Fragmento oral.

1 Capítulo Único: Sala de aula.


Fragmento oral.

Capítulo Único: Sala de aula.

É uma noite morna, literal e figurativamente falando. O professor explica sobre matrizes em uma rápida revisão para adentrar em conteúdos mais avançados. Uma garoa fina e constante escorre do céu até o chão.

Como as gotas são fracas, poucas delas deixam rastros visíveis nas janelas.

“Sem o domínio das matrizes fica difícil de fazer certos tipos de algoritmos.”

Meus olhos castanhos vacilam em ficar abertos, sinto vontade de me levantar e ir embora, mas já estou estourado de faltas, preciso ficar.

Devo ficar, tenho de ficar.

Minha letra mais parece um garrancho ilegível, porém eu entendo o que está escrito e é isso tudo que importa no momento.

“Vocês entregarão dois trabalhos sobre matrizes na semana que vem. Eles podem ser digitados, entretanto não quero copia e cola da internet. Vocês sabem que eu leio trabalho por trabalho.”

Uma chuva que não é forte o bastante para acabar com a energia elétrica da escola técnica, dois trabalhos para entregar. Céus! Como a vida pode ser insossa e estável às vezes. Reclamar é um remédio até que eficiente para espantar o sono.

Anoto os conteúdos dos trabalhos com cuidado por mais que o meu corpo implore repouso. Não estou tão estudioso assim para relaxar com estes trabalhos menores.

“Professor estamos atribulados com o TCC, os trabalhos não podem ser enviados via e-mail, não?”

O som do giz risca a lousa enquanto a pergunta fica em silêncio. O professor coça o queixo com o dedão, ele vai facilitar para nós. O professor Otávio é um cara muito bacana.

“Sei que vocês estão ocupados com o trabalho de conclusão e já vão ter que afrouxar as carteiras com os trabalhos finais dos outros professores, também. Por isso, enviem tudo para o meu e-mail. Sem atrasos. Estamos entendidos?”

“Valeu!”

As vozes dos poucos estudantes e do professor em concordância levam mais um pouco do meu cansaço embora.

“Raul! Raul!”

Escrevo a resposta dos exercícios no caderno. Fico surpreso de conseguir resolver matrizes bem, apesar de que hoje o que eu menos fiz, foi prestar atenção na aula.

“Raul, cê pode me ajudar?”

Viro a cabeça para o lado direito e automaticamente sorrio um pouco.

“Claro Ana! Posso sim.”

A jovem mulher do meu lado direito coloca uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha e retribui o meu sorriso.

“Não estou conseguindo fazer o exercício três. Você resolveu ele?”

“Sim eu consegui. Que dúvida você tem?”

Observo o caderno dela e o início da resposta. Ela confundiu o tipo de matriz, por isso não conseguiu chegar a resposta correta.

Explico o passo a passo da solução para ela e resolvemos os outros seis exercícios juntos. Esqueci de mencionar que assim que ofereci ajuda, nós juntamos as nossas carteiras. O cheiro adorável e a voz melodiosa da Ana tornaram a sala da aula branca e azul mais agradável do que ela tem qualquer direito de ser nesta noite chuvosa.

Assim que os nossos lápis repousam nas carteiras, o sinal toca. Vemos o professor pegar a sua pasta, se despedir dos alunos e sair. Como que por imitação, os outros quinze, dezessete alunos saem para comer, conversar, namorar ou simplesmente caminhar um pouco.

“Não vai sair?”

Ela me pergunta enquanto olha as redes sociais rapidamente.

“Estou tão cansado mentalmente que nem sinto vontade. Acho que vou ficar por aqui.”

“Sabe? Estou com preguiça também. Não vou sair, não.”

As unhas pintadas de vermelho e o cheiro agradável dela inspiram a minha cabeça a vagar em pensamentos que vão das situações românticas, até as mais pervertidas possíveis.

“Ei! O que tanto você olha para as minhas pernas, mãos e braços?”

Saio do transe e movo a cabeça levemente para trás. Jurei que tinha sido sutil ao observá-la.

Vou dar uma resposta formal e evitar que ela tenha uma má impressão de mim. Afinal, foi não ser um pervertido que fez com que ficássemos amigos, bem amigos.

“Nada demais... É só que eu queria sentir o seu gosto.”

Eu enlouqueci? Por que falei algo tão estúpido assim?

Um silêncio ensurdecedor foi instalado entre nós dois, e a atmosfera amistosa parece algum tipo de mito bem distante.

“Quer dizer, eu queria comer um doce! É isso! Eu juro!”

O som das nossas carteiras coladas de novo, me fez pensar que cometi o pior dos atos falhos na vida. Ela vai me dar um baita sermão e nunca mais vamos conversar. Não como amigos, pelo menos.

“Não acho que você tenha dito por mal. Então...”

Ela acaricia o meu rosto com os dedos polegar, indicador e médio e olha de forma levemente sedutora.

“Então, você me acha doce?”

“Eu… Ah, para que negar? Acho sim.”

As carícias continuam. Como que por instinto, começo a acariciar o rosto dela também. Nossas respirações estão bem próximas.

“Você é um cara bem legal. Nunca tentou comprar a minha intimidade com frases baratas. E me ajuda sempre que pode, eu gosto desses lados seus.”

“Também gosto do seu jeito flexível. Você não vem conversar com os caras com uma lista de proibições e não me toques.”

Sorrimos ao mesmo tempo, e as carícias voltam a acontecer.

“Estamos na reta final deste curso, e nossa amizade tem sido muito benéfica. Quer elevá-la?”

“Como assim?”

“Assim”

Ela beija os meus lábios lenta e carinhosamente.

Em instantes, faço o mesmo e sinto o sabor incrível da boca dela. Nos separamos e trocamos beijos breves nos cantos dos nossos lábios por volta de seis vezes.

“Foi incrível, mas você tinha dito para mim logo que nos conhecemos que não tinha interesse em namorados por agora.”

Inclino a cabeça com dúvidas estampadas na minha expressão confusa.

“E não quero. A minha opinião continua a mesma. Namoros formais são muito problemáticos.”

Eu ainda não entendi. Antes de fazer mais algum questionamento, ela explica de forma alegre e direta.

“Seu bobo! Podemos ser amigos com benefícios. Nos damos muito bem, mas gostamos de ter o nosso espaço. O que me diz?”

“Já ouvi falar destas tais amizades. Então eu topo.”

Ela desliza a mão do meu peito, até os meus lábios e me beija de novo.

“Vamos nos divertir bastante então, Raul!”

Enquanto nos beijamos, não consigo deixar de reparar na mão dela. Os dedos são finos, pequeninos e me despertam o mesmo apetite que os lábios com sabor tão adocicado.

Em outra pausa dos nossos beijos esfomeados, retiro o meu celular do bolso, olho o relógio e fico surpreso que ainda faltem cinco minutos para o intervalo acabar. Subitamente, seguro a mão esquerda dela e levo dedo indicador com a unha pintada de vermelho à boca.

Chupo o dedo lentamente, sinto o gosto também agradável, e a cada segundo, movo a minha língua para cima e para baixo.

Ouvir os sons pervertidos é tão proveitoso quanto produzi-los.

“Nossa! Como o meu novo amigo com benefícios é criativo! Não para, vai!”

Chupo o dedo em um ritmo alternado, misturo chupadas rápidas e lentas e quando estou para avançar para o próximo, sinto a outra mão dela a fazer carícias na minha nuca.

“ Isso, Raul! Chupa com gosto! Se soubesse que isso era tão bom, teria pedido algo do tipo antes.”

Após mais dois, três minutos daquele oral improvisado, retiro a minha boca do dedo indicador da Ana. Ela olha para mim como um olhar simultaneamente gracioso e pervertido.

“Amei! Pena que o sinal já vai tocar. Estava tão bom.”

Sorrio para a detentora dos cabelos castanhos e a beijo com ênfase nas mordidas nos lábios úmidos e viciantes.

“Podemos brincar assim nos dias seguintes de aula.”

Sem dizer mais nada, ela chupa a minha língua por alguns segundos e balança a cabeça em concordância comigo.

No retorno do intervalo…

A chuva frágil continua a cair, e eu não possuo mais a menor vontade de ir embora por tédio ou cansaço. Nossas carteiras continuam juntas, fazemos as anotações da professora das duas últimas aulas da noite. A ansiedade pelo bater do sinal está estampada em nossos rostos.

Fico em leve estado de euforia quando ela escreve no meu caderno. Nunca tinha reparado como a letra dela também é bonita.

“Raul, me chupa mais um pouco hoje? Do jeitinho que você fez no intervalo.”

Tomado de êxtase, deslizo os meus olhos pelo decote sutilmente generoso da blusa lilás que ela veste, passo pelas mãos e aterrizo a minha atenção visual no belo par de pernas, par realçado pela calça jeans cinza.

“Te chupo o quanto você quiser, sempre que você quiser.”

“Fofo!”

A resposta me excitou e fez o meu coração bater um pouco mais rápido. Sensação que a Ana é bastante hábil em provocar. Sorrio sem me dar conta. Nunca imaginei que um ato falho bobo fosse capaz de me conduzir para um momento de felicidade e tesão tão recíprocos.

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