Fragmentos de Porcelana

4 Fragmento 4 - Um chá com a solidão


Um chá com a solidão

A solidão costumava tomar chá,
Sempre na mesma hora
Com minha companhia e conversas ela se deliciava
Mas agora ela age, indiferente
O chá não nos une
E as conversas agora são desconexas
Solidão me apareceu
Me dizendo que comigo se sentia sozinha
E que, para o chá, ela queria companhia
Porque a minha não bastava
A solidão queria uma companhia
Que não fosse a minha
Ela estava a procura de uma amiga,
Porque minha amizade já não lhe bastava,
Não mais.
Em um de nossos chás,
Ela me contou
Que estava morrendo por dentro
E que não aguentava nem por um segundo
a minha companhia
Tão solitária quanto ela mesma
''Quando você vai em busca de um outro universo solitário?''
Fiquei sem resposta, como sempre, era claro.
''Você costumava conversar com outra solidão, nas madrugadas, além de mim. Onde ela está?''
Solidão indagava a mim, em meio a uma golada e outra de chá.
''Ela se foi, partiu para outro universo''
Solidão se calou
E começou a cantar
A música daquele universo
Que partiu
E que me permitiu
Ouvir novamente
Os lamentos insossos
Da solidão
Que entre um gole de chá e outro
Vive a reclamar
Que a minha companhia jamais lhe bastará.

Meu universo a envenena.