Fragmentação

1 Capítulo Único


Fragmentação

— Pérola.... PÉROLA?!

Enquanto o prato de mingau se espatifava no chão, em mil pedaços, Ametista correu até a cama, para amparar a amiga.

Pérola estava caída no piso, tremendo.

....

Ametista a colocou de volta na cama e deitou – se ao seu lado.

Depois, ela cobriu ambas com um edredom.

Ficaram ali, abraçadas por um tempo, até que Pérola esboçasse alguma reação.

A rachadura da pedra de Pérola estava aumentando. Se continuasse a crescer, ela se desmaterializaria. Permanentemente.

—.... Frio.... Está.... Frio....

A gem abraçou se aproximou ainda mais, na esperança que seu corpo, em complemento ao edredom, fosse o bastante para aquecê-la.

— Melhorou? – Perguntou Ametista.

— Sim.... Obrigada.

....

— Eu sinto muito.

As lágrimas escorriam do rosto de Pérola, mas não tão rápido como as de Ametista.

A rachadura alcançara se clímax.

Era hora de encarar a realidade. Garnet e as outras não conseguiriam trazer Steven de volta a tempo.

— Tudo bem. Só descansa, tá bom? A Garnet vai voltar.

Pérola balançou a cabeça, insistentemente.

— Não, você não entende. Eu escondi muitas coisas.

Você precisa saber....

— Cala a boca.... CALA A BOCA! Você não vai morrer. Não haja como se essa fosse a nossa última conversa. Eu ainda vou ouvir muitos sermões seus!

— Eu te odiava, quando era pequena.

Porque você se parecia mais com a Rose do que eu....

Não que Ametista não soubesse. Ela se lembrava do olhar agressivo da amiga, quando criança.

Um olhar de puro ódio.

— Mas você é uma quartzo depois de tudo. Então um dia eu percebi.

Você era só uma criança assustada, nascida no meio da guerra.

O nosso pequeno milagre....

Pérola começou a tossir. A amiga a limpou com um lenço.

Um pequeno pedaço de tecido branco que estava ficando vermelho à medida que ela tossia.

— Eu fui.... Fui rude com você, porque queria te preparar.

Não será eu quem vai liderar as Gems na guerra. Ou Garnet.

Serão você e o Steven. Os quartzos....

— Pára de falar.... Você vai estar lá com a gente.

Em meio a tosse, Pérola esboçou um sorriso.

— Não sou uma guerreira. Nunca fui. Só fingir ser.

Eu sou uma empregada. Uma copeira. Mas eu queria estar lá com vocês, no campo de batalha.... Desculpa.... Eu tentei, juro que tentei....

Ametista deixou que as lágrimas dela cobrissem Pérola.

Esperava que um milagre ocorresse. Que talvez, naquele momento, seu choro curasse Pérola.

Uma esperança, fútil. Ela não tinha lágrimas curativas.

Nem mesmo saliva.

Já tentara isso. E muito. Chegou a se automutilar, apenas para chorar.

Para gerar mais lágrimas.

Nunca dera certo. E não seria agora que daria.

— Você vai viver. Eu não cuidei de você essa semana à toa.

Está me devendo. Você melhorar e ser a minha Pérola de estimação por uma semana.

Então, não se atreva a morrer, você me deve isso!

Mais uma vez, Pérola riu. Dessa vez, até Ametista a acompanhou.

Era o que sempre gostava nela.

Ametista sempre a fazia rir.

— Eu sempre te amei, mas nunca demonstrei.... Me perdoa.

— E eu sempre quebrava as coisas para chamar a sua atenção. Do contrário, você não me enxergava.

— Eu sempre te enxerguei, Ametista. Desculpa se eu.... Se eu.... AHHHHHH!!!!!!!

A pedra de Pérola começou a perder a cor.

Esta começou a se debater, descontroladamente, na cama.

Ametista tentou segurar o mais forte que conseguia, mas as convulsões eram muito fortes.

Com os dentes trincando, eles logo quebrariam.

Sem saber exatamente o que fazer, a gem tentou segurar o rosto de Pérola.

No entanto, o movimento estava tão violento que ela acabou mordendo o pulso de Ametista.

Ela cravou forte o maxilar. E fundo.

Um filete de sangue começou a escorrer por entre os dentes.

Ametista não reagiu, mas se surpreendeu ao notar que a cor da Pedra desbotada estava voltando à tona.

De repente, as convulsões começaram a diminuir.

....

— Pérola, você está bem?

— Eu.... Estou me sentindo... Melhor? Eu não entendo.

Estava me sentindo péssima, daí eu te mordi e....

Num estalo genial, Ametista levantou-se da cama.

— Eu já sei!

— O que?

— Eu posso te curar! Eu posso!

— Como?

Ametista voltou a se sentar, mas dessa vez de costas para Pérola.

Ela jogou o cabelo para frente do rosto, deixando o pescoço a mostra.

— Anda, me morde!

— O que? Essa é a sua ideia?!

— Você melhorou quando quase arrancou um pedaço do meu braço!

Eu tenho sangue curativo! Anda logo e me morde de uma vez!

— Não! De jeito nenhum, eu….

Com o efeito já passando, Pérola sentia os espasmos retornarem. Logo perderia mais uma vez o controle do corpo.

Ela não queria machucar a amiga, mas também não queria desistir.

E na falta de ideia melhor, ela o fez.

Ametista sentiu os dentes cravarem como as presas de um animal. Pouco a pouco, Pérola sugava o sangue da gem e, a cada gota, a rachadura ia desaparecendo.

....

Após sugar por alguns minutos, um brilho enorme tomou conta do quarto.

A pedra na cabeça de Pérola estava intacta.

Ametista quase caiu de cara no chão, se não fosse pela segurada firme de Pérola.

— Esse foi, definitivamente, um chupão e tanto....

— Cala a boca Ametista, não me faça rir agora.

Ela se virou a agarrou Pérola pela cintura.

— Eu posso curar com meu sangue.

Sabe o que isso significa? Eu sou uma vampira!

— Tecnicamente, eu bebi o sangue....

— Então eu sou uma vampira invertida!

Pérola não conseguiu segurar e talhou a rir.

— Vamos concordar em discordar – Disse.

— E você vai ter que ser a minha Pérola de estimação por uma semana!

— É mesmo?

— Isso aí! Agora é a sua vez de cuidar de mim!

Pérola olhou Ametista olhos nos olhos e a beijou.

Já queria fazer isso a muito tempo, e nunca mais perderia essa oportunidade na vida.

— Tudo bem, sou sua Pérola. Mas só porque você é a minha Ametista.

Ela se aconchegou ainda mais nos braços da amada.

— Pra mim tá ótimo. E o que faremos agora?

— Vamos descansar um pouco, antes de ir atrás das outras.

Foi uma manhã estressante.

Elas se beijaram mais uma vez antes de voltar para debaixo das cobertas.

....

Garnet e Steven olharam rapidamente para as duas e saíram discretamente do quarto, fechando a porta suavemente.

— É melhor deixemos que elas descansem – Disse Garnet.

— Não entendi – Disse Steven – Como a Pérola se curou sozinha?

— Quando elas levantarem, nós perguntamos.

— E o que a gente faz com as convidadas?

Garnet parou na pensar um pouco na missão.

Junto com as outras Gems, tinha resgatado Steven de Homeworld....

.... Bem como as outras cinco Rose Quartz, agora sentadas no sofá da sala de estar.

— Depois a gente pensa nisso – Ela respondeu.

O que temos para servi-las? Elas devem estar com fome.

Steven foi até a cozinha e deu uma olhada na panela ainda quente, em cima do fogão.

— Temos mingau.

Garnet deu de ombros.

— Já é um começo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!