Notas iniciais
Desculpem pela demora, leitores. Mas final de semestre e escrevendo outro livro... tensão! :)

Eu tive muitas coisas difíceis na minha vida. A perda do meu pai causou um sofrimento com o qual eu não soube lidar. E então eu me apaixonei por um anjo caído que queria me matar, minhas memórias foram apagadas por arcanjos, namorei um Nefilim por mais de um ano e reencontrei meu amor do passado – de quem eu não me lembrava, ainda. Apaixonei-me por ele de novo, o que era impressionante até mesmo para mim, e quase fui morta por um anjo da morte ciumento. Fui salva pelos mesmos arcanjos que estavam brincando de Deus com minha filha – a criança fruto do meu amor por Patch, que era tudo menos uma criança normal.

E, apesar de tudo isso, a minha vida naqueles últimos meses estava ridiculamente tediosa. Eu me graduei e não comecei a trabalhar, porque estava enorme. Ninguém contrataria uma mulher prestes a dar à luz. Comecei uma pós-graduação na Universidade, na intenção de envolver-me com pesquisa e conseguir uma bolsa de estudos. Eu estava acostumada a viver com poucos recursos, mas havia outras preocupações na minha cabeça. Rose.

Patch ganhava a vida da mesma forma. Segundo ele, era tudo que ele sabia fazer.

— Sou um jogador, anjo. Você já sabia disso quando se apaixonou por mim. – Ele disse, uma vez, enquanto colocava o boné azul na cabeça e escondia os cachos negros que eu adorava. Rose tinha apenas dois dias de nascida e ele já estava saindo de noite para jogar pôquer. – Não há muitas coisas que um anjo caído possa fazer.

— Você não é mais imortal. – Protestei. – Você pode se ferir, e fica se metendo com gente barra pesada. Eu detesto isso, Patch!

— Alguém precisa ganhar dinheiro para sustentar nossa filha. – Ele sorriu parcialmente, erguendo os cantos dos lábios, e beijou-me na testa. – Vamos, Nora, não seja teimosa. Você não insistiu em chamar sua mãe para ajudar? Então, ela pode cuidar de vocês enquanto eu me viro por aí.

E era assim, todo dia praticamente, desde que Rose completou quinze dias de vida. Patch sempre saía para jogar, e ele jogava bem. Pôquer era o seu favorito, mas ele também apostava em cavalos e jogava sinuca. Eu já o tinha visto jogar várias vezes, mesmo sob os protestos dele – um botequim frequentado pela escória não era exatamente o lugar certo para eu frequentar, segundo as concepções morais de Patch. Mas eu não estava nem um pouco interessada em permitir que ele ficasse no meio das garotas que frequentavam aqueles lugares sem a presença de sua mulher. Eu.

Aquele também não era um lugar para um homem casado, com uma filha.

Bem, eu não era tecnicamente a mulher de Patch. Nós não tínhamos laços civis. Morávamos juntos e tínhamos uma filha, mas não éramos casados. Aquilo não me importava, mas importava para minha mãe e para Vee. Quem diria que minha amiga poderia ser tão antiquada! Justo ela, que estava saindo com Rixon desde que o conheceu através de Patch, e que não se importava de considerar a ideia de fazer sexo com ele durante o Cheshvam, mesmo através de um vassalo Nefilim que ela ignorava o aspecto físico.

O problema todo deveria ser mesmo eu. Eu estava incomodando demais com aquilo que eu não podia mudar, e que, se eu mudasse, transformaria Patch em alguém totalmente diferente. Mas eu não conseguia evitar sentir ciúmes dele. Por algum motivo estranho, eu cheguei a considerar que o casamento poderia resolver a minha paranoia. Não era muito mais do que ciúmes, porque eu tinha certeza que ele sabia se virar muito bem. E, não bastasse meus hormônios me dizendo que eu devia desconfiar de Patch, ainda tinha minha mãe, que nunca aprovou mesmo meu relacionamento com ele. Com ela ficando em casa desde o final da gravidez, e eu passando o tempo todo ociosa, sem trabalhar, minha cabeça se tornou um terreno fértil para ela plantar a discórdia.

— Não entendo como você aceita isso, Nora. – Ela disse, durante o café, preparando cereal para mim. Rose estava dormindo, e ela tinha passado parte da noite acordada. Fazia algum tempo que ela dormia mal, mais precisamente uma semana. Eu estava de férias da minha pós, o que era uma bênção. Patch ainda não tinha chegado, e o sol já tinha nascido há algum tempo. Eu estava exausta, e preferia um café forte a uma linda e deliciosa tigela de cereais com morangos.

— É o trabalho dele, mãe. – Caminhei até a cafeteira, que estava desligada. Não havia nada na garrafa térmica. – Por que não podemos ter café nessa casa?

— Você precisa comer melhor, filha. – Blythe disse, sem desconcentrar-se de sua tarefa. – E café não vai ajudá-la a descansar enquanto o bebê dorme. Afinal, seu marido não está aqui para cuidar de você.

— Ele não é meu marido. – Eu disse, ignorando minha mãe e colocando pó na cafeteira. Eu precisava de alguma coisa para manter-me acesa.

— E você o chama de que? O cara que dormiu com você e te fez um filho?

— Eu sabia muito bem o que estávamos fazendo. E eu fui tão imprudente quanto ele. E ele assumiu a filha, mãe. Patch não é um canalha.

— Mas ele não casou com você. – Blythe virou-se para mim, empurrando o cereal na minha direção. Flocos de aveia e milho, sem açúcar, com leite de soja e morangos frescos cortados. Minha mãe era uma especialista em fazer a comida parecer mais bonita do que ela era. E em distorcer tudo, fazendo com que a sua compreensão da coisa fosse mais certa do que a verdade.

— Eu não quis me casar com ele. – Falei, mastigando os morangos, enquanto o café tornava a casa mais cheirosa. – Mas podemos ter essa conversa outra hora, ou nunca? Eu não quero discutir minha vida com Patch com você, mãe.

— Prefere discutir com Vee?

— Prefiro discutir com ninguém. – Coloquei outra colher de cereais na boca, e comecei a mastigar os flocos de milho. Antes que eu conseguisse consumir metade da tigela, ouvi o choro de Rose pela babá eletrônica. Eu nunca tinha achado a menor necessidade naquela geringonça, porque eu podia ouvi-la chorando do quarto, mesmo. Mas tinha sido ideia de Patch, e eu não conseguia reclamar por ele ser superprotetivo com nossa filha desejada pelos arcanjos. Coloquei as mãos no cabelo, puxei-os para trás sem a menor vaidade, e prendi minhas ondas rebeldes em um coque malfeito.

— Deixe-me ir até ela. – Minha mãe moveu-se em direção ao corredor que dava acesso aos quartos no mesmo instante em que a maçaneta da porta girou, e Patch entrou na sala. Os dois se entreolharam, sem falar nenhuma palavra. Rose ainda chorava.

— Qualquer um dos dois pode ir até ela, por favor. – Eu disse, da cozinha, arrastando-me até o café. Uma fraqueza súbita me abateu, como se fosse impossível manter-me acordada. – Apenas vejam se ela está bem, se precisa trocar a fralda, qualquer coisa.

Deitei a cabeça por sobre a mesa de alvenaria, sem me incomodar com o frio dos azulejos que gelou minha bochecha. Eu estava pior do que lixo; nem as moscas queriam voar ao meu redor. O café esfriava na caneca em minha mão, enquanto meus olhos se fechavam e eu começava a sonhar com um mundo onde eu podia dormir a noite inteira.

Minutos depois, senti mãos quentes me erguendo. Minha bochecha gelada tocou a pele suada do peito de Patch, e eu quase engasguei com o cheiro de tabaco e menta que invadiu minhas narinas. Fazia tempo que eu não sentia aquele cheiro dele, que me fez apaixonar imediatamente. Meu corpo foi suspendido no ar, e os braços fortes de Patch me seguravam, envolvendo-me em um abraço firme. Senti seus lábios em minha testa, muito quentes e úmidos. Aninhei-me em seu peito e relaxei, tentando continuar meu sonho de noites tranquilas e românticas ao lado dele. Elas tinham sido muito poucas nos últimos meses. E eu sentia tanta falta dele, na verdade, que mal podia medir minha carência.

Meu corpo repousou em um lugar macio. Era meu colchão; tinha o cheiro da minha roupa de cama, misturada com a loção pós-barba de Patch. O corpo dele ao meu lado estava mesmo suado, e cheirando também a bebida alcóolica. Eu não tinha muita certeza do que ele tinha feito até aquela hora, e os pensamentos estavam todos embolados com o que minha mãe tinha dito, e com o fato dele chegar sempre cheirando a mulher barata.

— Rose. – Eu balbuciei, notando que ela tinha parado de chorar.

— Dormindo, de novo. Está tudo bem. – Ele beijou a ponta do meu nariz e soltou o lápis que prendia meus cabelos. Seus dedos correram pelos fios longos e embaraçados, acariciando suavemente meu couro cabeludo. – Teve uma noite difícil, anjo?

Eu não respondi, daquela vez. Meu corpo buscou aconchego em Patch; envolvi-o pela cintura com os braços, deitei a cabeça em seu peito, sentindo a pele lisa em contato com a minha, ouvindo as batidas cadenciadas do seu coração, e entreguei-me ao sono compulsivamente. Por mais que eu quisesse implicar com ele, a necessidade de estar com ele era maior do que tudo. Continuei sonhando, com noites tranquilas e um campo de margaridas. Nada daquilo fazia sentido, porque eu não trocaria minha vida atual por vida nenhuma. Eu não trocaria as noites acordadas ao lado de Rose por noite nenhuma. Bem, talvez eu trocasse por uma noite de sexo com Patch, mas não era bem aquilo. Eu amava a vida como ela estava, então sonhar com vidas substitutas não deveria ser coisa minha.

Eu nem mesmo queria pensar se os arcanjos não estariam mexendo com minha cabeça.

Quando acordei, não sei quanto tempo depois, meus músculos estavam renovados. Minha cabeça estava pesada, mas eu não sentia mais dor pelo corpo. Virei o pescoço e afundei o nariz no peito de Patch; eu ainda estava na mesma posição. O cheiro de menta, hortelã, cerveja e cigarro nunca pareceu tão agradável – e eu costumava enjoar com aquele cheiro enquanto grávida. Patch estava proibido de ficar perto de pessoas que fumavam durante a gravidez, mas, naquele momento, eu estava entorpecida pelo tabaco. As mãos dele me acariciaram os cabelos mais uma vez, e foi como se eu nem mesmo tivesse dormido. Mas eu estava tão renovada que eu sabia que já devia ter passado da hora do almoço.

Abri parcialmente os lábios e beijei Patch. Ele estava com um sabor salgado na pele, devia ser suor. Movi-me na cama e o beijei novamente, várias vezes, sentindo que ele repuxava o corpo quando meus lábios tocavam algum ponto mais sensível.

— Faz cócegas. – Ele explicou, quando meus olhos se ergueram parcialmente, e eu me perdi encarando-o. Meus dedos cravaram na pele dele e continuei a beijá-lo, descendo os lábios para a barriga. Ele tinha uma barriga perfeita, firme, lisa, e fazia algum tempo que eu não usufruía de tudo aquilo. Os dedos escorregaram dos quadris de Patch para o cós dos jeans que ele usava, desabotoando-o com alguma habilidade. – Anjo, o que você está fazendo?

Ah, Patch. Sério, você não me perguntou isso. A pergunta era tão ridícula que não me dei o trabalho de respondê-la. Abri o zíper e continuei a beijá-lo, certificando-me que ele gemia toda vez. Puxei o elástico das boxers que ele usava e segurei-o em minhas mãos, com cuidado, afastando aquele monte de tecido que me atrapalhava trabalhar.

— Nora, estou falando sério. – Patch tinha a voz trêmula. – Eu estou um bocado sensível, anjo. E não é você que está sempre toda melindrosa porque sua mãe...

— Cale a boca, Patch. – Eu nem mesmo olhei para ele. Minha boca tinha coisa mais importante para fazer do que conversar, naquele momento. Rose estava prestes a completar um mês de vida, e eu tinha começado a rejeitar Patch quase dois meses antes do parto. Eu me sentia desconfortável, feia, inadequada. Ele mal conseguia me tocar, e nós sempre tínhamos sido hipersexualizados. E eu estava sempre tão chata, tão cheia de paranoias, que não me permitia aproveitá-lo em momentos como aquele.

Tudo que eu queria era ele, mas eu ainda não podia tê-lo. Não da forma como eu estava acostumada. Empenhei meus esforços em deixá-los satisfeito, então. Concentrei meu prazer em vê-lo segurar o colchão com força, a cada movimento da minha língua; em seu corpo arqueado e sua respiração abafada; no fato de que ele tentava reprimir alguns ruídos para não chamar a atenção de minha mãe.

Eu já tinha feito aquilo, claro, mas nunca até o fim. Foi uma experiência interessante, vê-lo ter prazer pelas minhas mãos, somente. Em um arrobo egoístico, eu cheguei a pensar se eu me sentiria da mesma forma se ele não sentisse nada fisicamente. Se eu soubesse que seus sentimentos eram apenas etéreos, emocionais, espirituais; eu conseguiria me deliciar tanto em fazer sexo oral nele? Provavelmente, certamente, não. Era bom porque eu podia sentir a respiração acelerada dele, porque eu podia senti-lo tremer em minhas mãos, porque eu podia ouvi-lo, e saber o que ele estava sentindo. Preferir que Patch fosse frágil e sensível era muito egoísmo de minha parte, mas eu preferia.

Sem me importar com a bagunça que eu tinha feito, arrastei-me por cima dele até alcançar a sua boca. Ele estava muito gostoso naquele início de tarde, ou eu estava, finalmente, descansada o suficiente para aproveitá-lo.

— O que foi isso? – Ele sussurrou para mim, com os lábios nos meus, encaixando meus quadris nos dele.

— Sinto saudades, Patch. – Continuei a beijá-lo de forma provocativa, como se eu pudesse dar a ele alguma coisa além daquilo que eu já tinha dado.

— Não sei exatamente o que você sonhou enquanto dormia, anjo, mas lembrarei de te dar café toda manhã.

— Não seja babaca. – Protestei, mordendo levemente seu lábio inferior. Minhas mãos seguravam sua nuca com força, puxando-o na minha direção. Ele tinha as mãos em meus quadris, e deslizou-as para minha calcinha, afastando o elástico de minha pele e tocando-me sem cerimônias. – Patch. – Eu travei as pernas ao redor dele, tensa.

— Está tudo bem, anjo. Eu só vou...

— Eu ainda não estou pronta, Patch. – Era o que minha boca dizia, e o que meu coração sentia. Mas meu corpo respondia ao toque dele, ansioso pelo estímulo que recebia.

— Pode deixar, eu não vou...

— Eu não estou pronta. – Enfatizei a última palavra, beijando seu pescoço, descendo para sua clavícula, passando a língua por seu peito. Acabei por desencaixar-me dele, escorregando para o lado da cama. Patch ergueu uma sobrancelha, encarando-me por breves segundos, com uma curiosidade genuína. Eu não podia esperar, mesmo, que ele compreendesse o significado daquilo. Eu me sentia inadequada. Ainda.

Mas ele rolou para cima de mim. Colou sua barriga na minha, permitindo atrito entre as boxers dele, já novamente no lugar, e minha roupa íntima. Deixei que ele me beijasse no pescoço, arqueando o corpo de forma a proporcionar a ele melhor área de contato. Era engraçado e esquisito, ao mesmo tempo, perceber que ele me respeitava. Que ele respeitava o fato de aquele corpo ali não pertencer mais somente a ele, apesar de eu saber que ele não aceitava muito bem me dividir com Rose.

De qualquer forma, eu não sabia o que ele poderia fazer comigo, então, se minha mãe não tivesse nos interrompido. Patch estava por sobre mim, sem camisa, com seus jeans escorregando pelos quadris, sua boxer meio abaixada, e ele me beijava de forma intensa, enquanto empurrava seu corpo contra o meu, fazendo-me afundar no colchão. Minhas roupas estavam meio no lugar, mas eu já tinha perdido a blusa que vestia em algum momento daquela brincadeira.

Blythe pigarreou, tão logo abriu a porta e nos pegou naquelas condições. Patch, habilidosamente, rolou para o lado ao mesmo tempo em que nos cobria com o lençol, embolado pela cama.

— Rose está com fome. – Mamãe disse, fazendo questão de olhar cada detalhe da cena que ela presenciava. Eu estava, provavelmente, além do vermelho pimentão. Eu tinha certeza que minhas bochechas estavam roxas.

— Já estou saindo, mãe. – Falei, afundando a face no peito de Patch, que se mantinha rígido e imóvel, como que me protegendo da minha própria vergonha. Blythe fechou a porta e saiu do quarto, mas eu ainda tremia um pouco. Tremia pelo que tinha acabado de fazer – e tinha sido tão bom, tão necessário – e pelo fato de que eu não podia mais ter aqueles momentos com Patch sem que alguém interrompesse.

Patch ergueu as sobrancelhas e me encarou.

— Trancar a porta. – Ele disse, beijando-me o nariz. – Essa será a primeira coisa que farei toda vez que entrar nesse quarto.

— Vou ver nossa filha. – Eu disse, tentando afastar-me dele o suficiente para conseguir me livrar daquela cama. Eu podia perder-me facilmente em Patch, e aquilo significaria outra sessão de amassos com ele. E, obviamente, o que ele estava tentando fazer comigo antes, e foi impedido.

— Nora. – Ele me chamou, enquanto eu tentava fazer um vestido passar por meus braços trêmulos. – Deite-se aqui. – Patch bateu com a mão no colchão. – Eu vou buscar Rose, você fica aqui quietinha. Depois, eu tomo um banho enquanto você a amamenta. E eu tomo conta dela, para você dormir mais um pouco.

— Parece que você já tem nossa vida planejada. – Sorri, arrastando-me para a cama. – Acho que vou aceitar, não estou apta a sair daqui agora.

— Eu te amo, anjo. – Ele beijou-me novamente, antes de levantar-se, abotoar os jeans e passar pela porta.

Minha filha era uma criança tão linda que eu podia passar horas olhando para ela sem conseguir compreender a sua beleza. Claro que eu sabia que ela não era uma criança comum, que a sua natureza angelical a devia tornar mais perfeita aos nossos olhos humanos medíocres. Mas, mesmo assim, ela era absurda. Os momentos em que eu ficava apenas segurando-a em meus braços, observando seus movimentos e seus olhinhos muito azuis que me seguiam, eram os melhores. Eu acho que podia ficar o dia inteiro com ela, somente nós duas, enquanto eu a admirava fazer nada.

Eu achava que não podia amar um dia alguém mais do que eu amava Patch, mas eu estava enganada. O meu amor por Rose era algo que eu ainda não havia experimentado.

Mas as dificuldades que uma família enfrentava eram realmente cansativas. E eu já estava começando a me cansar das conversas entre minha mãe e Patch. O problema era; eu precisava dos dois por ali. Eu não saberia o que fazer sem um deles. E nenhum dos dois aceitava isso; minha mãe acreditava que Patch era um atraso na minha vida, e Patch dizia que poderíamos dar conta de tudo sem minha mãe por perto.

— Blythe, nós precisamos traçar alguns limites nessa casa. – Ouvi Patch dizer. Eu não queria espiá-los, mas a casa estava silenciosa, Rose estava quase adormecida em meu peito, e eu estava já um pouco entediada. E cansada. – Você precisa respeitar as portas fechadas do meu quarto.

— Do quarto de Nora, você quer dizer. – Mamãe retrucou, como era de se esperar. Eu apenas ouvia, decidi não me levantar para não interferir na discussão. – E vocês têm uma criança para cuidar, não podem passar o dia trancados no quarto como se ninguém mais existisse.

— Ficamos poucas horas ali. E, se Rose precisasse de nós, eu chegaria até ela antes que qualquer outro.

— Nora ainda precisa de descanso. Você não pode forçá-la a...

— Forçá-la? – Patch interrompeu minha mãe, e eu podia imaginá-lo passando as duas mãos pelos cabelos pretos brilhantes. – Eu nunca forcei Nora a nada, e não estávamos fazendo absolutamente nada que pudesse interferir na sua recuperação.

— Então vocês não precisam de privacidade. Entenda, Patch, que minha filha precisa de mim, e eu estarei aqui para cuidar dela e da minha neta enquanto for necessário. Se eu tiver que entrar no quarto de vocês para isso, eu vou entrar. Se você conseguisse cuidar da casa, poderia me dar ordens. Mas, para quem passa as noites nos bares bebendo e jogando, você não tem muito argumento, tem?

Meu coração batia acelerado, e eu tinha certeza que aquela adrenalina toda iria ser prejudicial a Rose. Ela tinha acabado de dormir novamente, e bebês naquela idade só comiam, dormiam e choravam. Eu esperava, sinceramente, que ela não chorasse. Eu ainda precisava dormir, e estava com fome porque amamentar me esgotava, e ainda tinha que ouvir aquele tipo de briga que já estava uma constante na minha casa.

Levantei-me da cama e fui até o quarto de Rose para colocá-la no berço. Dava para ouvir Blythe na cozinha, preparando o almoço, que deveria ser uma de suas fantásticas saladas com folhas e frango empanado. Eu não ouvi Patch, nenhum sinal de que ele estaria por ali. Passei pelo corredor inteiro, e não havia nada na sala. A porta do banheiro estava aberta, e a luz apagada. Coloquei a cabeça para ver o que estava na cozinha, e mamãe realmente cozinhava, batendo as panelas de forma deselegante e fazendo mais barulho do que eu estava interessada em ouvir. E não havia sinal de Patch, apenas um cheiro delicioso de caldo de frango e especiarias.

Eu tinha errado o almoço. E não sabia onde estava Patch.

— Nora, venha comer. – Minha mãe, sensitiva, sabia que eu estava por perto. – Fiz sua sopa preferida, e você está precisando repor suas energias. Por vários motivos.

Ela sabia ser inconveniente. Eu não culpava Patch por irritar-se com ela. Eu me irritava, principalmente quando ela subliminarmente indicava que sabia que tínhamos feito sexo. Pior ainda quando nem era verdade.

— Onde está Patch? – Perguntei, sentando-me à bancada e encarando Blythe Grey e sua aparência jovem demais para ser uma avó. Eu provavelmente tinha acelerado as coisas para ela mais do que ela esperava.

— Saiu.

— Só isso? Ele saiu? – Comecei a mastigar uma cenoura crua. – Mãe, você precisa aprender a tratá-lo bem. Fica impossível tê-la aqui em casa desse jeito. Não me faça escolher entre vocês dois, por favor.

Blythe não falou mais nada depois disso. Serviu um prato de sopa fumegante para mim, e colocou os croutons em um potinho, sabendo que eu gostava de misturá-los aos poucos com a comida. Havia suco de morango com hortelã, e eu estava como que em casa, na casa dos meus pais, outra vez. Como se eu tivesse quatorze anos, papai fosse vivo, nossa família fosse perfeita, e eu fosse completamente feliz. O saudosismo daquele momento colocou mais informações inúteis na minha cabeça, fazendo-me considerar se eu não era feliz, então, com minha família nova.

Aquela constatação, verdadeira ou falsa, deixou o almoço com um sabor amargo. Foi difícil engolir a sopa, e foi difícil desentalar dos pãezinhos fritos no alho, que pareciam cravejados de espinhos finos, que me arranhavam por dentro e faziam queimar como fogo. Eu me julgava a mulher mais feliz e realizada do mundo desde que redescobri Patch, mesmo com todos os problemas que enfrentamos. Na verdade, eu tinha certeza que aqueles problemas só serviam para comprovar o quanto éramos feitos um para o outro; o quanto pertencíamos um ao outro. Se nós tínhamos ultrapassado todas aquelas etapas juntos, nada mais poderia nos separar.

Disse à minha mãe que iria dormir um pouco mais, e pedi que ela me chamasse se Rose acordasse precisando da mãe. Fui para a cama e afundei a cabeça no travesseiro, desejando fazer evaporar aqueles pensamentos ridículos que eu não sabia o que estavam fazendo ali. Eu estava quase acreditando mesmo que os arcanjos estavam brincando comigo, de novo.