Alice estava sentada na borda de uma antiga fonte de pedra, os raios dourados do pôr do sol refletindo nas águas calmas, criando brilhos que pareciam dançar à sua volta. O jardim à sua frente era um espetáculo de cores e vida—flores de todos os tipos e tamanhos estavam espalhadas por todo lado, exalando aromas doces que preenchiam o ar morno da tarde. As árvores, com suas folhas douradas, balançavam suavemente ao vento, como se estivessem acompanhando a melodia do crepúsculo.


Ao seu lado, Lê, sua irmã, escutava atentamente enquanto Alice falava, as mãos entrelaçadas sobre o colo, com os olhos fixos nas cores quentes que pintavam o céu. O clima estava tranquilo, mas havia uma energia suspensa no ar, como se os próprios elementos estivessem esperando algo acontecer.


"Eu não aguento mais, Lê", Alice disse, sua voz carregada de uma emoção que se mistura com o suspiro do vento. "Eu pedi tanto para não sonhar mais com Walxer. Às vezes, parece bom, mas no fundo, me dói demais. Como eu vou viver algo real com ele, se ele só existe aqui, no mundo dos sonhos?"


Lê a olhava com uma expressão de compreensão profunda, como se soubesse exatamente o que sua irmã estava sentindo, mas ao mesmo tempo, não soubesse como ajudá-la a encontrar respostas. O pôr do sol atrás delas lançava sombras suaves no rosto de Lê, fazendo seu olhar parecer ainda mais sereno, quase como se ela fosse uma presença em paz com o mistério que Alice carregava.


"Eu entendo o que você está passando, Alice", Lê respondeu com calma. "Mas você também sabe que, no fundo, não dá para controlar o que vem em seus sonhos. Às vezes, as coisas que mais queremos evitar acabam vindo com mais força."


Alice olhou para o horizonte, onde o sol estava começando a se esconder, mergulhando o céu em tons de laranja, rosa e roxo. "Eu sei", murmurou, as palavras saindo com um tom suave, como se o próprio vento as estivesse levando. "Eu pedi tanto para Deus que isso acabasse... Mas, na verdade, eu não queria perder o que sentia por ele, por mais que fosse só um sonho. E cada vez que ele aparece, eu sinto como se não conseguisse mais distinguir o que é real."


O jardim parecia se tornar ainda mais misterioso com a troca de palavras. As flores, com suas cores vibrantes, estavam ao redor como testemunhas silenciosas de seus sentimentos. O som do vento nas folhas das árvores misturava-se à brisa suave que tocava o rosto de Alice, trazendo-lhe um alívio temporário, como se o próprio ambiente entendesse sua angústia.


"Você sempre fala sobre ele como se fosse mais do que só um sonho", Lê disse, dando um pequeno sorriso, embora houvesse uma sombra de preocupação em seus olhos. "Talvez seja um sinal de que há algo mais, algo que você ainda não entende."


Alice suspirou, seus dedos brincando com as pedras da fonte. "Eu gostaria de entender. Mas eu sei o que isso significa... Não podemos viver de sonhos, Lê. Quero viver algo real, algo que eu possa tocar com as minhas mãos, que não desapareça toda vez que eu acordo."


O silêncio que se seguiu foi profundo, apenas quebrado pelo som da água caindo suavemente na fonte. Lê permaneceu em silêncio, sabendo que sua irmã precisava de mais do que palavras naquele momento—ela precisava de espaço para sentir e entender as suas próprias emoções.


"Eu só queria que as coisas fossem diferentes", Alice finalmente disse, a tristeza em sua voz misturada com uma aceitação melancólica. "Parece que o que eu mais desejo sempre se afasta, como o sol se pondo no horizonte. Eu só... eu só queria que fosse real, Lê."


Lê colocou a mão suavemente sobre o ombro de Alice, sentindo a tensão da irmã e sabendo que, em sua jornada interior, Alice ainda buscava algo além dos limites do mundo dos sonhos.


"Você vai entender, Alice. Talvez não agora, mas um dia... Tudo isso faz parte de um caminho que só você pode trilhar. Às vezes, a gente precisa passar por essas experiências para entender o que realmente importa."


O sol finalmente desapareceu por completo, e o jardim foi invadido pela suavidade da noite. Mas a conversa, como as flores ao redor delas, continuava a crescer e florescer dentro de Alice—um campo de emoções e pensamentos que ela ainda precisava explorar.


E ali, sob o céu estrelado e o silêncio tranquilo do fim do dia, Alice sentiu um pequeno conforto, como se aquele momento, com todas as suas dúvidas e incertezas, fosse também uma parte importante de seu próprio despertar.


Agora que a noite havia chegado, as estrelas tomaram conta do céu, e a lua, com sua luz fria e suave, iluminava o jardim ao redor delas. As flores, que antes brilhavam com as cores do pôr do sol, agora pareciam absorver a serenidade da noite, suas pétalas levemente abertas como se estivessem em silêncio, aguardando algo. Alice e sua irmã Lê permaneciam ali, no banco de madeira, envoltas pela tranquilidade da noite. O ar fresco da noite trazia consigo uma calma, enquanto as duas conversavam sobre os mistérios que habitavam o mundo dos sonhos.


Alice suspirou, tomando uma respiração profunda antes de continuar.


— Olha só essa anotação do sonho que tive em 30/01/2015, — ela começou, sua voz leve, mas com um brilho de curiosidade. — Lembra que te falei sobre ele, aquele menino que apareceu?


Lê, que estava sentada ao lado de Alice, olhou para ela com atenção, mas com uma expressão de leve ceticismo. Ela não sabia exatamente o que pensar, mas estava disposta a ouvir.


— Menino pré-adolescente, de pele clara, com um nariz fino e bochechas salpicadas de sardas leves. O cabelo dele era cacheado e preto, e os olhos... ah, os olhos eram de um azul tão claro, parecia que ele podia ver tudo, mas ao mesmo tempo, parecia perdido. Ele estava dormindo, mas quando acordou, abriu os olhos de maneira tão sutil, quase como se estivesse começando a perceber o mundo à sua volta.


Lê inclinou a cabeça para o lado, absorvendo as palavras de Alice, ainda sem saber o que fazer com elas.


— Sabe o que é mais estranho? Eu fui tomada por uma sensação na hora. Como se algo tivesse me falado, não uma voz, mas uma percepção direta na minha mente. As sardas, Lê. As sardas indicam que ele está em crescimento. Algo sobre os hormônios entrando em equilíbrio.


Lê, com a mente cheia de questionamentos, mordeu o lábio inferior, tentando organizar as ideias.


— Então, ele está mudando... Não é só físico, mas algo mais, né? Algo que está acontecendo dentro dele... Como se ele fosse... estar se tornando alguém diferente? Tipo, se preparando para algo maior?


Alice assentiu lentamente, mas a dúvida em seu olhar era clara. Ela não sabia se estava conseguindo realmente entender ou explicar o que estava acontecendo.


— Sim, é isso, Lê. Parece que ele está à beira de uma grande transformação. Mas... eu não sei o que isso significa. Por que ele apareceu pra mim? E por que ele continua aparecendo? Eu não entendo, mas sinto que isso vai me levar a algum lugar, só não sei pra onde.


Lê observou sua irmã por um tempo, como se tentasse buscar uma resposta no silêncio que pairava entre elas. Mas em vez de oferecer conselhos, ela apenas disse:


— Eu não sei o que pensar disso, Alice. Eu fico aqui, ouvindo você falar e, sinceramente, fico tão confusa quanto você. Parece que é algo importante, mas... é como se fosse um pedaço de um quebra-cabeça que a gente ainda não tem todas as peças.


Alice fechou o caderno lentamente, como se aquilo a ajudasse a processar todas as perguntas sem resposta. O brilho suave da lua refletia nas flores ao redor delas, que pareciam mais intensas à medida que a noite avançava. A cada momento, mais perguntas surgiam em sua mente, mas ainda faltava algo que as conectasse de forma clara.


— Eu não sei o que pensar disso tudo, mas... é como se estivesse sendo chamada para algo, Lê. E a sensação é tão forte. Mas o quê, exatamente, eu ainda não sei.


Lê olhou para o céu, as estrelas parecendo tão distantes quanto as respostas que ambas procuravam.


— Eu não sei se a gente precisa saber todas as respostas agora, Alice. Parece que tem algo maior acontecendo, mas... é tudo tão nebuloso. Talvez a gente tenha que viver as perguntas, pelo menos por enquanto.


Alice forçou um sorriso, mas o peso da dúvida e da ansiedade estava evidente em seu rosto. Ela não conseguia mais ficar tranquila com a falta de respostas. A noite se aprofundava, mas, em vez de encontrar serenidade, ela sentia a angústia crescer dentro de si. O mistério dos sonhos continuava a pairar sobre elas, mas, ao invés de um alívio, a ausência de explicações estava deixando Alice cada vez mais inquieta e ansiosa. Ela não sabia quanto tempo mais conseguiria conviver com esse vazio de incertezas.


Alice respirou fundo, tentando acalmar a mente, mas a sensação de desorientação ainda a dominava. Enquanto as estrelas começavam a brilhar no céu, ela sentia que o mistério estava se tornando cada vez mais intenso, e que algo grande estava por vir, mas não sabia o quê. Lê, ao seu lado, também refletia em silêncio, talvez compartilhando da mesma inquietação.


Mal sabia Alice que, em aproximadamente um mês, muitos outros mistérios, além de Walxer, iriam surgir em seus sonhos. A cada noite, ela se veria mais envolvida em uma trama complexa e cheia de enigmas, levando-a para um caminho que ela ainda não podia compreender por completo. O que parecia ser um simples desafio da mente, logo se revelaria como algo muito maior, e os segredos escondidos no universo dos sonhos a levariam para uma jornada que mudaria sua vida para sempre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.