Four Sun — Caça aos Quatro Sóis
2 2# - A Caça aos Quatro Sóis
2# — A caça aos Quatro Sóis.
Kin largou a louça que estava lavando para ir atender a porta.
— Oi! — Era Hana. A pequenina estava ali para teletransportar Arashi até o esconderijo de Santsuki, quando ele o localizasse. — Arashi, a Hana chegou! — Avisou, como ele lhe pediu que fizesse.
— Pede pra ela entrar e esperar um pouco, eu já tô acabando aqui. — Ele se trancafiou nos fundos da casa assim que chegou da reunião com Azin e não saiu mais de lá, trabalhava em se inteirar do paradeiro de Santsuki através do par de algemas que o alvo estava usando com um outro par que o seu sogro lhe deu.
— Entra. — A convidou, o que não fez antes porque pensou que ele sairia quando anunciasse a chegada dela.
— Obrigada. — Procurou, primeiro, pela neném, adorava crianças. Não a achando na sala, perguntou: — Cadê a bebê?
— No quarto, com a Kyoko. Ela vai me ajudar a cuidar da Saori enquanto o Arashi estiver fora. — Enxugou o copo com um pano de prato. — E a Naomi e a Yue?
— Estão treinando pra prova de amanhã. — Sentou no braço do sofá.
— O gabarito já saiu?
Hana respondeu que sim, com a cabeça.
— O pessoal que conseguiu as melhores notas já foi chamado pra realizar o teste físico, elas vão lá amanhã.
— Caramba, melhores notas? Quando eu fiz, passei por pouco. — Pensou, frustrada. — Eu não esperava menos das duas. Quer beber alguma coisa?
— Não, não, obrigada.
— Gente... — Kyoko vinha do quarto com a neném nos braços. — Olhem só quem acabou de acordar.
As duas foram correndo enchê-la de mimos, carinhos e de muito amor. Lá nos fundos da casa, enquanto isso, o guerreiro glacial acabava de cumprir a promessa que fez ao líder da Terra de Áries: descobriu o local em que Santsuki vinha se mantendo abrigado todo esse tempo.
— Peguei você, desgraçado. Considere-se morto. — Festejou, solitário. O que tinha em mãos era um bracelete do mesmo modelo que prendia os pulsos do homem que matou os seus pais e ameaçou a sua filha, tudo o que precisou fazer foi analisá-lo e, com base nele, descobrir uma forma de rastrear outras algemas. Agora, encontrá-lo seria ridiculamente fácil. — Centro da Via Láctea? Esse cara é mesmo um louco de pedra. — Guardou a pulseira no bolso e voltou para a sala. — Hana, acabei aqui, podemos ir...
Elas não ouviram nada do que ele disse, nem perceberam que estava ali, aparentemente brincar com a Saori era mais interessante do que exterminar a mais terrível e resistente praga que a Terra de Áries já conheceu.
— Você é uma gracinha! Você é!!! — Kin amava o sorrisinho dela.
— Owwn, que linda! Olha esses pezinhos! — Em Yokkaichi, o nascimento de uma criança era um fenômeno raro, Hana, pessoalmente, nunca tinha visto um bebê.
— Tá bom, tá bom, agora vou dar um banho nela. — Kyoko ficou como a babá. Tinha experiência no serviço, era amiga deles e precisava do dinheiro, tudo isso fazia dela a candidata perfeita para o cargo.
— Eu vou com você. — Kin era inexperiente, mas como se tratava de sua filha, queria aprender a cuidar dela. — Oh, Arashi, você já voltou...
— Hum, até que não demorou muito dessa vez... — Levantou-se do sofá. Quando Kin começava a brincar com Saori ninguém conseguia separá-las, ela se desligava de todo o resto no mundo, parecia que só existiam as duas. — Eu acabei, consegui achá-lo. Vamos indo? É melhor acabarmos com isso o quanto antes.
— Vamos, vamos, sim. Vou precisar que me diga onde é, mais ou menos.
— Digita... "Centro da Via Láctea". — Pediu, deixando-as de queixo caído.
— É... não sei porque fiquei surpresa. — Kin lembrou de quem ele estava falando.
— Certo. — Digitou. — Vamos lá pra fora, aqui dentro pode não funcionar por causa dos eletrodomésticos.
Os dois foram na frente, Hana voou até o meio da rua e quando chegou lá, tentou fazer o aparato funcionar. Mas, como previu, o sistema de fios ao redor provocou uma séria interferência nele, atrasando o processo.
A demora deu a Arashi a oportunidade que ele queria de se despedir da Kin e da Saori.
— Uma pena não termos nos casado hoje. — Beijou a testa dela. — Mas ele nunca mais atrapalhará nossas vidas.
— Eu me caso com você quando você quiser... — Ela o agarrou e beijou como se fosse a última vez que fazia aquilo, e quando terminou, implorou: — Vê se toma cuidado. Ouviu?
— Uhum. — Deu um último selinho nela. — Prometo que volto pra você. — Olhou pra bebê nos braços dela, deu um beijo no rostinho da pequena e se corrigiu: — Pra vocês.
— Isso! — Hana finalmente fez o teletransportador pegar. — Vamos logo! Se der pane de novo, não sei quando volta ao normal.
— Tá! — Correu para perto dela. — Eu não demoro. — Foi a última coisa que disse a elas antes de sumir.
Kin não via aquilo com bons olhos. Ela não sabia qual lado estava falando mais alto, se era o pessimista, o esposa preocupada ou se aquele temor era o fruto de uma conclusão racional, mas não via como aquilo terminaria bem para o amor da sua vida. Talvez fosse porque ele estava indo atrás do homem que a perseguiu até nos sonhos e habitou seus pesadelos, porque ninguém, em toda a história, tinha conseguido fazer o que Arashi saiu prometendo fazer.
Nunca torceu tanto para estar errada quanto agora, mas como seu noivo costumava dizer, a intuição de um retalhador não era algo a ser ignorado.
...
Santsuki ajeitou as pernas e abraçou os joelhos. Ele estava sentado bem na ponta de um grande asteroide, flutuando pelo espaço sideral, mas ficou por tanto tempo na antiga posição que seus pés começaram a ficar dormentes. Ser humano é um saco, pensou, encarando as estrelas como um menino curioso. Tudo machuca, tudo incomoda. São irritantemente frágeis.
Quase um quilômetro atrás dele havia um pequeno conjunto de cabanas, seu mais novo companheiro de viagem estava lhe fazendo o favor de acabar com a população que o habitava para poder ocupá-lo, de onde se sentou podia ouvir o som dos corpos se partindo e dos gritos por misericórdia.
Sua mente fez uma longa viagem para o passado e por lá se perdeu, seu coração e seus devaneios retornaram para o que ele chamava de bons e velhos tempos, tempos que iria viver de novo porque ele próprio faria voltarem. Tinha tudo o que precisava para isso.
— Pronto. Não sobrou mais ninguém. — Hiroshi voltou para avisar que o massacre estava finalizado, que os acampamentos estavam vagos. Santsuki se virou para olhá-lo. — Só falta nos livrarmos dos cadáveres... não vai ser nada legal dormir no meio de todos aqueles corpos e do mar de sangue.
— Deixe que eu me livro deles... — Saiu do chão, apalpou o terno para repelir a poeira e disse: — Vá descansar, você está ofegante.
Antes que ele fosse, Hiroshi queria lhe fazer uma pergunta:
— Por que não se livra dessas algemas? Eu posso fazer isso por você num segundo.
Santsuki sorriu e respondeu:
— Aí não seria divertido.
— Diversão? É disso que está atrás, numa hora crítica dessas? Você tem inimigos por toda a galáxia e está totalmente vulnerável. Se te encontrarem agora, você estará acabado.
— Eu sei. Não é fantástico?
— F... Fantástico?
— Quando se é poderoso como eu, caro Hiroishi, a vida fica chata. Todos o temem, só os idiotas te enfrentam. Eu senti falta dessa sensação... essa de saber que tem, por aí, alguém capaz de me matar. É isso que dá sentido à vida dos retalhadores, isso o impulsiona a se superar, sem isso nós paramos. A auto superação é nosso instinto primordial.
— Se é assim, então pra que serve o poder?
— Para alimentar o nosso ego. Somos escravos da nossa vaidade. Eu luto pela minha liberdade, mas uma libertação digna, uma que só a morte em uma grande batalha poderá me dar. E você?
— Bom... eu... — Ficou sem saber como responder.
Santsuki já esperava por isso.
— Descanse. Não sabemos quando iremos precisar dos seus poderes... — Aconselhou-o.
— Eu, no seu lugar, não me preocuparia com isso. — A espada de Arashi já estava no pescoço de Santsuki, mas só porque era tarde demais para ele se salvar, não significava que era para Hiroishi agir em seu favor.
Arashi levou um soco na cara, recuou e procurou assustado o responsável pelo golpe. Se manteve alerta. Segundo os seus olhos, Santsuki e ele estavam sozinhos ali, mas não confiar cegamente nas aparências é uma das primeiras coisas que um retalhador aprende na prática. Ia ser socado no rosto outra vez, mas endureceu toda a pele do corpo cobrindo-o de gelo e, agora, quem saiu na pior foi o inimigo, que cortou a mão nos espinhos e se materializou.
— Impressionante a rapidez com a qual me achou.. — Afirmou Santsuki. — Sabia que conseguiriam, cedo ou tarde. Mas não tão cedo.
— Por isso tratou de arrumar um guarda-costas... — Arashi sentiu sangue descer do nariz e o enxugou com a mão. — Ele pode ficar invisível? Não, não é isso, no último ataque eu pude ver o punho dele. Intangibilidade? Que seja. De qualquer maneira, enquanto a minha armadura estiver ativada, ele não poderá me ferir.
— Eu conheci o Hiroishi há um tempo, achei que vocês se dariam bem e o trouxe comigo. Se bem que eu estava apostando que a Kin viria.
— Que pena. Vai ter que se contentar em morrer pelas minhas mãos, Kin não tem porquê sujar as dela com lixos do tipo de vocês dois... — Retrucou, duplicando a espessura da armadura e a enchendo de espinhos, até gastar todos disparando-os indiscriminadamente contra eles.
Hiroishi tocou o ombro do Santsuki e, ao ficar intangível, imunizou-o aos ataques físicos de Arashi também. Voltou à forma física, surgiu atrás do ariano e desferiu uma série poderosas espadadas na nuca dele sem, no entanto, obter os resultados esperados, o guerreiro glacial girou e o chutou com força.
— Fique no chão. — Fincou uma estaca de gelo perto do rosto dele. — E me diga onde Santsuki está.
Hiroishi se fez intangível novamente.
— Ótimo. — Disse. — Eu não te acerto e você não me acerta. Vamos ficar empatados.
Arashi transformou a arena em uma pista de gelo, fechou-a num globo e replicou:
— Isso só vai acabar com um de vocês dois mortos. Se insistir em servir de guarda costas para ele, terei que te matar também.
Das paredes, do teto e do piso do globo saltaram estacas.
— Desgraçado... — Estava encurralado.
— Uma hora terá que aparecer. Entregue-o agora e eu deixo você viver. — Os tiros só não lhe faziam mal porque estava debaixo da defesa corpórea de gelo.
A arena, as cabanas, tudo virou pó, as únicas coisas de pé lá dentro eram as feitas de gelo e as estacas afiadas que não paravam de voar, todas prontas para encher de furos o que quer que ficasse em seu caminho sem uma defesa potente.
— Você evoluiu bastante desde o nosso último encontro, Arashi. — O que Santsuki fez foi admitir o inquestionável. — Se por um lado o amor enfraquece um homem, por outro o fortalece. Cesse os disparos, eu quero falar com você.
— É, mas eu não quero conversar, não vim para isso. Com você, não tem conversa. — Triplicou a quantia de lâminas, intensificou a velocidade dos tiros e continuou: — Apareça para eu te fazer em pedaços, seu covarde miserável... ter respirado o mesmo ar que a minha filha foi sua maior estupidez.
Uma luz muito forte se expandiu pelo espaço, seguida de uma explosão e de uma onda de energia elétrica tão forte que derreteu todo o globo em que o guerreiro glacial se trancou com eles. Graças ao par de asas que fez submergir das costas momentos antes, Arashi se manteve suspenso no ar, procurando o detentor de todo aquele poder.
— Eu não queria apelar, e nem achei que precisaria.. — Santsuki se livrou das algemas. Ele e Hiroishi restaram intactos. — Quero que me escute, agora.
— Podia ter se livrado delas, mas não queria... — Arashi ficou sem chão.
— Depois falamos sobre isso. — Desconversou. — Por hora, nós três não somos inimigos. Tem um cara-
— Eu sempre soube que esse dia chegaria.. — Arashi o interrompeu. — O dia em que nos uniríamos contra um oponente em comum. Certo, prossiga.
— O nome dele é Toshinari, é um garoto, deve ser... três anos mais velho do que você. — Ao mesmo tempo em que gostava da ideia de saber que havia, por aí, um retalhador superior, Santsuki se irava por saber que, como disse no início, ele não passava de um garoto. — Há um tempo, antes da divisão da Via láctea, ele e Kaira lutaram. Obviamente o Kaira venceu, disse pra todo mundo que o matou, mas descobri que ele está vivo e vindo pra cá, se não já chegou.
— Tá legal, você já se livrou das algemas, por que está com medo?
— Porque dizem que ele chegou bem perto de derrotar o Kaira, e se isso for verdade, sozinho, eu não tenho a mínima chance contra ele.
— Ele tem alguma coisa contra todos nós ou só contra você?
— É, ele está a procura dos quatro sóis... — Assim ficaram conhecidos Haru, Kin, Azin e Hanzuki, devido ao poder de suas essências.
Uma veia de preocupação saltou na testa de Arashi. Mal safaram a Terra de um problema e mais um vinha por aí, aquele mundo era um imã de ataques e desastres.
— Por quê?
— Não sei de mais detalhes, eu só ouvi isso. Mas sei onde ele está.
— Certo. — Não via outra saída além de: — Vamos atrás dele... cá entre nós: você e eu sempre seremos inimigos. Não te aconselho a confiar em mim. — Achou bom deixar avisado.
Toshinari era um garoto loiro de pele bem clara. Por ser muito alto, era o que as pessoas costumavam chamar de desengonçado, por ser magro, não era muito intimidador. Ele adorava música, gostava de dançar e de compor. Tinha a descrição de um adolescente comum mas quem o conhecia não diria que ele era, sua sede por poder, sua paixão por lutas, infelizmente superava todas as outras.
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