Frames do Destino
10 The Global Frame Awards
Notas iniciais

AINDA ERA DIFÍCIL para Pamela ter o mesmo espírito natalino de Jim, das crianças e de metade da população de Scranton. Porém, naquela manhã de Natal, algo parecia diferente.
Após terminar suas higienes matinais e preparar panquecas — queimadas — caramelizadas, ela recebeu uma notificação de holograma em sua caixa de voz.
Pam franziu o cenho, mas foi até a sala de estar e inseriu o dispositivo no suporte de projeção. Em segundos, o aparelho começou a transmitir um holograma: a figura de uma mulher alta, esguia, de tonalidade azulada e longos cabelos luminosos.
Era Leeloo, a personagem-símbolo do The Global Frame Awards! Seu coração começou a disparar forte no peito.
— Bom dia, senhorita Beesly. Esta é uma transmissão oficial e gravada do Global Frame Awards. Como está?
— Bo-bo-bom dia! — respondeu Pam, sorrindo e se encolhendo, ao ver que ainda estava de pijamas. — Vo-vou bem e vo-você?
— Igualmente. Bom, imagino que já deva saber o motivo da minha visita. Tenho o prazer de informar que sua animação, “A Noite silenciosa em que a Música Voltou”, foi selecionada como finalista na competição de 2026.
Pam levou as mãos à boca, surpresa.
— Os convites VIP para o evento já foram enviados para o seu endereço registrado. A premiação ocorrerá no primeiro dia da segunda quinzena, ou seja, dia 16 de janeiro, sexta-feira, a partir das oito e meia da noite e a senhorita pode chamar até nove convidados. — informou Leeloo. — A cerimônia ocorrerá em The Aurora Hall, 1287 Sunset Crest Drive, Nova Los Angeles, em Marte, distrito 25. Ficaremos honrados com a sua presença. Parabéns pelo excelente trabalho!
— Aaah! Muitíssimo obrigada! — exclamou Pam, empolgada, tentando abraçar o holograma, mas acabando por abraçar apenas o ar.
Leeloo manteve o mesmo sorriso sereno.
— Desculpe. Esta projeção holográfica não possui capacidade física de interação. — explicou a IA. — E eu não tenho um corpo físico, como o seu. Mesmo assim, registro meus votos de boa sorte. Nos vemos no evento.
— Obrigada, Leeloo, de novo. — Pamela se afastou, respirando fundo e arrumando os cabelos.
— Encerrando a transmissão. Tenha um excelente dia.
— Igualmente. Tchau! — respondeu Pam, meio sem jeito, mas ainda assim radiante. Começou a dar pulinhos assim que a holograma desapareceu. — Aaah! Muito obrigada, Papai Noel!
Ela ergueu os olhos para o teto.
— Obrigada pela bênção, São Nicolau!
No andar de cima, Jim ainda estava no meio de um sonho tranquilo quando foi arrancado dele por um barulho que parecia metade comemoração, metade pequeno terremoto doméstico.
— ISSO! Eu tô na final! — Ecoou pela casa.
Jim abriu um olho. Depois o outro.
Mais um grito animado vindo da sala.
Ele se sentou na cama, ainda meio zonzo, com o cabelo completamente bagunçado. Pegou o relógio digital da cabeceira:
25 de Dezembro de 2025 C.G.
8:00
— Ok… — murmurou para si mesmo, brincalhão. — Ou o Papai Noel chegou… ou Michael Scott invadiu essa casa…
Levantou-se da cama, ainda de pijama e calçando suas pantufas felpudas, e caminhou pelo corredor esfregando os olhos.
Quando chegou à sala de estar, encontrou Pam no meio do tapete, com o suporte holográfico ainda ligado, girando de um lado para o outro como se estivesse prestes a explodir de felicidade.
— Pam? — perguntou ele. — O que… aconteceu?
Ela se virou para ele com os olhos brilhando.
— Jim! — disse, quase sem conseguir respirar. — Meu curta metragem animado… ‘A Noite silenciosa em que a Música Voltou’… está na final!
Jim piscou.
— Na final… tipo… pra valer?!
Pam abriu os braços.
— Sim!!! Na final da maior premiação de animação das galáxias!!!
Por um segundo ele apenas ficou olhando para ela, processando a informação. Então o rosto de Halpert se iluminou.
— Pam! Isso é incrível! Meus parabéns, meu amor!
Atravessou a sala em dois passos e a puxou para um abraço apertado. Pam riu quando começou a girá-la no meio da sala.
— Eu sabia! Eu sabia! — afirmou ele. — Quanto orgulho! Eu te amo, meu raio de sol preferido!
Jim a colocou no chão, mas não soltou. Encheu o rosto dela de beijos rápidos enquanto ela tentava rir e falar ao mesmo tempo.
— Jim! Para, um minuto, por favor — pediu, rindo. — E é um prazer saber que sou sua favorita. — Piscou, fazendo-o o homem ruborizar as bochechas.
— Eu sabia que isso ia acontecer! — Jim continuou, beijando a testa dela, depois as bochechas e por último, o cabelo.
Finalmente a abraçou de novo, mais forte, apoiando o queixo no topo da cabeça dela.
— Eu sabia! — repetiu, com um sorriso tranquilo — Que o Natal ia trazer o milagre que você merece!
— A Kelly vai amar a notícia!
— Ainda há dúvidas?
— Ganhei alguns ingressos, podemos convidar ela, convidar sua mãe! E talvez a família Schrute também.
Jim fez careta.
— O que foi? Eu adoro a Mari!
— Eu também adoro a Mari, mas o Dwight…
— Um dia com ele não irá te matar.
— Tem certeza? Pergunto isso, para caso, você não se importe de que talvez sejamos expulsos até o final da premiação.
— Seu bobo! — Pam revirou os olhos, rindo. — Eu te amo sabia?
— Eu sei. Também te amo, raio de sol. — respondeu, beijando-a novamente, cheio de paixão.
[...]
A sala de cinema particular da The Globalestava lotada. Ainda assim, reinava um silêncio absoluto enquanto os curtas competidores eram exibidos no enorme telão, seguindo a ordem de envio.
Pamela mal conseguia respirar direito.
Sentada entre Jim e Kelly, ela apertava as mãos dos dois com força. Os dedos gelados de nervosismo. Dwight, Angela, Mari e Barbara também estavam presentes. Hedda não compareceu, pois ainda não estava bem e precisou ser internada novamente. Michael, Holly e as crianças tinham uma viagem planejada para o começo do ano, em outra estação, mas, mesmo à distância, os cinco fizeram questão de parabenizá-la pela indicação, cada um à sua maneira.
— Pam… se acalme, mulher. Você está esmagando minha mão — sussurrou Kelly.
— Desculpa — respondeu Pamela, sem tirar os olhos da tela.
Então as luzes se apagaram por completo, assim que o curta que estava em exibição terminou.
Um grande holograma surgiu diante da tela. Era Leeloo.
— A próxima animação finalista é “A Noite silenciosa em que a Música Voltou”, de Pamela Beesly.
O coração de Pam disparou.
O filme começou.
Na tela, surgia uma cena simples e delicada: uma mãe e sua filha sentadas diante de um piano. Ambas eram pintadas em tons suaves de azul, com apenas uma fina linha preta delineando seus rostos e expressões, a mesma, as conectando ao piano, preto e branco.
A câmera girava lentamente ao redor das duas enquanto tocavam piano juntas, felizes.
Borboletas flutuavam pelo ar, misturando-se a pequenos elementos natalinos que rodopiavam suavemente enquanto caiam.
Ao fundo, a melodia de “Silent Night, Holy Night”de Frank Sinatraecoava, na voz infantil, gravada por Mari, suave e luminosa.
Por alguns instantes, tudo era harmonia.
Então, algo começou a mudar.
No final da música, a mãe começava lentamente a se desfazer. Seus traços se dissolviam em pequenas borboletas sem brilho, pretas, apenas contornadas por uma fina linha amarela, que se espalhavam pelo ar até desaparecer.
O fundo branco da cena mergulhou em um azul profundo. Restando apenas a criança, que tinha os longos cabelos presos em um rabo de cavalo alto, adornado por um enorme laço vermelho — a única cor viva em toda a composição.
A doce melodia parou.
Por um breve instante, havia apenas silêncio.
Então começava a tocar “Dream a Little Dream of Me”, na voz suave de Ella Fitzgerald.
Triste, a garota encarava as teclas do piano. Lágrimas em forma de pequenas estrelas escorriam por seu rosto, caindo sobre o instrumento e marcando levemente o tecido de seu vestido. E então algo mágico aconteceu, a menina começou a crescer, a se tornar uma adolescente e depois, adulta.
O cenário fora inundado por suas lágrimas, que rapidamente se transformaram em um vasto espaço estrelado.
E o piano? Desaparecera.
Ela flutuou entre as estrelas, cada vez mais distante do lugar onde antes estivera.
A voz de Fitzgerald preenchia o silêncio do universo:
“Estrelas brilhando acima de você
A brisa da noite parece sussurrar “eu te amo”
Pássaros cantando em uma figueira
Sonhe um breve sonho comigo
Diga boa noite e me beije
Apenas me abrace apertado e diga que sentiu saudade
Quando eu estou sozinha e tão triste quanto possível
Sonhe um breve sonho comigo”
A menina flutuava sozinha na imensidão. Seu brilho azul parecia diminuir aos poucos. A câmera se aproximou lentamente de seu rosto. Por um instante, parecia que sua luz iria se apagar. Foi então que ela sentiu algo tocar suavemente em volta de seu corpo.
Ela abriu os olhos.
Seu traje havia mudado. Agora vestia um belo vestido natalino vermelho. Ao seu redor surgiram guirlandas, luzes e pessoas — rostos familiares, calorosos.
Na plateia, Pamela olhou para Jim. Depois para Kelly e em seguida para a pequena Mari, que assistia tudo com os olhos brilhando. A mulher sentiu seus olhos marejarem.
Na tela, o espaço estrelado desaparecia. O azul da personagem se transformava em um amarelo vibrante e luminoso.
A voz forte de Louis Armstrongcomeçou a cantar:
“As estrelas se apagam, mas eu permaneço, querida
Ainda ansiando por seu beijo
Agora eu estou desejando ficar até o amanhecer, querida
Estou apenas dizendo”
E então, Ella volta a cantar como um anjo:
“Bons sonhos, até que os raios de sol te encontrem
Bons sonhos que deixam todas as preocupações para trás
Mas em seus sonhos, quaisquer que sejam
Sonhe um breve sonho comigo”
Então um homem aparecia diante dela. Acima deles, um visgo de Natal. Os dois sorriam. E se beijaram. No instante do beijo, uma explosão de luz preenchia a cena.
Tudo que antes era azul tornava-se dourado. O amor não era mais branco e preto, tão pouco, azul, mas sim, absolutamente, dourado e brilhante.
Num remix bem pensado, a melodia de “Silent Night, Holy Night”voltou a surgir, agora, na voz feminina, da própria Pam, tocada ao piano.
A mulher 2D virou-se.
Atrás do piano estava sua mãe, mas agora ela era apenas um espírito suave de cor violeta.
A filha — agora adulta — corria até ela e a abraçava com toda a força.
— Feliz Natal, querida! — sussurrou a mãe.
— Feliz Natal, mamãe!
A mãe segurava seu rosto com carinho.
— Tenho muito orgulho de você. Sei que não sou boa em demonstrar e interpretar emoções, mas saiba que eu te amo até a lua e volto. Senti tantas saudades do meu pequeno raio de sol!
Os olhos da filha se enchiam de lágrimas.
— Eu também…
— …Sinto muita a sua falta, mãe. — Na plateia, Pamela completou, limpando uma lágrima.
A tela lentamente escurecia.
Fim!
Silêncio.
Por meio minuto, ninguém na sala parecia respirar. Porém, no meio minuto seguinte, a sala explodir em aplausos.
— Isso ficou muito bom, tia Pam! — Elogiou a pequena Mari. — Você é uma estrela completa!
— Obrigada, querida.
Não foi surpresa para ninguém quando Leeloo anunciou que Pamela havia conquistado o terceiro lugar, embora Kelly acreditasse que o primeiro tivesse sido comprado pela Pixar e que a amiga merecia muito mais.
Para a ruiva, aquele era o dia mais feliz de sua vida. Jim a abraçou com força, e ela ainda tremia quando recebeu o troféu em suas mãos. Era um sonho distante que, enfim, parecia ter sido alcançado. Ao longe, no meio da multidão, ela pensou ver sua mãe e suas avós; acenou para elas e mandou beijos.
[...]
— E de onde surgiu a ideia de ressuscitar a Ella Fitzgerald, amiga? — questionou Kelly quando saíam do evento, logo após Pamela passar por uma sessão de fotos que quase a deixou vesga de tantos flashes.
— E o Armstrong e o Sinatra também. — completou Barbara.
— A canção do Sinatra era a favorita de Natal da minha avó Sylvia… que, por consequência, também acabaram virando as da minha mãe e as minhas. E a minha avó Ruth amava “Dream a Little Dream of Me”, ela sempre cantava, quando estava num mal dia, para melhorar os ânimos.
As três sorriram uma para as outras, em compreensão.
— Amei a homenagem que você fez a nós — comentou Jim. Ela estava abraçada ao braço dele, enquanto segurava o troféu na outra mão.
— Que isso… voltar pra cá e ver vocês foi a minha salvação. Vocês me salvaram do destino de Ofélia!
— Olha como ela é poética! — elogiou Kelly.
Os quatro riram.
— Quero ser que nem você quando crescer, tia Pam! — disse Mari, se aproximando e a abraçando. Os Schrute haviam se distanciado quando Dwight precisou ir ao banheiro e acabou se perdendo no salão, o que fez com que Ângela e Mari tivessem que procurá-lo. Elas o encontraram na fila da pipoca, pegando mais um balde tamanho família, para “viagem”. — Seu traço é muito bonito e único. A senhorita pode me ensinar a fazer animações iguais a sua algum dia?
— Se não for muito incomodo, claro — completou Angela. — Sei que deve estar muito ocupada.
— Não será incomodo nenhum. — Pam respondeu. — Você me lembra uma versão mais jovem de mim, Mari, eu realmente vejo potencial.
— A senhorita é demais! O tio Jimbo tem muita sorte!
Mari sorriu, Pamela a puxou para outro abraço e beijou sua bochecha de forma estalada.
— Eu digo isso pra mim mesmo todos os dias, baixinha. — Jim admitiu.
— Meus parabéns, norinha. — Barbara tocou seu ombro. — Liguei pra Larissa e ela ficou muito feliz ao saber da sua conquista e de que Jim finalmente te conquistou. Também disse que é fã de PB&J desde pequena. Ah, e que o Douglas mandou abraços.
— Como esquecer do grande Douglas! — comentou Jim.
— Diga a ela, e ao Douglas, que mandei um abraço de volta. — Avisou Pam, rindo.
— Quem é Douglas? — perguntou Dwight. — Achei que o nome do marido dela fosse Martin.
Pam, Jim e Barbara riram. Dwight, sem entender, encarou Angela, que também ria.
— O que foi?
— Claramente é uma piada interna de família, amor. — explicou Angela.
— Pamela?
Pam se virou ao ouvir seu nome. À sua frente estava uma mulher de pele rosada, elegante, de longos cabelos cor-de-rosa que caíam sobre os ombros e usando o seu adocicado e marcante perfume de chiclete.
Pamela piscou, surpresa.
Ela olhou rapidamente para o seu namorado e amigos.
— Um instante, pessoal, por favor.
Caminhou até a mulher.
— Oi, Bonnie… que surpresa te ver aqui.
Bonnie sorriu de leve.
— Ah, eu estava participando de um painel pela Royal Candy. Quando vi seu nome na programação, pensei: preciso passar para dar um oi.
— Que legal. Obrigada por vir.
Bonnie assentiu, pensativa por um momento.
— Pam… eu sei que fui dura com você no começo. As pessoas também foram duras comigo quando eu comecei. Acho que… acabei repetindo isso.
Beesly deu um pequeno sorriso compreensivo.
— É um ramo difícil.
— É sim — Bonnie concordou. — Mas olhando agora… acho que eu poderia ter te ajudado mais.
Pam inclinou a cabeça, refletindo.
— Talvez. Mas talvez você tenha feito exatamente o que eu precisava que fizesse.
Bonnie soltou uma pequena risada pelo nariz.
— De qualquer forma… você encontrou sua voz. Sua originalidade. — Ela fez um gesto em direção ao prêmio nas mãos de Pam. — E parece estar feliz.
— Porque estou. — Pam sorriu. Bonnie sorriu de volta.
— Vivendo naquela estação, mudando-se de vez de Marte… — Bonnie continuou. — Bem, eu só queria dizer que estou muito orgulhosa de você!
— Obrigada, Bonnie. De verdade.
A mulher de cabelo rosa cruzou os braços de forma casual.
— Quando você voltar de novo para Nova Los Angeles, pessoalmente… será que poderia passar no meu escritório? Estou curiosíssima para saber qual vai ser o seu próximo projeto.
Pam sorriu.
— Claro. Isso seria ótimo.
— Ótimo.
Bonnie estendeu a mão e apertou a de Pam com firmeza.
— Parabéns, Pamela!
— Obrigada!
— Até mais.
— Até.
Pam voltou para junto dos amigos, ainda absorvendo a conversa. Eles seguiram caminhando por alguns quarteirões, em direção ao centro, onde havia vários restaurantes renomados.
— Não sei se aguento mais uma rodada de comida, pessoal. — avisou Dwight, sério. — Acho que exagerei na pipoca amanteigada.
— Eu te avisei que isso não era uma boa ideia, pai. — respondeu Mari, cruzando os braços.
— E eu também. — completou Angela, ajeitando a postura. — Mas vou relevar hoje, já que é um dia de comemoração. Além disso, conheço você: ainda cabe mais.
— Isso foi um elogio ou um ataque? — retrucou Dwight, desconfiado.
— Um equilíbrio perfeito entre os dois.
O silêncio da mais nova campeã não passou despercebido por Jim, que logo perguntou:.
— Tá tudo bem, Pam?
— Sim… por quê não estaria?
Kelly ergueu uma sobrancelha.
— Você tá quieta há uns cinco minutos, garota. Só responde “aham”, “claro”, “sei”… e nem riu de nenhum passe fora do Dwight, parece que tá em outra dimensão.
Pam soltou um suspiro leve.
— É só que…
Kelly inclinou a cabeça, curiosa.
— Tem a ver com aquela mulher de cabelo rosa? Sua chefe?
Pam hesitou por um segundo, depois acabou cedendo.
— Tá bom… primeiro, ela é minha ex-chefe, ela me demitiu na semana em que mudei definitivamente para Scranton, logo após o Natal.
— Que escrota!
— Por favor, nada de palavrão perto da Mari — pediu Angela.
— Calma, Kelly, que ela me pediu desculpas. — explicou Pamela.
— Isso não parece resolver muito as coisas. — Kelly declarou. — Desculpas vazias não mudam nada.
— Olha, em defesa da Bonnie, ela admitiu que foi dura comigo, que podia ter me ajudado mais… e que tá orgulhosa de mim, por ter ganhado o prêmio.
— É, parece que agora você virou magicamente útil para ela.
— E que a Royal Candy Studios Animation está de braços abertos para mim e que ela vai adorar me ter na equipe, criativa dessa vez, para poder desenvolver o meu novo projeto animado. Isso é uma grande oportunidade! Acho que vale a pena perdoá-la.
Kelly abriu um sorriso enorme.
— Olha, ainda não gosto dela. Mas, amiga, isso é gigante!
— Parece que você fechou um ciclo, amor. — Jim também sorriu, mais calmo. — Conseguiu exatamente o que você queria! Que orgulho de ser o seu futuro marido troféu!
Pam olhou para frente, pensativa.
— Você não tem jeito! Mas, acho que sim… é estranho. Eu esperei tanto por isso um dia… e agora parece que, finalmente, meu sonho está mais perto do que parece.
Kelly a puxou para um abraço apertado.
— Meus parabéns, miga! Te amo.
— Também te amo.
Jim se aproximou e deu um beijo carinhoso na testa de Pam.
— Sempre soube que você conseguiria, raio de sol!
Pam sorriu, finalmente relaxando.
— Obrigada… de verdade, meu amor.
— Parabéns, norinha! — Barbara a abraçou com força.
— Obrigada!
— Agora você pode me ensinar a animar pessoalmente algum dia no seu novo trabalho, né, Pam? — sugeriu Mari, animada. — E eu sempre quis conhecer Marte!
— Se os seus pais permitirem, não vejo problema. — respondeu Pam, sorrindo. — A Bonnie sempre foi tranquila com visitas, principalmente de crianças curiosas sobre a Royal e sobre a profissão.
— Sério? A gente pode ir, mãe? Pai? — perguntou Mari, quase pulando.
— Claro que sim, meu anjo. — respondeu Dwight prontamente, antes de receber um olhar afiado de Angela. — Digo… primeiro precisamos avaliar as finanças e ouvir a opinião da sua mãe. Mas, por mim, aprovado.
— Dwight. — disse Angela, firme, lançando-lhe outro olhar.
— O quê? Eu estou sendo responsável.
— Bom… — Angela voltou-se para Mari, suavizando o tom. — Meus pais sempre foram muito rígidos comigo e queriam decidir o meu futuro. Diziam que viver de arte não levava a nada… e a Pam está aí para provar o contrário. — Martin fez uma pequena pausa. — Se isso couber no nosso orçamento, eu vou te apoiar. No que você quiser ser. Só quero ver sua felicidade. Desde que haja disciplina.
Mari sorriu e os abraçou com força:
— Eu amo vocês!
— Papai e mamãe também te amam muito, querida! — declarou Dwight, encarando a esposa, felizes.
— Você tá chorando, Kelly? — perguntou Beesly.
— Miga, óbvio que eu tô chorando! — Kelly levou a mão ao peito, dramática. — Momentos assim, tipo hoje, me deixam super emotiva. Eu simplesmente amo felicidade em família, é tipo o meu combustível emocional. E eu tô MUITO feliz por você, Pam. Tipo, muito mesmo!
— Ah, Kelly, não precisa disso… — disse Pam, rindo, enquanto tocava o ombro da amiga.
— Bom, você tem razão. Agora chega de lágrimas, mesmo sendo de alegria. — garantiu, secando as lágrimas das bochechas. — Eu tô com fome! Restaurante chique, lembra? Tudo na conta do Jimbo.
— Ei, não decidimos isso ainda! — Jim rebateu.
Pam riu e apontou para a esquina.
— Acho que aquele ali parece perfeito. Adoro comida italiana!
O grupo escolheu um restaurante aconchegante no centro e se acomodaram em uma mesa perto da janela. Kelly mal abriu o cardápio antes de decidir:
— Faz tanto tempo que não vou a uma pizzaria, desde que o Alfredo’s Pizza Cafe em Scranton fechou. Nunca visitei a nova que abriu no lugar.
— É boa, eu e o Jim chegamos a pedir uma vez — acrescentou Pam. — No dia em que você, o Jim e o Michael, me ajudaram com a decoração.
— Mas não chega nem aos pés da original — concluiu Jim.
— Fazia tanto tempo que eu não ouvia esse nome. — refletiu Beesly. — Meu pai trabalhou lá por anos como gerente, quando deixei minha carreira de atriz de lado. Ele quase conseguiu comprar aquele restaurante, antes… daquele incêndio desastroso que destruiu tudo!
— Nem me fale, naquele dia, cinco estabelecimentos distintos em distritos diferentes da estação pegaram fogo, do nada! Até hoje não encontraram os incendiários, parece que tinha haver com uma máfia intergaláctica. — Completou Jim.
— Aquilo foi assustador, me arrepiei só de lembrar! Mas vamos mandar as energias negativas para longe, por favor, porque hoje temos que sorrir pela conquista da minha bestie e não chorar. — Kelly afirmou. — Eu vou de pizza metade quatro carnes, metade quatro queijos. Perfeita. Sem discussão.
— E a outra pode ser metade de chocolate e metade de calabresa? — perguntou Mari, em tom sugestivo.
— Ela herdou o paladar… peculiar do pai. — defendeu Angela. — Muito tempo de convívio.
— Ei! — resmungou Dwight.
Todos riram.
— Justo.
— E um chope bem gelado pra mim — completou Kelly, já chamando o garçom. — Hoje pode, tenho muito o que comemorar. — Deu de ombros.
Jim olhou para Pam.
— Vamos de Coca?
— Sim. É um clássico — Ela respondeu, sorrindo de leve.
— Três, então — disse Jim.
— Seis, na verdade. — completou Dwight. — Vamos querer também, nada de álcool por hoje.
A comida chegou pouco tempo depois. O cheiro da pizza era irresistível, e por alguns minutos tudo parecia perfeitamente normal — risadas, comentários aleatórios, Kelly elogiando exageradamente a própria escolha.
Mas Jim percebeu.
Entre uma mordida e outra, Pam sorria… mas parecia guardar alguma angústia em seus olhos amendoados. Estava distante.
Kelly, alheia, já estava no segundo chope quando se levantou abruptamente.
— Ok, eu definitivamente exagerei. Vou ao banheiro antes que a situação piore — disse, rindo de si mesma.
Assim que ela se afastou, Barbara a acompanhou para que não houvesse nenhum imprevisto, enquanto Dwight e Angela foram com Mari até a área kids para brincar em alguns fliperamas antigos.
Jim aproveitou e virou-se para Pam, mais sério.
— O que foi?
Pam tentou disfarçar.
— Nada demais…
Jim apenas a encarou, em silêncio, segurando a mão dela.
Ela suspirou, cedendo.
— É só que… pra eu conseguir trabalhar num novo longa com a Bonnie… eu vou ter que voltar, quase que definitivamente, pra Marte.
Jim não soltou sua mão.
— Eu ainda vou poder vir pra Scranton às vezes, claro… — Ela continuou — mas… nosso relacionamento vai virar à distância.
A voz dela falhou levemente:
— E eu tô com medo, Jim… medo de não dar certo.
Jim apertou a mão dela com carinho.
— Pam?
Ela ergueu os olhos.
— O que a gente tem não é frágil — Ele afirmou, com calma. — A gente pode tentar. A gente vai fazer dar certo!
Pam engoliu em seco.
— Eu esperei tanto por você… por nós — Halpert continuou. — Não faz sentido desistir no primeiro obstáculo. — Sorriu de leve. — Eu te amo mais do que têm de estrelas no céu! E preciso de você mais do que os humanos precisam do sol!
Pam deixou escapar uma pequena risada emocionada, os olhos brilhando.
— Também te amo muito!
Ela se inclinou e deu um selinho nele, demorado e cheio de significado.
— Eu vou voltar — ela sussurrou, como uma promessa. — Você sabe que eu sempre volto.
Jim encostou a testa na dela.
— Eu sei.
Por um instante, o mundo pareceu desacelerar — como se, apesar da distância que viria, aquele momento e sentimento fossem o suficiente.
E talvez fossem mesmo.
Logo depois, Kelly voltou, junto de Babs, animada e completamente alheia à profundidade da conversa.
— EU PERDI ALGUMA COISA?! — perguntou, quase gritando, se jogando na cadeira.
Pam e Jim trocaram um olhar cúmplice.
— Nada demais — disse Pam, sorrindo de verdade dessa vez.
— Ótimo — Kelly pegou mais um pedaço de pizza. — Porque essa pizza aqui tá simplesmente perfeita e eu não divido emoções com fome.
Jim riu.
[...]
Haviam se passado quase sete meses desde que Pam vira Jim pessoalmente pela última vez. Desde que ela retornara para Marte, focado em seu novo longa animado — que contava a história de um gato astronauta, que almejava explorar os planetas além das estrelas de sua estação espacial natal, chamado Mee-Maw —, Pam falava com Jim apenas por chamadas de vídeo e longas conversas por mensagem, que frequentemente duravam horas
Ela finalmente conseguira tirar algumas semanas de folga para retornar a Scranton e nunca estivera tão feliz por poder vê-lo novamente — e também por ser inspecionada pela IA Harleen outra vez.
— Desta vez, estou mais acostumada com a dor, não se preocupe — disse, antes de começar a inspeção e se arrependeu logo em seguida.
Haviam combinado de se reencontrarem em um posto de combustível para veículos elétricos, na parte da lanchonete da loja de conveniência, não parecia nada romântico, mas a saudade falava mais alto. O estabelecimento ficava a poucas quadras do bairro onde cresceram.
Entretanto, para sua surpresa, enquanto tomava um cappuccino doce demais, Pam percebeu que o namorado estava atrasado e isso a deixava preocupada, com o coração disparado. Abraçou-se e colocou uma mecha atrás da orelha, observando o local.
Havia poucas pessoas ali; a maioria apenas recarregava seus carros e seguia caminho. Era bom estar longe da rotina ansiosa e corrida de Pamela Morgan Beesly.
Apesar da preocupação, ela sabia que, para ambos, tudo andava corrido. Com a nova promoção de Jim em Stanford, a vida dos dois estava uma bagunça — sua esperança era que estivessem juntos no próximo Natal, quando poderiam aproveitar algumas semanas de “folga”, cercados pelo clima competitivo e pelas intervenções malucas da família Schrute.
Ela suspirou fundo, deu uma longa bebericada no café e olhou para o celular, repousando de cabeça para baixo sobre a mesa. Esperaria mais dez minutos; depois, ligaria.
Para sua desventura, começou a chover bem no momento em que ela decidiu ligar para o namorado, para saber se estava tudo bem. Ainda assim, sorriu espontaneamente ao vê-lo sair do carro e correr sob a chuva.
O casaco em suas mãos parecia ensopado, o cabelo grudado na testa, mas aquele sorriso e aquele olhar continuavam ali. A ruiva se levantou da mesa assim que ele entrou na loja de conveniência e deu alguns passos largos ao seu encontro, sentindo o quanto aqueles dias longe haviam sido cruéis.
— Ei! — Jim parou à sua frente, sorrindo com calma. — Senti saudade, raio de sol. — Ele a segurou pela cintura, trazendo-a para mais perto.
— Ei! Eu também senti muita saudade. — Pam arrumou o cabelo dele depois de lhe dar um selinho demorado. — Eu só não entendi por que marcar aqui. Não é nem metade do caminho.
— Se eu te disser que estava com tanta saudade que não poderia esperar mais um único segundo, você acreditaria?
— Pelo seu atraso, não — Ela riu.
— Não foi minha culpa. Em minha defesa, meu chefe me segurou na empresa mais do que eu gostaria. Me desculpe, mesmo.
— Tudo bem. O que importa é o agora e que você está aqui, comigo!
Os dois precisavam falar mais alto por causa da chuva forte, que aumentou, do lado de fora.
Os olhos de Pam encontraram os de Jim. Ele parecia calmo, sereno, mas havia algo escondido em sua expressão.
— Está tudo bem?
— Sim… só estou pensando.
— No quê?
— Em como você é linda e no quanto eu sou sortudo!
— Seu bobo! — Pam estendeu a cabeça para trás e riu.
— Sério… queria poder guardar esse momento, que esperei a vida toda, em um potinho e revivê-lo todos os dias.
— Bom, pena que a física te impede de fazer isso.
— Talvez não.
Pamela franziu o cenho, ficando ainda mais confusa quando ele começou a se abaixar.
— O que você tá fazendo, Jim? — riu, meio constrangida, enquanto atraíam a atenção dos poucos clientes e atendentes do local.
— Eu só… — Halpert puxou uma pequena caixa do bolso. — Não consigo mais esperar.
— Oh, meu Deus…! — Ela levou as duas mãos à boca
Jim respirou antes de continuar, seus olhos vagaram um pouco, procurando as palavras certas, ele havia ensaiado milhares de vezes, cada palavra, cada gesto, mas está ali, diante do amor da sua vida soava inacreditavelmente calmo, simples e belo, mas, ao mesmo tempo, assustador.
Halpert apertou aquela pequena caixinha, mas pesada demais naquele instante, como se a qualquer instante pudesse escorregar por suas mãos suadas.
— Pamela Beesly… você já sabe o quanto eu te amo. Você é a mulher da minha vida, algo que eu sempre soube, desde moleque. Eu não consigo mais imaginar um único dia sem você. Inclusive… eu me candidatei a uma vaga na sede da empresa em Nova Los Angeles. E consegui!
— Ah, meus parabéns!
— Obrigado. — Sorriu de lado. — E é por isso… — Respirou fundo, com um sorriso nervoso — que eu queria saber… você me aceitaria como seu colega de quarto? Mas, ainda assim, aceita passar todos os finais de ano, comigo, aqui em Scranton, para celebrar nossas origens? — Ele riu de leve. — Quer dizer… você aceita se casar comigo?
— Oh, meu Deus…!
A voz dela se embargou, misturada às lágrimas e à surpresa.
— Então…?
— Eu demorei tempo demais para entender o que realmente importava na minha vida… — Ela riu entre as lágrimas. — Claro! Sim! Eu aceito! Com você, eu casaria até com alianças de papel. Você é quem eu quero… o único!
Pam balançou a cabeça, ainda sem acreditar, sentindo os braços de Jim ao redor de sua cintura e, logo depois, os lábios dele encontrando os seus. Ao redor, na loja de conveniência, com a chuva batendo forte contra o telhado, todos pararam para aplaudir os mais novos noivos. Era como se, por um instante, o mundo inteiro celebrasse aquele encontro. Era o início de tantos outros momentos especiais e natais apaixonados que ainda viveriam juntos, como se estivessem destinados, frame a frame, pelo próprio destino.
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