Fragmentos De Papel.
3 Capítulo 3.
Notas iniciais
― Dona Jurema, tem mais bolacha? ― Pergunta Rafael com um enorme sorriso estampado em sua face.
― Tem meu querido. ― Diz minha mãe levando até ele mais um pacote de bolacha recheada. Eu podia ver nos olhos da minha mãe o cansaço.
― Mãe você está tratando ele como se ele tivesse treze anos. ― Digo soltando um riso logo em seguida.
― É mais maturo que você... ― Diz e logo sai. Ouço apenas uma risadinha de deboche de Rafael.
― Mas agora falando sério... Qual era o problema Thomas? ― Indaga Bruno com seriedade.
― Thomas. ― Diz Rafael. Olho para ele. ― Turbando. ― E logo ele começa a cair na gargalhada. Logo eu havia entendido a piada com meu nome, mas já estava acostumado com esse tipo de coisa, porém, assim que olhei para Bruno ele faltava pular em cima de Rafael para batê-lo.
― Olha aqui Rafael. Thomas chamou a gente por um motivo, e esse motivo não é brincar, será que uma vez na vida da para ser sério? ― Bruno começou a elevar o tom da voz.
― Desculpa. ― Rafael abaixa a cabeça.
Eu entendia o jeito de Rafael, ele sempre foi um menino que perdeu a maior parte da infância tendo que ser o adulto da casa. Seus pais eram usuários de drogas, então já com seis, sete anos ele teve que cuidar de seus dois irmãos menores, sendo sempre sério e responsável agora, ele só estava voltando a ser criança, já que seu momento adulto, já aconteceu.
― Eu vou abrir o jogo com vocês. ― Digo respirando fundo. Bruno então se levanta e fecha a porta, enquanto Rafael se aproxima mais de mim. Assim que Bruno retoma para seu lugar eu abro minha gaveta da escrivaninha e retiro de lá uma pasta amarela. ― Desde o ano passado eu venho recebendo cartas de uma suposta admiradora secreta, porém não sei seu nome e nada relacionado a ela que possa entregá-la. Suas cartas eram inocentes, apenas falando de como foi seu dia. Mas há alguns dias isso mudou, ela começou a pedir ajuda, e logo depois recebi outros dois recados dela, que na verdade não é um recado, mas com certeza é relacionado a ela e tem um significado. Os papeis sumiram alguns minutos depois de eu ver o que estava grafado neles, então eu anotei nesse caderno para não esquecer. ― Digo pegando o caderno. ― Primeiro foi um ‘’H’’ que estava preso em uma rachadura do espelho do banheiro, mas como viram o espelho está intacto. Outro foi ontem, uma menina me trouxe o papel com o número ‘’7’’, e chorou pedindo para que eu ajudasse essa menina. E eu preciso da ajuda de vocês para decifrar isso.
― Espera um pouco. Você guardou as cartas? ― Pergunta Bruno atento em cada palavra que eu dizia.
― Sim. ― Respondo sem cerimônia.
― Por quê? ― Grita Bruno arregalando os olhos.
― Eu... Eu não sei. O que tem de mal nisso? ― Sinto um calafrio percorrer minha espinha.
― Você não sabe quem é essa menina, e guarda coisas dela. Você já parou para pensar no que ela é? ― Bruno continuava a gritar.
― Como assim o que ela é? ― Fico confuso. O que ele queria dizer sobre isso? ― Ela é uma menina normal que gosta de mim só isso.
― Porque não a responde então? ― Foi a vez de Rafael se pronunciar. Eu havia chamado esses caras para me ajudar exatamente por que eles entendiam de tudo. E eu sabia que eles já estavam entendendo.
― Por que não há informações sobre ela. ― Responde Bruno por mim. ― Leia algumas cartas para mim por favor.
― Ué, porque você não lê seu folgado? ― Indaga Rafael.
― Eu prefiro não tocar nelas.
― Tudo bem eu leio. ― Pego então uma carta, respiro fundo e começo a leitura em voz alta.
‘’13 de novembro.
Olá Thomas, desculpe por eu ter me afastado algumas semanas de você, mas é que durante esses dias eu tive alguns problemas respiratórios. Já devo ter comentado, mas eu sou muito fraca, na verdade eu fiquei muito fraca desde que me mudei. O lugar onde vivo é muito sombrio, e as pessoas que vivem aqui são todas estranhas e assustadoras, meu corpo vive arrepiado por isso. Eu queria muito poder te ver, mas para isso eu preciso sair daqui, e no lugar onde vivo é complicado fazer isso. ‘’
― Leia outra. ― Pede Bruno.
‘’ 25 de dezembro
Olá querido, hoje é natal não é? Eu queria muito poder abraçá-lo e entregar meu presente a você, poder celebrar esse dia tão especial para os Cristãos junto a você, como nos velhos tempos. Queria sentir seu perfume. Será que usa o mesmo? Ou correr até a árvore de natal e esperar o papai Noel chegar, mas já estamos bem grandinhos para isso não é? É uma pena. Eu queria poder estar junto a minha família também, estou com saudades... Queria muito ir até você nesse momento, mas já devo ter comentado, eu sou muito fraca para ir sozinha, e o lugar onde eu vivo é sombrio, simplesmente não consigo... Um beijo, feliz natal.’’
― Espera um pouco... ― Bruno olha para Rafael com um olhar de espanto. ― Eles se conhecem.
― É o que parece mesmo. ― Diz Rafael. Sua expressão havia mudado totalmente e isso me deixou agoniado. ― Leia mais uma.
‘’ 02 de janeiro.
Adivinha Thomas... Ouvi minha mãe chorar. Um choro preocupado e triste e era sobre mim. Ela pedia para alguém que esperasse por mais uns meses e se nada acontecesse podiam desistir. Eu não entendi muito bem, mas estou com medo. Já devo ter comentado, eu sou muito fraca para me defender sozinha, e o lugar onde vivo é sombrio, eu não poderia sair para defender-me, então estou com medo. Muito medo. ‘’
― Perceberam o mesmo que eu? ― Pergunta Bruno olhando de relance para mim. ― Leia mais uma.
‘’08 de março.
Oi Thomas. Eu comecei a observar mais o broto que surgiu do nada lá onde eu vivo. Parece uma erva daninha, combina com o lugar sombrio, mas eu não posso tocá-la, já devo ter comentado que sou muito fraca para isso. Eu espero que seja uma flor. Uma flor bem bonita. Eu preciso de algo que me acalme nesse lugar, senão não vou aguentar por muito tempo, estou me esforçando muito para continuar no lugar onde você vive. ‘’
― Virou um padrão das cartas dela. ― Diz Rafael pensativo. ― Ela sempre fala de como é fraca para realizar uma ação, e também de como o lugar onde vive é sombrio.
― Que lugar é esse afinal? ― Indaga Bruno para ninguém em particular.
― Espera. ― Rafael arregala os olhos. ― Se ela é fraca demais para fazer qualquer coisa, como escreveu as cartas?
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