que ninguém mais soubesse”.

Foi expulso de casa naquela noite; as poucas roupas entulhadas em uma mala velha, o resquício de uma vida que mal foi vivida sendo abandonado naquele último momento. Sabia que não encontraria lugar na vizinhança e decidiu que era hora de tomar conta de seu próprio destino e se afastar, começar a vida em outro lugar. Não demorou muito até encontrar uma cidade mais distante e, com a certeza de que ninguém o reconheceria ali, encontrou uma cabana velha e alguns bicos para conseguir dinheiro. Sabia que ninguém na cidade estava de fato contente com sua presença, mas o julgavam calado, e era tudo o que podia pedir àquela altura.

Frank encontrou conforto na internet. Descobriu uma biblioteca local e ali encontrou seu refúgio: saía do trabalho, lia livros e mais livros das estantes surradas, e ocasionalmente entrava em fóruns de discussões online para debater aspectos da vida; e ali ele encontrou uma família.

Não deixou claro quem era logo de início; por suas experiências passadas, a melhor coisa ao usar um computador era a possibilidade de manter-se anônimo e esconder-se atrás de uma tela, onde ninguém poderia saber quem ele era. E assim, Frank conheceu Agatha, Felix, Safie e, mais importante, DeLacey. Frankie gostava de DeLacey porque era com quem mais se identificava: o amigo também mantinha-se no anonimato, sem nomes, sem identidades, sem nada que indicasse algo além de sua personalidade. E assim, os cinco mantinham contato constantemente; sempre que tinha tempo, Frank estaria na biblioteca, discutindo histórias com os amigos.

Foi depois de um tempo que Frank decidiu que não queria mais se esconder; o grupo de amigos havia lhe ensinado tudo que sabia, haviam contado histórias e explicado o mundo, e Frankie sabia que em algum momento precisaria lhes dizer quem realmente era. O medo do abandono continuava ali, no entanto – não conseguia perder o medo de que talvez não fosse aceito pelos amigos. Decidiu então conversar primeiro com DeLacey, pois sabia que o amigo provavelmente teria uma mente mais aberta que os outros. Entretanto, não teve a chance.

Foi Agatha quem o encontrou primeiro. De alguma maneira, entre seus esforços para manter-se anônimo e ao mesmo tempo interagir com os outros, Frank deixou algo escapar; Agatha sabia. Foi em um piscar de olhos que viu sua identidade definir sua existência e desaparecer com sua vida outra vez; os amigos se foram. Nunca conseguiu conversar com DeLacey, e nunca conseguiria. Jamais saberia o que o amigo teria pensado, se teria aceitado ou se o teria abandonado junto com os outros.

E então voltou para casa.

Victor Frankenstein não ficou feliz com essa decisão; quando Frank foi embora, ficou apavorado com a ideia de que alguém descobrisse que o menino era seu filho, que seu filho gostava de garotos, ou que tentassem fazê-lo cuidar dele outra vez. Sabia que Frank conhecia os familiares e poderia ir atrás deles em busca de apoio, e isso apenas o aterrorizou ainda mais. Alguns meses mais tarde, entretanto, quando viu que não havia sinal do garoto perto de si ou de seus conhecidos e familiares, decidiu relaxar. Voltou a entrar em contato com a família e pediu Elizabeth, a namorada, em casamento. A vida estava tranquila até encontrar o menino em sua porta – outra vez, como anos antes.

Frank entrou. A casa não tinha mudado. O pai perguntou o que fazia ali, e por que voltara; tinha deixado claro que não queria mais o garoto por perto.

E Frank contou sua história.

Contou que arranjara um emprego, e conseguiu um lugar para ficar. Contou sobre os amigos e os livros que leu, e como aprendera mais do que nos anos de isolamento na vizinhança, na escola, em casa. Contou sobre como os amigos descobriram sua identidade e como foi abandonado e, por um momento, Victor Frankenstein sentiu pena. Por apenas um momento, sentiu-se como um pai que deveria se importar com seu filho. Até que Frank lhe pediu para ficar, para que fosse aceito, para que tivesse uma família; mas Frank não era nada para Victor além de um erro passado.

Ele partiu de novo, mas decidido a não desistir. Passou os anos seguintes tentando a vida pelo mundo; sempre que falhava, voltava para o pai, com a esperança de que algo havia mudado. Frankenstein seguiu a vida o melhor que podia fingindo que o filho não existia; casou-se, mudou-se de casa, tentou continuar e ter uma família própria – não conseguia. A ideia de Frank aparecendo novamente assombrava-o o suficiente para que, no fundo, estivesse sempre ciente de que falhara como pai.

E foi assim que Victor Frankenstein morreu: fingindo para si e para todos que seu filho não existia, mas atormentado por dentro pela memória daquilo que considerava um erro. Assim Frank o encontrou, sem vida em um velório atendido por todos aqueles que viviam na farsa criada pelo médico. Foi Walton, um colega de trabalho ciente da existência de Frank, que lembrou ao garoto que nada daquilo deveria ter acontecido; independente de quanto soubesse que a culpa, no fundo, não era do menino, não podia deixar de imaginar como Frankenstein foi assombrado pela existência de Frank.

E ele aceitou. Sozinho no mundo, sem jamais conseguir encontrar alguém que o entendesse ou o aceitasse, Frank olhou o corpo sem vida do pai e foi embora, afastando-se do local. Walton observou as costas do menino ao vê-lo partir, imaginando para onde ia e se algum dia veria o filho de Victor Frankenstein. Walton não sabia, e não saberia, que Frank tinha decidido simplesmente seguir o pai.

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