Fractals
3 Fractal 3 - FRACTAL SAND SEA
Snow caminhava incessantemente por aquele deserto de areia desde que encontrou o pequeno Grumlin. Não sabia quanto tempo passou caminhando, nem sabia, ao certo, se apenas se passara dias, horas ou minutos. Deveria ser dias, todavia. Ah, sim, dias. Incontáveis dias, pois foi tempo suficiente para esquecer algumas passagens do quê o pequeno ser havia dito-lhe, isso porque não parava de pensar sobre... o quê era mesmo? Ah, sim! A PROFECIA! Sim, o ser pequenino explicara o porquê daquele mundo ter se transformado num deserto e do porquê.... hum, não me recordo, muito menos o nosso caro aventureiro.
O rapaz, certamente, econtrava-se numa situação kafkiana: Não sabia o que havia acontecido, não sabia o que estava acontecendo e não sabia o que aconteceria. Não tinha respostas. Não sabia se teria respostas para sanar todas as suas dúvidas.
O calor daquele lugar era extremamente escaldante. O sol vermelho, que pairava sobre o céu límpido, radiava dez vezes mais calor que o sol do "mundo real", e este, por sua vez, era refletido pelos infinitos grãos de areia que compunham aquele extenso mar ocre. Não escutava nenhum som que não fosse de uma brisa que, em tempos em tempos, singelamente, passava e cortava aquele calor, refrescando o ambiente por alguns poucos segundos.
Seus pés já não aguentavam mais aquele desgaste ocasionado pelo atrito da areia quente. Já estavam em carne viva. Bolhas? Quem dera se tivesse bolhas, seria bem melhor ter queimaduras de primeiro grau àqueles ferimentos. Isso, porém, não desanimava Snow de continuar andando, pois tinha esperança de que alí, naquele mesmo lugar, encontraria a resposta para todas as suas perguntas.
A sede consumia seu corpo. A fome devorava-o internamente. Snow daria qualquer coisa por um sorvete de ninho trufado caseiro que a sua mãe fazia. Queria água. Apenas água para saciar aquela sede que sentia. Tentou algumas vezes lamber algumas gotas de suor que escorriam pelo seu rosto até o canto de sua boca, mas quando a língua sentia aquele gosto agridoce, a reação era de cuspir e isso aumentava ainda mais a sua sede.
Curiosamente, o sol vermelho não saía do lugar. Estava tangenciando aquela terra desde que Snow se dera conta de onde estava. Tinha certeza de que passaram-se horas, possivelmente dias, pois não era possível que aquele tempo todo fosse apenas cinco minutos de devaneios. O tempo naquele lugar passasse de maneira diferente, talvez, igual quando se está perto e dentro de um buraco negro.
Andou, andou, andou... quanto mais andava, mais pensava em como acordar daquele sonho. Aquilo tudo só poderia ser um sonho, não tinha outra explicação. Sim, um sonho! Este pensamento foi o suficiente para fazer com que o rapaz começasse a se beliscar. Beliscava-se com a premissa de então acabar acordando daquele pesadelo. Beliscou-se tanto, que a pele já havia perdido a sensibilidade. Dor, sede, calor, cansaço, dores de cabeça pela excessiva perda de líquido, isso era o que Snow enfrentava.
(Ah, meu Deus. Como eu poderia criar uma situação tão agonizante para um personagem fictício sequer?)
Ao longe, onde o horizonte tinha início e fim, perto do fim do mundo, Snow avistou uma pequena construção ao meio daquele lugar nenhum. Enfim, um pouco de esperança havia brotado em seu coração e o ânimo havia feito querer seguir adiante até aquele lugar. Começou, então, a correr mesmo sentindo dor. Tirou forças que restavam do seu âmago para continuar sua jornada até aquela construção misteriosa.
Será que lá encontraria algo que findasse as suas aflições e colocasse fim aquele desgastante pesadelo? Nem que aquilo fosse uma miragem, mas ele iria até o fim, pois sabia que não tinha mais nada a perder. Talvez, ao chegar lá, ele se deparasse com algum portal que, ao atravessá-lo, o levaria a qualquer lugar, nem que fosse para a sua própria casa, mas, sim, para algum local que fosse diferente de onde estava.
Não aguentava mais pisar nas areias daquele deserto. Por infortúnio, ao correr, Snow deu um passo em falso o quê o fez desequilibrar-se e cair com o rosto direto naquele chão quente. Se antes estava com fome, agora não estaria mais, já que acabou, infelizmente, comendo um bocado de grãos de areia até mesmo pelo nariz. Ah, talvez isso fosse bom, enganaria o seu estômago e teu cérebro, fazendo, por fim, com que ele perdesse a fome por um instante. Um banquete de areia? Quê lástima!
O garoto, por um momento, notou que quanto mais corria, mais demorava para que o objeto, que almejava chegar, se aproximasse e ficasse maior. Será que aquilo era de um tamanho colossal que de quilômetros de distância dava para ver apenas o seu vislumbre? E o quê será que era aquela coisa, afinal?
Após algum tempo, o objeto começou a ganhar forma e, a cada passo dado, ia ficando mais nítido. Parecia-se com uma tenda como aquelas que os beduínos armavam nas suas longas jornadas para atravessar o deserto, porém mais simples e semelhante com a Caaba do povo islâmico. Mas, será possível que Snow estivesse na Terra esse tempo todo e tudo o que aconteceu foi uma miragem?
Com muito custo, muito andar, muito suor e energia gastos, acabou chegando às entradas daquele lugar, finalmente. Um sentimento de dever cumprido começou a inundar o seu corpo, pois chegar a este lugar havia se tornado o objetivo principal e, agora, estava lá. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar, apenas sentir o cansaço que já fazia parte de si.
Não tardou muito para que uma dor cruciante* começasse a tomar conta de si. Não conseguia mais manter o foco. Não tinha mais pensar direito. Snow dava comandos para seu corpo e ele negava-o. Todo aquele calor que sentia, acabou transformando-se num frio repentino que atravessava o seu corpo do topo da cabeça às pontas dos dedos dos pés. Não sabia direito o que estava acontecendo com o seu corpo, com sorte, uma síncope dava sinal e, com azar, algo pior estaria acontecendo.
Num piscar de olhos, Snow viu-se caído ao chão, olhando para a entrada daquela tenda enorme que estava em sua frente. Não conseguia se mexer. Sua audição foi diminuindo. Parecia que estava adentrando uma nuvem. Mesmo com sua visão ficando turva, pôde ver que uma figura manchada espreitava sobre o batente do local. Um sentimento de medo era o que sentia naquele momento. Não queria mais saber de estar alí. Talvez estivesse errado de ter ido até lá. O rapaz observou que a figura se aproximava lentamente e, a cada passo dela, seu medo e frio aumentavam gradativamente até que... ao piscar novamente os olhos, o que viu foi um rosto disforme, cara a cara, observando-o, fazendo, então, com que Snow mergulhasse numa escuridão iminente.
*Cruciante: dor horrível causada pela maldição imperdoável Crucios da saga "Harry Potter".
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