Frank & Carrie - O Normal da Vida Anormal
8 O Lado Oculto das Nossas Vidas
Na chamada casa da piscina em que costumeiramente reunia amigos para confraternizações, sobretudo quando se dispunha a comemorar seus aniversários, Carrie levou a cabo sua ideia de produzir um podcast para lançar numa plataforma paga de áudio que todos os seus colegas de trabalho prometeram assinar unicamente para acompanharem as entrevistas que ela faria com os diversos convidados que prometia trazer.
A assistente estava sentada a uma comprida mesa de madeira bege com um microfone a sua frente e outro para a pessoa que interagisse com ela. Usando um programa de gravação no notebook, ela deu início ao seu primeiro programa, ajeitando a postura na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa e aproximando sua boca ao microfone.
— Olá, boa noite, sejam todos muito bem-vindos a primeira edição do PodCarrie. Desculpem se eu parecer um pouco travada, é minha experiência inicial nesse ramo de produção de conteúdo, especialmente bancando a locutora de rádio. Vou soar meio robótica talvez, mas espero que aproveitem satisfatoriamente nosso programa número 1 que traz como ilustre convidado uma personalidade de reconhecido destaque e imenso prestígio no Departamento Policial de Danverous City. — disse ela que fez uma brevíssima pausa erguendo sua mão direita gesticulando para chamar seu entrevistado — Mais que um colega de trabalho, um amigo para qualquer hora com o qual eu, particularmente, tenho sorte de unificar forças.
Frank saía da escuridão diretamente para a cadeira diante de Carrie e sentou-se.
— Ninguém mais, ninguém menos que... Frank Montgrow, nosso estimado agente prioritário. — disse ela entusiasticamente. Rapidamente falou meio muda perguntando se havia ido bem com Frank fazendo uma leitura labial e dando um joinha com uma piscadela respondendo que ela foi ótima.
— Você bem que podia colocar tipo uns aplausos gravados aí, não acha? — sugeriu ele que levou Carrie a fechar a cara. O sorriso de Frank se desfez logo.
— Frank, estamos num podcast, não num programa de auditório, então temos que seguir à risca o protocolo, você sabe... só uma entrevista comum.
— Por acaso você leu um manual que dita todas as regras de como se faz um podcast?
— Não, eu simplesmente ouvi podcasts diversos e fui absorvendo aprendizado, sendo meio autodidata. Mas se houvesse algum guia ensinando a como se produz um podcast decente, eu te recomendaria uma leitura no que diz respeito a postura de convidados, especialmente na hora da apresentação.
— OK, me desculpa se eu não me portei adequadamente logo como primeiríssimo convidado seu. — disse Frank que logo sentiu-se desconfortável — Ah, Carrie, sinceramente, não dá pra gente tornar isso uma conversa mais informal, um verdadeiro papo entre amigos? Falando abobrinhas, até palavrão, você é carismática, não tem tino pra esse lance de apresentadora de programa. Isso bloqueia sua real personalidade, não precisa ser assim, relaxa.
— Tá dizendo que não tenho vocação nem pra ser radialista? Frank, se eu tenho algum carisma, eu o uso de formas diferentes pra cada ocasião. Eu cursei jornalismo visando uma carreira na televisão, mas tranquei porque fui influenciada a apostar no terreno em que estou hoje. Desse jeito você parece que tá diante de outra pessoa que não seja sua amiga que sempre vê no trabalho.
— Você me interpretou super-mal agora. Quis dizer que não necessariamente você tenha que agir como se fosse uma profissional desse ramo, até pode, mas ao mesmo tempo você meio que...
— Meio que o quê? — indagou Carrie, o fitando com olhar mordaz.
— Ao mesmo tempo você não combina com esse estilo, não no que você tá fazendo agora, nesse exato momento. Eu gostaria que você agisse mais como Carrie Wood, minha melhor amiga e parceira. OK?
Carrie deu uma expirada longa avaliando com cuidado se sua performance estava realmente de acordo com o que ela se propunha.
— Só que não tô tratando isso aqui como uma brincadeira, uma resenha entre amigos, Frank. Tá vendo só? Tivemos um começo problemático, tudo porque você questionou minha postura logo depois de você não se comportar como um convidado que cumprimenta o público e quem está apresentando.
— Sabe meu canal no GoTube? Que eu abandonei faz um tempo? Lá, onde eu adotei uma espécie de persona alternativa, rolou uma entrevista que fiz com a Natasha, sua grande ídola da música, e a gente interagiu numa boa, sem essa de eu bancar o apresentador que segue um roteiro de entrevista e ela a convidada que responde a cada pergunta. Tudo saiu um bate-papo da mesma forma que nos tratamos pessoalmente.
— Quer que eu transforme meu programa num talk-show radiofônico mais aberto a linguagem do povo, né? Pois bem... — disse Carrie meio nervosa — Eu não quero ter uma crise de ansiedade justo no primeiro dia... Bem, você mencionou a Natasha, uma das mulheres mais fantásticas que já conheci, e eu tenho pensado em trazê-la aqui, logo na segunda edição, sendo assim... É, não faria sentido me dirigir a ela tão formalmente, afinal eu também a enxergo como uma amiga próxima, por mais distantes que estejamos uma da outra e nos encontremos muito casualmente. Se funcionou com você, pode funcionar comigo.
— Posso ligar pra ela e perguntar se ela tem um espacinho na agenda pra cruzar o oceano atlântico.
— Esperto você, hein Frank. Tinha que tocar num dos meus pontos fracos. — disse Carrie, estreitando os olhos para o detetive — Olha, pra ser bem sincera, eu pensei em convidá-la primeiro. Mas como somente você tem o número dela, número que você obrigatoriamente deveria ter me repassado, não ia pegar bem pedir te deixando em segundo plano.
— Não, que frescura, eu não ia me chatear por você me deixar pra depois. Você é uma grande fã da Natasha, tem todos os álbuns dela, sabe todas as músicas e cor e salteado, só canta no karaokê se tiver música dela, já conquistou certa intimidade com ela e já foi em um show imperdível dela aqui na cidade.
— Não ficaria magoado mesmo?
— Claro que não. Já pensou na estreia fenomenal que seria entrevistando alguém que tem sua admiração e respeito irrestritos?
— Frank, para, eu conheço você, ficaria enciumado em não ser o primeiro da lista. Deixa de ironia e abre o jogo.
— É sério, eu entenderia que seria algo especial pra você. Não ia ficar de birra. — disse Frank tentando passar o máximo de seriedade — Mas...
— Mas... — quis saber Carrie, inclinando-se para frente com sua boca quase encostando no microfone.
— Se fosse o diretor, aí o tempo ia fechar.
— Não falei? Conheço a essência de Frank Montgrow melhor do que ninguém.
— Mas a Natasha é a Natasha. Com o diretor você não tem tanta afinidade quanto tem comigo. Fala pra mim, é verdade incontestável.
— Ele é nosso chefe, o que interfere na comunicação. Eu nunca cogitaria chama-lo primeiro. Provavelmente... o quinto ou sexto convidado.
— Olha que ele pode ficar puto se ouvir essa. — disse Frank com um sorriso brincalhão.
— E eu ligo? Ele que se contente. Mas tudo depende da audiência desse programa de estreia que... — interrompeu-se com uma expressão entristecida.
— O que foi?
— Queria que fosse perfeito. Não essa conversa de boteco.
— Vai por mim, falarmos como estamos falando gera mais identificação com o público do que uma entrevista padrão de programa jornalístico. Vamos se soltar, falar da nossa amizade, das nossas aventuras...
— Não daquelas aventuras. — disse Carrie que imediatamente se sentiu na obrigação de esclarecer — Ouvintes, por favor, não pensem naquilo.
— Você só pode estar se referindo ao nosso trabalho oculto, certo? Aquele que inclusive tem a ver com meu canal no GoTube. Podemos falar disso aqui?
— Conta mais sobre a entrevista com a Natasha.
— Bom, deixa eu tirar as teias de aranha da minha memória... Abordamos a origem dela, o início como caçadora de vampiros, o que motivou ela a escolher esse caminho... Que cara é essa? O que foi?
Carrie balançava a cabeça negativamente bem rápido como um gesto de desaprovação que pareceu confusamente estranho para o detetive.
— Você atuava como um personagem se dirigindo aos seus inscritos, não era? Então presumo que você sugeriu a Natasha criar uma persona minimamente parecida com a sua. Não foi isso? — indagou ela que gesticulou para Frank contar sem que aquilo fosse expositivo demais em relação a sua vida de caçador.
— Ahn... Pois é, eu convenci ela a entrar na brincadeira. Na verdade, o lance de caça-vampiros foi mais pretexto pra referenciar a campanha de doação de sangue que tava rolando na época, aproveitamos a ocasião pra conscientizar sobre esse nobre ato.
— Bem que podíamos discutir agora sobre as suas origens. Acho que eu devia ter feito um roteiro pra organizar os tópicos, mas enfim... Hora de falarmos a respeito de quem é Frank Montgrow. Frente e verso, de corpo e alma, sem firulas. Faz aí uma biografia resumida pra galera.
— Sei nem por onde eu começo, não sou bom em me descrever, tanto que eu pediria pra outra pessoa escrever minha biografia só com base em relatos do que eu vi e vivi porque da minha cabeça eu não conseguiria, não levo jeito pra coisa. Bem... Eu sou nascido e criado em Vanderville, minhas raízes estão nessa pequena e subestimada cidade. Morei lá até meus 10 anos quando meu pai arranjou um emprego de gestor de obras, ele tinha diploma de engenharia civil, só aguardava uma oportunidade pra finalmente exercer. Era ele quem botava comida na mesa. Mas eu não era motivo de orgulho pra nenhum dos dois, isso em relação às minhas notas da escola.
— Frank, posso expor um segredinho seu que até então era confidencial entre voce, eu e o diretor, já que somos seus únicos e confiáveis amigos? — perguntou Carrie, o sorriso nervoso.
— Pode, não tenho vergonha de admitir isso.
— Mas preciso perguntar: É verdade que você repetiu a quinta série duas vezes?
— Aham. — respondeu Frank — Duas sofridas vezes.
— Não acha que isso manchou seu currículo?
— Eu já não tinha muita moral na família, depois disso então... Esse período de repetência foi um dos mais difíceis, meu pai na minha cola quase 24 horas por dia, botando rédea curta pra que no fim do ano eu entregasse um boletim com notas decentes. Na primeira decepção, ele me botou de castigo sem presente de natal e TV. Já na segunda, ele me deu uma baita surra de cinto. Mas ao menos no final do ano ele esfriou um pouco os ânimos, chegou a me presentear no natal.
— E o que ele te deu? — indagou Carrie, curiosa.
— Uma tabuada. — respondeu Frank que fez Carrie prender uma risada que daria em alto tom. A assistente inflou as bochechas, sorrindo barulhinhos com a boca ao tentar segurar — Pode zoar, não tô aqui só pra revelar coisas que por muito tempo não pensei em confessar publicamente.
— Não, eu vou te poupar das minhas piadinhas. — falou Carrie, a voz meio risonha — Mas quer revelar mais segredos? — perguntou ela que falando apenas com os lábios disse "cuidado" em referência ao trabalho de caçador do detetive que fez um meneio de cabeça positivo quanto ao perigo de falar mais do que devia — Ou continuar seu resumo biográfico?
— Pensando bem, melhor falarmos de mim sem fatos comprometedores ou constrangedores. Pois bem, continuando... Depois que me formei no último colegial, sofri com a perda do meu pai que... foi dado como morto após desaparecer em Vanderville. Minha mãe suspeitou que ele tivesse caído numa arapuca com a oferta de emprego numa fábrica de lacticínios, que alguém havia passado a perna nele e o levado pro matagal pra virar presunto. Não negávamos que ele tinha alguns inimigos...
— Mas por que um trabalhador tão honesto, que provinha o sustento da casa, ganhou desafetos que atentassem contra a vida dele?
— Meu pai era um cara bastante ocupado, se abarrotava de trabalho toda semana, a medida que eu fui crescendo, o coroa não tinha tempo nem pra coçar as costas mais. Conhecia muita gente nas andanças dele, na jornada dele...
Carrie baixou a cabeça mordendo os lábios.
— Você parece aborrecida. Calminha aí, não deixa a ansiedade te dominar agora, a gente tá indo bem.
— Errado, Frank, estamos num fiasco de entevista. Sabe, eu percebi que você tá pisando em ovos, contando superficialmente a sua história, só que...
— Ma-mas... Eu tô me abrindo com o público, destrinchando o meu passado. O que fiz de errado? Peraí, você tá querendo que... — disse Frank fazendo uma pausa ao captar a verdadeira razão da insatisfação de Carrie com o andamento da conversa — Ah não, isso já seria ir contra o nosso limite...
— Não era pra haver um limite! — disse Carrie, explodindo — Uma entrevista consistente, completa e esclarecedora não deixa lacunas, o essencial deve ser dito por parte do entrevistado.
— O essencial que você quer que eu fale é absurdo demais pra escrachar assim na lata num podcast.
— Mas eu aprecio a franqueza, Frank. Além da profundidade de um relato.
— Se queria que eu tornasse minha vida um livro aberto, justo a minha vida, então por que me chamou? Não podíamos abordar a parte normal do meu trabalho?
— O normal da sua vida anormal é pequeno demais se comparado com o resto. Se eu fizesse um daqueles gráficos no estilo pizza, diria que uns 90% da sua rotina combatendo o verdadeiro mal dessa cidade é muito mais relevante do que os outros 10%. Por que eu me contentaria em falar de apenas 10%?
Frank franzia a testa, balançando devagar a cabeça, não entendendo mais qual o posicionamento de Carrie no que tangia a revelações acerca da vida dupla do detetive.
— Se decide então: Ou acha melhor continuarmos "pisando em ovos" — fizera aspas com os dedos — ou abrimos o jogo e expomos tudo sem pudor.
— Eu tenho medo, me faz lembrar daquele malandro do Ash Nexton que queria te transformar numa celebridade naquele reality show de última categoria. Eu tô confusa, não sei mais como seguir nisso. Me sentir culpada expondo o lado mais particular da sua vida não é um preço que quero pagar pra eu sentir que essa entrevista valeu a pena.
— Não é só minha vida, a sua também. — disparou Frank apontando o indicador direto para ela — Se queria conversar sobre o quanto nos esforçamos nesses sete anos de amizade e parceria em manter isso secreto, era mais confortável me chamar no privado, como sempre fazemos. E por um lado é até engraçado, parece que somos super-heróis lutando pra deixar nossos verdadeiros trabalhos as escondidas. É bizarro isso. Mas... eu tô orgulhoso.
— Pelo quê?
— De partilhar o legado com alguém feito você. Você é inteligente, intuitiva e persistente, são coisas que me provam que esse trabalho de caçar monstros que a esmagadora maioria da população humana acredita estar só nos livros de fantasia e mitologia não é em vão, eu realmente admiro muito a curiosidade afiada que você tem quando pesquisa as lendas pra conectar ao contexto de cada caso, indo o mais fundo possível até juntarmos as peças e nossos raciocínios...
Carrie naquele instante voltava sua atenção para o notebook, mas num semblante de pura apreensão.
— Frank... Temos um probleminha...
Mas Frank não parava de tecer elogios a sua diligente e aplicada assistente.
— ... tanto que eu nem consigo me imaginar falando ao telefone diante de um cadáver ou uma evidência que denuncie a ação de um monstro sem ouvir a sua voz...
— Frank, para, por favor, já chega...
— ... e quando eu digo que...
— Chega, Frank! — esbravejou Carrie liberando sua irritação em cima da tagarelice do detetive que estremeceu num leve susto — Nem mais um pio sobre isso, é sério. Não vai surtar com o que vou te dizer agora, tudo bem?
— Mas o que foi? Tá parecendo até que viu um fantasma. Eu fiz quase igual a essa cara quando enfrentei meu primeiro fantasma, a Chorona. Lembra?
— Frank eu cometi um erro fatal. Não devíamos ter rumado a conversa pra esse assunto, especialmente pra te fazer falar tanto sobre as partes das nossas vidas que não permitimos quase ninguém saber.
— Ah, mas tá tudo sussa. Afinal, você vai editar essa partes, só estamos gravando.
— E ao vivo também. — revelou Carrie não escondendo seu assombro.
— Como é que é? Repete pra mim, por favor.
— Ao vivo, Frank! Todo esse tempo. Mas eu pausei a gravação enquanto você falava incessantemente.
— Pausou em qual parte mais ou menos?
— Quando gritei com você. — respondeu ela, meio envergonhada.
Frank permaneceu silencioso por um instante, com mil coisas passando na sua cabeça. Carrie temia que ele fosse ter um ataque de nervos após o deslize.
— Eu... Sabe onde tem um saquinho de papelão?
— Ahn... Na despensa, última porta de baixo.
— OK, porque eu preciso hiperventilar, a ansiedade bateu! — disse Frank levantando-se depressa e correndo para se tranquilizar antes que o ar lhe escapasse totalmente dos pulmões. Carrie deu uma olhadinha de soslaio para o notebook.
— E esta foi a primeira e última edição do PodCarrie. Bom, pelo menos um total de quatro pessoas ouviram.
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