Fragmentos do Coração

1 Apenas mais uma noite


"Às vezes, o fim chega sem aviso, e você se encontra no meio de uma tempestade sem saber se conseguirá sair."


Pov Anastasia

Eu só queria esquecer.

Jenna estava me observando com aquele olhar de desaprovação, como se soubesse que não havia mais nada a fazer, que a situação estava escrita e meu destino já estava selado. O que me restava era beber e tentar anestesiar a dor. As palavras que ecoavam na minha mente não paravam de martelar: "Meu noivo, com a secretária...". A ideia parecia uma piada cruel, mas era a realidade. Ele tinha jogado quatro anos de relacionamento no lixo, quatro anos de promessas, de projetos, de risos e de juras de amor. Tudo por uma mulher mais jovem, mais atraente, mais... artificial.

Jenna suspirou e tentou me fazer desistir da tequila, mas eu não estava pronta para ouvir conselhos. Não agora. Não quando o único som que conseguia processar era o de mais um copo sendo preenchido por John, o bartender, que já me conhecia bem demais para se importar com o estado em que eu me encontraria no final da noite. Não me importava. O amanhã era um problema da Anastasia de amanhã. Eu não queria pensar nele.

— Um mês. Só faltava um mês para o nosso casamento — murmurei, erguendo o copo de tequila até os lábios e sentindo o líquido quente descer pela garganta. "Quase o final do conto de fadas", eu pensava, mas, claro, o príncipe estava ocupado em outros afazeres. De preferência, com as pernas abertas de sua secretária.

Jenna me olhava com um misto de pena e frustração, mas o que ela não entendia era que eu não queria ser salva. Não agora. O resto do mundo poderia esperar.

Eu sabia que estava indo por um caminho sem volta, mas havia algo viciante nesse estado de negação. Eu não queria lidar com a dor, e a tequila parecia ser a única amiga verdadeira em uma noite onde meu mundo desabava aos poucos. O amor que eu tinha dado e acreditado, como uma criança inocente esperando pelo conto de fadas, tinha se transformado em cinzas.

Meu plano era simples: afogar a dor, esquecer por algumas horas que meu coração estava dilacerado. Eu nem sequer me importava mais com o que vinha pela frente. A Ana de amanhã poderia ser alguém diferente. Alguém mais forte. Alguém que não acreditasse mais em príncipes encantados.

Levantei-me para ir ao banheiro, mas, ao tentar dar o primeiro passo, meu corpo estava em desacordo com minha mente. A vertigem tomou conta de mim. Eu tropecei, e o impacto me fez quase cair no chão. Foi quando ele apareceu.

— Ei, tudo bem? — A voz masculina soou baixa, mas firme, me fazendo parar por um momento. Levantei os olhos e vi um homem alto, com cabelo castanho escuro — bom, era castanho, eu achava, mas estava bêbada demais para reparar em detalhes. Seus olhos se fixaram nos meus com uma expressão que parecia divertida e ao mesmo tempo cautelosa. Ele me segurou pelos ombros, me impedindo de cair de vez.

— Acho que chega de tequila para você — ele disse, soltando uma leve risada, que em outra situação poderia ser considerada charmosa, mas agora só me irritava.

Eu tentei dizer alguma coisa, mas a sensação de náusea tomou conta de mim antes que eu pudesse formar uma palavra. A última coisa que eu sabia antes de tudo ficar turvo foi que não consegui segurar o vômito. O líquido quente e ácido saiu com força, atingindo-o em cheio, molhando sua camisa e, para minha vergonha, seu rosto também.

Desculpa, pensei, mas logo a zonzeira tomou conta de mim e, antes que eu pudesse tentar me desculpar, tudo ficou negro.

O som de passos suaves me acordou, e uma luz forte invadiu meus olhos. Eu estava em algum lugar estranho, mas nada parecia familiar. O gosto amargo de tequila ainda estava na minha boca, e minha cabeça latejava em ritmo próprio. Lentamente, levantei-me, sentindo meu corpo pesar. Quando minha visão clareou um pouco, percebi que estava em um sofá macio, em um ambiente que tinha uma iluminação suave e acolhedora.

— Você está acordada — uma voz familiar disse, e quando olhei em direção à origem da fala, encontrei o homem do bar. Ele estava sentado à minha frente, agora com uma camisa limpa e um sorriso levemente divertido nos lábios. — Eu sou Jason, e você está em meu apartamento.

Eu tentei me lembrar de como fui parar ali, mas a memória estava fragmentada, como se eu tivesse caído em um buraco negro por algumas horas.

— Onde... onde estou? — Perguntei, minha voz rouca.

— Você estava prestes a se afogar em seu próprio vômito no bar, então eu achei melhor trazer você para cá. Não se preocupe, você estava sóbria o suficiente para saber o que estava fazendo, mas o bar não parecia o melhor lugar para continuar essa noite.

Aquelas palavras, embora ditas com uma leve ironia, tocaram um ponto sensível em mim. Eu não queria ser salva, mas ele me salvou, de alguma forma, me tirou de uma espiral de autodestruição. Olhei para ele, sentindo uma mistura de raiva e gratidão.

— Eu não pedi ajuda — murmurei, minha voz fraca.

Ele deu um meio sorriso.

— Nem eu. Mas aqui estamos. E você vai ficar bem, ok?

Eu não sabia o que responder. Eu só queria voltar para casa e esconder-me do mundo. De todos os olhares que me julgariam. De todas as perguntas.

Eu não queria mais enfrentar a realidade.

Mas, no fundo, eu sabia que não havia como fugir para sempre. E a dor, de alguma forma, era inevitável.


Notas finais
Olá caros leitores! Espero que gostem e embarquem nessa jornada, qualquer comentário, qualquer crítica construtiva acho válido. Obrigada 🫶🏻
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.