Hotel Principal — Área Nobre, 19h14

Pela porta giratória dourada surgia um homem que de imediato chamara a atenção de boa parte das pessoas que estavam ali presentes, esbanjando um ar de pura confiança e segurança. Suas botas pisavam no tapete verde-escuro que se estendia até o balcão de atendimento.

— Em que posso ajuda-lo? — perguntou gentilmente uma mulher loira vestindo uma camisa branca com um lenço preto e uma saia de mesma cor por cima de uma calça também preta, sorrindo para o homem de sobretudo bege que entrara, cabelo meio grisalho curto e rosto quadrado.

Ele sorriu na mesma hora, meio tímido.

— Vai reservar um quarto? — perguntou ela, estudando-o. — Ou veio checar a segurança?

— É, eu bem que estava afim de procurar uma diversão barata. — disse Frank, as mãos na cintura, sorrindo de modo extrovertido. — Mas já que perguntou... — olhou ao redor -... vou sim.

A mulher dirigiu o olhar para o emblema do DPDC bordado no sobretudo. O fitou meio séria.

— Um agente do Departamento Policial procurando um quarto de hotel? O prédio não fica muito longe daqui. Que estranho. — ela esboçou um sorrido rápido e o desfez lentamente. — Você me parece ser natural da cidade. — ela se retraiu, enrubescida. — Desculpe... Não quis parecer...

— Não, de maneira nenhuma. — disse Frank, interrompendo-a, tocando-a no ombro. Ele virou, falando baixo. — Já fui cantado por muitas vadias bem mais ousadas.

— Como é? — perguntou ela, fazendo uma cara de como alguém que não ouviu direito, mas escutou o básico para se sentir desconfiada.

— Hã? Não, nada, eu vou reservar sim. — disse Frank, desconversando ao se voltar para ela rapidamente.

— Ah, ótimo... — disse ela, o sorriso meio nervoso.

— Só deixa eu descarregar minha bagagem. — disse ele, afastando-se um pouco e abrindo o sobretudo. A mulher recuou vários passos, lívida e desejando gritar em pânico. Nos bolsos internos do sobretudo haviam diversas armas de fogo de grosso calibre.

Em um ato veloz e bem calculado, Frank retirara uma submetralhadora preta e apertara o gatilho, disparando uma arrasadora chuva de balas contra qualquer pessoa que estivesse presente no seu campo de visão. A mulher teve seu corpo sacudido pelos disparos, caindo com vários buracos no corpo. O alarido se intensificou até chamar atenção do lado de fora. Dois policiais entraram, armados com revólveres apontados diretamente a Frank.

— Ponha a arma no chão, agora! — bradou um dos policiais, severo.

Contra-atacando, Frank largou-a, mas, ousadamente, retirou outra praticamente igual do bolso da metade esquerda do sobretudo e descarregou boa parte da munição contra os fardados que mal tiveram tempo para reagirem. Ambos caíram de frente, ensaguentados.

A porta do elevador abria-se com seu conhecido sinal sonoro. Frank virou a cabeça de um jeito um tanto robótico em direção ao elevador e se encaminhou até lá. Olhou para uma câmera de segurança no teto enquanto andava e atirou nela com um revólver uma só vez. Notou um dos policiais rastejar no chão, baleado no corpo todo, e comunicando-se com um rádio-transmissor pedindo reforços urgentemente.

Frank, inescrupulosamente, mirou o revólver contra a cabeça do homem e disparara. O policial batera a cabeça no chão com um buraco no meio da testa, não tendo concluído a mensagem.

Um dos presentes no elevador tentou tranquilizar as pessoas mais do que desesperadas ao testemunharem tamanha crueldade.

— Calma, calma, ninguém sai! — disse ele, barrando a passagem e dando constantes olhadelas nervosas para Frank. — Vai ficar tudo bem!

— Ah, claro que vai... — disse Frank, sorrindo debochado ao se aproximar.

— Aperta a merda desse botão! — gritou uma exasperada mulher atrás do protetor, confiando que o único modo de se salvarem seria subindo de volta.

— Nos deixe viver, por favor. — implorou o homem, o rosto aflito.

— Desculpe. — disse Frank, apontando a submetralhadora, desesperando ainda mais as pessoas que suplicavam com expressões de horror. No entanto, nenhuma alternativa parecia funcionar para fazer despertar alguma compaixão naquele implacável assassino travestido de detetive. — Já estou fazendo um favor a alguém bem mais digno. — disparou, com um sorriso fechado de satisfação, vendo cada um dos corpos se debaterem com a rajada de balas dispersada.

Uma câmera não percebida filmara toda a ação.

***

Após uma ducha refrescante, o detetive mais requisitado do Departamento Policial de Danverous City passara por entre a cozinha e a sala de estar, logo pegando seu sobretudo que estava pendurado num gancho cravado na parede. Sua casa não aparentava ser tudo aquilo que os boateiros mais impulsivos expressavam aos quatro ventos. Apenas uma residência simples de um só andar, com paredes pintadas de branco, cercado e gramado na frente e uma pequena rampa que direcionava à garagem localizada no lado direito.

Ao por a vestimenta sobre um dos ombros, preparando-se para mais uma jornada de trabalho e deixar o sol da manhã banhar seu rosto, o telefone tocara, assustando-o de imediato, fazendo-o, sem querer, derrubar a chave do carro no chão. Apressado em apanhar a chave, o detetive usou a mão direita para pegar o fone. As pôs no bolso rapidamente, atendendo a ligação no mesmo instante. "Isso não é uma hora para me ligarem.", pensou ele, intrigado.

— Alô? — sua voz possuía um tom impaciente.

— Frank! Liga a TV, depressa, é urgente! — disse Carrie, aos sussurros.

— Ué? — indagou o detetive, sem entender. — Onde você está, afinal?

— Isso importa? Anda, vai logo, liga. — pediu ela, claramente alarmada com o acontecido bombástico sendo veiculado nos noticiários daquele horário.

— Não estou gostando nada disso. Me diz primeiro onde você está escondida. — insistiu Frank, preocupando-se. — Para estar falando assim...

— Estou no trabalho. — revelou ela. — Enfurnada num cubículo do banheiro há meia hora... tentando processar o que todos os jornais andam falando e querendo acreditar na minha intuição. Liga a TV, Frank. Rápido.

Vendo-se sem a mínima saída, o detetive tivera de ceder ao emergente pedido da assistente ao pegar o controle remoto e ligar a TV de LCD de 40 polegadas posta em uma estante baixa de madeira marrom escuro.

Um sentimento ligeiramente indescritível avassalou seu âmago ao se deparar com aquelas imagens aterradoras. Emudecido e boquiaberto, Frank esboçava um semblante estupefato, praticamente beirando a lividez total. Um nó na garganta o impediu de opinar sobre aquilo por vários segundos.

— Eu não estou... Eu não estou nada bem. Acho que vou hiperventilar. — disse ele, sentindo uma dificuldade respiratória repentina. — Que... Que... Que porcaria é essa? — se perguntou, franzindo o cenho. — Só pode ser brincadeira...

— Quisera eu que fosse. — disse Carrie, exasperada ao telefone. — Mas não. É bem real. Estampado para todo mundo ver.

— Eu... — disse, apontando para a tela com o indicador esquerdo, agora demonstrando uma certa raiva — Eu não fiz isso! Esse não sou eu! Carrie, me diz, por favor, que você não acredita nessa droga...

As imagens do telejornal destacavam filmagens de circuito interno de câmeras em uma agência bancária bastante frequentada e localizada na área nobre da cidade. Nelas, via-se Frank, armado com uma metralhadora M60, abrindo fogo a esmo contra várias pessoas que ali se encontravam, em um alarido barulhento e dramático.

A repórter relatava os fatos enquanto as imagens seguiam-se repetitivas:

— Qualquer tentativa de para-lo ou prende-lo se mostrou em vão durante um contra-ataque da Força Tática Policial. Para os sobreviventes desse horrendo massacre o criminoso é desconhecido. Mas, em contrapartida, estuda-se a possibilidade de uma maior avaliação e, além disso, uma obtenção da identidade desse atirador através de possíveis conhecidos que tenham, em alguma ocasião, cruzado seu caminho.

Frank pusera sua mão na cabeça, desesperando-se.

— Agora essa... — disse ele, frustrado ao ver a si mesmo disparar uma saraivada de balas em inocentes. — É a Força Tática. Encrencado é pouco pra minha situação.

— Pois é, não vão demorar para chegarem até você, armados até os dentes e proferindo voz de prisão. — disse Carrie, a fala rápida e sussurrante. — Mas é a área nobre, não me recordo de muitos casos paranormais investigados por lá.

— Lembro de uns 3 ou 4. — disse Frank, tentando se recordar. — Olha, faz o seguinte: Quando sair do banheiro aja naturalmente, como se... como se você fosse a última a saber.

— O quê? Sem chance. — recusou ela. — Odeio ser a última a saber. Odeio ainda mais fingir.

— Esse é o menor dos problemas, comparado à desculpa que você vai ter que dar por ter ficado mais de meia hora no banheiro. — retrucou Frank, mantendo-se aflito. — O que não é nada comparado a esse problemão dos infernos aí.

— Não esquenta, eu me viro. — garantiu ela. — Por agora, vamos nos concentrar em manter você seguro.

— Como? Já vejo a hora dos caras de colete apontando armas para minha casa e chutando a porta da frente. — disse Frank, andando de um lado para o outro, sem ter como manter a calma.

— Fala como se fossem chegar em uns 10 minutos. — disse Carrie, procurando acalma-lo. — Você viu a notícia? Ainda estão nas preliminares. É uma questão de "se" não de "quando". Eu vou te ajudar. Só preciso de um plano.

— Você sempre tem. — disse o detetive, adquirindo confiança. — E nada melhor do que começar com uma bela pesquisa. — fez uma pausa, fechando os olhos por um tempo. — Sabe... Você não ter perguntando sobre onde eu estava na noite de ontem, se eu saí pra algum outro lugar... É aliviante. Mostra que confia em mim.

— Honestamente... — disse Carrie, exalando uma seriedade um tanto atípica de sua parte. — Foi a primeira coisa que pensei em perguntar assim que vi a notícia. Não me interprete mal, por favor. Conheço você o suficiente... para perceber como realmente age, pensa e fala. Você é um assassino de monstros... não de pessoas. Esse cara não é você. Tem a sua aparência, as roupas, o jeito... Até que foi uma imitação convincente.

— Como é que é?! — questionou Frank, fazendo uma expressão confusa. — Bom saber que aprecia essa arte.

— Estou brincando, idiota. — disse Carrie, dando uma leve risada no outro lado da linha. — O que estou fazendo? Eu sou louca, não é? Rindo enquanto meu melhor amigo está em maus lençóis.

— Não precisa se arriscar por mim, Carrie. — pediu Frank, enfaticamente. — Não dessa forma. Só faz a pesquisa e me manda uma única mensagem pelo celular. Quero pegar esse impostor desgraçado, nem que seja a última coisa que eu faça. — declarou, denotando raiva em seu tom.

— Está bem. — aquiesceu Carrie, suspirando. — O que quer saber? Qual sua teoria?

— Presumo que já ouviu falar de doppelgângers, certo?

— Sempre quis ter uma irmã gêmea. — disse Carrie, parecendo sair do assunto.

— Foco. — exigiu Frank, sério. — Acho melhor eu verificar nos arquivos do meu pai. Deve haver algo relacionado. Alguma criatura que assuma a forma de uma pessoa por qualquer tipo de contato.

— Boa ideia. — concordou a assistente, falando mais baixo. — Parece lógico.

— E vou repetir: Aja naturalmente. — recomendou o caçador, falando do modo mais enfático possível. — Vou trancar as portas e janelas. Todas. — disse, fechando as persianas de uma das janelas. — Na verdade, nem deveríamos estar conversando por telefone.

— Por que não? — indagou Carrie.

— Os caras da Força Tática — especulou Frank — possuem meios de acesso e rastreamento que fazem todos os outros sistemas conhecidos parecerem brinquedinhos de criança. O DPDC está localizado à cerca de 20 quilômetros da área nobre. Não me deixaria surpreso se suspeitassem de alguém do departamento, por causa das roupas do impostor.

— Por sorte, o diretor está do nosso lado. Vou fingir ter chegado há poucos minutos e falar com ele em particular. A menos que um certo alguém interrompa. — disse Carrie, referindo-se à nova secretária, Megan.

— De quem está falando? — perguntou Frank, desligando a TV com o controle.

— Ninguém em especial. desconversou ela. — Vou seguir seu conselho. Nos falamos depois. Tome cuidado e não saia de casa.

— Ei, espera aí: O que quer dizer com nos falarmos depois? — perguntou o detetive, suspeitando que a assistente pudesse estar tramando algo para apoia-lo da maneira mais perigosa e imaginável.

— Não ficaremos incomunicáveis. — retrucou ela. — Eu disse que ia ajuda-lo e o farei. Mesmo que precise custar minha carreira. — e desligara abruptamente.

— Mas o que... — disse Frank, cortando a frase ao ouvir o barulho que significava Carrie ter encerrado a ligação. Pôs o fone de volta ao gancho, tentando não imaginar qual seriam os passos que a assistente resolveria seguir para participar desse caso em função de ajudar o detetive a livrar-se da acusação.

Enquanto descia as escadas do porão, segurando uma lanterna, Frank lembrara-se da última frase dita por Carrie, a qual gelara sua espinha. "Carrie está determinada a fazer o que for preciso para me salvar. Mesmo que isso a atinja profissionalmente. Ela não estava brincando. E pode sofrer sérias consequências por minha causa.", pensou ele, direcionando-se ao grande armário de gavetas onde encontrava-se o compilado de anotações escritas pelo finado caçador da linhagem Montgrow. "Quem quer que seja... Com certeza está afim de me prejudicar.".

— Vamos lá... Gaveta A-005... — dizia ele, passando o facho de luz da lanterna pelos números nas gavetas colocados em adesivos brancos. Ao encontra-la, na segunda fileira, enfiara a mão direita em um dos bolsos da calças, retirando em seguida uma pequena chave para destrancar a gaveta. Inseriu a chave na minúscula fechadura no canto direito da gaveta e girou-a.

Ao abrir a gaveta, Frank deixara a lanterna posicionada em uma mesa velha atrás de si e extremamente empoeirada, e passava os dedos para procurar qual pasta abordava a lenda dos doppelgângers.

— Lobisomens... Sereias... Wendigos... Tulpas... Duplicatas... onde estão?

Um item de uma pasta chamou sua atenção pelo nome.

— Stein? — indagou ele, levantando uma sobrancelha. — O que é isso? — perguntou-se, puxando a pasta amarela.

Entretanto, ao abrir-la para visualizar seu conteúdo, a mesma encontrava-se vazia, para a infelicidade do detetive.

— Mas que... Merda. — reclamou, franzindo o cenho. — Não tem nada. — passara a achar curioso e suspeito tal abordagem estar ausente naquele vasto catálogo de seres sobrenaturais.

Ficou a imaginar as razões que levariam ao sumiço do arquivo, se vendo sem outras opções.

***

Em algum lugar não muito distante dali, uma moça de aspecto jovial vestindo uma blusa branca com mangas que iam até os pulsos depositara seu livro sobre uma empoeirada mesa de madeira, levantando uma efêmera nuvem de poeira em meio à luz meio branca-amarelada da única lâmpada do escuro cômodo.

A mulher possuía cabelos loiros cacheados que caíam aos ombros. Esboçou um sorriso pretensioso ao encarar o livro com seus olhos azuis, as mãos apoiadas na mesa.

— Hora de mais uma missão.

***

Departamento Policial da Danverous City

O diretor irrompeu furioso pela porta da sala de Carrie bufando de decepção após ser inteirado dos últimos acontecimentos envolvendo seu melhor agente.

— Onde está aquele safado, Wood? — perguntou ele, surpreendendo-se ao não vê-la presente. — Ué, cadê...

A assistente chegara, mas parou na soleira tomando um contido susto ao se deparar com a postura do diretor que reconhecia em um só vislumbre. "Ai, caramba... Não tenho dúvidas, está uma arara!".

— Ah, aí está você! — disse Ernest, virando-se à ela com a expressão raivosa. — Será que dá pra me explicar que tipo de surto seu amiguinho super-confiável teve a ponto de sair daqui e ir até um lugar aleatório encher pessoas inocentes de balas?

Carrie fechou a porta com pressa, receosa quanto ao tom de voz do chefe acabar chamando atenção em quem passasse por ali. Suspirou, tentando fazê-lo se acalmar.

— Olha... Garanto ao senhor, eu fui a última pessoa com quem ele falou ontem à noite, e o ouvi dizer, com todas as letras, que iria para casa, teve um dia trabalhoso, sabe, enfrentou aqueles...

— Não quero saber! — bradou o diretor, andando pela sala a passos largos. Olhou para Carrie com "sangue nos olhos" — A propósito, onde a senhorita estava esse tempo todo? — perguntou, altamente ríspido.

— Pra ser sincera... — disse Carrie, sem baixar a cabeça — ... no banheiro. Acho que sei o que está pensando.

— Ah é? O que seria? — indagou Ernest, levantando uma sobrancelha. — Vamos lá, adivinhe.

— Que estive falando com ele às escondidas agora há pouco. E pela sua expressão, creio que acertei. — declarou Carrie, com um sorriso de canto sem medo algum da explosão do chefe.

— Não me diga que está tentando acoberta-lo com alguma criatura sobrenatural que ele sugeriu que estivesse por trás disso! Uma criatura que assume a aparência de qualquer um! Estou enganado?

— Foi nossa primeira suspeita. — disse Carrie, logo dando passos até o diretor querendo convence-lo esforçadamente — Tenta seguir meu raciocínio, por favor. O conhece há anos, deu à ele esse emprego porque acreditava que ele tinha um potencial único e íntegro e agora, de repente, você quer a cabeça dele na sua mesa por ter visto uma simples filmagem onde o viu fazendo algo que ele jamais faria nem se estivesse louco. O Frank não tem que enfrentar essa sozinho.

O diretor ainda mostrava-se irredutível, mas no fundo encontrava-se confuso.

— Não devia estar contactando ele por celular, a força de elite mais disciplinada da cidade pode rastrear sua ligação, se é que já não pode ter feito.

— É, eu sei, ele me disse a mesma coisa. Escuta, o senhor precisa me ajudar. — pediu Carrie, os olhos quase suplicantes — O Frank que o senhor viu na TV metralhando aquelas pessoas... não, ele é não esse homem. Ele, o verdadeiro, pode estar tentando encontrar algo que satisfaça as especulações sobre se é ou não uma criatura, algum tipo de doppelgânger ou metamorfo... Alguém está usando a aparência do Frank para ferrar com a vida dele. Vamos nos basear nessa premissa.

— Eu não sei... — disse Ernest, incerto e preocupado, passando a mão no rosto — Faz ideia das implicações terríveis dessa confusão para o departamento? Em como isso vai afetar a todos, inclusive você? Se esse suposto impostor...

— É um impostor! — disse Carrie, o tom enfático e a expressão séria e desafiadora.

— Está bem. — disse Ernest, mais calmo — Se esse impostor continuar assassinando deliberadamente pessoas como se a vida humana não tivesse nenhum valor, a imprensa, o governo e o Conselho da Segurança vão mirar suas garras no departamento e todos correm o risco de perderem seus empregos, isso aqui pode fechar as portas para todo o sempre. Se continuar nesse ritmo nas próximas 48 horas e nada que prove a inocência de Frank vier à tona... — fitou a assistente com um certo temor que queria partilhar — ... receio que a partir daí será o fim do DPDC.

Carrie engoliu a saliva, sendo tomada por uma preocupação latente que fez gelar suas mãos.

— Eu quero ver de novo. — pediu ela, com firmeza.

— O quê? — indagou Ernest, sentindo-se perdido naquela torrente de estresse.

— Quero analisar a filmagem, detalhe por detalhe, frame por frame. Essa história não pode acabar com Frank atrás das grades, o DPDC fechado e depois o Frank ser transferido para uma penitenciária de segurança máxima onde vai sofrer bullying dos piores criminosos do país. — fez uma pausa, olhando fixamente para Duvemport — Onde é que está?

O suspiro longo do diretor denotava hesitação. Retirou do bolso do terno um pendrive cinza no qual continha uma cópia do vídeo televisionado em rede nacional.

— Obrigada. — disse Carrie, recebendo-o e em seguida até seu notebook. Conectou o dispositivo e aguardou alguns segundos no carregamento do arquivo. A presença prolongada de Ernest pareceu incomoda-la. — Vai ficar aí para assistir? Eu vou demorar pelo menos uma hora e meia.

— Vou deixa-la em paz. Sinto que o Conselho vai puxar minhas orelhas daqui a pouco — disse o diretor, sacando o celular ao ouvir o vibrar que sinalizava nova mensagem — É bom se apressar.

— O quê? O que foi? — perguntou Carrie, olhando de relance para ele.

— A Força Tática está se mobilizando para a fronteira. — informou ele, a voz meio tensa. — Uma divisão dela, aliás. Um plano de contingência para impedir Frank de sair da cidade. A outra parte está se movendo para um banco... invadido agora há pouco pelo falso Frank. De acordo com minha fonte, mais de quinze pessoas foram gravemente alvejadas. É uma chance para pega-lo.

— Por via das dúvidas, prefiro tirar minhas próprias conclusões. — disse Carrie, pronta para realizar uma análise minuciosa.

— Acha que a FT não vai ser capaz de segura-lo? — perguntou Ernest, intrigado.

— Essa coisa deve ser muito esperta. Ou se acha, mas consegue ser, como no hotel ontem. Nada garante que os caras da elite vão sair ganhando, ele é aparentemente invulnerável à balas segundo o que eu vi. Os vigilantes não o enfrentaram por muito tempo, mas desse pouco se pode extrair uma grande pista. — apertou o play do vídeo — Muito bem, vamos caçar uma nova.

***

Voltando do porão a passos desesperados, Frank escutava um pequeno alarido do lado de fora. Passou pela cozinha e foi em direção à sala de estar com o cenho franzido, curioso a respeito do bate-boca.

No gramado da residência do detetive, cerca de 5 pessoas, duas mulheres e três homens, estavam reunidas em polvorosa tendo em vista no quanto era impactante ter como vizinho o temível atirador que ganhava os holofotes nos noticiários em todos os canais. Uma aparente divergência estava dando seus indícios.

— Chamar a polícia é a ideia mais segura. — atestou uma das vizinhas, uma mulher caucasiana de cabelos castanhos aparentando ter em torno de 30 e poucos anos. Estava retrucando um insistente homem que ameaçava queimar a casa mesmo que Frank estivesse dentro — De que adiante fazer uma loucura dessas? Vai trazer aquelas pessoas de volta? Não! Então é melhor nos acalmarmos e alguém se habilitar a fazer o que é correto.

— Nós nem sabemos se ele está aí. — disse outro homem, um rapaz negro com vestes comuns (bermuda e camisa) que passeava seu com seu cachorro, um beagle, e foi atraído pela confusão. Morava na vizinhança da frente — Querem saber de uma coisa? Não vou ser cúmplice. Eu voto contra. — ergueu a mão esquerda.

— Ah, vai defender o desgraçado é? — perguntou o exasperado homem contrariado. De rosto fino, olhos meio fundos, era meio calvo, mas tinha uma barba moderadamente cheia. — Olha, entendam. Vai ser melhor pra todos. Vamos sair ganhando.

— Ganhando? — indagou outra mulher, esta sendo de cabelos pretos amarrados, cética — Que vantagem tem em incendiar a casa de um assassino? Dá pra ver que quer que a gente saia disso com um falso espírito de justiça. Vai ter que se esforçar mais, eu não sou idiota.

— Só esclarecendo: Voto contra a invasão ou queimar tudo. Quero esse cara na cadeia tanto quanto vocês, porque é... é desumano, aquelas pessoas tiveram suas vidas tratadas como lixo. Mas acho que fazer justiça com as próprias as mãos não vai resolver.

— Eu também voto contra. — disse a mulher de cabelos pretos, a que mais parecia estar enojada com a postura de líder radical do homem revoltado.

— Eu também. — disse a mulher de longas madeixas castanhas, com um olhar desafiador. — Incendiar e depois fazer parecer acidental... Não, eu valorizo meus princípios e eles me dizem para chamar a polícia e deixar que a lei resolva e não o seu plano que é bem precipitado, diga-se de passagem.

— Ótimo, todos contra mim. — disse o homem, dando de ombros, satisfazendo-se com as reações contrárias á sua ideia. Virou o rosto em direção a fachada, revelando ser um demônio através de seus olhos inteiramente pretos. Depois virou-se para os vizinhos, voltando "ao normal" — De qualquer forma, não preciso de vocês pra isso. Cansei de forçar cooperação. — falou, em tom rude, intencionando ir ele mesmo invadir.

A mulher que julgara o plano como precipitado sacou seu celular, discando o número.

— Bem, mais uma razão pra ligar. — disse ela, corajosa.

— Me dá isso aqui... — disse o homem, avançando suas mãos contra o celular para tira-lo da mulher que o segurava firmemente. Com os ânimos exaltados, os outros dois tentavam apartar a briga. O cão latira, contagiado pelo forte atrito.

Observando por uma ínfima brecha que formava com os dedos na persiana, Frank sentiu um frio na barriga como nunca antes tivera.

— Puta que... — disse, interrompendo-se e fechando os dentes em raiva — Não bastasse ter que ver um falso eu matando gente, agora descubro que um dos meus vizinhos é um demônio. O que será que falta pra deixar isso tudo mais problemático pro meu lado?

***

Carrie tinha perdido as contas quantas vezes tinha visto a mesma filmagem em busca de uma prova que corroborasse a suspeita de algo sobrenatural.

Deixou rodar em câmera lenta para facilitar convenientemente no ponto onde o FakeFrank mostra-se mais explícito no meio da imagem. Isto depois de metralhar os ocupantes do elevador.

A assistente tirou as costas da cadeira, aproximando seu rosto petrificado de curiosidade à tela. Quando FakeFrank vira-se após a chacina, guardando a sub-metralhadora, percebia-se uma fraca luminosidade verde provinda de seu peito.

— Mas... o que é isso? — indagou Carrie, estreitando os olhos, constatando que não notaria aquilo na velocidade normal. — Deve ter durado uns 3 milissegundos. — rebobinou na câmera lenta. Estava claro. Uma luz verde piscara do peito do assassino impiedoso. — Ele não está usando cordões, nem nada que possa refletir a luz... — pegou o celular para ligar para Frank imediatamente.

***

O celular de Frank tocou, assustando a ponto de fazê-lo estremecer com o corpo todo. Quase não atendia devido à tremedeira rápida gerada pelo abrupto toque. A confusão do lado de fora tinha cessado com a mulher fugido das mãos do líder radical do grupo. A discussão ocorria entre três agora, com tons de voz bem elevados.

— Merda, logo agora... — disse ele, baixinho, afastando-se da janela. Atendera, quase sem respirar — Carrie, não vai acreditar...

— Espera, eu primeiro. — disse ela, cortando ansiosa — O diretor me deu acesso exclusivo a uma filmagem na íntegra do circuito interno do hotel.

— Me diga que fez ele desistir de empalhar minha cabeça na sala dele.

— Calma, ele acreditou em mim. Descobri algo que deixa uma ponta de dúvida, mas não o bastante para uma pesquisa. O cara tem uma kryptonita brilhante no peito. Se é que podemos chama-lo de cara...

— Co-como é o negócio, Carrie? — perguntou Frank, franzindo o cenho, ao mesmo tempo em que lutava contra a vontade de destrancar a porta, sair e acabar com aquela briga de vizinhos — Kryptonita? É alguma referência ou alguém te ofereceu uma droga com esse nome?

— Você nunca leu os quadrinhos?! — soltou ela, espantada pelo companheiro não fazer ideia — O Superman enfrentava um vilão que usava um coração de kryptonita, eu esqueci o nome dele, mas não importa, temos uma pista finalmente. E não tô chapada, acabei de assistir com plena lucidez.

— Foi mal não ter entendido, após a morte do meu pai eu passei a ler histórias bem diferentes... você sabe. — disse Frank, cada vez mais nervoso.

— É, eu sei sim. — aquiesceu Carrie, compreendendo — E não foi só isso. Notei, digamos, traços... meio mecânicos... Nem um pouco humano.

Frank conteve uma risada que só não era maior do que a vontade de chorar.

— Espera... Tá insinuando que esse falsário... é um robô?! Um robô, Carrie?

— Vou dar um jeito de copiar o arquivo e transferi-lo pro cartão de memória do meu celular pra enviar pro seu. Só leva uns cinco minutos. Aliás, acho que posso ir tentando uma pesquisa.

— Então é melhor ir rápido nesses cinco minutos. — disse Frank, preocupando-se com o nível que a briga atingia lá fora — Que não dure mais de 10 episódios.

— O quê? — indagou a assistente, fazendo cara de não ter entendido nada.

— É de um desenho japonês. — disse Frank, sem dar muita importância. — Você tem um sobrinho de 8 anos que adora, achei que ele assistia com você.

— Não ligo pra TV. — disparou ela, sucinta. — E não me sinto culpada por não ter entendido a referência. — fez uma pausa, estranhando — Está falando meio tenso... O que tá rolando por aí?

— Minha vez de contar, finalmente. — disse Frank, indo até a cozinha — Vizinhos irados querendo minha cabeça. Um deles cogitou incendiar minha casa... Adivinha só: O que tem olhos pretos, é mestre na manipulação e propõe ideias exageradas no meio de pessoas sãs e que não querem suas fichas sujas?

— Ai caramba... — disse Carrie, imaginando — Um vizinho demônio?! Seu mar não está mesmo pra peixe hoje. Por que tão próximo de você e justo agora nesse momento tão delicado que você passa?

— Também gostaria de saber. — disse ele, abrindo a dispensa e pegando um recipiente cilíndrico de plástico onde se guardava sal grosso. — Em todo caso, vou lacrar as janelas e a porta com a proteção adequada pra esse tipo de praga. — fora andando de volta até a sala. — Ele não conseguiu convencer ninguém, está o maior barraco lá fora.

— Demônios são mestres da manipulação, como você disse, mas parece que está lidando com um amador que não teve sorte de principiante.

— Não quero saber se é profissional ou amador — disse Frank, jogando o sal nas janelas abaixo das persianas -, vou mante-lo a distância. Boa sorte com a pesquisa.

— E você com o capetinha. — disse ela, desligando. Frank também encerou a ligação, agachando-se para derramar sal embaixo da porta, formando uma linha reta. Aquela altura, o barulho cessou.

Os outros dois vizinhos resolveram tomar distância do "líder" violento, o qual andara em direção a residência com altivez exalante.

— Pronto. — disse Frank, recuando — Vou preparar um disfarce... e ir me esconder na casa de ferramentas da casa da Carrie, um dos poucos lugares realmente seguros. Por que não pensei nisso antes? Lá é o único ponto da cidade onde o rastreamento telefônico é difícil. — decidiu, correndo em direção ao seu quarto a fim de se preparar para a sorrateira fuga.

O demônio estacou poucos metros próximo à porta, novamente elucidando seus negros olhos que expressavam desconforto.

— Maldito seja. Sinto esse cheiro repugnante... vindo de todas as aberturas. — disse, fungando o nariz como se estivesse farejando — Que pena. Uma morte falsa seria a única saída dele pra se livrar da garota psicótica.

***

Assumindo o risco de sair pela calada da noite na averiguação de um dos locais afetados pelas ações criminosas do impostor, Frank andava de modo tranquilo falando ao celular com Carrie em meio a um deserta rua. Do outro lado da linha, a assistente exigia explicações sobre o lance do disfarce e do esconderijo improvisado.

— Está tudo no seu devido lugar, Carrie. — disse o detetive, cuidadosamente esquadrinhando os arredores com os olhos — Não xeretei nada, não assustei seu gato e nem espiei pela janela. Olha, são quase uma da manhã... Talvez você deva me dizer o descobriu amanhã cedo. O que acha?

— Perdeu mesmo a noção do perigo. — disse Carrie, desapontada — Nem se atreva a desligar. Você me tranquilizou sobre o disfarce e o refúgio, mas podia ter tido a decência de me avisar sobre esse plano de última hora. Além do mais, pisar os pés no DPDC é selar seu destino cruel. Até você ser inocentado, vamos ficar em contato só por telefone.

— Você disse que era questão de "se" não de "quando" sobre a FT me rastrear. Isso também se aplica a como vou terminar nessa história. — declarou Frank, transparecendo desesperança na fala o que de imediato incomodou sua colega.

— Vai sair dessa sim... Eu prometo. — disse ela, a voz séria e determinada. — E antes que pergunte: Sim, sua inocência provada também depende do meu talento investigativo. O diretor vai ficar sendo sondado com minhas informações e será um jogador duplo.

— Sabe que desse jeito tá envolvendo o nosso chefe numa encrenca das brabas, certo?

— Sim, eu admito que se as coisas desandarem, e espero que não, a situação vai ficar preta e vamos ser apontados como cúmplices de um terrorista. Sabe, eu preciso de uma sessão de descarrego, toda essa atmosfera sombria de pessimismo tá me deixando deprimida... Mas vou te contar uns detalhes, só como aperitivo, já que está tão apressado pra voltar pra casa.

— Não estou indo pra casa. — respondeu Frank, aproximando-se do banco assaltado na manhã daquele dia. Olhou de esguelha à sua direita e percebeu dois fachos de luz vindo dos faróis de um carro cujo formato soou familiar. — Duplicatas podem estar ligadas a verdadeira pessoa. Ele pode ler minhas emoções e decifrar minhas decisões. Ou podemos seguir a outra lógica: O criminoso sempre volta ao local do crime. Talvez as duas estejam certas.

Carrie assumiu um tom apreensivo.

— Espera aí, se não está indo pra casa...

— É, Carrie, quase adivinhou. Vou pegar esse miserável por minha conta e risco e nem quero saber de sermão, vou com tudo pra cima dele e acho que não estou muito longe...

— Não, Frank, vai com calma! — disse ela, quase gritando. — Você ficou maluco?! Pirou de vez?! Espero que ainda esteja com disfarce, pelo menos.

— Que disfarce? — Frank estranhou a velocidade do carro ter diminuído.

— Ah, não! Não pode enfrentar essa coisa desarmado! Nem sabemos direito o que é! A menos que eu convença você a correr daí depois de escutar o que tenho pra falar.

— Então diz logo, ele tá quase parando. — pediu Frank, endurecendo o tom. Seu olhar fixou-se de forma sisuda no carro.

— Já está aí?! — espantou-se ela — OK... Eu dei uma olhada na internet, o lance do brilho verde no peito dele... Ele pode ser um tipo de ser de metal conhecido como Stein.

— Stein!? — disse Frank, arregalando os olhos ao ouvir o nome da criatura que possuía arquivo vazio nas pastas do armário — O exterminador é um Stein!? É isso que eles são?

— Por que a surpresa?

— Não tinha nada sobre isso nos arquivos do meu pai. — revelou o detetive, recuando alguns passos ao ver a porta se abrir. — E sobre a coisa no peito dele?

— Aqui diz que eram protótipos do que se esperava ser... a espécie substituta. Mas que só podiam ser concebidos com vida através de uma pedra mágica chamada Orb Esmeralda. Uma civilização milenar conhecida como Anakons foi responsável por cria-los para gerar mais safra nos trabalhos agrários e essa prática atravessou gerações, do barro ao metal. Os Anakons, de início, viviam como nômades ou indígenas, até irem se adequando a sociedade moderna. Tem tempo pra dizer o resto?

— Bem, ele já saiu do carro... — disse Frank, estreitando os olhos e enfim percebendo, perplexo — O meu carro!? — voltou sua atenção à Carrie — Ahn.. Vai, diz aí, ele ficou parado.

— Então só se concentra na minha voz. — disse ela, depois pigarreando — Ainda que o Orb dê vida própria ao Stein, para que ele execute atividades humanas é necessário um painel de controle que na verdade é um livro. Ele é escrito na língua primitiva da tribo, a linhagem mais antiga tinha conhecimento sobre o poder do Orb e estabeleceram ligação com a pedra banhando-a com sangue. Estava formada a conexão. Só membros da tribo Anakon conseguiriam criar Steins e somente alguém da linhagem leria os hieróglifos do livro que nada mais são do que comandos, escritos com o sangue dos ancestrais.

— Agora tudo faz sentido. — disse Frank, a tensão tomando conta da voz. Pressionava com força o celular ao ouvido.

— Nem tudo. Falta saber porque um demônio se passou por um vizinho revoltado e justiceiro. — relembrou Carrie. — Tenho quase certeza de que isso não tem nada a ver com o caso.

— Eu também. — concordou Frank, ficando nervoso — Ele está andando...

— Você compreendeu tudo o que eu disse? — perguntou Carrie, querendo certificar-se. — A pessoa que está por trás disso é um descendente.

— Sim, Carrie, eu já entendi. — disse Frank, elevando o tom.

— Se quer desligar e tirar satisfações com ele, vai em frente, mas só tente sair inteiro. E cuidado com as câmeras, o sistema de vigilância daqui acatou uma ordem direta para rastrear cada ponto da cidade na intenção de pegar você. Estão te subestimando.

— Verdade. Me deseje sorte. Quero ver a cara desse desgraçado. — disse Frank, enchendo-se com bravura e ódio, encerrando a ligação.

O momento da verdade estava prestes a ser decretado.

Como dois cowboys em um "faroeste noturno", os dois se encararam — embora Frank não pudesse ver claramente o rosto por conta da pouca iluminação. O detetive fez um leve aquecimento ao mover os dedos para pegar dois revólveres no coldre do seu cinto.

— Até que enfim você veio, hein. — disse, sacando as armas e mirando-as — Nessa cidade só há lugar pra um Frank Montgrow. — falou, logo em seguida apertando os dois gatilhos disparando incessantemente enquanto dava passos adiante.

As balas claramente não surtiam efeito contra o resistente corpo do Stein que caminhava tranquilamente na direção do detetive. Apenas alguns furos na roupa e nada mais.

Frank estava a um passo de desistir de tentar.

— OK. — disse ele, parando de atirar. — Você é um Frakenstein de metal... Tô gastando munição à toa. — guardou as armas — Podemos resolver isso do jeito fácil. Está sendo controlado por uma pessoa má...Te mandando fazer coisas que eu nunca faria. Você e eu somos o mesmo. Podemos ser até irmãos... — disse, erguendo de leve sinalizando pacifismo — Mas não vou negar seu direito de escolha. Me matar aqui e agora... ou se libertar. — o Stein ter cessado a caminhada mostrou-se um sinal positivo. Deu um sorriso fraco — E aí? Segunda opção?

A cópia maligna berrara raivosamente em um grito que soou quase hipersônico aos ouvidos de Frank.

— Acho que isso quer dizer não. — disse ele, cutucando um ouvido com um dedo e afastando-se temerariamente. O Stein avançara selvagemente contra o detetive correndo, logo pegando-o pelo sobretudo e o jogando com violência contra um poste de placa de trânsito que fora derrubado para trás graças ao impacto com as costas de Frank e caíra completamente se rompendo do chão.

A dor logo acometeu Frank de forma aguda, enquanto ele entrevia a forma do seu oponente peso-pesado se aproximando com ameaça. Se esforçou para levantar, mas quando imaginou que ficaria de pé e pudesse ter a chance de fugir já era tarde demais. O Stein o agarrara pelo pescoço, apertando com bastante força, deixando os pés do detetive alguns centímetros longe do chão. O ar escapulia aos poucos dos pulmões de Frank sentindo o peso daqueles dedos metálicos revestidos de pele falsa bloquearem o fluxo sanguíneo das artérias carótidas.

— Só existe um Frank. Eu. — dissera o impostor, o tom ranheta e severo. O detetive surpreendeu-se com a voz idêntica à sua — Você perdeu, idiota. — antes que fizesse algo para liquidar Frank de uma vez por todas, como quebrar o pescoço, certas luzes vermelhas e azuis interromperam e chamaram sua atenção. Sons de sirenes policiais se avizinhavam com alarde, provavelmente alguém ali passando no instante da conversa entre Frank e Carrie que denunciou anonimamente. — Tem muita sorte. — murmurou o Stein, largando-o como jogasse um saco de lixo — Só que não vai durar muito. — falou como ultimato e saíra correndo até o seu carro do mesmo modelo que o do original.

"A sua também vai acabar.", pensou Frank, tirando do bolso do sobretudo um pequeno rastreador para carros que possuía um imã que seria atraído pela lateria do carro. Apontou o aparelho — de mesmo tamanho e formato que um comprimido — para a porta do carona. O objeto "voou" em velocidade impossível de perceber e grudou no ponto alvejado.

Respirando com dificuldade, o detetive levantou-se, vendo seu adversário sair em disparada.

O barulho das sirenes aumentava cada vez mais atrás dele e uma sensação de impotência o torturava.

Desesperado, virou-se para onde as viaturas estavam vindo, querendo chamar a atenção para o sedã prata, àquela altura ainda visível, que corria a todo vapor até o fim da rua. O detetive balançava os braços e apontava para a direção específica.

— Ali! Ele foi pra ali!

Quatro policiais do DPDC desceram, um deles com algemas vindo à Frank.

— Não! Era um impostor, eu sou o verdadeiro Frank Montgrow! — disse ele, em sua defesa, sentindo-se ameaçado pelas algemas que chegavam perto de prender seus pulsos. — Olha, posso jurar pela minha vida, aquele carro que acabou de sair daqui é exatamente igual ao meu! Esse cara copiou até meu carro!

— Você tem provas disso? — perguntou o policial que o prendeu.

O detetive emudeceu, frustrando-se.

— Infelizmente, não. — falou, o semblante triste — É uma armação, precisam acreditar em mim...

— Tem a obrigação de ficar em silêncio. — disse o policial, rigoroso, conduzindo-o à viatura — Tudo o que disser a partir daqui será usado contra você no tribunal. Tem direito a um advogado.

Enquanto era levado, Frank, a face em estado de choque, só podia sentir o gelado metal das algemas provocar um eriçamento súbito dos pelos da sua nuca.
CONTINUA...