Fragmentos de um Sonho: Foi com Ele que Sonhei
3 Entre Sonhos e Transformações: O Inesperado Retorno
Alguns dias se passaram, e o segundo sonho surgiu como um intruso sorrateiro, adentrando silenciosamente, sem qualquer aviso prévio de sua chegada. Alice não contava mais com a presença dele, já o tinha relegado ao esquecimento. Ela não nutria mais expectativas de sonhar com aquele garoto, acreditando que a conexão onírica havia se dissipado. O que Alice não imaginava era que, desde o momento em que o beijou no primeiro sonho, sua vida estava destinada a uma transformação irreversível.
Em um shopping bem iluminado, com o teto alto, Alice e sua irmã Alessandra passeavam juntas, avistando logo à frente um elevador e escadas espaçosas.
— Uau, que lugar incrível — comentou Alice, apreciando o ambiente.
— Vamos subir — sugeriu Alessandra, apontando para a escada.
— Tá — respondeu Alice.
Enquanto se aproximavam da escada, Alice decidiu puxar Alessandra pelo braço.
— Lê, vamos de elevador.
— Tá — respondeu Alessandra.
Ao olhar para o elevador, Alice percebeu o garoto do sonho anterior entrando nele. Seu coração palpitou; ela não desejava revê-lo, pois sentia vergonha do beijo que haviam trocado. Alice não nutria sentimentos por ele e não queria mais nada. Só esperava que ele a esquecesse.
— Pera aí, Lê — Alice disse, puxando sua irmã novamente.
O garoto entrou no elevador acompanhado de alguns homens, junto com outro rapaz um pouco mais velho ao seu lado. O elevador começava a se fechar quando ele olhou para frente e viu Alice; uma expressão de ansiedade tomou conta de seu rosto, e antes que ele pudesse dar um impulso na direção dela, o elevador se fechou.
— Viu, Lice, a gente perdeu — Alessandra reclamou.
— Lê, vamos ficar nesse andar mesmo — disse Alice.
Ela e sua irmã aguardaram o elevador retornar ao andar delas. Quando o elevador finalmente chegou, elas entraram. O elevador subiu, parou e as portas se abriram. À frente, o garoto estava reclamando com seus acompanhantes.
— Eu tenho certeza que era ela — o menino disse, olhando para o elevador. — Uhn?
Alessandra se preparava para sair do elevador, mas Alice apertou um botão que fez a porta se fechar rapidamente. Não importou o quão rápido Alice se moveu para se esconder; seus olhares se encontraram, e ele a reconheceu. Uma sensação de tensão envolveu o momento, como se o tempo tivesse congelado no instante em que seus olhos se cruzaram.
— Alice! — O grito do garoto ecoou ansioso.
— Ops... — Um desejo intenso de desaparecer envolveu Alice naquele momento.
A vergonha a dominava, pois não nutria sentimentos por ele e não desejava se envolver mais.
Alessandra não questionou o motivo pelo qual Alice se escondia; ela apenas apertou outro botão, e as portas do elevador se abriram. Alessandra saiu, deixando Alice completamente exposta.
O outro garoto que acompanhava o menino expressou suas dúvidas:
— Se for ela, é bem provável que não goste de você.
Alice ficou vermelha de vergonha, como se aquelas palavras tivessem o poder de deixá-la ainda mais exposta.
— Ela gosta sim! — O menino do sonho passado tinha certeza do que dizia, e isso fez Alice questionar: desde quando ela gostava dele? Afinal, ela tinha certeza de que havia deixado o assunto dos sonhos de lado até então.
Imediatamente, Alice não perdeu tempo e apertou o botão do elevador para descer para os andares inferiores. No entanto, todo esse vai e vem com os botões fez o elevador sair sem fechar a porta, colocando sua vida em risco.
— Ixi... — Alice pensou, já se entregando aos pontos e acreditando que as coisas só iriam piorar para ela.
Neste momento, o garoto se lançou em direção ao elevador. Seu corpo quase se partiu ao meio, não fosse pela força e velocidade de seu amigo e de um dos homens de terno, que seguraram as portas do elevador com as mãos. O ar ficou tenso, e o desespero pairava enquanto o garoto estendia a mão para que Alice saísse. Alice, apreensiva, encarava a cena assustada, já entendendo que não tinha mais para onde correr.
— Alice! Você está bem? — O rapaz estava visivelmente agitado, temeroso de perder Alice e ansioso para saber se ela havia sofrido algum ferimento.
Com o auxílio da mão dele, Alice saiu do elevador.
— Obrigada. Lê, é ele. — Sussurrou Alice para sua irmã.
— Ele quem? — Indagou Alessandra em voz alta, deixando a curiosidade ecoar no corredor.
O modo como Alessandra falou alto deixou Alice extremamente envergonhada, pois ficou evidente que o primeiro encontro a havia afetado a ponto de compartilhar detalhes com sua irmã. O corredor agora era palco não só do reencontro, mas também da intimidade exposta de Alice.
Alice não hesitou por um segundo sequer e começou a correr com a máxima velocidade possível. Ela escapuliu do shopping e desceu uma rua íngreme. À margem da via, alguns gorilas nas árvores começaram a assediá-la com rugidos perturbadores, além de arremessar objetos em sua direção. A sensação de perseguição e hostilidade impregnava o ar, aumentando sua fúria com a situação.
— Seus idiotas! Parem com isso! — Gritou Alice, sua voz ecoando com fúria.
O chefe dos gorilas se aproximava por trás dela, uma sombra ameaçadora.
Alice encarou os olhos do chefe dos gorilas, que estavam repletos de uma crueldade sinistra.
— O que foi, hein? — Perguntou ela, com um olhar desafiador.
O gorila bateu as mãos no peito e soltou um rugido ensurdecedor. Um coro de gorilas enfurecidos respondeu ao chamado, todos convergindo em sua direção com um propósito selvagem. O pânico envolveu Alice como uma sombra, e, em um impulso instintivo, ela começou a correr em disparada, descendo um morro íngreme. Cada passo era uma fuga desesperada, sua respiração ofegante ecoando o medo que pulsava em suas veias. O rugir dos gorilas e o eco da própria corrida criaram uma sinfonia aterrorizante enquanto ela buscava desesperadamente escapar da ameaça iminente.
Gorilas começaram a perseguir Alice, seus olhos intensos refletindo a selvageria do instinto de caça. Então, o garoto apareceu, um raio de coragem em meio à escuridão da ameaça iminente. Seus golpes cortavam o ar, uma dança feroz contra as criaturas que ousavam ameaçar Alice.
— Você! — Exclamou ele, com determinação em sua voz.
— Vamos lutar com eles? — Perguntou, convidando Alice a se unir à luta.
— Eles são mais fortes... — Alice sentiu a urgência da situação, mas sua mente se enredava nos enigmas do garoto, agora mais jovem do que nos sonhos passados. O "problema" dele parecia se tornar mais complexo do que a própria perseguição dos gorilas.
— Escutem, gorilas! Eu amo essa garota, e vocês não vão machucá-la! — O garoto gritava, desafiando os gigantes com a força de suas palavras.
Mas, em meio à confusão, Alice questionava se poderia amá-lo da mesma maneira, considerando sua aparência juvenil.
— Vou acabar com eles! — O garoto persistia, afastando os gorilas com coragem e determinação.
Quando a poeira da batalha assentou, alguns gorilas recuaram, derrotados. O conflito não se limitava apenas aos rugidos dos animais, mas também à tempestade emocional que se formava dentro de Alice, enquanto ela tentava decifrar os sentimentos tumultuados desencadeados por essa inesperada defesa.
Enquanto o garoto se preparava para enfrentar o chefe dos gorilas, as palavras de Alice escaparam em um sussurro carregado de desconcerto:
— Olha, eu gosto muito de saber que você me ama, mas não vai dar certo. Você é mais novo que eu.
A tensão no ar era palpável quando o gorila chefe lançou um soco furioso na direção de Alice e do menino. Com agilidade, Alice saltou para o lado, escapando do golpe iminente. No entanto, o menino, impulsionado por uma coragem audaciosa, sobrevoou o gorila chefe em um salto épico.
O cenário transformou-se em uma mistura de emoções turbulentas e movimentos rápidos. As palavras de Alice pairavam no ar como uma barreira entre eles, enquanto o confronto com os gorilas desencadeava uma dança caótica de esquivas e investidas. A rejeição e a valentia se entrelaçavam, e Alice se via no epicentro dessa tempestade, navegando entre sentimentos conflitantes e a ameaça iminente dos grandes primatas.
— Eu tenho que ir. — Alice falou, sua voz carregada de urgência.
— Espera. — Ele respondeu, desferindo um golpe final no gorila chefe, que tombou no chão. Em seguida, envolveu Alice em um abraço cheio de fervor, como se quisesse expressar tudo o que sentia por ela antes que fosse tarde demais. Com intensidade, ele resumiu seus sentimentos mais profundos em apenas duas palavras: — Te amo.
Um amor avassalador percorreu todo o ser de Alice, mas o significado de tudo aquilo ainda escapava de sua compreensão. Mesmo assim, ela se entregou ao abraço, permitindo que o calor daquele sentimento preenchesse cada fresta de dúvida que restava em seu coração.
— Tchau.
— Tchau. — Ele respondeu, sua voz se desfazendo conforme Alice emergia do mundo onírico para a vigília. As emoções do sonho persistiam como um eco insistente, enquanto ela retornava à realidade, deixando para trás uma trama complexa de sentimentos e mistérios que continuariam a pairar em sua mente desperta.
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