Frank & Carrie - O Normal da Vida Anormal
1 Caçada Tormentosa
As condições climáticas para aquela noite vieram de encontro aos planos de Frank para curtir uma folga plenamente relaxada em sua casa estando longe de presas e garras de monstros na mira sempre hábil de sua arma. O detetive olhava pela janela a chuvarada torrencial que castigava seu bairro, os relâmpagos piscando ao iluminarem sua rua praticamente dando sinais de alagamento. Os trovões retumbantes faziam tremer as paredes da casa, parecendo mais intensos a cada vez que soavam como alertas para se esconder em algum abrigo seguro.
— OK, não tem a menor possibilidade dessa tempestade ser passageira pra daqui a, sei lá, umas duas horas no mínimo amenizar. — disse Frank saindo da janela e voltando-se para Axel que tranquilamente assistia TV comendo rosquinhas, tão despreocupado que começava a incomodar incomodar ao seu anfitrião — E você aí, de boa na lagoa, curtindo um filminho como se o mundo lá fora não estivesse desabando em raios e trovões.
— Eu tava pensando em dividir as rosquinhas, mas você ficou aí todo emburrado. Anda, se junta a mim aqui, a gente faz uma farra de rosquinha, os raios não vão cometer invasão de domicílio. — disse Axel, logo pondo uma rosquinha inteira na boca — Com você pra mim não tem tempo ruim, então vamos fazer dessa sua noite de folga a mais divertida possível.
— Tá, eu abro o jogo: tinha uma partida de pôquer marcada na taverna onde eu frequentava com meu amigo Ernest. Uma simples noite de diversão com uns caras legais que encontrei por lá.
— E nem cogitou me levar junto? — indagou Axel, estreitando os olhos com suspeita.
— Sabe jogar pôquer?
— Cara, na minha época original eu dominava essa e mais modalidades de baralho. E quando eu falo em dominar... é porque não tinha pra ninguém quando eu embarcava numa jogada. Eu tô me gabando, claro, mas... hoje não sei ao certo, devo ter perdido a mão.
— Olha, pra ser sincero... — disse Frank cuja fala foi bruscamente interrompida por uma queda de energia em toda a rua sucedida por uma tremenda descarga elétrica retumbante. A TV apagou subitamente junto a luz do abajur. Os postes desligaram em simultâneo. O detetive agilmente puxou a tomada da TV.
— Nossa... Essa veio de inesperado! — disse Axel tomado pelo susto, quase tendo pulado do sofá — Será que a TV morreu por dentro?
— Eu bem que te avisei sobre o risco de deixar aparelhos eletrônicos ligados enquanto tá rolando uma tempestade das brabas. — disse Frank indo até a cozinha, meio que tateando as paredes — A TV pode ter conserto, mas seu juízo não, pelo visto.
— Desculpa, tá bem? Fiquei tão grudado no filme que mal ouvi você falar. — disse Axel, levantando – Aonde você vai?
— Pegar as lanternas. — respondeu Frank chegando a cozinha e dirigindo-se ao armário. Abriu a última porta, remexendo numas coisas e dentre elas encontrara duas lanternas pretas. Porém, a aflição bateu no peito ao ligar uma — Ué... Pifou? — indagou, tentando repetidamente ligar a lanterna, mas nenhum sinal de vida. Testara a outra, também no mesmo estado. Verificou as pilhas e novamente testou. Infelizmente nenhum resultado positivo — Só me faltava essa. Essa noite pode melhorar mais?
Axel observava pela janela a tempestade não dar o mínimo indício de trégua.
— Ei, cara, sai daí, vai pro seu quarto e fica por lá até eu voltar. — disse Frank pegando um casaco azul que estava sobre o sofá, vestindo-o.
— Voltar de onde? E as lanternas?
— Tô indo no armazém comprar pilhas novas. As que tem ali não voltam a funcionar por nada.
— Ah, que chato. Mas espera aí... Você vai no armazém a essa hora, no meio dessa chuva? Engraçado você falar que é perigoso eu ficar perto da janela, mas tudo bem sair na tempestade, não é nada arriscado. Vai botar um para-raio na cabeça?
— Ei, desde quando ficou tão sarcástico assim?
— Acho que aprendi com meu nobre amigo acolhedor. — disse Axel, mantendo sua desaprovação a ideia perigosa de Frank — É sério, tem certeza de que não quer ficar? Acendemos umas velas e... ahn... Você tem velas, não é?
— Não. E pra piorar, minha capa de chuva tá detonada. Vou ver se acho um guarda-chuva lá meu quarto. Você vem? Apesar de lá em cima não ser tão seguro quanto aqui embaixo, você pode ficar no closet.
— Eu tô legal, fico por aqui mesmo. — disse Axel que logo estremeceu com mais um raio caído e um trovão poderoso ressoando — Boa sorte.
***
Frank revirava o guarda-roupa numa busca que parecia tão incessante quanto a própria tempestade. Pisando no mar de roupas espalhadas, se rendeu a desistência. Expirou longamente com a boca, fechou os olhos e bateu levemente as mãos no rosto visando acalmar-se.
— Relaxa, Frank, relaxa... É só uma noitinha azarada, fé que você ainda pode salvá-la... ou só aguenta-la.
O detetive desceu a escada vendo Axel encolhido no sofá abraçando seus joelhos e trajando seu pijama que consistia numa camisa de manga cinza e uma bermuda azul.
— E aí, encontrou? — perguntou Axel.
— Pra minha imensa sorte... Não. — respondeu Frank pegando a chave do seu carro — Me resta gastar o que ainda tem no tanque do carro... e torcer pra durar pelo menos durante a ida.
— Pra quê lanternas? A gente se adapta ao escuro, vamos... apenas conversar, só eu e você, seja aqui ou em um dos quartos. Quer tanto assim salvar essa noite só pra uma jogatina com sua nova turma?
— Não tá com ciúme, tá? — questionou Frank, levantando uma sobrancelha.
— Não, só tô dizendo pra você rever a importância desse jogo de pôquer mesmo numa noite de tempestade que impede qualquer um de sair de casa. A propósito, eu peguei seu radinho de pilha, já que pelo celular não pude ver as notícias porque sem energia também não tem Internet. Ouvi que há uma previsão da energia só voltar amanhã de manhã.
— Como é que é?! Então o negócio foi feio mesmo. Cacete, aí ferrou... Quer saber? O pôquer tá cancelado. Mas vou atrás das pilhas. Você sabe quantas noites de folga eu tenho ao mês pra ficar disponível? Umas três, no máximo, isso quando meu rendimento é bem avaliado. Então sim, era muito importante pra um cara como eu que necessita às vezes curtir os prazeres comuns da vida, como socializar, encher a cara, jogar uma sinuca... — fez uma pausa, fitando o hóspede com sensibilidade — Não fica bolado comigo. Eu bem que queria bater um papo até dar a hora de dormir, mas a gente não sabe se esse temporal furioso vai piorar ou não, ficar nessa escuridão não é nada legal. Vou indo nessa.
— Vai, mas vê se não volta chamuscado hein.
— Tão piadista esse meu hóspede. — disse Frank, abrindo a porta dos fundos para adentrar na garagem. Axel deu um sorriso fechado, confiante de que Frank estava gostando desse seu novo lado.
Frank, já dentro do veículo, girou a chave, dando a partida, logo em seguida abrindo a porta da garagem com o controle remoto. Saíra aceleradamente, ligando os limpadores de para-brisa que trabalhariam o caminho inteiro dada a chuva seguindo num volume de abafar sons e até dificultando um pouco a visão. O armazém ficava a umas cinco quadras da casa do detetive que dirigia temeroso quando ao combustível beirando ao esgotamento. Ao dobrar para uma rua à esquerda, deparou-se com mais uma amostra de sua sorte amaldiçoada naquela noite.
— Ah, não... é brincadeira. — disse Frank vendo uma árvore aparentemente centenária caída no meio da pista, bloqueando todo o trajeto — Cadê a Defesa Civil numa hora dessas? Caramba... Pegou até no poste, tá faiscando. — reparou bem ao olhar para a casa atingida por fios de alta tensão que se desprenderam graças aos galhos caidos da árvore. Pegou o celular e ligara para o Corpo de Bombeiros e também para a Defesa Civil em seguida — Tomara que cheguem antes de um possível incêndio.
Deu rapidamente a marcha ré e pegara um atalho por outra rua, mais vitimada pela inundação. No entanto, o inesperado mais pertutbador o encontrou naquele instante. Subitamente, um raio cairá sobre o carro, atingindo o teto. O veículo parou na mesma hora, desesperado Frank que tirou perplexo as mãos do volante.
— Acho que tô devendo algum dízimo na igreja pra São Pedro ficar P da vida comigo desse jeito. — disse ele, não sabendo o que fazer — Bom que o motor não tá fumaçando. É, não tem jeito. Vou ter que esperar a trégua pra poder verificar.
O detetive recostou-se no banco para pacientemente aguardar a tempestade se atenuar. Tanta paciência lhe custou disposição para manter os olhos abertos. Adormeceu lentamente com o barulho da chuva reduzido aos seus ouvidos. Quando despertou, arregalou os olhos, conferindo as horas no celular.
— Que merda! A essa hora já deve ter fechado! Não, não, não... Não me dobro pras circunstâncias. Vamos lá, liga pra mim, bebê. — disse Frank girando a chave na tentativa de religa-lo. Tentou mais uma vez. Nada. Mais outra. Mesmo erro. E novamente. Frank fechou os olhos com medo do barulho do ronco do motor não soar, mas abriu o olho esquerdo. Uma centelha de esperança acendeu. O veículo ligara normalmente para Frank dar um bom suspiro de alívio — Aleluia.
Direcionou-se ao armazém cujo dono, um senhor de idade meio franzino, estava prestes a fechar. Frank saiu do carro correndo na chuva para impedi-lo de virar a placa de "Aberto" para "Fechado".
— Ei, ei, ei! Não fecha agora, por favor! — gritou ele balançado os braços como quem sinalizava um pedido de socorro. Quase batera com seu rosto na porta de vidro. Ele sorriu desajeitado para o senhor que o encarou surpreso com a vinda de um cliente naquela hora. Frank foi permitido a entrar, limpando as solas molhadas de suas botas num pano na entrada — Muito obrigado. Duas pilhas alcalinas, por favor. — disse, retirando uma nota de um dólar da carteira. O homem entregara as pilhas — Obrigado.
— Me admira ter atravessado essa chuva apenas pra vir aqui comprar simples pilhas. — disse o senhor.
— Pois é, mas ainda bem que o senhor me deu uma chance de consegui-las. Hoje a maré não tava boa pra mim.
— São as últimas, teve sorte. Um outro homem veio atrás de duas dessas hoje.
Uma ponta de desconfiança brotou na mente de Frank. Imaginou quanto tempo havia cochilado.
— E como ele era? Desculpa perguntar assim...
— Era alto, meio gordo, quase careca... Por que quer saber?
— Faz quanto tempo que ele veio?
— Creio que há meia hora, aproximadamente. Algum problema?
— Não, nenhum problema. Eu nem sei porque de repente fiquei tão curioso com isso. Enfim, até qualquer dia, boa noite. — disse Frank, virando-se para a porta.
— Até. E cuidado com os raios. Estão impossíveis de evitar. — disse o senhor.
— Ah, disso eu sei. — falou Frank, abrindo a porta para sair. Na sua cabeça não parava de martelar a possibilidade de Axel ter ido comprar as pilhas.
***
Chegando em casa, Frank cravou seu olhar em Axel que estava deitado no sofá dormindo. O detetive cutucou o amigo na perna, o acordando. Axel bocejou longamente, levantando-se.
— Comprei as pilhas. Se eu te falar o que rolou no caminho, capaz de você duvidar.
— Eu fui amaldiçoado por um feitiço que me transformou num monstro de pedra e tô sendo ameaçado por um ex-parceiro, tão amaldiçoado quanto, que quer possuir meu corpo e minha mente. Então... não, Frank, não tem nada de surreal que tenha acontecido com você pra eu duvidar.
— Olha, melhor eu perguntar logo: Você saiu daqui e foi comprar as pilhas no meu lugar, né?
Axel fizera uma expressão de confuso.
— O quê? Claro que não, estive aqui o tempo todo te esperando. Que ideia é essa?
— O dono do armazém me falou que um cara foi lá comprar duas pilhas alcalinas 30 minutos antes de eu chegar, deu uma descrição que me fez associar a você. Ele tava quase fechando, inclusive. Eu cochilei no carro porque o motor deu prego. Não sei quanto tempo dormi, mas... bolei essa teoria, acho que faz sentido. Podia ter me ligado, sabia?
— Frank, eu não fui pro armazém, não pus o pé pra fora daqui em nenhum segundo. — alegou Axel — Pra um detetive tão profissional, você tá bem paranoico.
Sem aviso, a luz da sala acendeu-se, para o completo espanto de Frank que sentia-se feito de bobo.
— Olha só, a luz voltou! — comemorou Axel.
— Tá me sacaneando, só pode... — disse Frank olhando para as lâmpadas acesas. As luzes dos postes também foram restabelecidas.
— Ah, Frank, acontece que a companhia de energia deu uma passadinha aqui na rua, acho que resolveram o problema no transformador geral. A previsão nem era tão concreta assim. E aí, tá afim de jogar um pôquer? — perguntou Axel mostrando uma caixinha preta contendo as cartas.
Frank mergulhou em pensamentos por um instante, mas logo voltou a realidade.
— Não, acho que eu vou afundar minha cara no travesseiro. Fica com as pilhas. Boa noite. — disse o detetive indo subir a escada. Axel, por outro lado, permaneceu na sala sorrindo de forma malandra. Tirou seu rádio de pilha detrás da almofada do sofá.
— Deixa essas daí pras lanternas. — disse ele ligando o aparelho e puxando a antena — Porque vou aproveitar as novinhas pra esse rádio. Coitado, tava precisando. — falou, dando uma risadinha e ouvindo um jogo de futebol — E é gol do Axel.
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