Frank - O Caçador 1ª Temporada

7 A Morte Pode Esperar (Parte 1)


Escola Hans Norbet

A sala de aula da classe 3-B estava ocupada por somente duas pessoas após o fim da última aula. As carteiras, organizadas com nomes dos alunos em papéis colados conforme se dava o mapeamento, eram todas voltadas para destros. Em uma delas, praticamente no ponto central do recinto, estava sentada uma das alunas autuada por uma travessura contra um garoto de duas classes abaixo. A cena do "crime" resumia-se em um lamentoso adolescente queixando-se de uma coceira perturbadora devido a uma grande quantidade de pó especial colocado por dentro sua calça por um dos rapazes aliados da garota detida. Ela fingia não se incomodar com a presença quase intimidadora da diretora Halley, uma mulher de cinquenta bem cuidados anos, com cabelo castanho prendido em uma espécie de coque, lábio finos, pele caucasiana, face suave, mas detentora um olhar perfurante como uma estaca — seus óculos pequenos realçavam a grandeza desta habilidade sem igual, capaz de fazê-la obter grandes confissões por parte de intransigentes como a garota que observava pacientemente.

Mas a ocasião distanciava-se longamente de um interrogatório.

Amber Clarkson sentia-se injustiçada, e só provava isso a cada vez que roía uma unha. Halley, por outro lado, dava ínfimas batidinhas com sua unha do dedo anelar da mão esquerda na robusta mesa de madeira bege. A garota de pele morena, cabelos pretos longos e meio ondulados e rosto meio redondo com lábio carnudos e olhos pretos destacantes, fitava a diretora, já não aguentando nenhum segundo a mais permanecendo em silêncio.

— Olha, me dá uma chance. Se abrir uma exceção, juro, pelo respeito que tenho pela senhora, que vou ajuda-la a encurralar aqueles idiotas. — prometeu Amber, olhando-a com carência.

— Bajule-me mais um pouco. — disse Halley, exibindo um sorriso cínico. — Vai estar piorando sua situação, ao contrário do que pensa.

Sem forças nem paciência para argumentar, Amber recostou-se na carteira,. cruzando os braços.

— Sabia que várias cidades já aboliram a detenção para o Ensino Médio? — perguntou ela, desafiante. Halley permaneceu indiferente. A garota desviou um pouco o rosto, sorrindo nervosamente e balançando a cabeça em negação. — Olha, sei que é inútil provar agora, mas devo dizer que pegou a pessoa errada. Eu não passo de um bode expiatório. Não fui eu quem pôs o pó no garoto. — voltou-se para a diretora, exasperada. — Tem que acreditar em mim, por favor. Foram eles, eles quem armaram tudo, fui uma cúmplice forçada o tempo todo, nada mais nada menos que isso.

— Se é verdade, então porque parece tão desesperada? — questionou Halley, arqueando uma sobrancelha.

— Tá bom, fui eu quem forneci a droga do pó, mas não estive lá na hora porque eu não quis. — explicou-se Amber, o tom sutilmente exaltado. Passou uma mão no rosto, sinalizando cansaço.

— Não é o bastante. — afirmou a diretora, dando de ombros. — Talvez eu deva solicitar a presença dos seus pais, quem sabe assim maiores esclarecimentos venham a tona.

— Quer que eu esclareça? Aqui vai: O imbecil do James me prometeu uma grana alta se eu concordasse em ferrar com um certo garoto da 8-A por uma vingança infantil e estúpida, ele é assim. — revelou Amber, olhando fixamente para Halley como um apelo por compreensão. — E como a otária que sou, acabei cedendo, porque sou orgulhosa demais para aceitar um dinheiro fácil e que talvez eu nem precise. Os comparsas dele me denunciaram, não foi? Eu sabia. — seus grandes olhos marejaram. — Foi a intenção dele, quis me deixar sozinha para levar toda a culpa. Não chega a ser estranho para a senhora que eles tenham faltado justo hoje?

— Sinceramente, não há mais o que discutir por hoje. — decretou Halley, levantando-se. — Por que não fica em silêncio como todo mundo que já passou por isso?

— Para o seu azar, não sou todo mundo. — retrucou Amber, atrevida.

— Esse é o respeito que tem por mim? — perguntou Halley, encarando com ar decepcionado. — Enfim, não importa. — sua expressão ganhou mais severidade. — Por mais que tente justificar, não anula seu envolvimento nesta tramoia que você e gente da sua laia chamam de brincadeira. — se virou para se encaminhar em direção à porta. — Se lhe serve de consolo, amanhã mesmo pegaremos os responsáveis e vamos tomar as devidas providências. Todos serão igualmente punidos. — determinou, saindo da sala, sem dizer por qual razão. — Nem tente fugir.

— Isso não é justo... — reclamou Amber, colocando-se em uma má postura na cadeira, sentindo-se exausta e faminta. — As vezes, eu só... queria sumir, ser apagada desse mundo. — debulhou-se em lágrimas ao se inclinar para frente, pondo as mãos no rosto aos prantos, seus negros cabelos caindo sobre a carteira.

Alguns ruídos estranhos naquela ambiente a fizeram cessar o choro de repente. Intrigada, Amber erguera a cabeça, vasculhando com os olhos pelo lugar para detectar a origem dos sons atípicos. Parecia um misto de faísca com um ranger inconstante de metal enferrujado.

Percebeu o ventilador de teto, alguns metros a frente, ligar-se subitamente, as pás metálicas ganhando velocidade mais rápido do que costumavam. Amber fitou-o desconfiada, notando algo diferente. Retraiu-se na cadeira, sem tirar os olhos apreensivos do ventilador.

— Di... diretora... — chamou ela, em tom completamente baixo, sabendo que apenas sussurrou para si mesma. Um odor de fumaça infestou o ambiente em segundos. A garota cogitou sair correndo, tendo em vista a má gestão que negligenciava a melhoria ou a substituição de certos itens para melhor conforto no local para os alunos, o que aumentava exponencialmente os riscos de acidentes.

O fio condutor que fixava-se ao circuito no interior do teto e antes invisível para todos, descera repentinamente, deixando faíscas caírem, assim como o ventilador ainda mantendo-se girando e estando a poucos metros do chão — basicamente quase na altura da mesa do professor.

Amber dava pequenos balbucios ao observar com certo temor, mas as palavras pareciam travadas.

O fio fazia o ventilador balançar de um lado para o outro, não para a esquerda ou para direita, mas sim para frente e para trás na visão de Amber.

— O que está acontecendo...? — sussurrou Amber, congelada de medo.

No segundo balanço, o ventilador foi para perto do quadro negro, quase triscando, logo em seguida, mais veloz... indo diretamente para Amber.

Pressentindo o perigo, a jovem gritara estridentemente em puro horror ao ver as pás girando em alta velocidade aproximando-se.

O grito cortou-se no exato instante em que o ventilador decepara a cabeça de Amber de forma brutal.

Cerca de poucos segundos depois, a diretora Halley retornava para a sala. O choque fora instantâneo assim que cruzou a soleira da porta. A mulher sentira o sangue gelar e um arrepio profundo ao se deparar com o corpo decapitado e ensaguentado da jovem ainda sentado na cadeira e a cabeça jazida sobre o chão com os olhos ainda abertos e sangue jorrando de baixo. Ignorou o vai e volta constante do ventilador.

Halley gritara apavorada ao se encostar na parede, quase pondo a mão direita na boca expressando total horror.

***


6 dias depois

Departamento Policial de Danverous City

Frank, por fim, havia chegado ao local de trabalho no horário exato. Ao entrar em sua sala, estacou logo ao terminar de fechar a porta, fitando uma pilha de papéis em cima de sua mesa. "Mas o quê...?", pensou ele, o cenho franzido, especulando sobre quem teria deixado a tal papelada ali. Não pensou em Carrie por se lembrar da regra fixada: Nunca entrar na sala do detetive especial sem a autorização expressa do diretor, a menos que o detetive solicite a presença da assistente, tendo a liberdade para deixa-la sozinha caso necessário ou cuidando do recinto em sua ausência justificada, mas ainda mantendo suas devidas tarefas.

O detetive olhou os papéis anexados. Cada anexo tinha, no máximo, seis papéis. Folheou cada um deles, a expressão intrigada. Fotos de cadáveres, relatórios da perícia, análises de materiais e trechos de manchetes jornalísticas relacionadas aos casos reportados podiam ser vistos aos montes no pacote.

Quando sentiu alguém entrar na sua sala, já se via olhando o último anexo que logo se juntaria aos outros desorganizadamente espalhados pela mesa. Olhou por cima do ombro, sem surpresa ao ver Carrie.

— Que bom que chegou. O diretor me pediu para mostrar mais uma dessas. — disse ela, com um novo anexo em mãos. Frank se virou para ela, pegando as folhas e lendo-as depressa. — Parece chocado. Viu só como as coisas estão ficando cada vez mais estranhas nesta cidade?

— Nem me fale. — disse ele, lendo um trecho importando mais devagar. Fechou o anexo e olhou para a assistente, desentendido. — Isso aqui... — olhou de soslaio para os papéis na mesa. — Tudo isso aí... aconteceu nos últimos seis dias?! Tem certeza?

— Não poderíamos estar mais certos. — respondeu Carrie, cofiando o queixo, meio nervosa.

Frank andou pela sala passando as mãos no rosto sinalizando preocupação.

— Uma garota morre sendo decapitada pelo ventilador de teto. — disse ele, contando nos dedos, apertando o mindinho esquerdo primeiro. — Uma parte de um viaduto cai por cima de um bandido. Toda a fiação de postes de uma rua desmorona por cima de 20 pessoas e elas morrem eletrocutadas. O microondas explode na cara de um vagabundo que maltratava a mãe, tendo 98% do rosto queimado segundo laudo da perícia. E... — virou-se para Carrie, levantando o indicado direito,o tom enfático. — ...o mais insuperavelmente absurdo: Um cara gira a chave do carro e ele explode.

— E era um estelionatário, de acordo com os registros do pente fino na casa. — disse Carrie, meio pensativa. — Ocorreu há dois dias.

— Estou sentindo um padrão aqui, Carrie. — disse Frank, quase sentando-se na mesa, a expressão séria, sem subestimar a gravidade da situação. — Mortes tão brutais e aparentemente acidentais em tão pouco tempo?! O que você acha que é?

— Pois é, eu também estou igualmente impressionada, até lembra aquele filme lá... — disse ela, sem esconder o nervosismo. — Inclusive, soube de boatos a respeito de pessoas que sonham acordadas e preveem essas tragédias, igualzinho como no filme... — isso levou-a a pensar por um breve instante.

— A única diferença é que não há nenhuma testemunha que previu essas fatalidades. — salientou Frank, revendo um dos anexos. Fechou-o, olhando para o chão, pensativo e suspirando. — Não tem o que investigar. É tão óbvio...

— O que é óbvio? — perguntou Carrie, notando a seriedade incomum na face do amigo. Aproximou-se um pouco dele.

— Isso é coisa do Anjo da Morte. Pronto, falei. — disse Frank, erguendo a cabeça para olha-la.

A assistente estarreceu-se ao ouvir o tenebroso nome.

— Vo... Você acredita mesmo que...

— Não, Carrie, realmente tenho absoluta certeza. — insistiu Frank, assentindo. — Agora sim estamos lidando com ele pra valer. Não há dúvidas.

— Mas... E agora? — indagou ela, sorrindo nervosamente. — É a primeira vez, curiosamente, que você acha o causador de toda a confusão sem investigar nada.

— Sabe o padrão? Estas pessoas... cometeram atos maldosos. — disse Frank, apontando para os anexos.

— Bem, é verdade. A garota decepada, por exemplo, chamava-se Amber, acusada de se envolver numa travessura contra um garoto três anos mais novo. Morta em plena detenção.

— Ele está seguindo um novo protocolo: "Aqui se faz, aqui se paga". — suspeitou Frank, tentando incrustar algum humor que pudesse amenizar o peso da atmosfera proporcionada pelos casos arrasadores. — Punindo pessoas que cometem ações malignas. Desde uma simples travessura até o pior dos crimes. Simples assim.

— Tem que haver algo por trás. — disse Carrie, estreitando os olhos. — Eu pesquisei, inúmeras vezes, sobre o deus da morte, a personificação mais comum dele... e as lendas diziam, todas elas, que apenas pactos com demônios e preguiça de viver são passíveis de punições severas.

— Parte das vítimas eram sedentárias? — perguntou Frank, especulativo.

— Você não leu tudo? — questionou Carrie, arqueando uma sobrancelha, suspeitosa.

— Ler isso tudo ia consumir bem mais tempo do que penso. — disse Frank, olhando para a papelada espalhada. Virou o rosto para Carrie, ainda com uma dúvida em mente. — Foi você quem trouxe?

— Sou diligente o bastante para não invadir o recinto particular do meu estimado parceiro. — disse ela, o tom brincalhão. — Mandei alguém vir deixar. — fez uma pausa, esfregando as mãos de leve. — O que vamos fazer?

— Vou encarar. — disparou Frank, olhando para um canto da sala, moldando um plano arriscado.

Carrie o visualizou com intensa estranheza fundida a apreensão.

— Como é que é?! — indagou ela, assustada. — Tá falando sério?

— Nunca antes falei tão sério. — disse o detetive, enchendo-se com uma determinação que transmitia um efeito oposto à assistente. Dirigiu-se à porta com tranquilidade, mas Carrie o puxara pelo sobretudo.

— Ficou louco? Não sabemos o que realmente é! — argumentou ela, exaltada.

— Eu disse que tenho certeza. — retrucou o detetive, fitando-a com desconforto. — É ele, Carrie. Não vou ficar parado enquanto outras pessoas morrem.

— Mas espera mesmo sair vivo depois de negociar com um inimigo invisível? Se é que pode ser possível falar com essa coisa! — disse ela, tentando convence-lo a não agir precipitadamente.

— Acho melhor você me soltar e se acalmar. — pediu ele — Eu vou direto ao local da última morte, ver se ao menos extraio uma pista.

— Morte esta que aconteceu há... — olhou para o relógio de pulso no braço esquerdo. — ... uma hora. Está nos papéis trazidos por último. — soltou-o, recuando alguns passos e apoiando suas mãos na mesa. — Mas tudo bem. Não preciso estar preocupada, porque meu melhor amigo tem um plano super-brilhantemente suicida. Mas não! Ele acha que vai sair inteiro dessa. Mas um motivo para eu manter minha calma, porque certamente o Anjo da Morte vai concordar com os termos e livrar a cidade.

Frank mordera os lábios, assentindo positivamente.

— Fico feliz que confia nas minhas ideias. — dissera Frank, irônico, girando a maçaneta, abrindo a porta e saindo da sala.

— Ai, que idiota... — disse Carrie, suspirando de olhos fechados, rendendo-se a um medo que se esforçava para conter.

***

Estacionando seu sedã prata à alguns metros de distância dos carros da polícia local e da perícia, Frank tomou minúcia ao visualizar os detalhes do que parecia ser a porta da garagem cuja parte inferior tinha uma grande mancha semi-circular de sangue. Mais abaixo, aproveitando que um policial se afastou dali, viu um cabeça decepada de um homem, com rosto voltado para cima, comprovando para seu temor repentino.

— Caramba... — disse ele, em um sussurro, espantado com a fatalidade. Abriu depressa a porta do carro, logo descendo e encaminhando-se ao ponto do ocorrido que era, claramente, assumido como um acidente, como o detetive suspeitava que o verdeiro responsável queria fazer transparecer.

Se aproximou de um dos policiais que observava, sacando o distintivo.

— Olá, bom dia. DPDC. — disse Frank, se pondo ao lado dele e mostrando a insígnia do departamento.

— Bom dia. — respondeu o policial, franzindo o cenho para o detetive — Ahn... Acho que nos encontramos no mesmo barco, amigo. Estamos matando tempo aqui. As pessoas dessa cidade às vezes são meio estúpidas quando devem pedir ajuda sobre um caso onde a polícia seja útil. Mas nesse aqui? — se perguntou, fazendo um "pff" com a boca em sinal de gozação.

— Quer dizer então que o cara foi decapitado pela porta da garagem acidentalmente. OK. Talvez eu esteja sendo um pouco teimoso. — disse Frank, soando desapontando consigo mesmo.

— Por que? — perguntou o policial, curioso, mantendo os braços cruzados.

— Nada demais. Eu... — mordeu os lábios — ... só acredito que deveria estar num lugar melhor, trabalhando num caso onde eu sirva pra alguma coisa. Afinal, são apenas meros acidente, não é? Não tem nada de estranho com mais de 15 mortes de mesmo padrão em um curto período de tempo.

— 15 mortes!? — surpreendeu-se o policial, arqueando as sobrancelhas — Para nós essa é a primeira. Mas eu soube de alguns casos nos últimos dias. Não há circunstâncias criminais nem aqui ou nos outros.

— Pois é. — concordou Frank, assentindo, olhando para a fachada da casa.

— E o cara, até onde sabemos, é divorciado. Um vizinho nos disse que agrediu a esposa recentemente.

— Interessante... — disse Frank, reforçando a especulação sobre o obscuro padrão.

— Interessante nada, isso é insano. Alguns objetos estão fora de lugar e aparentemente aconteceu um tipo de... efeito dominó, por assim dizer. A causa da morte pode ter sido um mero descuido que gerou essa reação. Coisas assim podem acontecer com qualquer um. Tipo no caso da garota morta pelo ventilador na escola. É relacionável ao fato de existirem reclamações de alunos e pais sobre a gestão e da estrutura quase precária da instalação elétrica.

— Eu acho muito difícil. — disparou Frank, sério, fazendo o policial fita-lo com estranheza.

Um outro policial vinha a passos largos na direção dos dois, com um saquinho plástico apropriado para a coleta de evidências. Peritos estarrecidos estavam recolhendo o corpo numa maca. A cabeça foi apanhada para um balde branco.

— O que é isso? — perguntou o policial ao lado de Frank.

— Achei perto das caixas de ferramentas. — disse o outro, mostrando o conteúdo: uma pena negra e comprida. — Pode não significar absolutamente nada, mas é meio estranho... o cara não criava pássaros, a porta da garagem só foi aberta segundos antes dela deslizar contra o pescoço dele, então nenhuma ave maluca entrou e, sei lá, bagunçou tudo a ponto de causar esse acidente.

"Acidente, acidente... Parem com isso! Isso foi tudo, menos um acidente!", pensou Frank, revoltado.

— Olha... — intrometeu-se o detetive — Será que dá para eu ficar essa amostra? É que... — um branco total na mente lhe pegou desprevenido e seu emudecimento temporário arrancou olhares suspeitos dos dois homens. — Meu filho adora colecionar penas de passarinhos. É — deu uma risadinha — É isso aí.

— Mas isso aqui não é uma pena de pássaro comum. — retrucou o segundo policial, olhando-o estranho — Posso chutar que é de... um corvo. — deduziu ele, estudando-a.

— Corvos não vem a Danverous City por causa desse clima infernal. — disse o primeiro, tão especulativo quanto o parceiro. Virou-se para Frank — De qualquer forma, não importa. Pode levar.

— Ah, muito obrigado. — agradeceu Frank, recebendo o saco.

— Disponha. Passar bem. — disse o segundo policial, permanecendo desconfiado.

Ao virar as costas, Frank alterou o semblante, tomando seriedade e elaborando uma teoria que estava a um passo de garantir sua plausibilidade. Entrara no carro, logo retirando o celular de um dos bolsos do sobretudo, discando rapidamente o número de Carrie. Infelizmente, caíra na caixa-postal. Mandou uma mensagem por voz:

— Liga pra mim. Sinto que obtive uma prova que me leva a uma teoria crucial, tudo a ver com o Anjo da Morte. E lembra de me responder uma pergunta que esqueci de fazer: Você, alguma vez na sua vida, cometeu alguma maldade, por menor que fosse? Tipo... puxar a cueca de um dos seus irmãos? Vou te aguardar. — enviara, em seguida suspirando pensativo.

Um medo tórrido nasceu a partir da ideia das pessoas mais próximas à sua vida serem vítimas potenciais.

***

O detetive irrompeu pela porta de sua casa que se abriu com abrupção, ficando escancarada, caminhando a passos largamente apressados em direção à mesa da cozinha onde havia deixado seu atualizado notebook cor preto fechado. A demora pelo feedback de Carrie à mensagem anterior não se comparava ao temor pela resposta que ela daria, dada a nebulosidade do caso que envolvia um criminoso sobrenatural com um modus operandi imprevisível no que diz respeito a possíveis vítimas fatais. Àquela altura, Frank tinha de admitir que chegou ao limite de sua carreira alternativa.

Abriu o laptop, logo em seguida seus dedos digitando em um frenesi veloz. Na tela surgiam várias janelas e ícones na barra de ferramentas. Depois de acessar um aplicativo de rastreamento — cortesia da própria Carrie -, lembrou-se do seu supermoderno medidor de paranormalidade que possuía sensibilidade à variações no campo magnético, precisamente alcançando o pico de 70,000 hertz. A fabricação se deu por sigilo absoluto entre Frank e seu contratado, um engenheiro e aspirante a investigador do sobrenatural que aceitou criar o mais avançado por um bom preço. Frank, no fundo, sentiu um amargor de si mesmo por não ter retribuído o favor ao pegar o aparelho que estava guardado em uma das muitas gavetas dos móveis de seu quarto.

O medidor — da mesma cor do laptop — possuía uma "tomada" acoplada na lateral direita, conectável ao plug no notebook para unificar as funções e otimizar o rastreamento para aquele fim.

— Vamos lá... — disse Frank, deslizando o dedo no painel quadrado do laptop à procura de uma área com atividade e leitura elevadas. Na tela, à medida que Frank avançava no mapa semi-plano de Danverous City, o círculo — um "anel" que a princípio era cinza mas que com o avanço ganhava colorações que correspondiam ao nível de "radiação sobrenatural" — começava a se aproximar do tom esperado. — Será aqui? — se perguntou ele, inclinando-se mais para frente da tela. Deu um zoom no círculo que tinha ficado distante. Estava numa tonalidade vermelho-sangue... um indicativo de extremo que atiçou a curiosidade do detetive ao máximo — Escola pública Hans Norbet. — disse, verificando a localização — A leitura maior... vem do lugar onde a garota foi decapitada pelo ventilador. — isso o deixou reflexivo por uns segundos.

Seus pensamentos foram cortados pelo toque alto do seu celular. Felizmente, era Carrie.

— E aí? Qual a resposta? — quis saber Frank, sem tirar os olhos da tela, a mão esquerda apoiada na mesa.

— Eu nunca toquei num fio de cabelo dos meus irmãos... porque na verdade eram eles que me deixavam louca! — respondeu ela, explicando a verdade como sendo o contrário do que Frank achava.

— Oh, dessa não sabia. — disse Frank, arqueando as sobrancelhas — Mas enfim... Olha, eu só ando preocupado com a sua segurança, não me leve a mal, mas é que...

— Sim, eu sei, Frank, o Anjo da Morte pode querer que eu vire presunto. Se eu dissesse que não haveria uma boa razão estaria mentindo.

O detetive franziu o cenho, intrigado.

— Como é? Tá dizendo que existe uma coisa má que você fez no passado? O que foi? Roubou o namoradinho de alguma colega? Brigou feio com alguma garota implicante e você deu a maior surra nela?

— Olha, quer parar de ficar deduzindo? Você não conseguiu chegar nem perto. — disse Carrie, aborrecida. — O assunto aqui é esse Anjo da Morte, não eu. Então, vamos direto ao ponto. Disse que tinha uma teoria, certo? Pode falar. — a assistente conseguiu desviar o rumo da conversa com êxito.

— Tudo bem, não vou mais perguntar sobre suas travessuras. — disse Frank, cedendo — Não está mais aqui quem falou, mas isso não diminui minha aflição, você sabe que só quero o seu bem.

— Anda logo com isso. Até agora não aconteceu nada de estranho aqui, comigo ou com outros funcionários, eu estou bem, agora diz logo o que você especulou antes que eu exploda de curiosidade.

— Fui até o local da última morte. Um cara decapitado pela porta da garagem. — informou Frank, mexendo no notebook.

— Pelo visto, nosso anjinho malvado adora ver cabeças rolarem. — disse Carrie, soando desinteressada pelo fato de querer saber dos detalhes de uma só vez.

— E tem mais: Acharam uma pena... Uma pena de corvo. Estou com ela aqui.

— Espera aí, você furtou uma prova? — indagou Carrie — E porque a droga de uma pena de ave é uma prova do caso?

— Os policiais me deram de bom grado. — disse o detetive, sucinto, passando o celular à mão esquerda e desconectando o medidor do laptop — Você deve saber... o que a figura do corvo significa no folclore popular. Impossível você não saber.

— Solidão... azar... maus presságios... principalmente, morte. — disse Carrie, o tom sério. — Nem preciso do deus Boogle pra isso, posso ser uma enciclopédia tão ambulante quanto você.

— Ótimo... — Frank cortara o que iria dizer para dar lugar a um questionamento supérfluo — Espera, você não está na sua sala?

— Ahn... — Carrie tornou seu tom nervoso — Digamos que numa investigação à parte. Nada com que você deva se preocupar ou se envolver. Podemos voltar ao lance do corvo?

— OK... — disse Frank, os olhos estreitados, não minimizando a desconfiança — Não podemos nos basear numa só lenda ou crença, portanto vamos precisar de um material bem aprofundado sobre o simbolismo do corvo.

— Por que? Não acredita que uma ave amaldiçoada possa estar causando essa baderna?

— Olha, só esquece a sua investigação secreta e procura saber o máximo que puder sobre maldições relacionadas à corvos. Não são aves comuns na cidade, mas... não sei, eu preciso tirar uma prova por minha conta e risco.

— Invocar o Anjo da Morte?! — disse Carrie, sua voz alarmada e aguda.

— Não, fica tranquila. Cruzei o rastreamento com o medidor paranormal e... a leitura mais significativa vem exatamente da escola onde a garota perdeu a cabeça pra um ventilador.

— Soube agora há pouco que ela está sendo interditada. — revelou Carrie, direta — O governo decretou suspensão das aulas por tempo indeterminado e luto de três dias pela garota, a Amber. A interdição tem muito a ver com a sequência de mortes acidentais que está chamando atenção da mídia. Não vai demorar muito para chegar a proporções em que as pessoas se vejam compelidas a buscar refúgio fora da cidade. Prevejo um caos nos próximos dias se as coisas continuarem nesse ritmo.

— Não duvido nada disso. — concordou Frank, desligando o laptop — Hoje à noite eu vou até a escola e ver o que descubro.

— Frank, pode ser uma armadilha. — avisou Carrie, parecendo temerosa — Algum tipo de feitiçaria tão macabra a ponto de manipular a realidade, sem escolher alvos. Pode ser um grupo de bruxos querendo favorecer um exílio massivo para assumir o controle da cidade. Eu ouvia histórias de que eles tinha um plano, uma agenda maligna sobre um governo anarquista e opressor. O lance da pena do corvo pode ser uma falsa pista implantada para te conduzir ao rumo que eles esperam que você siga. Tudo se consegue com bruxaria.

— É nessa parte que eu menos gosto de conversar com você. — disparou Frank, honesto — Puxa tudo para o lado das histórias da carochinha que você escutou. Quer saber de uma coisa? Vou seguir meu plano e você faz as pesquisas. Se eu não voltar, você talvez confirme sua "teoria" — fez sinal de aspas com os dedos da mão esquerda — e aí vaza da cidade. Se eu voltar e conseguir algo, tudo bem, vou estar pronto para o que der e vier.

— Sabe o que eu mais odeio em você? Essa sua teimosia! — reclamou Carrie, esbaforida — Ás vezes... sinto até a impressão de que você não confia totalmente em mim. Você lembra dos casos onde lendas se provaram reais e agora que eu chuto uma que pode ter uma ligação com esse massacre você simplesmente acha que pode ser ignorada, que devo me concentrar no que você acredita ser plausível. É isso que detesto em você, Frank Montgrow. Tem que depositar confiança em quem quer seu bem, mesmo que deva contrariar suas opiniões. Sabe porque eu digo isso? Porque... eu não saberia por onde recomeçar minha vida em outro lugar sabendo que você morreu sem dizer um último adeus. Mas se você não sabe ter consideração com o que eu acho, então é melhor fazer a pesquisa sozinho.

— Carrie, não precisa ser assim, tá exagerando...

— A decisão é sua a partir de agora, Frank. Sempre foi do seu jeito. — declarou Carrie, categórica na voz — Tentei ajudar, tentei ser uma boa menina, mas agora chega. Quer arriscar? Vá em frente. Afinal, você trabalha melhor sozinho, só nunca foi honesto o bastante pra dizer isso na minha cara.

A assistente irritada desligara subitamente. Congelado de surpresa, Frank afastou o celular o ouvido lentamente e fechou os olhos em profunda tristeza por como tudo aquilo terminou.

Não bastava ter de enfrentar um inimigo invencível e invisível, ainda teria de lidar com a conturbação de uma das relações mais sólidas que conseguiu manter.

***

Enquanto o detetive lamentava profundamente o atrito repentino, Carrie ocupava-se em sua " missão ultra-sigilosa-secreta", cujo local de prática era a sala do diretor Duvemport, naquele instante em plena reunião com o Conselho a respeito da pior calamidade desde o último tremor registrado.

Uma brecha perfeita para um plano sorrateiro.

Sentada á mesa do diretor e roendo as unhas em ansiedade, Carrie só tinha olhos para a tela do monitor de LED onde podia-se ver um fundo prateado com uma barra no centro que era preenchida por uma cor verde claro. Na frente dela estava um contador: 90% concluído. Conectado na CPU estava um pendrive novinho em folha e que suportava arquivos amplos.

Já na parte superior da tela estava o nome da secretária do diretor, Megan.

***

Escola Hans Norbet

Munido de uma lanterna na mão direita e o inaudível medidor na esquerda, Frank vagueava em direção á quadra esportiva com seu olhar afiadamente investigativo esquadrinhando os cantos que mirava com a luminosidade. Contra sua própria moral, teve de nocautear um dos vigilantes que guardava os fundos do colégio a fim de conseguir a chave que abria os portões.

Enquanto a lanterna e sua luz rasgava a escuridão, o visor retangular do medidor apresentava cinco minúsculos traços luminosos verticais e vermelhos (de um total de 20). Cada traço equivalia a uma frequência de 15 hertz.

O detetive pisou seus pés na ampla quadra, desligando e guardando a lanterna e concentrando-se na leitura cujo aumento progredia rapidamente a cada passo. Das janelas do alto das paredes a luz azulada da lua atravessava e banhava o chão do espaço.

Frank passou por um dos fachos do luar, aproximando-se de uma cadeira pequena e estranhando encontra-la por ali no centro da quadra. Assim que alcançou dois metros de distância, os últimos traços do medidor preencheram o visor em um milésimo de segundo. Para dar ênfase ao limite de assinatura, havia um ponto de luz com um vermelho mais vivo na lateral direita do aparelho, piscando intermitentemente.

— Cacete... É aqui mesmo. — concluiu Frank, ora olhando o medidor, ora fitando o centro da quadra. Guardou-o, para depois sacar seu celular. Porém, a mão que entrou no bolso parou antes de toca-lo. A lembrança da divergência com Carrie o fez entender que os ânimos exaltados não afetou o instintivo movimento de ligar para sua melhor amiga logo ao confirmar uma teoria. Ao desistir, suspirou longamente em meio ao silêncio irretocável... estando deste modo até ele escutar um farfalhar veloz de alguma coisa voando atrás dele.

Outro movimento automático foi Frank virar-se sacando sua arma e apontar para cima, da direção que achava ter vindo o rápido barulho.

A "sombra" voadora passara por detrás dele com mais audácia, pouco mais próximo de sua cabeça.

Virando-se com fervor no rosto, Frank trincava os dentes em aborrecimento. Andou até passar pela cadeira, posicionando-se exatamente no centro da quadra.

— Muito bem, espertinho. Não sei se falamos a mesma língua, mas... eu não estou nem um pouco a fim de brincar de esconde-esconde. Então, é melhor você descer, ficar cara á cara comigo e resolvermos isso de uma vez por todas porque vidas humanas estão sendo ceifadas aleatoriamente. Isso é muito covarde, sabia?

— Eu concordo. — disse uma voz soturna que Frank escutara como se tivesse um outro cara em sua mente. O detetive virou-se com o cenho franzido, suas pupilas vasculhando os arredores da quadra. — Aqui embaixo, seu lerdo. — disse ele novamente, em tom provocativo.

Frank olhou para a cadeira à sua frente onde um corvo estava apoiado no encosto. A ave o encarava friamente.

— Foi mal. Eu assustei você? — perguntou ele para Frank que demorou alguns segundos para processar o fato da voz estar vindo do corvo diretamente à sua cabeça.

— O que... O que tá acontecendo aqui? — se perguntou ele, ligeiramente amedrontado. Apontou para o corvo como ar cético — Você não estava aqui antes... — olhou ao redor mais uma vez — De onde está vindo essa voz?

— De mim, seu idiota. Eu, esse corvo que você está vendo bem diante das suas fuças, é quem está te falando isso. Será que dá para você recompor sua posição de investigador para finalmente conversarmos como adultos?

— Você falando comigo... na minha mente?! — apontou para a própria cabeça — Ma-mas... — o detetive esforçava-se para permanecer calmo. Respirou fundo, olhando para o chão — Tudo bem... eu não estou louco, isso não é nenhuma ilusão que o Anjo da Morte está fazendo você sofrer, você está perfeitamente são Frank...

— Ai, ai... — lamentou o corvo, impaciente — Vou precisar te bicar pra você entender que sou eu bem aqui na sua frente que está tentando conversar? Vê se me nota, seu detetive mequetrefe!.

— Opa! Posso ser muitas coisas, menos mequetrefe. Sei fazer meu trabalho e com muita dedicação. Ouviu bem? — disse Frank, com o dedo indicador esquerdo apontado para o corvo.

— Agora melhorou. — disse o corvo, satisfeito — Aliás, eu estava esperando por você.

— Espera aí, por mim? — indagou Frank, franzindo o cenho.

— Sim, a pessoa que viria para fazer o pacto. — disparou o corvo, sem dar maiores detalhes para o enfezamento do detetive.

— O quê? Pacto?! Que pacto? — questionou Frank, irritado — Ou você é o Anjo da Morte em carne e osso ou não passa de um emissário. Afinal, como ditam as lendas, corvos possuem ligação com a morte. Daí, no meio da investigação, coincidentemente me aparece um e que misteriosamente consegue falar por telepatia e, além disso, é um baita de mal-educado ao passar perto de mim como se fosse uma assombração... — parara de falar ao notar a presença não muito distante de um dos poucos sem-teto que ocuparam a escola secretamente e a usam como um lar. O homem era negro e possuía uma barba cinza volumosa, roupas esfarrapadas e um gorro cinza. Ele encarava Frank com suspicácia.

Desconcertado, o detetive sorria nervoso para o mal-trapilho homem.

— De vez em quando... eu falo com os animais... como se eles fossem... — deu de ombros, sem ideias — ... meus amiguinhos imaginários. Vício de infância que arrastei até essa idade, sabe... — seu sorriso forçado ia desfazendo ao dar-se conta de que pouco convencia.

O homem balançou devagar a cabeça, como que desaprovando-o e retomou seu caminho.

Ao andar, os olhos dele converteram-se em um preto intenso, indicando claramente estar possuído por um demônio. Ele sorriu cinicamente.

— Essa cidade está cada vez mais perdida. — disse ele para si mesmo.

— E cuidado com os vigias, hein! — avisou Frank em tom alto, com uma mão aberta perto da boca.

— Podemos continuar de onde paramos? — perguntou o corvo, apressado.

— Tá legal. Que palhaçada é essa de pacto? — quis saber Frank, reassumindo a face séria. — Por acaso, você é um tipo de porta-voz do Anjo da Morte, recebe recompensa por fazer barganhas? — inclinou-se para ele com rudeza — Por que está aqui? Aliás, o que explica as penas nos locais das mortes? Elas são suas? O Anjo da Morte tá te depenando sem que você perceba?

— Em primeiro lugar: Ele forjou essas penas para que eu saísse incriminado por ter certeza de que eu iria ao seu encontro. E em segundo lugar: Todo esse auê está acontecendo por minha causa. Pelo fato de eu ter vindo a esta cidade.

— Bom saber. Quê mais? "No fim das contas, a Carrie estava com razão sobre provas falsas", pensou.

— E em terceiro lugar: Tive que achar um local apropriado para emitir toda a minha... aura e atrair quem estivesse a par da situação. Quando soube da interdição dessa escola, voei o mais rápido que pude e me instalei aqui para fazer meu chamado. Não estava muito esperançoso, mas... enfim, você chegou, é minha salvação.

— Salvação pra quê? Eu quero saber logo: De que vai servir um pacto com você pra parar as mortes? — perguntou Frank, estreitando os olhos para o corvo.

— Não só para dar um fim na carnificina, mas também salvar a minha vida.

— Seja mais direto. Quero saber da sua ligação com ele. — disse Frank, insistente. Mostrou o medidor — Tá vendo isso aqui? A leitura máxima está vindo de você. Tanta carga pra chamar alguém que você vai confiar uma barganha? Com toda essa marra, o mínimo que eu podia esperar era você peitando ele e não você se escondendo feito um passarinho assustado.

— Não estou com medo. — enfatizou o corvo — O problema está nessa cidade. Assim que cheguei, pude sentir uma energia sobrenatural que me surpreendeu, quase fiz cocô em cima de alguém. Toda essa energia desestabilizou minha ligação com ele e o deixou insano. Quanto mais ele mata, mais fraco me torno. Não vou contar do nosso passado juntos, é uma longa história. Portanto, só foca no que vou te dizer para você fazer.

— Então... é isso. — disse Frank, pensativo por um instante — A falha está emitindo radiação paranormal. E com sua visita, você ligado ao Anjo da Morte, logo o trouxe junto e resultou nesse descontrole.

— E a chave para acabar com isso está em você... Frank. — disse o corvo, impressionando-o ao dizer seu nome. — É, quando eu quero posso invadir a privacidade das pessoas. Enfim... você é a pessoa certa. Não, é a pessoa perfeita. O modo correto de parar a calamidade é tornando você o único alvo potencial.

— Como é que é? — perguntou Frank, não gostando nada do que poderia vir dessa ideia. — Se eu entendi direito... Você quer que eu carregue todo o fardo de ser uma vítima em tempo integral até vir me dizer quando acabou?! Se é assim, eu passo. Não ia durar um dia lá fora.

— Não precisa ser um dia. — salientou o corvo, olhando-o — No máximo, da alvorada ao crepúsculo... de amanhã. Esse ritual é o único jeito de restaurar o equilíbrio. Você sai daqui marcado, sobrevive e volta ao mesmo local com o Anjo da Morte na sua cola. Não podemos nos encontrar por ele ser invisível e cobrir seus rastros, mas se você tiver um ás na manga talvez eu o veja e vamos restabelecer nossa união.

A hesitação em Frank mostrava-se cristalina.

— Por que eu deveria confiar em você?

— Não em mim. Mas em si mesmo. — disse o corvo, lentamente baixando sua cabeça — Você parece um cara legal, mas depois que terminarmos tudo... vou embora daqui para nunca mais retornar. Isso é uma promessa, desde já me desculpa por ter trazido esse problemão pra sua cidade.

— Não esquenta. — disse Frank, aparentando compreensão — Você não sabia.

— O que está esperando? Minha coluna está doendo. — perguntou o corvo. — Basta tocar na minha cabeça e toda a maldição vai recair sobre você. É só seguir como manda o ritual. Depois do anoitecer, volte para essa escola... se sobreviver, é claro.

— Tá, já entendi. — disse Frank, erguendo relutantemente sua mão direita em direção ao corvo — Só que eu não ia adivinhar que pra selar esse pacto tinha que te tocar.

— É, percebi que não é muito esperto. — disse o corvo, provocando-o.

A mão de Frank tocara a cabeça do corvo suavemente. O detetive, com os olhos fechados, sentiu um desconforto percorrer todo o seu corpo. Seus olhos abriram de imediato completamente brancos, em seguida fecharam e se apertaram devido a intensidade da carga a ser suportada.

— Não precisava ser tão pesado.

— Não precisava apertar tanto. — retrucou o corvo, erguendo a cabeça — Agora está pronto. Todos os alvos converteram em um só. Eu sei, é um fardo e tanto. Vai ter que se virar sozinho até o fim. Começando já quando acordar.

— Se eu acordar, né? — disse Frank, ríspido. — De repente, uma bigorna pode esmagar minha cabeça antes que eu abra os olhos.

— É, talvez. — disse o corvo, propositalmente desesperando-o — Brincadeira. Ele não cria coisas do nada pra agilizar o trabalho. Ele é metódico, pensa em cada detalhe. Começa a valer no primeiro segundo depois de você acordar. OK?

Naquele instante, Frank nunca antes sentiu que necessitava da presença de Carrie ao seu lado. Nunca antes sentiu-se tão sozinho. Desviando o olhar do corvo para o nada, o detetive passou lentamente a mão na boca em sinal de preocupação angustiante.

CONTINUA...