Fragmentos

5 Os pesadelos de Yukine


A primeira vista era negro.

Um breu sem um fiapo de luz sequer, encobrindo tudo ao seu redor enquanto se apoderava de todos os seus sentidos, ele nem ao menos sabia onde estava, seus dedos deveriam estar em carne viva de tanto buscar por uma saída em vão.

O ar lhe faltava enquanto que o desespero crescia, e ao fundo de sua mente ele jurava que já passara pela mesma situação.

Alguém o trancava na escuridão, uma pessoa que deveria zelar por ele.

E ele tinha tanto medo.

Aquele pesadelo parecia ser eterno e somente esse pensamento fazia a situação se tornar ainda mais angustiante.

Ele só queria que alguém o salvasse, o tirasse daquela escuridão.

"Yukine, se acalme", uma voz tranquila o assegurava em algum lugar distante, "não precisa ter medo, eu sempre vou estar aqui."

O ar parecera retornar aos seus pulmões com força total e seus olhos se abriram conseguindo distinguir luz de sombras, fazendo lágrimas escorrerem deles.

Estava tudo bem, ele estava no quarto que Kofuku cedera a ele, a janela estava aberta mostrando um céu estrelado e bem ao seu lado estava Yato, sorrindo enquanto bagunçava seus fios louros.

Fora um pesadelo, mas agora ele estava acordado. Por um longo momento ele pensou que seu fim estava próximo e-

— Você me assustou! Pensei que 'tava tendo um treco — por mais que quisesse soar calmo, ele sabia que havia algo de errado com Yukine, ele sentira isso enquanto o observava lutar contra o pesadelo que tivera.

Por isso abrira a janela antes de tentar se comunicar com o garoto. Seu instinto de querer protege-lo era tamanho que não conseguia suportar vê-lo daquele jeito, não sem fazer algo a respeito.

Os olhos tão expressivos dele ainda vislumbravam a sombra do pesadelo.

— Tem algo 'pra me dizer?

— Não, eu acho. Eu tô bem.

— Certeza?

Yukine parecia mensurar seus pensamentos rapidamente, temendo estes serem lidos por seu mestre enquanto o fazia.

— Me diga Yato, você realmente vai estar sempre comigo?

— Por que você duvida disso? Tem algo a ver com o seu pesadelo, não é? — ele sabia que algo não batia, Yukine não estava bem e sua insegurança deixava isso bem claro.

Aquela conversa, diferente de muitas outras que tiveram, não era calorosa e muito menos estava resultando a chutes e pontapés. Parecia mais madura e sensata, para ambas as partes.

Porém, Yato não esperava que Yukine sempre tão evasivo quanto a afeto, o abraçasse daquela forma. Se agarrando fortemente a ele, como se fosse uma boia salva vidas. E haviam lágrimas ali, soluços fortes se faziam ouvir enquanto ele balançava a cabeça para os lados.

— Por favor, não me deixe sozinho. Você é tudo o que tenho e não quero que me deixe, por favor Yato, não me deixe! — o garoto dizia como um mantra.

O deus sabia que ficar selado naquela caixa pequena, mesmo que por minutos, havia causado um dano tremendo a consciência de sua shinki. Yukine não agiria dessa forma caso tal evento não houvesse ocorrido.

Ele sabia que Yukine não suportava a escuridão, ele vira e sentira o desespero dele quando o nomeou.

— E isso é tudo?

Seus olhares se encontraram, e os olhos cor de mel diziam tanta coisa, mas seu medo prevalecia acima de qualquer outro sentimento.

— Você é um deus tão idiota, que é capaz de deixar sua única shinki sozinha por temer perdê-la. Yato, eu só posso ser forte se você quiser que eu seja. Eu dependo de você, assim como você depende de mim. Mas eu não gosto do escuro, e não gosto de ficar sozinho nele, então não faça isso comigo outra vez!

Naquele momento, Yato gostaria de poder rir das palavras dele. Sendo este um dos raros momentos onde ele deixava seu emocional falar mais alto. Era algo tão incomum que ele gostaria de poder guardar consigo, junto das lembranças felizes que tinha dele.

— Eu não quero te perder, Yukine. E não quero deixá-lo vulnerável dessa forma, eu sei o quão poderoso você é, só que isso não justifica o seu sacrifício. Você já fez isso uma vez e foi o suficiente.

A shinki se afastara brevemente de seu mestre, rindo sem muito humor.

— Acho que chegamos a um empasse.

— Pois é, o que eu faço agora?

— Fique, e a gente pensa em um plano melhor.

Naquela noite, tanto divindade quanto shinki dormiram juntos e, enquanto afagava a cabeça de Yukine, ele não conseguia enxergá-lo como uma alternativa. Teria de existir outra. Uma onde ao menos um deles sobrevivesse.

Um pensamento ecoara mais uma vez em sua mente, enquanto ia de encontro a terra dos sonhos.

"Só não se esqueça de que fui eu quem lhe deu seu nome, e de que o chamarei quantas vezes forem necessárias".