Four Sun — 24 horas

1 1# - 24 Horas.


1#- 24 horas.

Plantaram uma bomba na Nação de Áries. Para não generalizar o caos, o líder de lá pediu sigilo aos que sabiam e deu aos seus agentes um prazo de 24 horas, se eles não conseguissem encontrá-la dentro desse tempo, o lugar seria evacuado.

O problema é que o responsável pelo caos proibiu qualquer um de ir um só milímetro além das fronteiras e razões para temer as ameaças dele existiam aos montes. Haru, Kin, Arashi, Yue, Naomi e Sora formaram duplas para localizá-la, a única pista que tinham dizia que obteriam progresso procurando num lugar com livros.

Sora e Yue entraram numa escola, mas estavam em horário de aula, se não queriam levantar suspeitas precisavam ser cuidadosos, só a diretoria sabia que ambos eram retalhadores, mas não tinha ideia da verdadeira razão de sua visita.

— Eu tinha uma ideia um pouco diferente das escolas de humanos. — Yue pôs a orelha no armário ao lado. — É tudo tão... agitado e colorido.

— É sério que você nunca esteve numa escola de humanos? — Sora era mais indelicado e não estava nem aí para a sutileza, ele arrebentava as portas dos armários com um murro para então olhar dentro. — São muito mais divertidas que as nossas.

Batizados oficialmente de "Centro Educacional Ousia", os colégios nos quais o asiático festeiro e a pequena Yue se formaram eram, de fato, bem diferentes dos outros. Mais rígidos, sem festas e sem gente vagando pelo corredor, mas o que os distinguia mesmo era ensinarem os alunos a lutar com espadas e usar a força sobre-humana da qual nasciam dotados.

A cerimônia de encerramento incluía tatuar o braço dos formandos.

— Parece que nem pra todo mundo. — Yue apontou para um garoto que estava sendo ameaçado por outro muito maior.

Ninguém descreveria Sora como um indivíduo altruísta, mas ele odiava a covardia.

— Ei. — Assoviou, aproximando-se dos dois. — Ô, idiota!

O grandalhão olhou em volta.

— Falou comigo? — Perguntou o valentão, sem soltar a gola da camisa do rapaz que importunava.

— Acertou em cheio. Quer saber? Meus parabéns, você não é tão idiota quanto eu pensei. — Continuou se aproximando. — Larga o garoto.

— E se eu não largar?

A indiferença dos que estavam em volta acabou. O valentão, a vítima e o herói tornaram-se o centro das atenções.

Sora lançou as mãos na jaqueta preta de motoqueiro da qual nunca abria mão quando tinha que sair, andou três passos na direção dos dois e retrucou:

— Vou limpar esse chão com essa sua cara de palhaço.

Os estudantes ao redor reagiram com urros e pediram a briga em coro.

— Sora, pega leve! — Yue sussurrou para ele. Sora tinha super audição, a ouviria mesmo que do outro lado da Terra.

Quem definisse os retalhadores como seres humanos melhorados não iria estar totalmente errado, mas eles eram mais que isso, tinham algo a mais, uma razão para o nome que lhes foi dado: a essência. Se despertada, o dono exibia poderes inacessíveis a qualquer outro.

— Tarde demais. — Notou, ao ver seu oponente soltar a vítima dele e ir na sua direção. Jogou os cabelos castanhos para trás e sorriu como o corredor que acabava de vencer uma maratona.

— Finge que está apanhando dele, a gente chama um inspetor! — Deu a ideia mesmo sabendo que ele não aceitaria, estava falando com um cara que abriu a própria academia e que a fechou para malhar sozinho.

Sora segurou com uma mão o primeiro soco do inimigo. Venceria aquela briga mesmo se não fosse naturalmente superior.

— Na frente de toda essa gente? Você me conhece. — O ser de essência retrucou no mesmo tom de sussurro, depois derrubou seu atacante com um só soco na barriga, se agachou próximo dele e disse: — Vou voltar aqui amanhã, depois e depois. Eu não quero mais te ver perto desse garoto, porque se isso acontecer você vai apanhar tanto que... Bem, não consegui bolar nenhuma ameaça engraçada, mas você entendeu.

Em seguida, com certa pressa, esticou a camisa com dois dedos e afastou-se radiante dos estudantes que comemoravam, entusiasmados, sua vitória. Com uma cara de quem lhe daria uma tremenda bronca, Yue vinha logo atrás.

— Belo espetáculo! — Apertou o braço dele com força. — Se alguém aqui ficar sabendo o que nós somos, eu vou encher a sua cara de soco! Depois vou contar pra Kin e ela vai encher sua cara de soco!

— Ninguém vai saber, relaxa, eu nem fiz nada de tão incrível assim... Eles são uns idiotas.

— Pro seu bem, é bom que isso valha pra todos!

No geral, Yue era uma garota dócil, só o Sora conseguia tirá-la do sério. Seu passatempo predileto era escolher modelos novos de óculos, cores para tingir os cabelos — sempre optando pelo estilo mais exótico, recentemente misturou o rosa com o azul bebê — e penteados que combinavam com seu rosto branco, jovem e oval.

Pequena e aparentando delicadeza, o castanho de seus olhos perdia o brilho natural quando ela entrava em ação, mas achava que lutar era a sua obrigação, que seria egoísmo cruzar os braços e olhar enquanto seus amigos davam tudo de si para proteger o país.
...

Arashi estava se sentindo frustrado. Faltavam doze horas para terminar o prazo dado pelo presidente e ele e Kin não haviam conseguido achar nenhuma pista nova. Os dois foram para a biblioteca municipal que, como o esperado, se encontrava vazia. Lá, pediram a permissão da gerente e começaram a revistar tudo.

Irritado, o moreno puxou uma cadeira, se sentou e suspirou. Passou a mão por entre os cabelos negros e espetados, retirando-os do rosto. Pensar que o homem que matou seus pais estava solto por aí, ameaçando destruir o seu lar mais uma vez, alimentaria uma sensação de impotência em qualquer um, mas nele, um retalhador bem-sucedido, era muito pior.

Mudava toda vez que pensava naquele assassino, ficava obcecado.

Kin desceu para checar o porão. A loira estilosa também sofrera bastante nas mãos do causador de toda essa situação, o odiava com todas as forças e desejava, mais do que tudo, ficar frente a frente com ele. Tinha certeza de que hoje poderia vencê-lo, mas queria fazê-lo por seus amigos. Pelo Arashi.

— Nada lá em baixo?

Enquanto caminhava entre as grandes estantes cheias de livros dos mais variados gêneros, ela balançou a cabeça em resposta a pergunta dele. A luz do dia atravessou o espaço dado pela janela e destacou o castanho de seus olhos, normalmente tão escuros que as pessoas confundiam com preto.

Seu rosto alvo e impaciente denotava decepção.

— Nada. — Puxou a cadeira disponível e sentou-se com ele. Os cabelos enrolados, cuidados com todo o carinho e orgulho, jogou para trás. Kin não era o tipo de garota que usava vestidos e saltos, se dava muito melhor com calças jeans, tênis e camisas simples, mas amava os cabelos que tinha e tratava eles como se fossem ouro.

— Nada aqui em cima também. — Já imaginava que ela soubesse disso, mas falou. — E faltam menos de doze horas para o prazo acabar.

— Não se preocupe. — Pegou na mão dele. — Se não conseguirmos achá-la, o presidente vai ordenar evacuação. Ninguém morrerá.

— Mas muita gente vai ficar desabrigada. — Levantou, vislumbrou a cidade através da janela e pensou que em dois dias tudo aquilo viraria pó. — E lembre-se que o desgraçado disse para ninguém deixar a nação.

— E o que ele vai poder fazer? Se tentar alguma coisa pessoalmente, nós o derrotamos. — Deitou o queixo no ombro dele.

— Não sei se existe nesse mundo alguém capaz disso.

— Existe. E você está falando com ela. — Kin estava segura de si.

Já haviam tido aquela conversa. Ele não gostava de falar com Kin sobre o seu passado porque sempre que o fazia, ela jurava vingá-lo, parecia até uma criança sem noção do perigo, o irritava. Era a melhor amiga que tinha, parte do pouco que restou, perdê-la também estava fora de cogitação.

— Já falamos sobre isso. Não vai lutar com ele sozinha.

— É, já falamos sobre isso, e eu achei que tínhamos concordado que você não pode me dizer o que fazer.

— Faço dupla com você na equipe de elite! Se quiser lutar com ele, terá que me levar junto!

— Isso está fora de questão!

— Não, o que está fora de questão é você combater aquele monstro sem nenhuma ajuda!

A bibliotecária sinalizou para os dois fazerem silêncio.

— Foi mal...! — Kin, sem graça, se desculpou pelos dois.

— Estamos perdendo tempo aqui. — Concluiu, saindo apressado após.

Kin o seguiu imediatamente, dando-se conta de que normalmente era ele quem a seguia. Odiava ser a voz da razão naquela dupla, ele era o inteligente, ela, a poderosa, a esquentadinha que não gostava de conversa, que derrubava quem quer que desse trabalho. O sinal mais claro de que a situação se via fora de controle era os papéis se inverterem.

...

Haru conduziu sua moto a uma das muitas vagas do estacionamento, retirou o capacete revelando os cabelos ruivos cacheados dos quais era dono e tentou ser um cavalheiro ajudando Naomi, mas a morena grosseiramente rejeitou sua ajuda.

— Eu posso descer sozinha! — Ela disse, enchendo de raiva o charmoso sotaque francês que tinha. Ajustou a saia preta e a camiseta listrada que veio vestindo e ajeitou os longos cabelos lisos, negros e cumpridos com os quais a natureza lhe presenteou ao nascimento.

— Eu sei, só tentei ser gentil.

— Só que eu não preciso da sua gentileza, ouviu? Nem da de ninguém! — Irritou-se. — O que eu preciso mesmo é encontrar logo essa bomba.

— Você estava presa! Só saiu da cadeia porque o presidente ouviu minha irmã, não sei por que está tão preocupada com a bomba...

— Não sabe porque não prestou atenção no que eu disse, perdeu toda a concentração depois que eu te beijei pra despistar aqueles assassinos!

— Tem razão. Mas se quiser repetir a dose, não vou reclamar...

— Nem sonhando. — Foi andando na frente.

Ele a seguiu. Iam em direção a porta de entrada da sede de uma famosa editora.

— Por que quer tanto rastrear a bomba? É porque não quer morrer, né?

— Não é só por isso. — Virou o rosto. — Aquele infeliz usou o meu poder pra criar essa coisa e isso, eu não posso permitir. Vou recuperar essa bomba e enfiar ela na bunda dele! Agora, deixa de ser lerdo porque não temos mais que dez horas para encontrá-la. — Foi adiante, impaciente demais para esperá-lo.

O ruivo, que ficou para trás, disse sozinho:

— Se eu sou lerdo, você é boca suja. — Viu como era boba a resposta que teria dado, agradeceu por ter ficado quieto e prosseguiu.

Os dois falaram com os seguranças, mostraram as credenciais e, com a permissão do dono, entraram na empresa para investigar.

Como a bomba havia sido feita com a energia de Naomi, ela acreditava que seria capaz de senti-la quando próxima, mas a guarda os levou onde pediram e, mesmo assim, saíram de lá com as mãos abanando.

— Se virmos alguma coisa ou alguém suspeitos, avisaremos a vocês por telefone. — Os mesmos homens que os receberam na entrada os levaram de volta ao estacionamento.

— Obrigado. — Só Haru se despediu dos rapazes. — E agora?

— Quem tem que saber disso é você. — Cruzou os braços, dirigindo-se ao lugar onde o seu par deixou o veículo. — O que a loira aguada da sua irmã disse para fazermos?

Haru encolheu a manga da jaqueta jeans e checou a hora em seu relógio de pulso.

— Bom... todos combinamos de nos reencontrar na Praça das Vinte Luzes às dezesseis, e são exatamente dezesseis da tarde.

— Perdemos quatro horas lá dentro? Vamos. — Pôs o capacete na cabeça e sentou na garupa.

Ele não saiu do lugar.

— Que foi? Por que tá me olhando com essa cara de besta?

— Posso confiar em você?

— O que é que você quer que eu diga? Se não acredita em mim, dizer "sim" não irá mudar nada!

— Quero que responda com sinceridade. — Seus olhos castanhos claro se harmonizaram com os dela, ele avançou um passo, forçou um semblante sério e perguntou novamente: — Eu posso confiar em você?

Contrariada, Naomi revirou os olhos e disse:

— Oui, pode!

Ele montou na moto e vestiu o capacete.

— Ótimo. — Ligou seu meio de transporte favorito. — Seu sotaque é lindo demais pra uma mentirosa.

— Cala a boca e vamos embora daqui de uma vez!

Ele arrancou com a moto na direção da auto estrada e acelerou. Adorava correr, sentir o vento em seus cabelos, a adrenalina, mesmo sabendo que em uma eventual batida não iria se machucar. Adorava aquele carango, foi a única coisa que ganhou de presente de seu pai, última lembrança que tinha dele.

...

Reunidos numa mesa das mesas de pedra da Praça das Vinte Luzes, os seis seguiam debatendo os progressos realizados com sua divisão: nenhum. Arashi coordenava a discussão sentado numa das cadeiras, ao seu lado estavam Kin, Haru e Yue.

De pé, Sora se encostou na viga de pedra, enrolou as longas mangas da camisa bege que usava e cruzou os braços, Naomi ficou mais afastada, mas perto o bastante para escutar tudo.

Todos se sentiam derrotados, perdedores. O semblante dos guerreiros e o clima que imperava eram o de um pesaroso fracasso.

— Que horas são? — Arashi queria saber para dar o veredito da situação.

— Dezenove. Faltam só cinco horas pro nosso prazo acabar... — Haru não disfarçou a decepção.

— Já era, não tem mais jeito. — O dono dessa fala foi Sora, que tentava ver um lado positivo em tudo mas estava desesperançoso dessa vez.

— Sora! — Yue o repreendeu pela insensibilidade.

— Ele tá certo. — Arashi foi forçado a concordar. — Vamos contar para o presidente e nos preparar para lutar com Santsuki.

Aquele pessimismo enfurecia Kin.

— Podemos vencê-lo! — Ninguém além dela cria nisso. — Qual é! Vocês nem parecem os heróis que derrotaram o Kikuchi!

— Até o Kikuchi tinha medo do meu primo. — Amargurado, Sora, com um misto de vergonha e ódio no peito por saber que compartilhava um estreito laço de sangue com o indigente, falou.

— Ah! Qual é! Não acredito que vocês acham que ele será páreo para todos nós! — A loira continuava a protestar. — Vamos lá! Com a minha luz e uma estratégia inteligente, ele vai cair mais rápido do que o Kikuchi...

Yue tentou se convencer de que havia esperança.

— Eu acho que a Kin tem razão! Arashi, você pode pensar em alguma coisa! É o melhor estrategista da nossa nação!

Mas a confiança das duas não o contagiou.

— Eu não posso prometer nada. Aquele cara distorce meu julgamento... — Virou o rosto, fixou os olhos azuis num ponto aleatório e específico da mesa em que apoiava as mãos e foi em frente: Precisamos dar início à evacuação o mais rápido possível.

— Sora, avise ao presidente. — Sora tinha o dom de falar e ser escutado em qualquer canto do planeta Terra, no volume que quisesse. — O restante, vá até às fronteiras e avise aos guardiões. Arashi e eu vamos pro leste.

— Eu vou te esperar, Sora. Nós vamos para o norte. — Haru queria se abrir com seu melhor amigo, fazia um tempo que não saíam juntos. — Eu quero te contar porque a minha tarde não foi uma completa perda de tempo. — Piscou para Naomi. A francesa revirou os olhos e foi para o sul.

— Eu tô saindo, vou pegar o oeste. Não fiquem perdendo tempo aí! — Yue não foi muito com a cara de Naomi, então agradeceu por não ter que ir com ela.

Assim que chegaram na fronteira do norte, Sora e Haru encontraram os guardas mortos, estraçalhados, parecia que um urso os havia atacado.

— Que merda aconteceu aqui? — Sora examinava o corpo mais próximo, imaginando como seria vergonhoso para um retalhador agonizar e morrer naquele lugar, uma estrada de barro negligenciada cercada de árvores velhas. Apesar de todas as provas de lealdade dadas pelos seres de essência, os seres humanos ainda os menosprezavam, inferiorizavam e os viam com desconfiança. Refletir sobre isso, às vezes, fazia Sora pensar se valia a pena lutar por eles.

Nunca confessaria isso pro Haru, muito menos pra Yue, mas já se pegou concordando com Santsuki quando ele dizia que se era guerra que os humanos queriam, era guerra que eles deveriam ter. Que os retalhadores deviam reinar sobre a Terra.

O autor daquele grotesco cenário não era pouca coisa, aqueles homens eram guerreiros de altíssimo nível.

— Não sei exatamente, mas quem quer que tenha feito isso não foi muito longe e não teve muita dificuldade, os corpos estão "frescos".

Uma figura aterradora atravessou os portões. Com seus dois metros de altura e sua grave voz, falou:

— Muito perspicaz da sua parte, ruivinho. Os próximos serão vocês dois.

Eles sorriram. Não entravam numa boa luta há um bom tempo, Haru não parava de dizer que suas habilidades estavam enferrujando, que treinar, muito embora ajudasse, não era tão eficaz quanto viver uma batalha real. O inegável é que ele tinha certa razão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!