Eu me lembro... quando eu tinha 12 anos, ela veio em minha casa. Meu primeiro pensamento foi que ela era, de alguma forma, possuidora de uma beleza única, com seus cabelos longos e olhos cor de mel. Ela bagunçou meus cabelos loiros e lisos, que todos diziam ser bonitos, e me disse que eu era um belo rapazinho. Ora, que rapazinho que nada. Eu já era um homenzinho, era o que mamãe me dizia. Mas o afago na cabeça compensou o erro no julgamento. Ela vai passar a noite aqui com a família, foi o que papai falou, e eu prontamente me coloquei a trabalhar para impressionar a todos. Posição de um bom garoto, isso sim. Não que eu estivesse fingindo, veja bem, mas a gente se esforça um pouco mais quando quer. O pai dela arranhou algo no piano, e vi nisso a minha deixa. Treinos diários de piano clássico se fizeram valer ali, resultando em mais um afago na cabeça, e uma chuva de elogios. Ela gostava de música clássica, muito me interessou. Exibi-me mais um pouco antes de o videogame chamar mais alto. Mas meus olhos continuaram a segui-la pela sala. Eu tinha doze, ela tinha dezesseis. Quase adulta, percebi. E, se quer saber, já bem mulher.

Acho que tudo o que tive naquela noite foram fragmentos. Um pouquinho de seu canto (uma voz suave cantarolando a música que toquei), uma amostra de seus desenhos (um descuido ao deixar aberto um caderninho sobre o sofá, traços firmes, mas inexperientes), a menção de seus escritos (envergonhada, disse ser uma aspirante a prosadora), o vislumbre de seu amor por café (talvez a mais animada das curtas conversas que manteve com meus pais)... Sim, no final fui para a cama com apenas pedacinhos de quem ela era, poucas pistas para satisfazer minha curiosidade. Era exatamente essa: o que havia nela, afinal? Eu já vira muitas garotas. Sorrisos, cabelos e olhos mais bonitos. Só fui entender mais tarde que aqueles lábios, fios castanhos e orbes cor-de-mel expressavam como poucos uma sinceridade que não se vê por aí.

Quando acordei na manhã seguinte, ela já havia partido, partindo meu coração. Ora, não exageremos. Não fui tão frágil assim. No entando, a lembrança que ela involuntariamente deixou para mim não me permitiu esquecê-la. Uma pulseira de berloques esquecida sobre a cômoda.

Pingentes prateados pendiam, preenchendo-a. Admirei-os por um bom tempo, percebendo ali mais fragmentos. Sim, partes dela estavam ali, estampando seus gostos, experiências, desejos. Um gatinho, um livro, uma torre Eiffel, uma xícara... Parecia registrar tudo dela ali.

Fantasiei. Ah, como imaginei diferentes significados pra cada um daqueles pingentes. Mas também confesso que oscilei. Esqueci-me da pulseira algumas vezes, mas nunca tardava a voltar e segurá-la entre os dedos novamente. Foi interessante crescer assim, fitando, de tempos em tempos, um pertence a uma garota que eu vira por apenas uma noite, na minha infância. De certa forma, parecia soar como algo que seria escrito em alguma de suas prosas. E eu mantive bem escondido o meu leve interesse por desenrolares românticos. Mas, se quer saber, romantismo mesmo era divagar que um dia a reencontraria, e lhe entregaria a pulseira de volta, recebendo em troca, no mínimo, um de seus sorrisos sinceros.

E romantismo bem recompensado, no final.

Eu tinha dezesseis quando me deparei com ela novamente. Vinte anos estampado no rosto, nas roupas, no corpo. "Sem dúvidas já mulher", o pensamento me alcançou no auge do meu devaneio ao vê-la passar pela porta. E nem precisei esperar para ter só pra mim um sorriso sincero: ela me cumprimentou com um deles logo de cara, em seguida exclamando sobre o fato de agora eu ser mais alto que ela. Talvez tenha sido aí que eu me dei conta. Percebi que, de alguma forma, o abismo entre nós havia diminuído. Ela mulher, eu, rapaz. Mais um pouco e já seria homem.

Dessa vez fui mais afundo em observar seus pedacinhos. Aliás, fiz questão de eu mesmo os trazer à tona. Eu a fiz sentar próximo a mim ao piano, logo após seu comentário sobre se lembrar de que eu costumava tocar bem quando era criança, e vi o deleite em seus olhos ao som de Clair de Lune. “Se quer saber, estive me perguntando desde aquele dia se você podia tocar essa música” foi sua fala ao fim da melodia, o que me fez abrir um sorriso. Então ela dedicou pelo menos um curto tempo desde aquela vez para pensar em mim. Por algum motivo aquilo fez meu coração saltitar.

Ela também quis tocar, o que me deixou surpreso. Lembrava de ter ouvido seu comentário sobre o desejo de aprender o piano, e a resposta que ela me deu ao mencionar isso teria sido o suficente para que eu guardasse ainda com mais força o sentimento que nutria por ela, seja lá qual fosse ele. “Você me inspirou a aprender.” Ela disse com timidez após verificar que estávamos à sós na sala “Afinal, não podia perder para você!”

Injeção de ânimo, é como se chama isso que ela fez comigo. Essa foi a fala que me impediu de desgrudar os olhos dela pelo resto da noite, apesar de todo o meu esforço para não ser flagrado admirando-a com tanta força. Nós dois fizemos um dueto no piano clássico. “Rose Adagio”, que soava para mim como uma história de amor que aos poucos ia se desenvolvendo, fluida, leve e alegre. Ela estava se saindo bem para alguém com quatro anos de estudo, mas não acho que eu teria me importado se ela fosse ruim. A expressão que ela fazia ao pressionar as teclas era serena o suficiente para me fazer esquecer sobre toda a técnica para tocar aquela música e prestar atenção apenas em sua leveza, na forma como seus dedos voavam ao lado dos meus, e em como ela às vezes me lançava um sorrisinho satisfeito depois de uma parte mais complicada.

Tive em alguns minutos de música mais que em quatro anos de fantasias.

Mas também acabou rápido. Ela precisava deacansar, pois teria uma prova na manhã seguinte. A ansiedade que me dominou após a revelação sobre o propósito de tal prova quase me consumiu. Ao passar, ela moraria na minha cidade para estudar. E eu divaguei, idealizando dias em que não precisaria me contentar com fragmentos, e poderia conhecê-la por completo. O resultado saiu vinte dias depois. Vinte longos dias em que precisei distrair minha mente para não continuar encarando o piano com uma expressão desolada pela possibilidade de ela não conseguir a pontuação necessária. Ela ligou no vigésimo primeiro dia, para dar-nos o resultado: aprovada. Silenciosamente, eu comecei mais outra contagem: a dos dias que levaria até que ela se mudasse de vez.

E, quando ela passou pela porta da minha casa… Era a terceira vez? Sim, notei. Impressionante… Duas curtas noites eu havia passado em sua companhia. Se quer saber, concluí que, se duas noites com nada mais que fragmentos foram suficientes para tudo aquilo, só me restava aguardar ansioso pelo que viria a seguir. Quando ela passou pela porta da minba casa, com aquele sorriso e seu jeito de mulher, desviei o olhar de seu rosto para a pulseira em minha palma, focando o pingente de coração que eu havia adicionado aos berloques, e então caminhei até ela.

E segurei sua mão, colocando ali o acessório que me servira de lembrança por tanto tempo.

“Chega de fragmentos. Eu te quero inteira.”

Notas finais
Heey!
Obrigada leitura! Espero sinceramente que tenha chegado ao final sem que perdeu seu tempo hehe por favor, deixa um "hello" aí nos comments e me deixa sabendo que passou por aqui! Se quiser também pode me contar o que achou dessa fiction!
❤❤
~jaa ne!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!