Fragmentos de um Sonho: Foi com Ele que Sonhei

6 Sob o Manto da Solidão: A Procura Incansável de Alice por Wa



Um ano e meio se passou desde aquele sonho surreal que virou seu mundo de cabeça para baixo, era. Alice estava imersa em um oceano de incertezas, enquanto o garoto dos sonhos desaparecia sem deixar vestígios. Ela esperou, pacientemente, anotando meticulosamente cada sonho que atravessava sua mente durante os dias de 2012 e 2013.

Sua busca por respostas não se limitou apenas aos sonhos; mergulhou em um vasto oceano de conhecimento, explorando qualquer fonte que pudesse oferecer uma explicação para a vida. Desde espiritualidade até física quântica, Alice absorveu tudo com voracidade, deixando de lado sua vida social em prol da busca pelo entendimento.

Apesar de sua imaturidade, sua determinação era inabalável. Ela acreditava que quem busca, encontra, e cada dia era uma nova oportunidade para desvendar os mistérios que cercavam sua existência. No entanto, o garoto dos sonhos permanecia em silêncio, prolongando sua ausência até que as esperanças de Alice se esvaíssem.

O menino que uma vez a visitou em seus sonhos tornou-se uma lembrança distante, e Alice se encontrou questionando a própria sanidade ao acreditar na possibilidade de um relacionamento ou amizade nesse mundo onírico. Seus desejos se estendiam para além dos limites dos sonhos, ansiando por sua presença no mundo desperto.

Mas então veio o quinto sonho, trazendo consigo um arrependimento que a assombraria por muito tempo.


QUINTO SONHO

Caminho ao lado de Lê, minha irmã, pelas ruas que conheço tão bem, como se o tempo ali fosse uma certeza, algo imutável. Logo viraremos à direita, depois à esquerda, e enfim, nossa casa estará ali, diante de nós. Mas a esquina… ah, a esquina me trouxe uma cena surreal, que cortou o ar dos meus pulmões. Uma nave alienígena pairava, estranha e silenciosa, atrás dele. O garoto dos meus sonhos. E seus subordinados, aguardando, como sombras à distância. Mas ele, ele veio sozinho.


Ele me chamou, me disse meu nome. "Alice..." Sua voz, suave como sempre, mas cheia de algo que eu não sabia identificar. Antes que ele pudesse dizer mais, o cortei. Fui dura, fria. O que mais ele teria a dizer? Eu já sabia.


— Você demorou demais, não acredito mais em você.

Vi nos olhos dele, no fundo daqueles olhos que um dia iluminaram tudo ao meu redor, algo se apagar. E foi como se eu tivesse sido a responsável por essa morte silenciosa. Não só dele. Mas minha também.

Virei as costas, o peso daquilo me esmagando, e comecei a descer o morro com Lê. Eu não queria olhar para trás. Não podia. Mas uma parte de mim, uma parte que eu nem sabia que ainda existia, me implorava para voltar. Para correr até ele e, talvez, apenas dizer que senti sua falta. Que eu sentia cada pedaço de mim vazio sem ele ali, que eu estava tão cansada da distância que ele criou, de tudo o que ele levou. Queria que ele prometesse que nunca mais me deixaria esperando. Nunca mais. Mas o orgulho… o orgulho me segurou com garras afiadas, mais fortes do que qualquer amor que restava.

Eu disse a mim mesma que iria voltar. Eu tentei ordenar às minhas pernas que voltassem, que fosse só mais um passo. Só mais um. Mas elas não responderam. Elas estavam tão partidas quanto meu coração, tão cansadas de esperar, de me perder em tudo que foi deixado para trás. Ele levou tudo. Ele levou a única coisa que eu realmente queria, meu amor, meu coração, e me deixou aqui, sozinha, em um vazio que eu não sei mais como preencher.

E agora, mesmo que minha mente grite por respostas, minha alma está paralisada, com medo do que virá, do que foi perdido. Eu não sei se vou voltar a sonhar com ele. E esse medo… esse medo é pior do que qualquer dor que eu já tenha sentido.


Essa experiência dolorosa, embora devastadora, carregava consigo um propósito profundo, algo que Alice só conseguiu perceber depois de muito tempo. Antes do quinto sonho, ela não entendia completamente o que sentia por ele. Era uma curiosidade vaga, algo distante e sem definição.

Mas, ao despertar do último sonho, algo a paralisou. Ela se lembrou do momento em que viu o brilho se extinguir nos olhos dele, enquanto ele ficava ali, esperando, enquanto ela virava as costas e se afastava com frieza. Esse pensamento foi como uma lâmina que rasgou seu peito, e lágrimas brotaram, sem que ela conseguisse segurá-las. O arrependimento era imenso, e a dúvida sobre se ele voltaria a atormentava de forma cruel.

Foi nesse turbilhão de emoções que Alice, pela primeira vez, reconheceu a verdade do que sentia. Ela estava apaixonada por ele. A dor de perceber isso foi sufocante, mas também libertadora, porque a fazia enxergar que estava esperando por ele, talvez mais do que por qualquer coisa ou qualquer pessoa.

Agora, o vazio em seu peito não podia mais ser ignorado. Ela percebeu que, apesar de tudo, ainda acreditava nele, ainda desejava que ele estivesse ali. A verdade sobre seus sentimentos se impôs de maneira brutal, mas Alice não podia negar: ela não queria mais viver com a dúvida, ela queria, finalmente, estar ao seu lado.

Com esse entendimento, a decisão se formou dentro dela. Era hora de ir atrás dele, não mais esperando passivamente. Ela havia esperado por tanto tempo, mas agora, seria sua ação que daria o próximo passo.

Alice olhou para as anotações no caderno com uma nova perspectiva, como se, finalmente, compreendesse o significado de tudo o que tinha registrado. Cada palavra agora tinha um peso maior, cada reflexão sobre o garoto dos seus sonhos estava carregada de uma nova verdade, uma verdade que ela não poderia mais ignorar. Ela sabia que a partir daquele momento, sua busca não seria apenas por ele, mas também por ela mesma, por aquilo que ela sempre soubera, mas nunca quis enfrentar.


Anotações de Alice sobre o primeiro sonho

"No primeiro sonho, o beijo foi carregado de medo, como se sua morte fosse minha culpa. Não o amava, mas algo mudou depois do contato, como um feitiço. Nunca imaginaria amar um garoto tão arrogante, mas sua atitude me surpreendeu. No entanto, sei que é apenas um sonho e nunca o verei novamente. Alimentar esperanças é tolice."

Anotações de Alice sobre o segundo sonho

"No segundo sonho, ele cumpriu sua promessa de voltar, o que me deu tranquilidade. Respeitou meus limites, aceitando quando disse que ele era jovem demais para eu amá-lo. Sua aparência mudou, o que me deixou intrigada. Embora alguns digam que os sonhos são apenas criações da mente, sinto que há algo diferente entre nós, uma energia externa. Não tenho provas, mas essa sensação é forte."

Anotações de Alice sobre o terceiro sonho

"Mas quem ele pensa que é, simplesmente me olhar de cima a baixo e ir embora? Não quero mais lidar com ele! Ainda sou tão inexperiente, não consigo separar meus próprios pensamentos das vozes que ouço. Mas posso tentar… Está decidido, vou tentar uma viagem astral até o mundo onde posso encontrá-lo e entender o que está acontecendo."

Anotações de Alice sobre o quarto sonho

"O sonho foi tão desconexo que me deixou perdida. Senti como se estivesse revivendo uma cena de uma vida passada ou algo antes de encarnar na Terra. Mas eu nem sei se acredito em vidas passadas, muito menos em uma existência espiritual antes de nascer! Fico me perguntando o que esse sonho realmente quer me mostrar, pois não consigo entender."

"Quem será ele?"

"O que devo fazer?"

"Esses sonhos... o que significam?"

"Tenho que buscar por respostas."


Alice embarcou em uma jornada intensa de autodescoberta, movida pela busca incessante por respostas. Seus primeiros passos a levaram a revisitar livros como O Segredo e Conversando com Deus, na esperança de encontrar algum vislumbre de compreensão. Mas, à medida que sua mente se expandia, seus interesses se diversificavam, indo da filosofia grega à parapsicologia, e até mesmo explorando elementos da cultura nerd, como Star Wars e O Guia do Mochileiro das Galáxias.

A grande dúvida que a atormentava era a natureza dos seus sonhos: seriam apenas projeções da sua mente ou algo mais profundo, talvez até invasões de outra realidade? Essa incerteza a impulsionava a investigar cada vez mais, mergulhando em conceitos como viagens astrais e, de maneira quase cômica, cogitando a possibilidade de contatos alienígenas — uma ideia que ela rapidamente descartava com uma risada.

Determinada a resolver o enigma que se apresentava, Alice se lançou em projeções astrais, em busca do garoto dos seus sonhos. Nos encontros oníricos, ele lhe expressava o desejo de viver ao seu lado, mas Alice, com seu pragmatismo, não estava disposta a se render a uma paixão irreal. Em vez disso, desafiou-o a cruzar os limites do mundo dos sonhos e conquistar seu coração de forma verdadeira e tangível.

Essa busca não era apenas uma curiosidade; tornara-se sua missão de vida. Alice mergulhou em uma gama eclética de estudos, que iam de física quântica a mitologia e história, em um esforço constante para entender o que estava além do seu entendimento. Ela não queria apenas sonhar — ela queria fazer seus sonhos se tornarem realidade, disposta a enfrentar os desafios mais desconcertantes e inexplorados para alcançar o impossível.


A seguir, um de seus registros de viagem astral:

Alice se concentra com todo o seu ser, deixando-se levar até o mundo do menino. Mas, de repente, um guarda aparece, interrompendo bruscamente: — Ela quer falar com o senhor. Ao ser solta, ela sente uma pontada de dor.

O menino se levanta do trono ao vê-la, e todos ao redor, surpresos, observam a cena. Ele a chama com uma autoridade inegável: — Alice.

Com um gesto, ele manda os outros se afastarem. Quando a multidão se dispersa, ele se aproxima, seu olhar suavizando. — Eu estava com saudades, ele diz, tocando o queixo dela.

A emoção toma conta dela, e ela mal consegue conter as palavras que transbordam: — Eu também, você não sabe quantas vezes eu tentei vir aqui! Eu gosto muito de você, muito.

Ele sorri levemente, sua voz suavizando ainda mais: — Eu também, te amo muito.

Alice repete, inundada por um turbilhão de sentimentos: — Eu te amo muito, te amo muito. Eu sou de outra dimensão, estou com medo de que não possamos ficar juntos, mas eu te amo tanto.

— Venha comigo, ele diz, convidando-a a se aproximar. Sentando-se no trono, ele a coloca suavemente em seu colo.

Ela hesita, um olhar de incerteza surgindo: — No seu trono, mas aqui só você pode ficar...

Ele a olha com firmeza, sem hesitar: — Eu e quem eu desejo para mim.

— Desejo... Eu gosto muito de você! Não estava suportando mais ficar sem te ver. Me desculpa, estou falando sem parar, mas tudo que eu penso sai como fala, mas eu te amo tanto, gosto tanto de você.

Ele a observa em silêncio por um momento, e uma sombra de preocupação passa por seus olhos. — Você não parece feliz em me ver. Da última vez, nem me cumprimentou... Você está me usando para alguma coisa? Bem que eu desconfiava, você não gosta mesmo de mim, não é?

As lágrimas começam a escorrer pelo rosto de Alice, a dor da dúvida se tornando insuportável. Ele a interrompe, suavemente, com um beijo, afastando as palavras com um gesto de carinho. — Isso não é verdade. Eu estava com muitas saudades.

E então, entre emoções conflitantes, sua consciência desvanece, e ela mergulha na escuridão.


Não havia como ter certeza se aquela viagem astral era real ou apenas fruto da imaginação de Alice. Ela ainda estava se familiarizando com as técnicas, e seu domínio sobre elas era limitado. No entanto, aquela experiência foi uma oportunidade para ela expressar seus verdadeiros sentimentos ao garoto dos seus sonhos, na esperança de que ele retornasse para ela em suas noites de sono. Era uma tentativa de conexão, uma forma de enviar ao universo suas emoções e esperanças, na expectativa de que fossem ouvidas e correspondidas.

Enquanto explorava os mistérios dos sonhos e das viagens astrais, Alice decidiu também canalizar suas emoções e energias através da escrita. Ela começou a compor uma série de textos, alguns direcionados diretamente ao garoto dos seus sonhos e outros sobre ele, na esperança de que isso alinhasse suas mentes e energias, facilitando a sintonia entre eles nos reinos oníricos.

Cada palavra, cada frase, era carregada de intenção e emoção, como se fossem mensagens codificadas destinadas a capturar a atenção e o coração do garoto. Ela escrevia sobre seus sentimentos mais profundos, suas esperanças e sonhos, compartilhando sua jornada de autodescoberta e sua busca incansável por respostas.

Esses textos não eram apenas palavras no papel; eram uma expressão vívida de sua conexão com o garoto e sua determinação em reunir-se com ele novamente. E, enquanto ela escrevia, sua mente se abria para novas possibilidades, seu coração se enchia de esperança e sua energia se alinhava com a do garoto, criando um vínculo invisível que transcendia as barreiras do tempo e do espaço.

Alice, enquanto caminhava pela rua, decidiu dar um nome ao menino dos seus sonhos, tirando-o do nada. Ela não sabia o que significava, então lhe deu um significado próprio: Walxer — Menino dos Meus Sonhos.

Aqui estão algumas de suas anotações:

24/02/2015

Querido Walxer,

Escrevo-te com o coração aberto e cheio de emoção. Desde nossos encontros nos sonhos, tenho vivido uma jornada de descobertas sobre meus sentimentos. Tu me surpreendeste com tua coragem e magia, e cada momento ao teu lado revelou a profundidade do meu amor por ti.

Apesar das dúvidas e desafios que enfrentamos, peço-te que lutes por nosso amor, pois juntos podemos superar qualquer obstáculo. Não deixes que o medo ou a incerteza nos separem.

Com amor e esperança, Alice


Em junho de 2015, Alice também escrevia cartas para Deus, buscando respostas e alívio para suas angústias.

Querido Deus,

Hoje, meu coração transborda com sentimentos que mal consigo expressar em palavras. A paixão que sinto por Walxer é como uma melodia encantadora que ecoa em minha alma, deixando-me com um frio na barriga e um nó na garganta. Às vezes, sinto-me perdida entre o desejo e a fantasia, mas sei que é ele quem preenche meus sonhos e minhas esperanças.

Peço-te, meu Deus, que me guies neste caminho incerto. Se nossos destinos estiverem entrelaçados, peço-te que nos permitas encontrar-nos. Se não for para ser, peço-te que me concedas serenidade para aceitar.

Ainda que meus sonhos me consumam, mantenho minha fé em ti, pois sei que estás sempre comigo, mesmo nos momentos mais desafiadores.

Com gratidão e fé, Alice


Além disso, Alice escrevia cartinhas para Walxer, sem saber se ele as receberia, mas ao menos isso acalmava seu coração, cheio de saudades.

Querido Walxer,

Nunca entendi totalmente o porquê das estrelas me cativarem tanto, mas recentemente me lembrei das histórias que minha mãe costumava contar sobre elas quando eu era criança. Se o seu nome fosse Star, acredito que isso faria mais sentido para mim, pois minha admiração pelo céu brilhante seria apenas uma extensão do que sinto por você. Saiba que me sinto imensamente feliz por perceber que seu amor por mim ainda perdura, e isso faz meu coração bater mais forte.

Com carinho, Alice


Além disso, começou a escrever poemas, tentando expressar o que as palavras não conseguiam dizer, buscando uma forma de entender e aliviar a dor que sentia.

Para o Príncipe dos Sonhos, Walxer.

No reino dos sonhos, onde nos encontramos,

Eu clamo por ti, meu querido,

Ansiando por te ver, por te sentir,

Por desvendar o mistério que nos une.

Por isso te faço este pedido singelo:

"Encontre-me onde os sonhos se tornam realidade",

Pois anseio por estar ao teu lado,

E juntos explorarmos o universo dos sonhos.

Te espero há anos, paciente e fiel,

Guardando em meu coração a chama do amor,

Desejando te conhecer, te revelar,

E juntos desvendar a magia que nos une.

Venha comigo, oh Príncipe dos Sonhos,

Até os confins do mundo e além,

Onde nossos sonhos se tornam infinitos,

E nossa história de amor se eterniza.


No dia 22 de maio de 2015, Alice encontrou uma pessoa que se parecia com ele no mundo de Vigília, o mundo "real". Porém, como ela mesma dizia, ao vê-lo, não havia mais dúvidas em seu coração. Apenas 10% de incerteza restava, uma pequena margem para confirmar se realmente era ele. No entanto, essa descoberta não tinha grande relevância, pois, no fundo, ela sabia que não se tratava de quem ela realmente procurava.


Mais poemas para Walxer:

11 de junho de 2015:

"Feche os olhos,

Pense em mim...

O dia em que o vi

Me condenou!

Deu para perceber?

Eu só quero você."


O quinto sonho aconteceu em 2013, quase dois anos depois do último encontro de Alice com Walxer, o garoto dos seus sonhos. Sentindo-se solitária, ela não perdeu a esperança. Com paciência, continuou a esperar, a buscar e a praticar em seus sonhos. Após inúmeras cartas e poemas escritos em papel, suas preces finalmente foram ouvidas. Uma série de sonhos a aguardava, prestes a acontecer antes do final do ano.