Aquele poderia ser definido como o congestionamento mais estafante que muitos dos apressados motoristas de Danverous City estavam vivenciando naquela manhã infernal. Frank se incluía no mar de veículos naquela rodovia e sentia-se infortunado por pegar tal percurso como um atalho. O detetive estava quase esmurrando a buzina do seu sedã prata com tamanho engarrafamento que parecia ter estagnado.

— Cacete, será que essa fila vai andar mais alguns centímetros hoje? — questionou, enraivecido — Cansei de gastar buzina, melhor verificar o que tá rolando ali na frente.

Ele podia mesmo sentir que estava havendo uma animosidade entre motoristas mais adiante. Entre quantos não sabia, mas claramente ouvia gente levantando voz e até achou que demorou para toda a lentidão causar celeuma. Frank saiu do carro, olhando com curiosidade, quase esticando seu pescoço ao limite e ficando na ponta dos pés para conferir o entrevero que se passava.

Aproximando-se um pouco mais, passando entre os carros praticamente encostando um no outro, Frank avistou dois homens discutindo ferrenhamente pois um teria batido no outro por descuido. O mau-humor dos sujeitos aparentava ser contagioso, pois até mesmo alguns que observavam a confusão com as cabeças para fora de seus veículos iniciavam bate-bocas sobre a briga em si e o trânsito.

— Tô até com medo de dizer que isso não tem como piorar. — disse Frank assistindo o show de desarmonia com as vozes raivosas e as buzinas simultâneas gerando uam cacofonia de tapar os ouvidos e fazer gritar o mais alto possível pedindo para que parassem, algo que Frank até se imaginou tentando. Subitamente um grupo de bandidos armados pulavam carros no outro lado da mão dupla sendo perseguidos por três policiais — Ah não, acho que pensei em voz alta demais.

Os bandidos começaram a disparar contra os policiais num fogo cruzado que fez os ânimos irem da fúria para o medo em questão de segundos. Frank saiu correndo de volta para seu carro passando entre os outros tomando cuidado para não tropeçar nem ser atingido.

Seu celular tocara naquele instante para seu desprazer.

— Isso é hora, Carrie!? Ah, bem... Hora é, até porque tô quase superando minha marca de atrasos, quase um recorde! — disse ele, logo atendendo a chamada — Carrie, péssima hora pra falar contigo! Me engarrafei feio aqui, ainda rolou uma treta generalizada de motoristas e, como se não bastasse pra tornar esse dia mais caótico, acabou de começar um tiroteio danado de uns vagabundos e um punhado de policiais que devem tá levando uma coça dos desgraçados!

Um disparo atingiu seu parabrisa, fazendo um buraco no vidro. Do outro lado da linha, Carrie se desesperou ouvindo o barulho.

— Sim, foi, foi um tiro, pegou no parabrisa! Fica calma, tô seguro aqui, não sei como isso vai terminar, mas... Fala pro diretor que eu tô nesse aperto, é uma justificativa que salva o salário. OK, não se preocupa, o engarrafamento tá se desfazendo bem devagar, só que a coisa tá feia...

Frank parou de falar ao ser surpreendido com um dos criminosos que abusivamente entrou no seu carro sentando no banco do carona.

— E posso te garantir que vai ficar pior... pra você. — disse o bandido apontando a arma para Frank que ergueu sua mão esquerda em sinal de rendição — Desliga a merda do celular. Agora.

— Carrie... Mais tarde te ligo, prometo. Tchau.

— Qual é? Manda a real pra namoradinha. Faça promessas que você pode cumprir, amigo. — disse o bandido, um homem meio pardo de rosto robusto com expressivo cavanhaque, num sorriso malicioso. Frank não tirou os olhos do sujeito que o tinha por refém, pondo o celular vagarosamente de volta no bolso. Mas com a esquerda baixou discretamente para sacar uma arma do bolso externo do sobretudo. O movimento, contudo, foi rapidamente notado pelo marginal — Puxa essa arma que eu puxo o gatilho, filho da mãe!

— O verdadeiro filho da mãe aqui é você. O que ganha entrando no carro de um agente federal do DPDC pra um sequestro meia-boca desses?

— Uma carona pra um lugar importante. E vê se não recusa porque é capaz de eu te meter uma bala na cabeça, me apossar desse calhambeque e jogar num rio com seu corpo dentro do porta-malas.

— Ui, chega eu me arrepiei até os pelos do buraco onde o sol não bate. — disse Frank corajosamente zombando da empáfia de seu captor — E mais respeito com meu carro hein, ta indo pra oficina mês sim mês não, mas ainda tá dando pra gasto.

— Mais respeito o cacete! Tá ouvindo não? O povo lá de trás quer gastar gasolina e você devia fazer o mesmo, então dá partida logo que eu quero vazar daqui! — vociferou o bandido cada vez mais ameaçando apertar o gatinho do revólver.

Frank fechou os olhos por um breve instante, meio incrédulo com o ponto que a manhã chegara.

— Agora essa, virei táxi de vagabundo que sem dúvida alguma vai me negar uma nota preta.

— Adivinhou meu pensamento. Mãos no volante e pisa fundo!

Acatando a ordem, Frank seguiu conforme o andamento do trânsito que naquela altura recuperava-se da inércia. Passando por uma rua em área residencial, o detetive dava constantes olhadas de soslaio para o ocupante desagradável do banco do carona que logo percebeu estar sendo observado.

— Tá olhando o quê? Foca na direção, não tenta flertar comigo.

— Flertar contigo? Tá maluco. Jogamos no mesmo time, te garanto. — disse Frank fixando os olhos à sua frente, evitando fazer contato visual com o captor que mantinha a arma apontada — Olha, o que realmente aconteceu pra você selecionar justo o meu carro pra sequestrar? Você tá bem nervosinho.

— Eu sou assim esquentado mesmo, não te interessa, palhaço. E tu não tá na posição de me perguntar nada, tá OK? Então cala a boca e dirige!

— Vai ficar dando resposta atravessada pra pagar de durão, é? Se eu fosse você, eu me abriria a puxar um papinho de homem pra tornar esse nosso passeio menos entediante. O que você acha?

— Eu acho que você devia fechar a matraca e se concentrar em dirigir. Já não basta o inferno que passei hoje com aqueles escrotos, ainda vou ter que aguentar refém que quer forçar amizade.

— Não forço amizade nem com gente do mesmo balaio, que dirá com bandido. — rebateu Frank sem esboçar medo na fala por uma reação áspera e drástica do sequestrador — Pode me ameaçar o quanto quiser, mas sabe que se estourar meus miolos aqui, é caixão e vela preta pra nós dois. Portanto, eu sugiro que você guarde essa arma, eu sigo até onde você quiser chegar.

— E se eu sentir vontade de mijar?

— Te deixo sair em algum ponto onde tiver mato ou uns arbustos.

— Não, aí é arriscado você me passar a perna e cair fora. Tá achando que eu nasci ontem?

— Eu poderia fazer isso mesmo, mas não iria. Sabe por que? Minha natureza altruísta e solidária não me permite tirar vantagem de quem tá precisando de uma ajudinha, mesmo numa situação como essa em que minha vida tá sob risco.

— Isso é você prometendo que fará tudo que eu mandar?

— Durante o trajeto, sim. Mas como seu refém, seria interessante saber umas coisas.

— O que tu quer tanto saber, afinal? Eu não tenho que te dar satisfação da minha vida ou do que eu faço. Mas... — aquele "mas" fez Frank se atentar mais — Você perguntou porque escolhi seu carro, né? Aleatoriamente, cara. Eu lá ia saber que tinha um detetive de sobretudo dentro. Além disso, eu fui passado pra trás. Na hora que a gente parou de cuspir bala na polícia, os otários sequestraram um carro, mas como não tinha espaço, fiquei de fora.

— Acharia isso bom, mas você merecia uma chance, daí eu não teria que lidar com você e sair da rota do meu trabalho me atrasando como nunca. — disse Frank deixando o bandido amargurado.

— Pelo lado positivo, ao menos vou poder ir pro lugar onde devo estar. — disse o criminoso num tom ligeiramente ameno — Você não tem medo de meliante, né? Tô te apontando uma arma carregada, mas você tá tentando conversar comigo numa boa. Não tenta me manipular, senão vai ser pior pra ti.

— Não é manipulação o que tô fazendo, é como falei antes: tornar o passeio menos chato. Uma situação com refém não é proveitosa sem um diálogo entre vítima e bandido, não concorda? Podemos falar sobre qualquer assunto, o que você preferir. Tudo bem você falar mais e eu menos. Eu tô "desarmado" — fizera aspas com os dedos da mão direita — e você tem o poder de decidir se vivo ou morro. Sabe que você podia me expulsar e fugir com meu carro? Por que me obrigar a te conduzir?

— Não sei dirigir. — respondeu o bandido. Frank mal acreditou.

— Bem, por essa eu não esperava ouvir. Ninguém nunca se prestou a te ensinar? Sei lá... O seu pai?

— Não tive pai nem pra ensinar a andar de bicicleta.

— Ah sim... Eu devia ter imaginado. — disse Frank que fez uma pausa meio longa — Essa rua é longe hein. Já atravessamos uns cinco quarteirões.

— Mano, só cala a tua boca, por favor. Por mais que esteja querendo se fazer de legal, não vou te contar pra onde quero ir. Se manca e não pergunta de novo.

O celular de Frank tocara inesperadamente. O bandido tornou a apontar a arma com veemência.

— Não atende. Tô te avisando.

— Calma, não vou fazer nada mais que desligar. — disse Frank parando o carro no sinal vermelho e pegando seu telefone. O detetive ignorou a chamada e desligou o aparelho, fazendo o sequestrador retornar ao estado mais calmo — Satisfeito? Ninguém vai nos incomodar.

Com o sinal verde, Frank dobrou para uma rua à esquerda. O bandido sentiu-se contrariado ao ver que seu refém desviou do trajeto, violando o trato.

— Não é por essa rua, é a direita! Filho da mãe, já tá sujando comigo, né?

— Ei, ei, calma aí! — disse Frank repreendendo com o dedo indicador apontado para ele, o que à primeira vista soava um ato de coragem ou até suicida — Eu vou fazer uma paradinha pra abastecer e comprar uma água na loja de conveniência. Tá com sede?

O criminoso silenciou por uns segundos, nervoso em confiar na intenções de Frank.

— Eu vou ficar de olho em você. Na tua cola.

— Melhor você permanecer no carro. Vai que roubam. — disse Frank levantando uma hipótese razoável.

— Tá legal, mas se demorar, saio daqui e vou te caçar até o inferno pra acabar com a tua raça. — ameaçou ele ferozmente.

O detetive seguiu até o posto de gasolina, mas parando numa posição que não facilitava ver a loja de conveniência pelo campo de visão do bandido.

Frank saíra do carro com as mãos levemente erguidas em vista da arma perigosamente mirada, indo até a bomba para prover combustível. Após terminar, bateu no vidro para falar com ele.

— Façamos um juramento: não demoro nadinha com a água e você fica bem aí quietinho. Nada de me seguir. Confia em mim que eu confio em você. Não tem como ser justo sendo um negócio unilateral, né?

O sequestrador o olhou com máxima desconfiança, mas resolveu atender os termos do detetive por acreditar que ele não cometeria tamanha insanidade de escapar de suas mãos usando de uma ida falsa a loja como subterfúgio.

— O carro vai ficar parado aqui? E se vier gente pra usar a bomba?

— Fica tranquilo, eu disse que não vou demorar. Já volto.

— Ei, espera aí. — chamou o marginal — Três minutos.

— Só isso de tempo? Não, nada feito. Cinco minutos. Tenho que comprar uns biscoitinhos pra dividirmos, você deve tá com uma baita fome...

— OK, cacete! Vê se vai depressa. Vou cronometrar no meu celular. Passou de cinco minutos, entro naquela loja, anuncio um assalto e ninguém lá vai estar seguro até você aparecer. Combinado?

O detetive fez um meneio de cabeça, pouco confiante de que respeitaria o curto limite.

Frank caminhou até a loja e lá procurou garrafas d'água de plástico. Pegou duas numa prateleira pequena. Mas não pensou em sair sem colocar sua artimanha em prática. Foi na seção de farmácia, buscando o remédio essencial para seu plano funcionar conforme a teoria. Pegara um medicamento calmante que resultaria em sedação quase imediata.

Passou no caixa, dando um sorrisinho simpático com um "bom-dia" para o atendente. Saindo da loja, cravou os olhos no seu carro parado próximo a bomba. O bandido não olhava para trás, felizmente.

Frank procurou um local reservado. Uma coluna perto das latas de lixo foi avistada como um abrigo. Lá, o detetive abriu uma garrafa, mantendo a outra debaixo do braço esquerdo, e abriu o sachê do remédio em pó, derramando todo o conteúdo na água. Tampou a garrafa, agitando fortemente. Certificou de ir até o carro com a garrafa do bandido na mão direita e sua na esquerda.

Voltando ao veículo, Frank entregou a garrafa contendo o tranquilizante ao sequestrador que tomou da mão dele rudemente.

— Foi quase hein, se safou. — disse o meliante abrindo a garrafa e bebendo da água. Frank também o fizera.

— Nada como uma aguinha boa dessas pra abater o calorão, né?

— Preferia algo mais forte, mas é melhor que nada.

"Aí eu estaria tentando te levar a uma morte súbita", pensou Frank que ligou o carro e saiu dali. Na volta ao trajeto certo, Frank continha um sorriso esperto ao ouvir o bandido bocejar em curtos intervalos de tempo.

— O que foi? Tá com sono? Dormiu mal noite passada?

— Sei lá... De repente, bateu uma vontade de cair na minha cama e dormir até amanhã. — disse ele, novamente bocejando — A gente já tá bem perto... Me acorda quando chegarmos. — fechou os olhos e adormeceu. Frank observou ele cair no sono com um sorrisinho de canto. Depois, desatou a rir.

O sedã prata mudou seu curso, mais precisamente para o DPDC. Frank viu uns policias saindo do prédio e aproveitou para chamá-los assoviando após sair do carro. Os homens vieram e Frank abriu a porta do carona, mostrando sua captura.

— Alguém pediu vagabundo sequestrador dormindo que nem bebê? — perguntou ele, ironizando.

— Mas vejam só... — disse um dos policiais — E eu achando que era o café que tava com alguma coisa suspeita.

— Na verdade, em matéria de coisa suspeita dentro de bebida, foi esse maluco aqui quem foi o alvo da vez. Me sequestrou depois que os comparsas abandonaram num tiroteio. Conhecem ele?

— Se conhecemos? É um dos maiores assaltantes e atiradores na lista dos mais procurados. — disse outro policial.

— Deixo a bela adormecida com vocês? — perguntou Frank — A propósito, qual é mesmo o nome dele??

— Brad Dawson. — respondeu outro dos policiais enquanto os demais retiravam o bandido do carro e o carregavam — Soube que tem umas centenas de dívidas de jogo e problemas com a filha. Separado da esposa que impede ele de ver a menina.

Frank ficou a pensar se o tal lugar onde Brad ansiava tanto em chegar não seria a casa de sua ex-esposa.

No DPDC, Frank narrou sua desventura para Carrie na sala dela.

— Mas você não pegou qualquer sossega-leão barato, né? Os mais potentes custam em torno de umas quinze pratas e eu sei que você tá meio liso.

— Saiu mais caro, claro. Mas valeu a pena. Ouvi dizer que o idiota tá contando carneirinhos, ou atirando em carneirinhos, até agora.

Carrie desviou o olhar para o computador, clicando num vídeo que estava viralizando.

— Meu Deus... — disse ela, abismada com o que via.

— O que foi? — indagou Frank que se atentou ao que a assistente via na tela.

— Não vai acreditar nessa... Foi há pouco mais de meia hora. — disse ela que virou o rosto tenso para Frank — A filha do Brad. Ela se matou. — revelou Carrie causando um frio na espinha em Frank que se atormentou com os pensamentos — Brad tinha uma filha adolescente...

— Sim, tô ouvindo o vídeo. Caramba... Ela saltou da janela do quinto andar do apartamento, foi isso?

— Sim, o vídeo quem gravou foi um vizinho. Tem mais informações na descrição: a mãe da jovem relatou que a filha esperava o pai ir visita-la naquele dia pois ela desenvolveu um quadro de depressão, era bastante apegada ao pai apesar dele ser um bandido de alta periculosidade. As recusas da mãe em deixá-la ter contato com o Brad resultou no diagnóstico. Ela se culpa dizendo estar amargamente arrependida.

— Não, Carrie. — disse Frank, o tom meio choroso e a face de tristeza — A culpa foi toda minha. O Brad iria visitar a filha dele, a rua que ele indicou é onde fica a casa da ex-esposa dele. Mas ele não disse nada. Eu... não devia ter botado ele pra dormir.

— Frank, não, por favor, não coloca o peso de uma culpa desnecessária nas suas costas. — aconselhou Carrie, tocada em vê-lo tão abalado — Você simplesmente não sabia. Você perguntou, ele não respondeu. Fez certo em entrega-lo a justiça. Não que eu esteja fazendo pouco caso da filha dele, mas... foi um sacrifício inevitável.

— Mas vai saber se... o Brad não iria se acertar com a ex, garantindo mais tempo com a filha e quem sabe até abandonando a vida bandida. — disse Frank, passando a mão no rosto em aflição — O coitado vai ter um treco quando souber. E com certeza vai pegar um ódio mortal de mim. Meu Deus...

Carrie tocara na mão esquerda de Frank que derramava lágrimas pela trágica morte da filha de Brad num choro que representava toda a culpa atormentadora que despedaçava seu coração.

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