Frank - O Caçador 1ª Temporada

9 Noite de Formatura (Parte 1)


Danverous High School

Um dos interruptores do corredor principal havia sido enfim desligado. Suspirando aliviada por mais um dia de trabalho cumprido, a professora Reene — mulher bem encorpada de uns 30 e poucos anos, cabelos castanho claros amarrados em um coque com uma mecha inclinada para a direita formando uma "sombra" na testa — fechara a porta da sala dos professores, carregando uma pasta amarela com várias provas corrigidas desde o horário de término das aulas, precisamente às 17h30.

Mas algo não se afastava da mente. Enquanto andava, seu pensamento vagueava por desenhos feitos nas carteiras e na lousa da suposta aparição que por dias dera o que falar. Mas nada disso comparava-se ao terror gerado pela morte brutal do zelador, morto atravessado por uma viga de metal. E do professor de Educação Física, morto por desidratação após horas preso na sauna, sendo que a porta, segundo muitos relatos, estava escancarada.

As últimas lâmpadas do corredor piscaram de repente, fazendo Reene erguer seus olhos temorizados atrás de um óculos de alto grau. Mordeu os lábios preenchidos com batom de vermelho forte e tornou a andar, o barulho dos saltos inconvenientes demais para quem esperava sair de seu local de trabalho sem um arranhão, seja lá quem estivesse por trás daqueles atos.

As duas primeiras lâmpadas à frente apagaram-se por completo. Reene estacou, sentindo-se marcada pelas luzes das duas únicas lâmpadas acesas acima dela.

— Alguém? — perguntou ela, arriscando em voz alta, a face tomada pela tensão com as pupilas frenéticas de um lado para o outro. A pasta estava quase escorregando devido ao suor crescente nas mãos. — Por favor... Quem quer que esteja aí, responda.

De repente, a moça sentiu uma presença por detrás dela, virando-se rapidamente.

A figura de um garoto de cabelo meio raspado e rosto meio arredondado com olhar vivo e penetrante vestindo uma conhecida roupa em frangalhos e manchada em sangue. Reene tremeu nas bases, mal aguentando-se conseguindo exprimir uma fala.

O garoto a encarava com uma seriedade nada tranquilizadora. Seriedade que parecia beirar ao ódio.

— Vo-você... — disse Reene, reconhecendo o fardamento do garoto: um uniforme azul escuro por cima de uma camisa branca e gravata vermelha com listras douradas em diagonal. — Não pode ser...

O uniforme da escola de uma época em que seu uso era obrigatório.

A boca de Reene tremeu aberta em horror ao ver o garoto exibir um estilete na mão esquerda com a lâmina sendo destravada até o limite.

— Não é diferente... de nenhum deles. Você falhou com essa escola. — disse o garoto, com cólera na face. De seus canais lacrimais expelia-se um líquido verde bastante escuro e fino, passando com uma linha quase reta nas suas bochechas pálidas.

Reene quis recuar para correr, mas suas pernas pareciam bambas e congeladas ao mesmo tempo.

O garoto rosnara como um cão feroz rapidamente avançando o estilete contra a professora para um corte horizontal.

Vários respingos volumosos de sangue penetraram com força nos armários dos alunos.

***

Departamento Policial de Danverous City

À pouco metros da sala de Carrie, Frank olhou no relógio praticamente ofegando naquela caminhada apressada rumo a um objetivo que não aguentaria mais esperar. Já eram oito e vinte e um da manhã, o que poderia significar que ela estava bem sentada na sua poltrona saboreando um capuccino.

Entrou sem bater, não esperando que se arrependesse depois.

— Muito bem, Carrie, hora pormos a roupa suja pra lav... — interrompeu a frase após fechar a porta e se virar para a figura desconhecida estando à frente do notebook antes pertencido à sua assistente.

Àquela altura, ex-assistente.

O detetive fitou a moça nova com um olhar estático que denotava um certo espanto. Ela abrira um sorriso largo para ele, típico de alguém que desperta feliz numa bela manhã ensolarada, e se levantou para ir cumprimenta-lo.

— Ah, olá, bom dia, deve ser o famoso detetive Montgrow. — disse ela, uma mulher formosa de cabelos meio ondulados cor castanho escuro que caíam sobre os ombros e na testa formava uma franja, além de possuir um rosto branco que transparecia suavidade realçada pelo olhar azul de sobrancelhas finas e não muito arqueadas. Suas vestes consistiam basicamente de um sobretudo marrom curto e desabotoado por cima de uma blusa branca incluindo as calças jeans apertadas com um bom cinto de couro preto e sapatilhas da mesma cor. Estendeu a mão para um nervoso Frank que retribuiu em um aperto trêmulo — Nossa, sua mão está tão gelada — disse ela, rindo de leve -, eu não quero pôr nenhum tipo de pressão logo no meu primeiro dia.

— Não, está tudo bem, me sinto ótimo, eu só não fui avisado de que você... — disse ele, dando uma olhadinha rápida na plaquinha retangular branca levantada na mesa com o nome da nova funcionária — ... de que você, Leslie, tinha substituído a minha outra assistente. — voltou-se para ela — Um pouco antes e depois da virada do ano eu fiquei meio desligado do DPDC, agora sinto que fui um eremita da caverna esse tempo todo. — falou, sorrindo meio brincalhão.

— Pois é, eu sou muito nova por aqui, quando recebi a ligação... — disse Leslie, mal contendo-se de alegria — ... meu coração faltou sair pela boca. Nem imaginava que meu currículo, que era só um no meio de uma montanha, seria fisgado. Mas como está desatualizado, aqui está eu para sanar suas dúvidas. Bem, a Carrie, que é uma ótima pessoa, quis se desligar de você e ser transferida para outro agente por algum motivo que não me diz respeito. A assessoria do diretor me ligou uma semana antes do recesso. — arqueou as sobrancelhas com um sorriso fechado — E olha eu aqui. Até agora não consigo acreditar, participar do ramo investigativo é um dos meus maiores sonhos.

— E estou feliz por ter o realizado. — disse Frank, demonstrando apoio, apesar do choque ainda martelar sua cabeça de forma a induzi-lo a sair correndo dali e tirar satisfações com Carrie — Dá pra ver que você merece. — tocou-a no ombro.

— E dá pra ver que ficou surpreso. — salientou Leslie, sem tirar o sorriso do rosto — É estranho não terem avisado.

— Eu tinha sofrido um acidente antes do recesso e daí que o diretor me deu férias forçadas. — disse Frank, sentindo-se pouco à vontade — A Carrie falou algo sobre mim? Você ouviu alguma coisa?

— Hum... é, tem uma coisa mesmo, um conselho aliás. — disse Leslia, com um dedo no queixo, pensando — Foi na reunião do dia 29. Ela me disse sobre você ser... ahn, digamos, alguém difícil de se lidar, principalmente com relação à teimosia. E sabe o que eu acho de tudo isso?

— Ahn... Sim, o quê? — indagou ele, temendo a resposta.

— Eu acho isso... simplesmente incrível. — disse Leslie, desatando a sorrir por estar orgulhosa de sua conquista pela qual aparentava ter esperado tanto — Sou louca por desafios e saber da boca de alguém como ela que Frank, o detetive mais requisitado do departamento, tem um gênio difícil só me deixou mais empolgada. Sabe, eu tenho um histórico bom demais com relações que fico insatisfeita de nunca divergir com ninguém, nunca estar em desacordo, por mais estranho que pareça.

— Então a Carrie me chamou de teimoso? Bom, isso é verdade, mas não sou tão difícil assim. — declarou Frank, meio pensativo quando ao evento que faltara. — Sou um cara legal, ora.

— Caras legais sempre foram grudentos e maçantes na minha vida. — disparou Leslie, dando de ombros — Espero ver bastante do Frank difícil que ela tanto fez parecer que você é. Não me ache louca, por favor — disse, rindo -, é que acho saudável às vezes termos opiniões diferentes e sabermos definir os limites, isso enriquece a relação e a deixa mais profissional.

— Que bom que você pensa assim. — disse Frank, forçando um sorriso. "Divergência de opiniões quase sempre acaba mal".

Leslie mostrara seus brancos e limpos dentes em um novo sorriso contagiante para o detetive, logo em seguida indo em direção à sua mesa pegar alguns papéis imprimidos para mostra-los.

— Há duas semanas, pouco depois da ressaca do reveillón, a Danverous High School sofreu duas baixas em circunstâncias trágicas. — disse, andando até ele estendendo os papéis — Como sabemos, o ano letivo por lá só termina no fim do mês por causa da...

— Sim, eu sei, a greve do ano passado. — disse Frank, interrompendo-a enquanto olhava o conteúdo — Zelador e dois professores mortos brutalmente. Suspeita de assassinato? Eu não teria tanta certeza. — falou, erguendo o olhar para a nova assistente.

— Acredita também que é um fantasma como alguns alunos estão dizendo? Por favor... — disse ela, franzindo o cenho com um sorriso leve.

— Err, não, quero dizer... — disse Frank, sem saber como portar-se, coçando a parte de trás da cabeça — O que você pensa? Me diz aí a sua teoria.

— A última vítima foi uma professora, ela ficou com um corte bem feio na garganta e segundo a perícia a profundidade indica ter sido feito por uma lâmina de estilete. Que assassino teria força para enfiar uma viga de metal numa pessoa? É o mais surreal. Pra mim pode ser uma espécie de conspiração entre ex-alunos, a escola tem um histórico imenso de estudantes expulsos por causa da onda de bullying que se espalhou por lá ano retrasado.

— Olha, Leslie, vou investigar por minha própria conta. Você cuida dos últimos detalhes dos laudos periciais. Tá legal? — perguntou, dando uma piscadela no olho esquerdo.

— Pode deixar. — disse ela, assentindo firmemente.

— Eu só vou aqui dar uma palavrinha com o diretor e depois vou destrinchar esse negócio. — disse Fraznk, recuando alguns passos até a porta com o polegar direito apontando para trás.

— Será um prazer trabalhar com o senhor. — disse ela, com todo o júbilo.

O detetive limitou-se a apenas dar um fraca risadinha ao abrir a porta para sair.

***

Na nova sala de Carrie, Frank irrompeu pela porta como um tufão.

— Quer me explicar que papagaiada é essa que você armou pra mim? — questionou ele, enfezado, aproximando dela que estava de costas organizando uma papelada bem volumosa.

Carrie revirou os olhos, suspirando com a boca.

— Já era tempo. Não esperava mesmo um "Feliz Ano Novo".

— Não vem com essa, Carrie. — disse ele, tentando incita-la a vê-lo — Quero você me dizendo a verdade, quero esclarecer esse mal-entendido olho no olho.

— A secretária deve estar sentindo sua falta. — disse ela, propositalmente vaga.

— Como é? O que a Megan tem a ver com isso?

"Ai, seu tolo. Me referi à secretária eletrônica, não à secretária vadia", pensou ela, novamente suspirando em impaciência.

Para a satisfação dele, ela se virara com uma face rígida.

— Quis dizer a secretária eletrônica. Você não fez a última checagem, pelo visto.

— Ei, eu também mandei uma mensagem pra sua. — disse ele, franzindo a testa.

— Que mensagem? — indagou ela, andando ela, levando a papelada para um armário de metal de seis gavetas (duas colunas de três).

— Devia ter feito a sua checagem antes de ter pensado em falar da minha.

— Eu não fiz porque... — disse ela, fazendo suspense ao colocar os papéis em suas devidas pastas — ... eu não ouvi nada. — fechou uma gaveta com força, voltando os olhos sérios para ele — Não tinha obrigação de ouvir nenhuma justificativa depois da vergonha que me fez sentir.

— Espera aí, então você... não, você não teve coragem... — disse Frank, encarando-se com ar de espanto misturado com frustração. — Carrie, porque você fez isso? — perguntou, elevando o tom — Tinha algo importante naquela mensagem que você deveria saber. Me desculpei de verdade nela.

— Então significa que escolheu um péssimo momento pra grava-la. Eu sinto muito. — disse ela, afastando-se do armário e desviando o rosto — Se Frank Montgrow não consegue ser honesto com sua melhor amiga, então não existe nada que ela possa ser obrigada a saber dele.

— Não custava nada ter ouvido. — disse Frank, sentindo-se verdadeiramente decepcionado com Carrie como nunca antes pensaria um dia estar — Você foi imatura.

— Olha, se veio aqui me dar uma lição de moral, está perdendo seu tempo. — disse ela, rebelde — O que foi? A novata não disse a que veio?

— A Leslie parece ser bastante competente, ela já me deu até um caso e mal nos conhecemos. — disse Frank, sem intenção de desistir de convence-la — Mas era você quem devia estar lá. Você completa o meu trabalho de uma maneira única.

— Isso está ficando um pouco estranho... — disse Carrie, insegura — Parece até que somos... Ahn, enfim, esquece. O melhor que você pode fazer agora é enterrar nossa parceria de trabalho no passado. Mas não significa que não possamos mais nos falar por telefone, interagir nas reuniões com o diretor e tudo mais. Você tinha um dever que era valorizar meu trabalho do jeito correto, mas falhou, me fez sentir diminuída como uma simples garota de recados, uma colher de chá para a sua conquista própria pela missão a cumprir. Não me entenda mal, por favor. Ainda me preocupo com você. Ainda é o melhor amigo que já tive. Mas como colega de trabalho você caiu pontos no meu conceito. — encaminhou-se para a porta, abrindo-a e mostrando a saída para o detetive que, emudecido, via-se completamente arrasado — O agente Malcom já está pra chegar. É melhor você ir, tenho mais o que fazer. Te desejo sorte com a novata. De verdade.

Frank permaneceu parado no mesmo ponto por vários segundos, cabisbaixo. Pressionado pela forte presença de Carrie, cedera ao pedido ao andar para sair.

— A propósito, esse Malcom não vai pegar o caso das mortes na escola, vai? — perguntou ele, parando na soleira da porta, sem se virar para ela.

— Os casos que vamos investigar são bem entediantes. Vou sentir saudade de pesquisar paranormalidades. Ano novo. Vida nova.

— Carrie, por favor, como você acha que vou lidar com a Leslie quando as evidências ficarem mais elucidadas? É um caso de fantasma, sem dúvidas, e ela acha isso uma baboseira. Numa das folhas é dito que alguns alunos sentiram a temperatura cair de repente e verem vultos rápidos nos corredores. Não vou ser louco de falar pra ela: "Olha, veja só, descobri que é um fantasma que andou matando os funcionários, encontrei resíduos de ectoplasma".

Carrie mordeu os lábios, assentindo devagar.

— É, parece que será um dia bem complicado. Como será que Frank Montgrow sobrevive sem Carrie Wood? — perguntou ela, deixando a questão no ar, logo fechando a porta com um leve empurrão.

O bater da porta soou como um baque esmagador no coração do detetive que fechou os olhos apertadamente quando a madeira pareceu colidir com o seu rosto.

— Aposto uma grana alta que não dura uma semana.

***

Danverous High School

À procura da sala da diretora, Frank perambulava entre os alunos no corredor principal recebendo olhares de curiosidade e desconfiança da maioria dos passavam por ele.

Na diretoria, estava apenas a titular da escola, Donna Leigh, uma mulher negra de cabelo curto quase chanel que vestia uma blusa branca com listas desengonçadas rosas e púrpuras e uma saia marrom claro, sentada à sua mesa de trabalho com seus óculos indispensáveis para leitura.

Ao ouvir Frank educadamente bater no quadrado de vidro da porta e logo depois vê-lo mostrar seu distintivo, levantou-se meio empolgada em passos largos para atende-lo.

— Pode não parecer, mas estava à sua espera. — disse ela, abrindo com simpatia comedida no rosto. — Fui criticada por não solicitar a polícia do bairro. E daí? As causas dessas mortes precisavam de um olhar investigativo mais aprofundado.

— Não querendo me supervalorizar, mas foi uma sábia decisão sua ter me chamado. — disse Frank, entrando devagar — Esse caso é DPDC puro. "E fantasmagórico puro também".

— Com tantas coisas estranhas acontecendo, você até que cai bem no tipo desse caso, fiz bem em chamar o melhor agente. — disse Donna, andando até a sua mesa sem se sentar — E preciso confessar que cumpri uma fração do seu trabalho.

— Como assim? O que a senhora fez pra desvendar essa mistério todo? Ou pelo menos tentar... — perguntou Frank, suspeitoso.

— Interroguei um grupo seleto de alunos que afirmavam, juravam de pés juntos, terem visto sombras e vultos em alguns pontos dias antes do zelador morrer... que descanse em paz. — falou com certo pesar no rosto — Na maioria dos lugares: Nas salas, na quadra, nos corredores, nos banheiros, em qualquer lugar que possa imaginar aqui dentro.

— Apenas dentro? — indagou Frank, curioso.

— Ainda não apuramos mais relatos. Se não me engano, não ouvi mencionarem visões nos arredores. O intrigante é que estes sete alunos são da classe 1-A... péssimas recordações. — ela sorrira desconcertada.

— Ah sim, o massacre do dia 17 foi nessa mesma sala. — relembrou Frank, sentindo encontrar as pontas soltas — A senhora já era diretora nessa época, há 15 anos?

— Eu era coordenadora de uma unidade em Ylon. Herdei essa escola da minha irmã mais velha que morreu recentemente. — respondeu ela, ajeitando o óculos — Tudo virou uma bagunça desenfreada. Estamos em período de provas finais e há alunos faltando em protesto contra o colégio, até lançaram uma petição pela internet com uma meta de 5.000 assinaturas para o governo nos multar e nos punir por irresponsabilidade sendo que as evidências criminais quase não existem. Um absurdo... — disse ela, contendo sua revolta.

— Na noite em que a professora Reene Daine morreu, os seguranças notaram sinais de arrombamento ou de infiltração silenciosa? — questionou Frank, tomando nota.

— Nenhuma suspeita até agora. Estavam nas suas posições e se ouviram algo foi apenas o corpo de Reene caindo ensaguentado no chão. — disse Donna, meio pensativa quanto aquilo, as mãos apoiadas na mesa — Porém, a perícia coletou um material no piso do corredor. Ainda estava fresco, mas não era sangue, tinha uma cor meio preta meio esverdeada... Enfim, muita coisa não bate, isso tudo é uma loucura.

"Se ela soubesse a real as definições de loucura seriam atualizadas", pensou Frank, concentradamente anotando.

— Muito bem. Três pessoas mortas aparentemente por ações criminais. Relatos de vultos e... — estreitou os olhos para ela — ... e também quedas de temperaturas?

— Sim, está nas minhas anotações. — confirmou Donna, assentindo — O ar condicionado está sempre bem ajustado, nunca do nada aparentou defeito ou alterar sua temperatura sozinho. Dizem ter sentido um frio de bater os queixos em plena aula e uma outra coisa que resolvi não levar tão a sério... — disse ela, desviando o rosto como se quisesse ignorar o detalhe irrisório.

— Que outra coisa? Pode falar, cada detalhe agrega à investigação mesmo que seja meio bobo e no fim das contas não faça tanta diferença.

— A teoria de que há um fantasma rondando a escola não agrega em nada, detetive. — revelou Donna, completamente cética a respeito — Imaginação de adolescente. Esses filmes de terror de hoje em dia estão os deixando neuróticos.

— Bom, eu tenho uma assistente que especula ser uma conspiração envolvendo ex-alunos que querem vingança por... sei lá, terem sido reprovados em educação física. — disse Frank, dando de ombros.

— Uma motivação tão patética não cabe numa situação dessas. — opinou Donna, firme em sua perspectiva — Minha suspeita, francamente, está mirada em um aluno presente. Nossa campanha anti-bullying foi desvalorizada pelos próprios idealizadores e os ecos daquela era de terror entre alunos mais frágeis estão voltando.

— Só por curiosidade: Alguém foi mais além nessa teoria. O fantasma ser... um ex-aluno?

— É o que todos eles partilham, por isso as faltas. Acreditam que seja lá quem for pode estar perto de alvejar alunos. Não vou entrar no mérito de discutir uma explicação surreal, quero acreditar se tratar de alguém da 1-A envolvido nisso indiretamente.

— Uma conspiração interna? Pode ser. — disse Frank, escrevendo as últimas linhas. — Tive uma ideia: Será que posso dar uma olhadinha nos arquivos escolares?

— Há um dossiê completo sobre o massacre na biblioteca. Fique à vontade, se acha que pode ter uma correlação. — permitiu Donna. O toque do sinal soou em todo o espaço, fazendo-a virar o rosto para a porta — É uma boa hora.

— Será que todos do grupo da teoria maluca resolveram faltar hoje? — perguntou Frank antes de sair.

— Caso o professor repasse a chamada pra mim e um deles estiver nela, vou leva-lo imediatamente ao senhor. — garantiu a diretora, fazendo que sim com a cabeça, voltando a sentar. — Boa sorte.

— Muito obrigado pela atenção, diretora Leigh. — disse Frank, dando um joinha com um polegar esquerdo à ela ao sair da sala.

— Eu quem agradeço. — disse Donna, com um leve sorriso fechado.

***

Aproximando-se do banheiro feminino e conversando ao celular, estava Alex, uma garota que só de vislumbrar tinha-se certeza de que era popular entre outras turmas e a sua própria — a má famigerada sala 1-A.

— Tá, eu sei, o Jeremy não vai ser louco de entrar como penetra. — disse ela, abrindo a porta — Ai dele se tiver que enfrentar meus seguranças, e sobre eles você não acreditar: minha mãe rejeitou a proposta deles virem sem camisa com gravatinha borboleta. Isso é comum em garçons, mas até que não seria nada mal ter uns peitorais molhadinhos, são meus 18 anos caramba. — se pôs a frente do espelho passando um batom cor-de-rosa. — Pode deixar. Tá legal, beleza. Só vou matar o próximo tempo e dar um pulo em casa pra tocar de roupa. — guardara o acessório na sua bolsinha branca com alças longas. — Tá, não vou demorar. Tchau. — desligou, logo em seguida guardando o aparelho.

Quando se virou, um baque fez estremecer seu coração que palpitou descompassadamente, logo em seguida fazendo-a recuar um pouco.

— De-de... De onde você veio? — perguntou ela para o garoto que a encarava friamente e vestia um uniforme azul em frangalhos e sujo com manchas de sangue e buracos que pareciam terem sido feito com disparos de uma arma. — Ah não, essa não... — seu semblante foi alterando-se para pavor genuíno. — Vo-você... Fica longe... longe de mim... — quando deu por si, já havia encostado seus quadris na pia.

— Por que? — indagou ele, a voz soturna — Por que menosprezou aquele garoto? Ele só não queria ficar sozinho no baile.

— Tá... Tá falando do Ed? — perguntou Alex, a boca trêmulo mesmo ciente do absurdo que estava acontecendo e difícil de processar — Tinha uma reputação a zelar... ainda tenho. Por favor, não me mata. E-eu pedi desculpas por esse furo no dia seguinte...

— Mentira. — disse ele, demonstrando o seu ódio naquele única palavra. O garoto deu alguns passos.

— É verdade... Por favor, me deixa viver, hoje é meu aniversário...

— Eu não ligo. — disse ele, secamente, balançando de leve a cabeça em um não. — Você é igual à eles. — exibiu uma faca bem afiada que estava escondendo atrás na sua mão esquerda.

Alex fixou o olhar apavorado na lâmina brilhante e ameaçadora, sua tremedeira elevando-se.

— Isso foi há um ano. Não dá pra deixar o passado pra trás?

Ele a fitou por mais alguns segundos, mantendo a faca com a ponta para cima.

— Pra mim ele nunca vai embora. — disse ele, logo depois executando com habilidade um corte veloz e horizontal, da sua direita para sua esquerda, contra garganta de Alex.

Uma de sua colegas, preocupada com a demora, foi à caminho do banheiro.

— Alex, que droga de aplicativo é esse que você... — disse ela, cortando a frase em um grito estridente ao se deparar com o corpo de Alex banhado em um poça sangrenta que destoava da brancura límpida dos pisos em cerâmica e da parede em azulejos. O grito deu lugar a um choro copioso mesclado ao horror em assistir à cena brutal.

A garota ajoelhou-se, com lágrimas tomando o rosto, diante da parede atrás do cadáver, na qual estavam escritas palavras em sangue:

"Eu irei busca-los".

***

No caminho para voltar ao departamento no meio de uma estrada não muito movimentada, Frank pegara o celular, entrando na lista de contatos alfabeticamente organizada. O segundo nome depois de Amelia, a mãe do detetive, começava com C.

O polegar hesitante chegava a quase tremer.

Afastando o medo, apertou com esperança na base do "venha o que vier".

Levando o aparelho ao ouvido direito, o detetive aguardou pacientemente.

— Por favor, me diz que ligou por engano. — disse Carrie, parecendo irritada.

— Carrie, percebi claramente que é impossível eu resolver um caso desses com a Leslie. Não dá, eu... preciso da sua ajuda, fui no piloto automático, me desculpe. Ou melhor: força do hábito.

— Eu não sou mais sua assistente, não devia estar ligando. — destacou ela, mantendo o tom — Há um rastreador de ligações conectado ao laptop da minha antiga sala, ela vai saber que está me solicitando. Tá mesmo afim de quebrar a confiança dela por você logo no primeiro dia de trabalho?

— Não importa. Esse caso necessita do trabalho da dupla dinâmica Frank e Carrie de qualquer forma. Sei que está tentando me punir com esse seu joguinho...

— Joguinho?! Então minha decepção com seu jeito de lidar com minha serventia não passa de um jogo? Acha que eu tô fingindo? Não vou chutar cachorro morto, Frank. Nós encerramos esse assunto, está acabado entre nós. Quer reconquistar minha confiança, nossa parceria... a troco de quê? Sei que facilito as coisas, mas eu já expliquei os porquês. Esse é meu jeito de punir você. Não vou abrir uma exceção agora... é tarde demais.

— Não, você ainda pode me ajudar, me deixa eu te explicar a história...

— Eu não quero saber mais de nada. — disse ela, categórica — Me deixa em paz. Apaga meu número se não quiser que as coisas compliquem pro seu lado. — desligara prontamente.

Enraivecido, Frank jogara o celular para o banco ao lado. A culpa que sua ex-parceira colocava sobre seus ombros começava a parecer injusta, proporcionando uma vontade de deixar como está ou, mais além, dar um fim na amizade.

O celular tocara para o seu desprazer naquele instante de puro estresse.

— Alô? — disse ele, atendendo depressa.

— Oi, senhor Montgrow, é a Leslie. Só estou ligando para me certificar do andamento da investigação.

— Não me chame de senhor, nem fiz 50 anos ainda. — disse Frank, tentando quebrar todo o clima insuportável criado pela conversa anterior . Leslie rira. — Me chama só de Frank. OK? E as coisas estão caminhando bem, tive acesso exclusivo a um arquivo completo sobre o massacre do dia 17.

— Eu estava agora há pouco pesquisando sobre a tragédia. Moro em Danverous City há quase cinco anos, fiquei bem surpresa ao saber desses fatos terríveis. Mas que bom que mergulhou numa piscina mais funda. Alguma suspeita sobre quem pode ser o responsável?

— Ahn... — o detetive pausou por uns cinco segundos — Até agora nada. Embora haja seja apontada uma correlação ao massacre.

— Que estranho. Tenho a sensação de que... — ela fez uma pausa, meio receosa — ... não sei, não quero ser indelicada, mas tá me parecendo vago demais. O que você extraiu? Tem alguma pista? Quero saber dos detalhes e está relutando em me contar.

— Desculpa, é que... É um caso difícil, essas mortes misteriosas e nem sombra de um culpado... De um modo geral, tudo continua raso. O dossiê apontou a única morte fatal, um garoto chamado Albert da 5ª série, classe B. E eu não sei porque estou dizendo isso a você pois não acredito em fantasmas...

— Senhor Mont... quero dizer, Frank, relaxa. — disse Leslie, suavizando a voz — O que a diretora falou?

— Teoriza que o culpado pode estar dentro e não fora. Talvez um aluno participando de um complô contra a escola. Se não houver uma outra morte nas próximas 24 horas, volto amanhá lá pra ver se um dos que ela interrogou veio e assim quem sabe aprofundar o caso.

— Não pegou endereços desses alunos? Esperar até amanhã é meio desnecessário.

— É uma boa ideia, mas não quero ir tão rápido. Dependendo do andar da carruagem...

— Espera aí, só um minuto... — interrompeu Leslie, o tom elevando-se em urgência. — Acabaram de postar na página oficial do colégio... ai, meu deus, que horror.

— O que foi, Leslie? — perguntou Frank, a voz séria e tensa, tentando equilibrar sua concentração tanto na direção quanto na conversa.

— Vou te enviar a foto, só um segundo. — disse ela, fazendo um mistério que aflorava os nervos de Frank ao limite.

O envio não duraria mais do que 30 segundos, um tempo que pareceria acima da tolerância de ansiedade do detetive naquele momento.

Verificando a caixa de entrada, Frank confirmou a nova mensagem, logo apertando. A imagem o horrorizou até provocar eriçamento nos pelos. "Puta merda...", pensou ele ao fitar a cena sanguinolenta de uma garota morta no chão do banheiro com a garganta profundamente rasgada abaixo de um escrito na parede dizendo "Eu irei busca-los".

Antes que girasse o volante para retornar à escola, Frank teve de fazer uma pergunta à parte.

— Err... Leslie, só uma coisa que eu gostaria de saber. Você por acaso deu uma olhada no rastreamento de chamadas aí no seu computador?

— Eu nem sabia que tinha um. — disparou a assistente, tomando aquilo como novidade — Por que a pergunta?

— Não é nada, só curiosidade mesmo. Nada que seja importante no momento. — disse Frank, desconversando e pisando fundo no acelerador devido à emergência — Liga pra escola e diz que tô à caminho.

— É pra já. — disse ela, logo desligando.

O detetive fizera o carro dar meia volta de forma brusca e apressada a ponto de formar linhas curvas de derrapagem no asfalto. O velocímetro marcava velocidade acima do limite permitido na estrada."Sal grosso: confere. Medidor: confere.", pensou ele, passando a mão direita pelo sobretudo para sentir os objetos essenciais para o caso e certificar de que havia os trazido.

Frank nunca havia esquecido de um dos princípios fundamentais para capturar um fantasma: Ele pode ainda estar propenso a ser visto pouco tempo após cometer um ato maligno.

***

Uma multidão bloqueava severamente o acesso ao banheiro feminino com o corpo ainda jazido. A poça de sangue estava beirando à secagem com a demora do perícia para o recolhimento.

Um lampejo de sensatez tocou o seu coração ao determinar que erguer o distintivo com voz autoritária poderia de alguma forma deixa-los amedrontados, ainda que suas vestes tenham entregado o jogo para uma boa parte dos alunos muito bem intuitivos. Forçar uma passagem era um erro e um tanto sem necessidade já que a causa da morte estava óbvia.

O detetive recuou alguns passos, afastando-se do mutirão de curiosos e professores desesperados. Donna estava por ali, mas não percebeu a presença de Frank com muita facilidade.

Esbarrou suas costas com um homem bem vestido e engravatado carregando uma maleta preta.

— Desculpa aí, amigo, foi mal. — disse Frank, estudando-o rapidamente. — Quem é você mesmo?

Ele sacara uma insígnia que aos olhos do detetive se mostrou inconfundível.

— Richard Nexton, agente do governo. Recebi ordens explícitas para evacuar esta escola ainda hoje. — disse ele, sem meias palavras. — É a quarta morte em apenas três dias, logo só resta uma saída. É credenciado pelo DPDC, certo?

— Sim, sou. — disse Frank, assentindo meio desconfiado — Olha, não me leve a mal não, é que estou cobrindo esse caso e tentando reunir o máximo de provas possível...

— Tenho uma ordem judicial aqui dentro. — declarou ele, rígido, batendo na maleta — Uma aluna está morta. Qualquer um pode ser o próximo. Interditar esse lugar é o mínimo que podemos fazer para frear esses ataques. Até que o culpado seja encontrado ou se revele, o colégio vai permanecer fechado indeterminadamente. — fez uma pausa, olhando fixamente para Frank — Pode contestar, eu não ligo pra sua opinião, não estou obstruindo o trabalho de ninguém, apenas fazendo o meu que é prevenir e não remediar. Esta escola tem um passado negro que não pode voltar à tona. Será que compreende?

Frank suspirou, rendido.

— Tudo bem, não tenho nenhuma objeção. Pode lacrar a escola. — disse ele, dando uns passos para se retirar — Mas saiba que isso não vai ser o bastante.

— Errado, detetive. Estou o poupando e nos poupando de você nos atrapalhar. Deixe isso com quem realmente está engajado em proteger pessoas de malucos homicidas. Não queremos que a história se repita.

Frank estacou e refletiu profundamente sobre retruca-lo, se segurando para não explodir.

— Disse que não tinha objeções? Então por que parou? Vou complementar o aviso, detetive: O caso, a partir daqui, está em nossas experientes mãos. Se tentar desafiar essa ordem, solicitaremos que o DPDC casse o seu distintivo. Um passo adiante no caso e esse sobretudo vai virar pano de chão. Fique esperto.

Antes que se virasse por completo para falar com a diretora, o agente foi questionado por Frank.

— Essa iniciativa tem aprovação do Conselho de Segurança?

— Total aprovação. Nada que detetives comuns precisem saber. — disse, por fim caminhando.

A frustração de ter o processo de seu trabalho anulado num piscar de olhos só não era pior do que o vazio no peito incitado pelo amargor exagerado de Carrie.

No entanto, algo o tirou daquela imersão negativa em apenas uma olhada.

Uma criança reconhecida parada na soleira da porta e virada de frente para o detetive, com apenas metade direita de sua aparência à mostra. Frank sentiu naquele olhar penetrante uma ira tenebrosa.

— A... Albert? — indagou, em sussurro, o cenho meio franzido.

O garoto uniformizado andou para a esquerda, desaparecendo de vista e mantendo a expressão.

Por instinto, Frank andou em passos rápidos até a sala para verificar.

Ao ver o interior, ninguém estava presente.

"É ele mesmo...", pensou Frank, a sensação de certeza

CONTINUA...